Camboja

Angkor, Camboja (Parte 2): Ta Som e a História dos antigos Khmer

Eu tenho uma fascinação por ruínas de civilizações antigas, e poucas ruínas no mundo se comparam em integridade e extensão a estas aqui do Parque Arqueológico de Angkor, da antiga civilização dos Khmer no atual Camboja.

Os Khmer foram uma das maiores civilizações da Ásia medieval. Prosperaram entre os anos 800-1431 d.C., deixaram-nos o fabuloso legado arquitetônico de Angkor ainda visitável nesta região, e em obra nesse período no Oriente talvez somente os chineses lhe façam competição. 

Adentremos.

Templo Ta Som, no Parque Arqueológico de Angkor, Camboja.
Localização do Camboja no mapa mundi, no Sudeste Asiático.

Os Khmer não são um povo que desapareceu, mas os ancestrais dos atuais cambojanos com um nome diferente. A língua que se fala no Camboja atual é o idioma khmer, no alfabeto khmer, que deu origem ao tailandês e outros.

O nome “Camboja” usado nas línguas ocidentais advém do sânscrito Kamboja ou Kambuja, que significa “descendentes de Kambu”. 

Isso se refere à origem mítica deste país, cuja realidade exata não se sabe, de que este povo teria se originado do casamento de um sábio indiano (Svayambhuva Kambu) com uma princesa local. Kambu é mencionado num dos textos Vedas da Índia antiga.

Cambojana que encontrei perto do templo Ta Som com suas crianças. (Depois eu explico o que ela está fazendo.)

Estes simpáticos asiáticos morenos são um povo austronésio, aparentado dos indonésios, malaios, filipinos, e também dos polinésios (maoris, samoanos…). Suas línguas são relacionadas. Os parentes — notem — quase todos habitam arquipélagos, e os cambojanos são dos poucos desta linhagem a estar no continente.

Imagina-se que a partir dos primeiros séculos d.C. eles tenham sido altamente influenciados pela cultura indiana que se difundia Ásia afora. Se houve mesmo o tal Kambu e o simbólico casamento com a princesa local, não se sabe, mas já no século III d.C. há registros documentais de viajantes chineses que aqui vieram e observaram cidades-estado hinduístas e budistas.

A influência indiana vinha sobretudo por via marítima, com o comércio. Aqui se encontraram dessa época até itens do império romano vindos com as navegações comerciais antigas. (Pouco ouvimos falar dessas navegações, mas os romanos navegaram à Índia e à Ásia muito antes da era dos Grandes Descobrimentos. Só que não circumnavegaram a África — zarpavam dos seus domínios no Oriente Próximo). 

De 611 d.C. se tem o registro escrito mais antigo do alfabeto khmer, adaptado de línguas do sul da Índia.

O alfabeto khmer é assim, gente. Escreve-se da esquerda para a direita, com 33 letras, e a curiosidade de que numa frase não se dá espaço entre as palavras. Imaginaaíquelegaldeveserlernesseidioma.
Aos curiosos pela geografia, esta foi a expansão de influências da Índia pelo Sudeste Asiático nos idos da Antiguidade e Idade Média. Notem Angkor e o Camboja ali, e como as influências vieram sobretudo por mar e muito do sul da Índia, com suas particularidades culturais.

Em 802 d.C., o rei Jayavarman II une as várias cidades-estado sob seu poder e se declara o “rei dos reis” (chakravartin). Era o início do Império Khmer, uma força centralizada que floresceria pelos 600 anos seguintes.

Figura hindu-budista em baixo relevo no templo Ta Som, do século XII.

Estávamos aqui numa civilização hinduísta, com seguidores do budismo aqui e ali, onde o rei era considerado uma figura divina na terra (devaraja), um pouco como os faraós.

Esses monarcas khmer expandiram trabalhos de irrigação de arroz, construíram grandes templos, e estenderam seus domínios do sul da Tailândia às fronteiras com a China no norte. Dominaram quase todo o Sudeste Asiático continental.

Há relatos interessantíssimos do viajante diplomático chinês Zhou Daguan, que aqui esteve em 1296, já após a edificação destas obras do Parque Arqueológico de Angkor e de séculos de prosperidade khmer. Traduzi do inglês algumas de suas colocações, como relatadas por historiadores. Leiam este relato do século XIII:

Quando o rei sai, tropas vão à frente da escolta; depois vêm bandeiras, estandartes e música. As mulheres do palácio, em número de 300 a 500, vestidas em trajes floridos, com flores no cabelo, vêm segurando velas nas mãos, e formam um grupo. Velas são acesas mesmo em plena luz do dia. Depois vêm mulheres trazendo a parafernália real em ouro e prata… e, então, mulheres portanto lanças e escudos, com a guarda pessoal do rei. 

Carruagens trazidas por bodes e cavalos, todos adornados em ouro, vêm depois. Ministros e príncipes vêm montados em elefantes, e à sua frente se podem ver, de longe, incontáveis parassóis vermelhos. Depois deles vêm as esposas e concubinas do rei em palanquins, carruagens, a cavalo ou em elefantes. São mais de cem parassóis adornados com ouro. Atrás deles vem o soberano, de pé sobre um elefante, segurando sua espada sagrada na mão. As presas do elefante são emolduradas em ouro. — Zhou Daguan, 1296 em Angkor.

As mulheres, embora aqui não reinassem, pareciam ter certa participação social importante, como nos nota o mesmo viajante chinês de forma um tanto curiosa.

Todos os que sabem negociar dentre esse povo são mulheres. Então, quando um chinês vai a esse país, a primeira coisa que precisa fazer é arranjar uma mulher, em parte para se beneficiar das suas habilidades como negociante.

No templo Ta Som, que visitei logo na manhã da minha visita (depois dos que mostrei no post anterior), se veem muitas figuras de época esculpidas no século XII, que já estavam aqui quando Zhou Daguan visitou esta terra.

Figura feminina esculpida em baixo-relevo no templo Ta Som, do século XII.
Dançarina enfeitada. Note inclusive o aro na cintura.
Figura de um guardião, também no templo Ta Som.

Os khmer prosperaram por meio milênio (!), até os idos de 1300. No século seguinte ao relato do diplomata chinês, eles no entanto sofreriam um declínio cujas causas são motivos de grande especulação.

Alguns registram que, com a conversão gradual das pessoas ao budismo, a noção hinduísta de devaraja, de rei-divino, perdeu força, e com ela a lealdade à figura imperial. Começou a haver gradual fragmentação política e disputas internas aumentaram. 

Outros falam em colapso ecológico, como pode ter ocorrido aos mayas nas Américas. Desmatando muito das colinas adjacentes aqui de Angkor para expandir cultivos de arroz, os khmer teriam acabado por comprometer seu suprimento de água e, consequentemente, sua própria agricultura para alimentar uma população crescente. 

Se essas fragilidades internas realmente se deram, não se sabe ao certo, mas a esta altura de 1300 havia importantes perturbações externas. Os mongóis — que a essa altura já haviam conquistado a China — ameaçavam os khmer do norte. Os khmer começaram a lhes pagar tributos para evitar uma guerra. E, mais importante, o reino tailandês de Ayutthaya aqui ao lado começava a prosperar e lhe fazer competição.  

Caminhar por estas pedras de manhã era uma viagem no tempo. Com o parque arqueológico ainda quieto de turistas, vim ao templo Ta Som após ter visitado o Preah Khan e o Neak Pean. Trata-se de um templo budista, também erigido sob ordens de Jayavarman VII, o rei que conhecemos no post anterior, e cujo reinado é considerado o esplendor maior do período khmer.

São muitas as ilustrações esculpidas aqui, figuretes de época que misturam gente real e seres mitológicos.

A vetusta calçada de pedras de acesso ao Ta Som. Mais antiga que as árvores ao redor.
O templo Ta Som ainda vazio e quieto nesta manhã. Foi erigido pelo budista Jayavarman VII (1122-1218) em homenagem ao seu finado pai, o rei Dharanindravarman II.
Esculturas no seu interior.
Note os detalhes das figuras que incluem (1) Nagas, as serpentes mitológicas de muitas cabeças, figuras guardiãs e não maléficas no budismo e hinduísmo; (2) Bodhisattvas, ou figuras de iluminados em meditação; e (3) Dançarinas, que são as apsaras, como que ninfas celestiais na mitologia hindu e budista, figuras que dançarinas terrenas de carne e osso imitam na dança apsara (típica, e que mostrei num post anterior quando tratei de Siem Reap).
Ali com um desses painés do Ta Som sob o sol matinal.

Os tailandeses de Ayutthaya (hoje uma cidade histórica ao norte de Bangkok) viriam a sitiar e tomar este centro civilizacional de Angkor no fim do século XIV, pondo fim à proeminência khmer no Sudeste Asiático continental. 

Um pouco, no entanto, como as antigas Grécia e Roma, a conquista militar às vezes segue o caminho inverno da influência cultural. (Roma tendo conquistado militarmente a Grécia, mas sendo conquistada pela cultura grega.) Aqui, o alfabeto khmer daria origem ao alfabeto tailandês, ambos usados até hoje.

O fim do império khmer é marcado na historiografia como 1431, quando diante de uma Angkor indefensável, os líderes khmer remanescentes transferem seu centro político para o sul, para a área da atual capital cambojana Phnom Penh. Dela falaremos posteriormente. 

Esses khmer pós-império se veriam espremidos entre uma Tailândia assertiva (à época ainda chamada Siam) e um Vietnã em expansão do outro lado. Assim passaram os séculos seguintes, de 1431 a 1863, quando o fraco rei khmer pediu proteção aos franceses para não deixar que seus vizinhos o ocupassem. Oh-oh

Ainda vem muito mais por aí. O legado do Camboja é grande, ainda que no Ocidente só ouçamos falar dele quando é pra tratar de miséria ou dos filhos adotados da Angelina Jolie. Vocês verão.  

Ta Som, no Parque Arqueológico Angkor.
Ah! O fruto local que a moça descascou para mim resulta neste miolo — branco, gelatinoso e levemente doce. Quase o que seria uma gelatina de água de coco.
Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

2 Replies to “Angkor, Camboja (Parte 2): Ta Som e a História dos antigos Khmer

  1. Meu jovem que maravilha. Essa foto de abertura, com as pedras esverdeadas, o portal antigo e a vegetação de um verde magistral, parece um filme de época e que a cada instante irão surgir os moradores daquelas paragens de etéreos tempos. Uma lindeza. Surreal.
    Belíssima combinação de pedras e áreas verdejantes naturais. O bucolismo é um dos pontos altos do parque. Impar. Adorei a suavidade do verde da vegetação. Lindo. Aqui no Brasil e no NE chamaríamos verde-cana, Lindo. E a densidade arbórea também muito interessante.
    Meu jovem amigo essas construções, esse conjunto arquitetônico, todo esse complexo cultural e sócio-religioso é de encher os olhos. Magnifico. Um achado.
    Esses altos e baixo relevos, essa forma bonita e artística de contar historia e registrar normas, costumes e lendas, a emoção de ver uma estrada tao antiga e saber que a despeito dos séculos, ela ainda esta ali para contar a história, atestar a beleza e a grandeza desse povo, hoje pouco conhecido e simpático, com um biofísico bonito, e de hábitos de vida simples, nos deixam encantados.
    Muito bonita a região. Encantei-me por ela. Amo cada dia mais a Ásia , sua cultura, sua geografia, seu povo, sua história, sua mundividência. Espetaculares. Amei

  2. E que estranho esse alfabeto. Não dá para entender nada. hahaha Engraçadas essas linguagens e escritas.
    Esqueci-me de comentar que achei curiosa e bonita a disposição uniforme das portas o que dá a quem olha, a profundidade dos templos. Originalidade e beleza.
    Essa fruta após tirada a polpa como esta que o senhor tem na mão, se parece com com uma fruta muito comum no NE do Brasil, principalmente em Sergipe, a Pitomba. Tem sabor levemente adocicado e sua casca avermelhada é fácil de partir com a mão. Muito saborosa e apreciada.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *