Camboja

Angkor, Camboja (Parte 6): O Angkor Wat ao pôr do sol

O Angkor Wat, ou “Cidade dos Templos”, erigido no século XII, foi o maior templo hindu do mundo.

“Foi” não porque depois tenham feito outro maior que ele, mas porque ele deixou de ser hindu.

O Angkor Wat originalmente se chamava Barom Vishnulok, ou Morada Sagrada de Vishnu, um dos três principais deuses hindus, aquele vinculado à manutenção da harmonia do mundo e que os hindus creem ter encarnado sobre a Terra na figura de Krishna.

A partir do século XIII, o espaço foi convertido em templo budista conforme esta religião ganhava mais e mais predominância entre os khmer, gradualmente substituindo o hinduísmo no Camboja. A obra segue sendo, de qualquer maneira, a maior edificação religiosa de todo o mundo, dentre todas as religiões. 

Calma que estamos no caminho. Vamos chegando.
Não é todo dia que seu tuk-tuk se depara com elefantes no tráfego.
A coisada quando nos aproximamos de Angkor Wat. Você já começa a vê-lo lá ao longe.

Não se engane achando que são apenas estrangeiros que vêm aqui a este sítio. Sendo o mais famoso templo de todo o Parque Arqueológico de Angkor, não faltam cambojanos também vindo a fim de vender algo ou como turistas mesmo. (Eles entram de graça.)

Ao longe você já começa a perceber todo o esplendor da obra. Dizem que, em meados do século XIX, foi a visão do Angkor Wat que fez os franceses baterem o martelo que anexariam o Camboja como protetorado. Fizeram-no em 1867, já tendo dominado o Vietnã algumas décadas antes para formar o que ficou conhecido como Indochina. O Reino de Siam (Tailândia), que havia conquistado estas terras dos Khmer e as dominado desde o século XV, foi rechaçado.

O Angkor Wat veio a se tornar orgulho nacional cambojano, e não é à toa que figura na bandeira do país. É há décadas reconhecido pela UNESCO como Patrimônio Mundial da Humanidade.

A bandeira do Camboja com o Angkor Wat em destaque. O país viria a ficar independente da França em 1953.
O Angkor Wat no entardecer à distância, com seu reflexo num dos espelhos d’água.

Só quando chega perto é que você percebe o quanto ele é grande. Não ache que é só contemplar de longe, tirar uma foto, e acabou. Reserve um certo tempo para entrar e se perder lá dentro. Se quiser fazê-lo com certa tranquilidade, eu diria para programar ao menos 1h de visita a ele.

Vamos entrar.

Esta é a parte mais externa do Angkor Wat, com os espelhos d’água, a passarela de pedra no meio, e o muro exterior lá adiante.
Monges tirando fotos. Há várias esculturas típicas, como essa mitológica serpente naga, de múltiplas cabeças, uma figura guardiã que na crença budista teria se manifestado para proteger Buda quando demônios tentavam perturbar sua meditação.
Adentrando os muros exteriores, temos toda esta área com palmeiras e a vista para o templo.
Aproximando-nos… 

… e aqui eu preciso corrigir um equívoco comum de percepção.

Se você acha, como eu por anos achei, que se tratam de três torres, saiba que está enganado. Não é exatamente uma ilusão de ótica, mas que o ângulo frontal não permite ver que se são na verdade cinco torres: uma central rodeada por outras quatro.

Esse arranjo formalmente se chama quincunce (parabéns a nós que aprendemos uma palavra nova). É como os cinco pontos na face de um dado ou de uma peça de dominó: um quadrado e um quinto ponto no centro. 

Deste ângulo se nota melhor que são cinco torres, uma no meio e outras quatro ao redor.

O Angkor Wat não é maciço, mas repleto de câmaras no seu interior. Daí esse nome, literalmente “Cidade dos Templos”, pois se viu este complexo como formando toda uma urbe religiosa.

Quando ainda recebia o nome de Barom Vishnulok, ou Morada Sagrada de Vishnu, Angkor Wat funcionava como um templo-maior dos khmer, como parte da sua então capital Yasodharapura. Isso foi sob Suryavarman II, que reinou entre 1113 – 1150 d.C, antes portanto do mais famoso Jayavarman VII construir a nova capital Angkor Thom (mostrada no post anterior) quase um século mais tarde.

Turistas indianos passeando no templo com suas pedras escurecidas por 900 anos de chuvas.
Os detalhes. A obra é toda em arenito e laterita, rochas sedimentares.
Pirâmide escalonada ao lado de uma das torres. As impressionantes estruturas alcançam 65m de altura.
Dentro.

O primeiro ocidental a vir aqui de que se tem notícia foi um português. O frade capuchinho António da Madalena teria chegado aqui em 1586 após viajar três anos por terra desde Goa, no então Estado português da Índia.   

De acordo com o seu contemporâneo, o historiador português Diogo do Couto (1542-1616), António teria comentado:

“É de construção tão extraordinária que não é possível descrever, especialmente já que é como nenhuma outra edificação no mundo. Tem torres e decorações e todos os refinamentos que o gênio humano é capaz de conceber.” — António da Madalena, 1586

Ainda bem que hoje eu tenho câmera para me ajudar, senão teria que suar aqui para explicar — ou jogar a toalha, como fez o frade, e dizer que “não é possível descrever”.

Séculos depois, viriam os franceses aqui ter o mesmo trabalho. o explorador e naturalista francês Henri Mouhot, em 1860, relatou:

“Um destes templos, um rival àquele de Salomão, e erguido por algum antigo Michelangelo, poderia ter um lugar de honra ao lado das nossas nossas edificações mais belas. É maior que qualquer coisa que nos foi deixada por Grécia ou Roma, e apresenta um triste contraste com o estado de barbarismo no qual esta nação mergulhou.” — Henri Mouhot, 1860.

Mouhot podia não ter câmera, mas como bom naturalista ele sabia fazer uns bons rabiscos com o lápis. Vejam abaixo o seu registro do Angkor Wat em 1860. Não mudou muito.

Desenho do Angkor Wat feito em 1860 pelo explorador francês Henri Mouhot.

Ao contrário do que ocorreu à maioria dos templos deste hoje Parque Arqueológico de Angkor, entretanto, o Angkor Wat jamais deixou de ser utilizado, jamais caiu em total estado de abandono consumido pelas árvores.

A partir do século XIII, quando a população foi se tornando cada vez menos hinduísta e mais budista por aqui, ele se transformou de templo a Vishnu num templo budista, como segue sendo até hoje. 

Muitos veem Sidarta Gautama, o Buda histórico, como tendo sido a 9ª encarnação de Vishnu (Krishna teria sido a 8ª), então a transição não deve ter sido lá muito radical.

Ilustrações hindus do século XII talhadas na rocha.
Escritos na língua Khmer (cuja versão moderna, no mesmo alfabeto, é o idioma oficial do Camboja) no interior do Angkor Wat.
Altar budista no interior.

Tal como numa festa, são muitas pessoas para lá e para cá. Alguns se deslocam ao “quintal” do templo, dão a volta na edificação, e outros se perdem pelos seus interiores. 

Atrás do templo ao entardecer.

O Angkor Wat tem uma peculiaridade, que é o fato de ter sido construído voltado para o oeste, não para o leste como de hábito com os templos budistas ou hindus. Ninguém sabe ao certo o porquê disso. 

O resultado prático, porém, é que o pôr do sol portanto se dá de frente para o templo, e não por detrás dele. (Fotógrafos, tomem nota.) O sol nasce detrás do Angkor Wat, como mostrei no post de início deste passeio pelo Parque Arqueológico — se você der a sorte de não pegar o amanhecer nublado. 

Já o pôr do sol, faça-se saber, não é tão pitoresco quanto. É bem bonito, sim, mas se trata mais do raiar daquela luz alaranjada no ar do que realmente ver o sol cair por detrás do templo.

Eu logo saí e fui me juntar aos muitos no espelho d’água para presenciar o evento.

O sol se põe do lado “de lá”, em frente ao templo. (O Angkor Wat estava atrás de mim quando tirei esta foto.)
Você vê o Angkor Wat iluminado com toda a sua gigante imponência em meio às palmeiras e pessoas pequeninas.
Com seu reflexo na água.
De longe, com a simetria por entre os lótus em flor.
Ali, concluindo finalmente o passeio no parque.
Era hora de ir.

Esta epopeica visita ao impressionante Parque Arqueológico de Angkor terminava por aqui. Mas o passeio pelo Camboja, não.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

One Reply to “Angkor, Camboja (Parte 6): O Angkor Wat ao pôr do sol

  1. Ooooohhh. que deslumbre!… parece irreal!… Saído da produção de alguma obra cinematográfica!.. uuuu
    Meu jovem, que espetáculo maravilhoso se apresenta diante dos nossos olhos…. Essa construção de pedras marrons antigas, douradas pelos raios do sol, refletidas nas águas esverdeadas, sob a luz do ocaso, coloridas pelas lindas flores de lotus, é bárbara!…
    Difícil de descrever a emoção que causa a contemplação do conjunto paisagístico que se afigura aos nossos olhos surpresos e admirados… Que esplendor!… Que beleza!… Impressionante a imponência desse templo e seu entorno. Belíssimas as linhas, os tons, o contraste com o verde das palmeiras, da grama, os espelhos d’água e o céu tropical. Divina visão!… Incrível!… Riquíssima postagem.
    Amei o parque, a descrição, as histórias, as fotografias, a beleza do elefante no transito. Uma onnnnnda hahaha. Só na bela Ásia para se ver tantas realidades diferentes e tão interessantes haha
    Não consegui saber qual o mais bonito dessa serie de belezas extremas. Creio que vou ficar com este último, embora preferisse todos haha. É um parque excepcional…
    Muito obrigada jovem viajante. Gostei muito de conhecer essas belezas sequer suspeitadas que existissem, antes dessas viagens do senhor. Beleza. Que venham mais.

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