Camboja

Lugares históricos em Phnom Penh: A Guerra Civil do Camboja e o regime Khmer Vermelho

(Este será um post longo.)

Phnom Penh, a capital cambojana, pode não ser o que normalmente imaginamos como “cidade histórica” — um lugar antigo, com vestígios de séculos atrás, jeito pitoresco de alguma era que já não é mais. Esses vestígios antigos e bonitos os turistas que vêm ao Camboja encontram nos arredores de Siem Reap.

Contudo, esta capital reserva, sim, sítios históricos de grande importância à formação social e política deste país, ainda que seja uma História muito recente, fresca. Afinal, não é todo dia que eu visito um lugar histórico e encontro lá, na loja de souvenirs, alguém que viveu o período, a dar testemunho pessoal e autografar livros que publicou sobre o que viveu.

Chum Mey (n. 1930), autor cambojano, um dos três sobreviventes da prisão Tuol Sleng do regime Khmer Vermelho.

Hora de entender melhor por que é que o Camboja mundialmente evoca tamanha imagem de miséria humana, ainda que não seja só isso que se encontra aqui. Como vim mostrando nos posts anteriores, este país tem uma riqueza histórico-cultural imensa — e linda. Porém, é sua História recente que choca, tamanho o seu drama.

A visita aos sítios-chave do regime Khmer Vermelho (1975-1979), que se seguiu à Guerra Civil Cambojana (1967-1975), está entre o que mais ocupa os visitantes que chegam a Phnom Penh. 

Eu confesso um certo estômago revirado e levantar de sobrancelha quando me dei conta de que o principal passeio turístico feito nesta capital cambojana leva aos chamados “Campos de Matança” (Killing Fields). Oi? Não chega a ser algo sanguinolento como imaginei, mas é arrepiante.

A alcunha não é dada por agências de viagem, mas por um jornalista cambojano que escapou.

Tal como o campo de extermínio de Auschwitz na Polônia, Hiroshima no Japão e outros, não é uma visita alegre que você faz em clima de diversão; é uma visita cívica que você faz em clima de conhecimento histórico para ponderar a necessidade de paz com justiça no mundo. 

Imaginei um campo aberto onde pessoas eram fuziladas, mas não é isso. Os Campos de Matança são vários sítios (escolas públicas, prisões…) onde o brutal regime Khmer Vermelho nos anos 70 aprisionou e executou milhares de pessoas. A alcunha não é dada por agências de viagem, mas por um jornalista cambojano que escapou.

(Dith Pran, este sobrevivente, viveu até 2008. Seu relato informou um artigo de revista em 1980, depois em 1985 o livro Morte e Vida de Dith Pran, do jornalista investigativo e autor estadunidense Sydney Schanberg, e o filme de 1984 que firmou o nome: Killing Fields, lançado em Portugal como Terra Sangrenta e no Brasil como Gritos do Silêncio, vencedor de três Oscar, inclusive o de melhor ator coadjuvante para o cambojano Haing Ngor, que interpretou seu compatriota Dith Pran. Você pode encontrar o filme na Netflix ou até de graça, inteiro em português no YouTube, aqui.)

Antes de mostrar qualquer coisa, permitam-me explicar como se chegou a tal situação.

Sihanouk, o Rei Absolutista

O Camboja era protetorado — leia-se colônia — da França desde 1863, domínio interrompido apenas pela invasão japonesa durante a Segunda Guerra Mundial. Quando em 1945 a guerra termina e os japoneses são expulsos, os franceses retomam o controle desta sua colônia. Como sempre, um rei marionete foi mantido, o Rei Sihanouk (1922-2012).

Não era permitido discordar dele em público, e todos precisavam se prostrar com as cabeças abaixo do nível em que estavam seus majestosos pés.

Os japoneses, contudo, haviam descreditado os franceses aos olhos dos cambojanos, que agora lutavam por independência. A França tentava acalmar os ânimos e, na tentativa de criar uma elite local que viesse a servir aos seus interesses, começou nos anos 1940 e 1950 a enviar jovens cambojanos de famílias de posse para estudar em Paris.

O que os franceses não imaginaram foi que muitos desses jovens lá se embeberiam de ideias revolucionárias em meio ao forte movimento estudantil parisiense do pós-guerra. (Um desses estudantes atendia pelo apelido de Pol Pot, mas a ele voltamos daqui a pouco.)

Não é tanto que esses estudantes cambojanos fossem especialmente atraídos por ideias “de esquerda”, mas sim da própria Revolução Francesa, sobre a qual viriam a ler. A atração pelos comunistas viria a reboque. Menos por filiação ideológica e em muito porque estes eram os únicos franceses que se solidarizavam com o movimento independentista cambojano.  

O Rei Sihanouk nos anos 1950 em seu trono.

Em 1953, a França joga a toalha. Após quase dez anos de lutas, no que foi chamado de a Primeira Guerra da Indochina, o Camboja, o Laos e o Vietnã obtêm independência da França.

Assume agora de fato o poder o Rei Sihanouk, tido como guia da nação. Ele, no entanto, era um líder absolutista nos moldes dos tradicionais reis Khmer da Idade Média. Dizem que, na sua corte, não era permitido discordar dele em público, e todos precisavam se prostrar com as cabeças abaixo do nível em que estavam seus majestosos pés. Ele se sentava numa parte mais elevada do salão.

Como parte do arranjo de independência com a França, o Rei Sihanouk teria de convocar eleições e adotar um parlamento. Ele não queria, então trata ele próprio — o rei — de fundar um partido e perseguir oposicionistas. Nas eleições de 1962, foi o dele o único partido a concorrer e a ganhar todas as vagas.

A perseguição a detratores era brutal, com recompensas a quem trouxesse a cabeça (literalmente) de rebeldes, que cada vez mais tinham que esconder-se nas selvas como guerrilheiros. Dizem que muitos soldados apareciam com a cabeça de um aldeão qualquer para tentar reclamar a recompensa como se fosse a de um rebelde.

Havia tensão no ar, em clima de Guerra Fria.

Chegando a uma Guerra Civil Cambojana (1967-1975)

Quando em 1955 estoura a Guerra do Vietnã — também chamada de Segunda Guerra da Indochina — o Camboja se mantém neutro. O Rei Sihanouk não apoia nem o Vietnã do Norte comunista nem o Vietnã do Sul capitalista. O vizinho Laos, como cheguei a mostrar na minha visita lá, sofreu muito mais com invasões dos Viet Congs comunistas e, sobretudo, bombardeios imensos dos EUA que até hoje deixam vítimas com artefatos explosivos não-detonados.

Tudo muda quando em 1970, durante o governo Nixon, o general cambojano Lon Nol dá um golpe militar com apoio da CIA.

A partir de 1963, os EUA começam a bombardear também áreas rurais no Camboja para acabar com guerrilheiros vietnamitas que se infiltravam cá. Não faltaram vítimas cambojanas. Cresce o sentimento de revolta, e a partir de 1967 se iniciam insurgências. Em 1968, emerge uma guerrilha nacionalista comunista chamada Khmer Rouges — os Khmer Vermelhos — inspirada pela luta maoísta na China (já no poder desde 1949) e pelos próprios Viet Congs

Esse movimento comunista cambojano já existia desde 1951, mas em 1962 foram impedidos pelo rei de participar das eleições e perseguidos. É ali nos finais dos anos 60 que então toma as armas. Iniciava-se em 1967 a Guerra Civil Cambojana (1967-1975), parte do teatro maior da Guerra do Vietnã. Aqui no Camboja, eram revoltosos comunistas (sobretudo de zonas rurais) de um lado e o exército da monarquia do outro. Internacionalmente, eram neutros.

General Lon Nol (1913-1985), líder de um golpe militar patrocinado pelos EUA em 1970.

Porém, tudo muda quando em 1970, durante o governo Nixon, o general cambojano Lon Nol dá um golpe militar com apoio da CIA. Declara o fim da monarquia e o início de uma República do Camboja — não mais neutra, mas agora alinhada aos EUA e por estes apoiada.

O presidente americano Richard Nixon, que já havia mexido os pauzinhos, anuncia ao público que fariam agora incursões militares junto com o Vietnã do Sul no território cambojano.

Não prestou. Essa entrada militar estrangeira provoca ainda mais revolta entre os cambojanos e aumenta expressivamente o número de alistados à insurgência comunista dos Khmer Vermelhos. (Qualquer semelhança com os fundamentalistas islâmicos décadas depois não é mera coincidência.)

O descaradão do então presidente Richard Nixon apresentando a intervenção estadunidense no Camboja em 1970.

O Rei Sihanouk, exilado no estrangeiro, promete dar o troco nos que lhe tiraram do poder. Em Pequim, declara apoio aos Khmer Vermelhos. (Vejam como a vida real às vezes dá voltas que nem a ficção acompanha.)

De repente, no olhar da tradicional população campesina do Camboja, estar ao lado da guerrilha comunista passa a significar estar ao lado do rei, defendendo a honra de Sua Majestade tirada do trono pelo general capacho americano.

Os Khmer Vermelho viram uma onda.

Os Khmer Vermelhos tomam o poder (1975-1979)

Em 17 de abril de 1975, após oito anos de guerra civil, os Khmer Vermelhos tomam a capital Phnom Penh. Isto foi duas semanas antes da queda de Saigon e fuga dos últimos marines estadunidenses do Vietnã em 30 de abril de 1975.

Foto de 17 de abril de 1975. Os Khmer Vermelhos tomam Phnom Penh. A guerrilha era, em grande medida, estes rapazes do campo.

Com a retirada norte-americana, o general Lon Nol já não tinha condições de oferecer resistência. Phnom Penh cai sem grandes batalhas. O cerco já vinha há anos se fechando, aqui como no Vietnã.

Lon Nol fugiu à Indonésia e, de lá, foi acolhido em exílio nos Estados Unidos. (Como sempre, os ditadores são acolhidos por quem os patrocinava. Ele viveria no Havaí e depois na Califórnia até falecer em 1985.)

O Camboja agora estava nas mãos dos Khmer Vermelhos.

Capa de jornal tailandês do dia seguinte, 18 de abril de 1975. “Phnom Penh cai sem um banho de sangue.”

Este jornal tailandês nota a feliz ausência de morticínio na tomada da capital, porém deixa de captar sinais iniciais de um desvario coletivo que havia começado.

Em matéria não de dias, mas de quatro a cinco horas da entrada dos Khmer Vermelhos em Phnom Penh, a população de mais de 2 milhões de pessoas foi informada de que deviam abandonar suas casas e deixar a cidade imediatamente. A pé, levando só o que conseguissem carregar. 

São como essas marchas de gente como a que você viu na foto de abertura da postagem.

Milhões de habitantes de Phnom Penh, que haviam saudado o fim da guerra, receberam ordens dos Khmer Vermelhos para evacuar a capital de imediato. Esta foto data de 1977, mas as de 1975 certamente foram semelhantes. Estima-se que 20 mil pessoas morreram só no caminho da evacuação repentina. Para onde?

Os estudantes de Paris haviam aprendido com a Revolução Francesa que o movimento precisa ser levado a cabo de uma vez, não importando o custo. O terror de Robespierre com suas guilhotinas aqui seria tocado à base de rifles e revólveres.

As influências e inspirações dos Khmer Vermelhos foram muitas. Eles não eram apenas comunistas, mas também extremamente nacionalistas. O declínio de 600 anos desde o fim do Império Khmer, nesta terra agora apequenada e espremida entre vizinhos hoje mais poderosos (Tailândia de um lado, Vietnã do outro) criou nos revolucionários cambojanos um desejo urgente de ressurgência.

Foto da época. Havia líderes que haviam estudado em Paris, mas o grosso dos Khmer Vermelhos eram campesinos.

Muito inspirados pela China de Mao Tsé-Tung, os Khmer Vermelhos tentam implantar no Camboja uma versão turbinada da experiência chinesa.

Se Mao havia em 1958-1960 implantado o chamado Grande Salto Adiante, um programa econômico urgente de coletivização das propriedades rurais, trabalhos forçados da burguesia urbana no campo, e toda sorte de sacrifícios pessoais e cessão de bens em nome da prosperidade nacional, os Khmer Vermelhos tiveram a ideia de fazer no Camboja o que chamaram de “Super Grande Salto Adiante“.

Todas as pessoas das cidades eram para abandonar suas casas, seus parentes, e se juntarem a um grande esforço nacional. O Camboja se tornaria novamente uma grande nação, aonde gente do mundo todo peregrinaria para conhecer o comunismo de verdade.

Eles mudaram a bandeira e chamaram o país de Kampuchea Democrático, embora democracia aqui passasse longe. Seu símbolo? O emblemático templo medieval Angkor Wat sobre um pano de fundo vermelho.

A bandeira do Kampuchea Democrático (1975-1979), dos Khmer Vermelhos.

Numa decisão sui generis, aboliu-se completamente a circulação de dinheiro. Vocês precisam levar em conta que até na Coreia do Norte há dinheiro. O cidadão lá pode escolher se compra um maço de cigarros ou uma barra de sabão. Aqui, nem isso era possível.

Detratores eram eliminados. Suspeitos de falta de comprometimento com a causa eram aprisionados, torturados e mortos. Foi aí que uma escola pública da capital esvaziada, hoje o Museu Tuol Sleng, passou a servir de prisão para milhares de pessoas.

Esse foi um dos pontos que eu visitei no meu tour pelos chamados Campos de Matança. A visita é soturna como num filme de terror asiático — aqui com histórias reais.

Escola pública transformada em 1975 na maior prisão do regime Khmer Vermelho.
Pátio interno da escola pública convertida (ou pervertida) em prisão, as salas de aula transformadas em celas.
A transformação macabra feita pelos Khmer Vermelhos.
Os prisioneiros eram torturados nas antigas áreas da escola. Dizem que punham hinos e marchas para tocar nos alto-falantes da escola para que a vizinhança não escutasse os gritos.
Este é o campo Choeung Ek, hoje um memorial com essa torre. Aqui eram trazidos prisioneiros de Tuol Sleng a serem fuzilados. Seus corpos eram atirados em covas coletivas e depois cobertas com DDT, tanto para combater o mau cheiro que talvez viesse a chamar a atenção dos arredores quanto para matar qualquer um que porventura ainda estivesse vivo.

A coisa, se você bem reparar, era de uma rudeza sem nome.

A maioria destas atrocidades eram levadas a cabo sem que a população soubesse do que ocorria. Muitos, dentro e fora do país, inclusive duvidavam de que no regime houvesse mesmo toda esta matança. Até que começaram a se descobrir os ossos das covas coletivas…

Ossos depois desenterrados das covas coletivas, ratificando o que os sobreviventes relatavam.
Na cena, hoje com túmulos.
Os espaços internos contêm fotografias dos muitos que aqui foram mortos.

Quem eram estas pessoas perseguidas? Não eram necessariamente opositores do regime, nem sequer “burgueses” capitalistas. Vale lembrar que o Camboja era uma sociedade eminentemente agrária, praticamente sem classe média. 

As vítimas dos Khmer Vermelhos eram todos e qualquer um que não entrasse na sua rígida disciplina. Na escola transformada em prisão, até hoje você pode ver o regulamento para os detentos. Era proibido falar sem ser perguntado; era proibido demorar de responder; era proibido chorar se fosse eletrocutado.

Alguns autores sugerem que isso foi uma perversão dos valores budistas há séculos presentes nesta sociedade — o desprendimento, a serenidade, o sacrifício dos desejos pessoais. 

Tal como quem deixa para trás a vida secular para entrar num mosteiro, as pessoas precisavam agora abandonar suas famílias e dedicar-se integralmente à causa. Em muito, os Khmer Vermelhos pareciam mais uma seita que um partido.

Centenas de milhares morreram executados, mas a grande maioria, cerca de 1 milhão — ou um quarto de toda a população do país — morreu mesmo foi de fome, desnutrição, e exaustão pelos trabalhos forçados.  

Foto das pessoas em trabalho forçado nas fazendas coletivas do Camboja dos anos 70.
Mapa, no Museu Tuol Sleng, da expulsão das pessoas das cidades já a partir de 17 de abril de 1975.
Pol Pot, líder dos Khmer Vermelhos.

O líder dessa maluquice toda foi Pol Pot, cujo nome verdadeiro era Saloth Sar.

Líder, sim. Autor solitário, não.

Hoje em dia, nós temos duas tendências que eu preciso desconstruir aqui. A primeira é a de individualizar as responsabilidades. Muito influenciados pelos livros de História focados em grandes personalidades, achamos equivocadamente que os grandes episódios da humanidade são sempre obra de um grande cérebro mobilizando todo o resto.

Ficamos sempre buscando num indivíduo a origem de coisas que, na maioria das vezes, são movimentos sociais. Pol Pot estava longe de ser ele próprio a origem das ideias e práticas dos Khmer Vermelhos. Ele simplesmente era o mais carismático, o que punha ordem. Dezenas de outros líderes no movimento pensavam como ele.

O segundo equívoco é supor que uma pessoa assim só pode ser um psicopata, um caso patológico. (Psiquiatras muitas vezes apontam que a maioria dos pacientes de saúde mental são boa gente.) Inúmeros autores já esmiuçaram a biografia de Pol Pot, e toda a evidência é de que ele —como a maioria dos seus colegas — era uma pessoa bem mediana, até simpática.

As causas desta “loucura” foram sociais:

    • Comunismo radical mesclado a um nacionalismo exacerbado, numa ânsia de que nenhum sacrifício era demais para erguer o país;
    • Perversão extremada de valores budistas do auto-sacrifício e da negação de si;
    • Uma brutalidade chã e rude que refletia o dia-dia algo grosseiro da maioria parte destas pessoas, nascidas e criadas numa situação precária e de muita dureza (em muitos casos, sob bombardeios também).

Assim, os Khmer Vermelhos fizeram coisas que não se encontravam nem na União Soviética, nem sequer na Coreia do Norte.

Vocês acham que o regime desmoronou sozinho? Não. O Vietnã teve que invadir. E, numa destas curiosidades torpes da vida, os Khmer Vermelhos em derrocada ainda acharam os EUA e a China para apoiá-los contra um Vietnã insurgente nos anos 80 e 90. O mundo não é para amadores.

O Fim dos Khmer Vermelhos (1979-1999)

O Vietnã comunista não estava lá muito preocupado com o que acontecia aos cambojanos. Inclusive, devolviam aos Khmer Vermelhos os refugiados que escapavam pela fronteira.

O problema começou quando os Khmer Vermelhos começaram a cruzar a fronteira e atacar vilarejos vietnamitas. O Vietnã perdeu a paciência e, em 1979, invadiu o Camboja.

Os Khmer Vermelhos — na prática aquela rude guerrilha de jovens torpes e uns desvairados no comando — não duraram quase nada. Antes de o ano acabar, já em dezembro de 1979, o Vietnã venceu e pôs no governo cambojano outros comunistas, destas vez mais moderados e do seu agrado.

Pol Pot ainda viveria até os 72 anos.

Foi o fim do Kampuchea “Democrático”, mas você acha que terminou por aí? Deveria ter terminado, porém Pol Pot ainda seguiria vivo até 1998 como líder dos Khmer Vermelhos, fugindo mais uma vez às selvas a fazer guerrilha como antes de tomarem o poder. 

Pol Pot morreria de velho, dormindo, em 15 de abril de 1998.

Num desses eventos que fazem você desacreditar da moral na política internacional, Estados Unidos e China passaram a apoiar os Khmer Vermelhos para fazer frente ao novo regime aliado do Vietnã.

“Não é possível”, pode dizer imaginar. Pois saibam que, para todo mundo ver, os Khmer Vermelhos mantiveram por anos o assento cambojano na ONU. Durante todos os anos 80 a maior parte das nações estrangeiras mantiveram seu apoio a uma coalizão de guerrilheiros que envolvia Pol Pot e os Khmer Vermelhos — até o início dos anos 90. O Camboja sangraria ainda anos a fio.

Os EUA ainda tinham mágoas de terem sido expulsos do Vietnã; Reino Unido e outros “seguiram o chefe” como de costume; e a China seguia — como segue — a velha política do “dividir para imperar”. Nunca quis um Sudeste Asiático unido, com influências vietnamitas em outros países, assim como o Tio Sam nunca quis uma América Latina integrada. 

Houve todo um negacionismo das atrocidades cometidas pelos Khmer Vermelhos. O presidente estadunidense Jimmy Carter ainda em 1979 suspendeu toda a ajuda do Banco Mundial ao Vietnã e ao Camboja como punição pela invasão vietnamita. A mesma premiê britânica Margaret Thatcher que chamava Nelson Mandela de “terrorista” por se mobilizar contra o regime do Apartheid na África do Sul defendia os Khmer Vermelhos. Por sua vez, o então líder chinês Deng Xiaoping em 1984 teria dito: “Eu não entendo por que algumas pessoas querem remover Pol Pot. É verdade que ele cometeu alguns erros no passado, mas agora ele está liderando a luta contra os agressores vietnamitas.

Se você quer uma das “razões para acreditar” (em democracia), a Suécia foi honrosa exceção entre as nações ocidentais ao retirar o apoio aos Khmer Vermelhos na ONU depois que cidadãos escreveram ao governo dizendo aquilo ser intolerável.

Somente em 1993, com eleições (na qual ganhou de qualquer forma o camarada dos vietnamitas e ainda atual primeiro-ministro Hun Sen), é que o assento na ONU foi tirado dos guerrilheiros. 

Pol Pot morreria de velho, dormindo, em 15 de abril de 1998. Os Khmer Vermelhos seriam desmontados no ano seguinte, depois de 20 anos persistindo na clandestinidade com armamentos e apoio  diplomático estrangeiro.

Desde 2004, uma assembleia nacional tem levado a julgamento os governantes ainda vivos daquele regime. Minas terrestres seguem assolando o interior país.

Depois se pergunta por que o Camboja é pobre. Você agora sabe a resposta.

Começou a chover no “campo de matança” Choeung Ek. 

Você caminha por aqueles trajetos de madeira, mas por vezes pondo os pés no chão — ou na lama — que certamente sentiu corpos, ao lado das árvores que assistiram a tudo, e a sensação é esquisitíssima. A chuva nestas condições vinha praticamente como um “banho do descarrego”. 

Você faz uma espécie de tour macabro com o audio-guia, parando nos pontos reais com informações detalhadas sobre o que acontecia ali. Recomendo estômago.

N’algumas áreas de acesso vetado, onde eram covas coletivas, pulseirinhas budistas de bons auspícios às almas que se foram (ou não), e também dinheiro em notas jogadas ao chão. É um costume do budismo popular como oferenda.

A soturna caminhada por terras onde crimes inomináveis foram cometidos.
Dinheiro jogado pelos visitantes onde eram covas coletivas.

Não deixei para trás dinheiro; deixei a ignorância sobre os fatos ocorridos aqui. 

E era hora de eu agora deixar para trás os morenos sobreviventes, seus filhos(as) e netos(as), após essas penosas décadas.

Feliz fiquei de ver o Camboja hoje uma nação visitável, que continua surpreendentemente afável apesar de tanta dureza. Ainda há muito caminho de melhora econômica e política a percorrer, mas se levarmos em conta de onde saíram, estão ótimos.

Estátuas dos míticos (ou reais?) edificadores de Phnom Penh no século XVI.

Um tuk-tukeiro mui disposto me pegaria ao hotel às 4h da manhã, para um daqueles voos de horário inglório rumo a outro lugar. 

Até a próxima, Camboja. Até a próxima, Sudeste Asiático.

A gente nunca está na pele das outras pessoas para saber de fato o que sentem, mas fiquei feliz de ver que os cambojanos me parecem mais alegres hoje do que devem ter sido em outras eras. Apesar de tudo.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

One Reply to “Lugares históricos em Phnom Penh: A Guerra Civil do Camboja e o regime Khmer Vermelho

  1. Terrivel. Triste e melancólica história. Revoltante a postura de seculares poderosos ” inimigos”, muitas vezes pseudo inimigos, que se juntam contra aqueles que querem se libertar do seus jugos. Isso é comum ao longo da História. São inimigos ou amigos segundo suas conveniências e interesses. As ideologias se resumem a poder e domínio As falácias democráticas aparecem mas estão longe se serem concretas. Como se diz aqui no Brasil. ” Papo furado ou coisas para inglês ver”, que me perdoem os ingleses de bem. Nestas horas como se diz hoje, esses poderosos ficam nus e mostram toda a sua podridão Esse holocausto deveria ter a visibilidade que tem aquele perpetrado por Hitler e seus comparsas.
    E como sofreu e sofre o povo. Ainda bem que as pessoas não perderam a capacidade de se reinventar e a despeito do miseréee, continuam resilientes a cultivar a alegria, a simpatia e o sorriso. Não morre, pelo visto, a esperança de serem felizes. De parabéns esse povo da Asia, do seu SE espoliado e em particular do Camboja, A triste história do drama da raça humana sobre a terra.

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