Colômbia

Cartagena das Índias, Colômbia: A cidade colonial que inspirou Gabriel Garcia Márquez

(Este será um post longo.)

Bem-vindos a Cartagena das Índias, certamente a mais festejada das cidades colombianas, e uma das cidades coloniais mais pitorescas de toda a América Latina. Era janeiro, e fazia sol. Aqui nesta terra do autor do clássico Amor nos Tempos do Cólera (1985), ninguém nem sonhava em corona.

Gabriel García Márquez em 2002.

Gabriel García Márquez (1927-2014), escritor colombiano ganhador do Prêmio Nobel de Literatura, não nasceu exatamente aqui — ele é oriundo da cidade de Aracataca, noutra parte da Colômbia — mas foi Cartagena quem mais o inspirou. Ele morou na cidade pela primeira vez ainda com vinte e poucos anos, no fim da década de 1940, e tornaria a viver aqui outras vezes.

O seu livro que melhor capta a aura desta cidade colonial é Do Amor e Outros Demônios (1994), uma obra até recente, década depois de ele receber o prêmio Nobel (1982). O ganhou em muito pela obra-prima Cem Anos de Solidão (1967), que ao contrário do que você talvez imagine, não é um livro triste mas extremamente espirituoso. 

Eu até alguns anos atrás não tinha lido nenhum dos seus romances — uma daquelas coisas que, depois que você faz, se pergunta “Como é que eu não fiz isso antes?“. Eu acho que García Márquez é quem melhor expõe o dia-dia latino-americano, essa coisa que os estrangeiros classificaram de Realismo Mágico, mas que qualquer um de nós sabe ser mais realidade que magia.

As semelhanças entre Brasil e Colômbia me assaltam gostosamente, e aqui eu experimentaria muitas delas.

Prólogo: Minha primeira hora na Colômbia

No aeroporto de Bogotá, já na minha primeira hora na Colômbia eu notei:

A magnífica rede de cafeterias Juan Valdez, que eu conhecera no Equador anos atrás, e que agora reencontrava aos sorrisos como quem revê um velho amigo.

♪ Salve! — Como é que vai? — Amigo, há quanto tempo! — Um ano ou mais… — Posso sentar um pouco? — Faça o favor … ♪ (clássico do MPB4, se você não reconhecer)

Juan Valdez. Rede de cafeterias que vende dos melhores cafés do mundo. Inclusive, a única com certificado internacional de origem para o café colombiano. (Deixa Starbucks e cia no chinelo.)

Eu notei também que aqui, como no aeroporto da Cidade do México, é preciso pagar (R$ 4) para usar os carrinhos, algo mesquinho que penaliza idosos e outros que têm menos força física. Uns tiozinhos vestidos de general com quepe o conduzem para você. Eu seguia com meu mochilão.

Notei uma coloridíssima loja com produtos típicos, e fui agraciado, primeiro, com o sorriso da bela vendedora colombiana, aquela simpatia afetuosa que só se encontra na América Latina. Andei por todos os continentes e jamais achei o mesmo em outro lugar. Segundo, ganhei amostras de chocolate recheado com frutas tropicais colombianas e até café, servidas com aquele sorriso. Belo início de estadia neste belo país.

Notei que aqui o traço indígena é em geral mais visível que nos brasileiros, embora eu os ache muito similares aos brasileiros do Rio/Norte/Nordeste no seu biotipo mestiço e no comportamento.

E notei ainda nesta primeira hora que aquela música — que eu cria brasileiríssima — das gafieiras do século XXI, “Sim sim sim! Esse amor é tão profundo…”, é originalmente colombiana. De 1999, se chama Fruta Fresca.

Gostei mais desta versão original, a propósito. Tem uma batida e um toque de raiz que a versão brasileira não conseguiu captar. Rola até uma flauta indígena no meio, misturada às batidas africanas e ao drama latino-ibérico da voz do cantor. Escutem abaixo e constatem — e bem-vindos à Colômbia. 

(A Ditadura Militar tentou separar o Brasil do resto da América Latina, introduzindo em vez disso cultura de massa dos Estados Unidos, então muitos hoje nem se dão conta dos nossos laços regionais. Para constar, aquela outra, “Ai ai ai ai, está chegando a hora…”, também nos veio de fora. É mexicana, chamada Cielito Lindo, e nós fizemos uma versão.)

Degustados uns chocolates e a simpatia, fui ao andar de baixo do aeroporto, onde comer é mais barato. Dei-me com uma lanchonete semelhante àquelas do Rio de Janeiro com funcionários de uniforme, suando movimentados por detrás do balcão, a servir lanches. Aquelas onde você deixa o troco e alguém grita Caixinha!, que os funcionários respondem O-bri-ga-do! (Ainda fazem isso?). Na Colômbia não há esse ritual, mas o ambiente foi muito parecido. 

Comi umas arepas de milho branco com dinheiro que havia trocado, e circulei por ali. O wifi gratuito do aeroporto, comigo, só funcionou porcamente, suficiente para WhatsApp apenas. Se melhoraram, não sei. Foram algumas horas matinais até finalmente tomar o voo para Cartagena ao meio-dia. 1h25min de avião à costa do Caribe.

Uma arepa é este quitute salgado de massa de milho com manteiga e às vezes recheio de queijo. Típica aqui na Colômbia como também na Venezuela, embora as venezuelanas sejam diferentes.
O interior do Aeroporto de Bogotá.

Cartagena é uma cidade histórica na costa do Mar do Caribe. Fundada em 1533, ela era o principal porto de escoamento das riquezas sul-americanas à Espanha nestas bandas. Não faltou prata peruana saindo por aqui, nem ouro conhecido e trabalhado pelos indígenas que aqui habitam desde 4.000 a.C., nem escravos africanos chegando à economia colonial.

Seu apelido, Cartagena das Índias (ou Cartagena de Índias em espanhol), foi para diferenciá-la da cidade de Cartagena na Espanha — que por sua vez tira seu nome da antiga Cartago, dos cartagineses que a fundaram.

A Ciudad Amurallada me lembrou uma mistura de Pelourinho com as cidades históricas mexicanas, aqui com a brisa quente do mar entrando pelas ruas coloniais.

Hoje uma cidade de 1 milhão de habitantes (a 5ª maior da Colômbia), Cartagena tem duas partes principais: a área moderna, de prédios altos e que inclui um setor hoteleiro; e a área antiga, de interesse turístico, em torno da chamada Ciudad Amurallada (Cidade Muralhada). (Recomendo hospedar-se na zona antiga. Se não dentro das muralhas, ao menos perto. O setor hoteleiro moderno fica distante, e o mais gostoso de Cartagena é circular a pé.)

A Ciudad Amurallada me lembrou uma mistura de Pelourinho com as cidades históricas mexicanas, aqui com a brisa quente do mar entrando pelas ruas coloniais. Ao lado de fora das muralhas estão bairros também antigos como Getsemaní (oxítona em espanhol), muito charmosinho e onde eu aconteci de me instalar.

As ruelas do bairro de Getsemaní, onde me instalei.
As casas tão coloridas quanto as flores nas ruas.
Charme em Getsemaní.
Senhor sentado à porta observando o movimento.

Eu cheguei a Getsemaní de táxi, com um enrolão — como costumam ser os taxistas em praticamente todo o mundo. No Aeroporto de Cartagena há um esquema de cooperativa onde você paga adiantado, um valor que depende de aonde você vai. Todo o centro histórico tem o mesmo preço.

Ah! Getsemaní no es centro histórico!“, declarou com falsidade o taxista conversador no meio da corrida, querendo me largar na rua à entrada da Cidade Muralhada. Quis um trocado adicional para me levar à porta do albergue em Getsemaní. Como tudo aqui na Colômbia é barato, para não pegar uma briga já no começo do passeio eu aceitei a extorsão do equivalente a 1 dólar, mas fiquem de olho.

Todas as demais experiências humanas aqui seriam positivas. (Taxistas nunca são referência.)

Em Getsemaní eu estava a um passo — ou literalmente 10 minutos — da Cidade Muralhada, onde eu me perderia por dias a fio.

A famosa Torre do Relógio, a principal entrada para a Cidade Muralhada de Cartagena.

A área histórica de Cartagena como um todo é muito bonitinha e se encaixaria facilmente no cenário colonial do Nordeste brasileiro. Casario antigo e colorido em ruas estreitas; moradores e vendedores de rua conversando alto; aquele calor aplacado só pela sombra ou pela brisa do mar; gente solta de biotipos moreno ou negro; e sinais de pobreza, cachorros vira-latas, lixo acumulado aqui e ali, calçadas por consertar, e o inconfundível odor de urina seca ao sol na rua.

Interior da Cidade Muralhada de Cartagena.

Há partes mais pitorescas e outras mais comerciais; umas bandas mais quietas e outras mais movimentadas. Estamos falando nesta Cidade Muralhada de um emaranhado de ruas numa área de quase 1 Km de raio. Não é pequena.

Ali dentro são muitas igrejas, pontos curiosos, esculturas, conventos, sorveterias a visitar, livrarias pitorescas, muralha por cima da qual caminhar, vendedoras negras em seus trajes coloridos, comidas típicas, shows espontâneos de dança na rua, e mais. (Eu recomendo no mínimo 2-3 dias inteiros de estadia.)

Venham com minhas andanças conhecer alguns pontos-chave — e algumas pessoas.

Ruelas na Cidade Muralhada de Cartagena.
Áreas algo mais elaboradas na Cidade Muralhada.

Comecemos bem pela entrada, que já nos inicia também no pano-de-fundo histórico de Cartagena.

Na praça à entrada principal, dentro da Cidade Muralhada, uma estátua a Pedro de Heredia, o fundador e primeiro governador da cidade.

Pedro de Heredia, como tantos dos outros conquistadores espanhóis, era um filho da puta. Matou índios como moscas. Era tão cruel que chegou a ser condenado e desvalido do seu posto pela própria justiça do século XVI. Por queimar pessoas vivas, escravizar indígenas (contra a ordem da rainha Joana, a Louca), apropriação de fundos, nepotismo, e exportação de ouro sem tirar o quinto da Coroa (certamente a principal razão que o levou à condenação). Ele morreria afogado anos depois.

Com sua intérprete local, que entrou para a História como Índia Catalina, realizou incursões várias ao interior indígena durante os 22 anos em que governou. Os índios Carib, da costa (e que dão origem ao nome Caribe), foram os primeiros a sambar. Depois vieram os Zenu [Zenú] Colômbia adentro, cujo ouro foi espoliado aos quilos. O que não foi levado à Espanha pode ser visto hoje no belo Museu do Ouro Zenu (Museo del Oro Zenú) aqui em Cartagena.

Artefatos de ouro Zenu.
Ornamentos Zenu, Quimbaya e Chocó, nações indígenas colombianas que os espanhóis encontraram.
Adereços indígenas de época. (Como cheguei a detalhar em outro post, os indígenas das Américas dominavam a metalurgia, mas usavam os metais como ornamentação, não como armas.)
Maquete de como se imagina que eram as aldeias indígenas daqui em 1500. No Museu do Ouro Zenu em Cartagena.

(Se você se pergunta por que há estátuas a homenagear fascínoras como Pedro de Heredia, a razão é a mesma pela qual no Brasil ainda há quem louve os sanguinários bandeirantes, que até hoje têm estátuas e dão nomes a ruas.)

É a partir do século XVII que a cidade ganha os contornos que têm hoje — físicos e humanos. A Inquisição Espanhola abre uma filial aqui em 1610. Constitui-se a muralha da cidade, que vinha sendo saqueada repetidamente pelos piratas do Caribe, inclusos aí corsários ingleses e franceses como o famoso Francis Drake. É também no século XVII que se estabelece o tráfico negreiro aqui, que tanto viria a caracterizar a cidade. 

Note-se que a Espanha foi exceção entre as nações imperialistas europeias por não deter controle de portos de escravos na costa da África. A Espanha nunca conseguiu colônias na África subsaariana. A Coroa Espanhola portanto comprava negros de mercadores particulares portugueses, ingleses e franceses.

Cartagena ganharia muito desta tônica afro-colombiana que a distingue de muitas outras partes da América do Sul, enquanto que a assemelha muito ao Brasil.

Um vendedor de abacates pelas ruas da Cidade Muralhada de Cartagena.
Negras moças e senhoras, aqui com suas bancas de frutas em vez de acarajé. Diferentemente das baianas, elas aqui se vestem em coloridos, muitas vezes com as cores da bandeira da Colômbia. (As baianas usam branco por influência islâmica na África Ocidental, onde muitas têm suas raízes.)
Vendedora em traje tradicional e com bacia na cabeça.
Senhora negra com a sua banca de frutas nas ruas do centro histórico de Cartagena.
E foi nesta que eu parei para almoçar neste belo restaurante chamado La Mulata, de funcionárias muito simpáticas.
Estão servidos? Feijão num belo tempero, até com uma pimentinha; arroz; uma fatia de abacate, como é de hábito aqui nesta parte das Américas; vinagrete; e aquilo ali amarelo do lado são fritadas de plátano verde, aquela variedade de banana grande tirada do pé antes de amadurecer, e que eles aqui fritam e comem massuda feito batata, com comida de sal.

Enquanto que esses alimentos aí são essencialmente indígenas — feijão, pimenta, e abacate sendo todos nativos das Américas —, eram as mucamas africanas que os preparavam durante o período colonial nestas bandas. A Colômbia também tinha as suas Tias Anastácias.

Cartagena no século XVII foi das mais prósperas cidades da América do Sul. Foi nessa época que São Pedro Claver (1580-1654) ganhou fama aqui. Seu santuário é uma bela obra colonial com igreja, jardins internos, e um pequeno museu que vale a visita.

Jesuíta, dizem que ele ficava às muralhas aguardando a chegada dos navios negreiros. Assim como catequizava, em certa medida protegia e curava muitos dos negros. Passou a ser considerado o patrono dos escravos aqui na Colômbia.

A fachada da igreja colonial, que por dentro é extremamente simples. Foi levantada entre 1580-1654, curiosamente as exatas mesmas datas de nascimento e morte do santo. Originalmente, ela era conhecida como Iglesia de San Juan de Dios.
Quadro do que se imagina de São Pedro Claver, com escravos enfermos.
São Pedro Claver segurando a mão do feitor que chicoteava um escravo. Pareceu-me semelhante à ação dos jesuítas com os indígenas no Brasil.
Casarão colonial dos jesuítas em Cartagena.
Imagens coloniais no pequeno museu do Santuário de São Pedro Claver.

García Márquez fala muito dos conventos daqui, inclusas algumas loucuras (provavelmente reais) que ali se passavam.

Já se você prefere uma coisa mais autoral no que tange a história dos negros de Cartagena, não faltam salsas colombianas aqui dos chamados costeños. Dentre elas a já clássica No le pegue a la negra, do finado Joe Arroyo.

Você a escuta pelo menos uma vez ao dia tocando nas lojas de Cartagena, já que a cidade consta na letra da música. É uma animada música de protesto, como tantas do Olodum. (A tradução do título é algo como “Não bata na negra”.)

Essa realidade colonial daqui é algo que você encontra bem e muito espirituosamente descrito em Do Amor de Outros Demônios, caso leia a obra de García Márquez. 

É curioso, pois foi somente na década de 2010 que houve esta ressurgência do turismo na Colômbia, e um reencontro dos próprios colombianos com García Márquez — que agora é post mortem garoto-propaganda do país. Se até 2014 havia relatos de pessoas que vinham a Cartagena e sequer encontravam suas obras nas livrarias, estas agora estão por toda parte. O turismo colombiano agora sabidamente propagandeia seu país como sendo o próprio realismo mágico de Márquez.

Livreiro em plena rua de Cartagena, com — segundo ele — toda a coleção de Gabriel García Márquez (ou Gabo, o diminutivo de Gabriel em espanhol).
Já se você preferir algo mais aconchegante e com café, eu recomendo a Livraria Ábaco no centro da cidade histórica.

Tomei sorvetes e circulei na cidade histórica feito um passarinho por entre um jardim. Beija-florear está na alma de pessoas como eu, e Cartagena não carece de cores nem flores.

Via passarem algumas moças de fenótipo indígena, aqueles belos cabelos que de tão pretos até brilham ao sol. Caminhava vendo as sacadas das casas coloniais coloridas, parava para tomar algo, e por muitas vezes peguei-me conversando com os ambulantes e vendedores de loja — quase todos aqui bons de papo. 

O povo em geral me pareceu muito dado, embora aquelas senhoras negras sejam mais sisudas que as baianas da Bahia, e poucas abertas a conversa. O turismo descambou a coisa um pouco demais para o comercial, e elas ficam atrás de que você pague para tirar foto. 

Numa destas horas na rua, assisti a senhores com ar de taxistas discutindo se Jesus falava aramaico e por isso não o compreenderam, os que falavam latim, como ele havia dito na Bíblia que não o compreenderiam e que teria sido esta a razão. Discutiam com afinco, igual os evangélicos de praça no Brasil. A América Latina em certas coisas toda se parece.

“O próprio Renato.” Conhecidíssimo.
Sacadas das casas coloniais em Cartagena.
Permitam-me a pornografia alimentar, pois este sorvete estava demais. Há boas sorveterias em Cartagena, como a Cremeria Italiana, a Tramonti e a Paradiso. Eles inclusive têm sabores típicos como mojito e figos com queijo, sobremesa tradicional aqui na Colômbia e no Equador. Uma delícia.

Foi numa destas voltas de fim de tarde que eu conheci Digna Rosa, comendo uma arepa nas ruas de Cartagena. Esse é realmente o nome dela, uma mulher de seus 40 anos, baixinha e algo troncuda, de imenso cabelo escuro em rabo de cavalo e amplo sorriso.

Están ricas las arepas“, comentou com aquela sociabilidade latino-americana quando me viu ponderar uma diante da vendedora de rua. Ela própria comia uma ao lado do filho na calçada, um garoto de 12 anos e de boné. Como tantas neste continente repleto de Dons Juans mui românticos porém maus pais, era mãe solteira.

Não estavam essa riqueza toda, as arepas, mas não estavam más. Melhor foi dignamente ir dar umas voltas pelo alto da muralha de Cartagena ao pôr do sol.

O pôr do sol e o mar, do alto das muralhas de Cartagena.
Foto que tirei com a Índia Catalina naquela noite.
E com a chamada Gorda Gertrudes antes do escurecer. Escultura típica do mestre colombiano Fernando Botero, que tem suas obras de arte espalhadas pelo mundo.

Com a Digna Rosa me sentei para tomar um suco de mango viche, manga verde, com gosto de manga verde, que não estava mau embora eu siga preferindo manga madura.

Sentamos-nos os três numa dessas mesas do lado de fora, a cidade à noite num ânimo só. Como de hábito na América Latina, em 1h de conversa você já sabe tudo sobre a vida da pessoa.

Cartagena à noite fica ainda mais movimentada, com músicos de rua e tudo o mais.
A colonial Igreja de São Pedro Claver, um dos símbolos de Cartagena, imponente ali à noite por detrás das mesas.

Digna Rosa na manhã seguinte já iria embora para sua cidade, e me despedi dela e do garoto ao táxi. Eu permanecia, retornaria a estas cercanias, e no dia seguinte conheceria Sheryll, uma filipina. (Segundo ela própria me explicaria: como o nome da cantora norte-americana Sheryl Crow, mas com dois Ls.) Cor naquele moreno-jambo, o físico algo franzino das asiáticas, e o humor irreverente que os filipinos têm.

Com ela eu veria o pôr do sol seguinte desde o Castillo de San Felipe de Barajas, a fortaleza colonial de Cartagena. Erguido entre meados do século XVI a meados do século XVII, ele é a maior construção militar feita pelos espanhóis no Novo Mundo.

Pode-se ir a pé se você gostar de caminhar, e foi o que Sheryll e eu fizemos.

O Castelo São Felipe, a uma meia-hora de caminhada do centro histórico de Cartagena. Um bom lugar para visitar ao fim do dia.
Com um dos canhões no parapeito da fortaleza, a luz do pôr do sol ali.
Você pode adentrar para circular pelo interior, onde havia soldados no tempo colonial e hoje há turistas.
O pôr do sol do alto do Castelo São Felipe, com a bandeira colombiana aqui hasteada. Lá adiante, os prédios da parte moderna da cidade.

No dia seguinte Sheryll foi à praia, e eu fiquei. Ela voltaria arrependida.

Você já deve ter percebido que, embora estejamos à beira-mar, o mar aparece pouco. Não é um mar convidativo. Há uns passeios à Playa Blanca e outras próximas, mas o que mais se ouvem nos albergues daqui são as tretas. À época do verão brasileiro aqui é tempo de ressaca no mar, e muitas coisas são canceladas sem aviso. Há também uma taxa de acesso lá cobrada à parte e, talvez o mais importante, não vi ninguém que conhece praia elogiar muito.

Conversei com uns catarinenses que voltaram desapontados, e Sheryll retornou dizendo que eu fosse às Filipinas e comparasse. Tomei nota.  

Com Sheryll antes de ela ir para o aeroporto.

Ali deixado em Getsemaní, eu ficava a observar a vida.

Numa rua florida, um gari negro de uniforme verde-limão cantarolava uma musica animada. Um cão ladrava ao urubu tranquilo lá no alto do telhado de uma casa, ignorando o vai e vem de pessoas no chão. A moça vendendo bolí [geladinho, ou sacolé] passava anunciando bolís com seu carrinho como toda tarde naquela mesma rua. A cidade como um todo se parece um grande cenário de video game ou literatura. Eis o realismo magico de Gabriel García Márquez, o “Gabo” dos colombianos.

Nas coloridas tardes de Cartagena. Um bolí de creme com passas ao rum em Getsemaní.

A rotina dava-me sinais de que era quase hora de eu partir.

No albergue, o simpático recepcionista de todas as manhãs, Ruben, um rapaz alegre de seus 20 anos, toda manhã repetia os clássicos do Oasis. Se eu não gostasse da banda, seria um terror.

Os hóspedes se substituíam uns aos outros. Veio ao meu dormitório um tiozão com cara de boa gente mas meio estranho, e doente, cheio de varizes nas pernas. Com duas filhas, de seus 20 anos, meio patricinhas gabosas de dizer “sou boliviana mas vivo nos EUA”. O senhor foi quem falava comigo.

Certa feita, abriu a porta do banheiro, no dia que foi embora, aquele cheirão de bosta saindo do interior vaporoso do banheiro, e me estende a mão sincera dizendo “Felicidades”, e tive que apertar.

Saí ainda para mascar algumas coisas no Portal de los Dulces, a tomar umas cosechas (sucos batidos na hora), a ouvir músicos de rua na Plaza Bolívar e a ver artesanias nas bóvedas, lojinhas sob arcadas amarelas pitorescas. Mas o próximo destino aos poucos me chamava.

Nestas arcadas aqui chamadas Las Bóvedas, na Cidade Muralhada de Cartagena, muitas lojinhas de artesanias.
Lá atrás, nesta outra praça, o chamado Portal de los Dulces, onde barracas vendem doces típicos ou caseiros.
Uma das barracas de doces. Eu concordo com um ex-colega colombiano com quem trabalhei e que diz que no Brasil se fazem doces melhores, mas aqui você pode experimentar “bola de tamarindo” e outras coisas diferentes.
Animado músico de rua.

A América Central me aguardava, uma viagem que eu queria fazer leve, então nem comprei muita coisa. Levava comigo as impressões e vivências daqui. Lá, outra realidade me aguardaria, embora seja a mesma América Latina.

Eu deixo vocês por ora com algumas das danças típicas, de raiz, a que assisti nas ruas e praças de Cartagena à noite. Juro que não foi em Salvador. Foi na irmã de berço, separada depois por uma fronteira artificial que inventaram.

(A 1:35 min começa uma dança diferente, de uma segunda gravação.)

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

One Reply to “Cartagena das Índias, Colômbia: A cidade colonial que inspirou Gabriel Garcia Márquez

  1. Uuuuu… que maravilha… meu amigo.. Que espetáculo de cores, luzes, alegria, cultura, história, descontração, abençoadas pelos céus latino-americanos . Viva a Latinoamérica e sua força vital, sua esperança, apesar de tantas e históricas dificuldades porque tem passado. Vivam a alegria, a musicalidade, a resiliência desse povo guerreiro. Viva a garra do povo negro, do povo indígena que se mantem vivos e atuantes a despeito de tudo. Belos nas suas manifestações várias. Viva a vontade viver do povo latino-americano. Viva a beleza da miscigenação, da inter culturalidade transmutadas nas cores, nas danças, nos hábitos, costumes e tradições. Um espetáculo para os olhos.
    A postagem está impregnada dessa beleza autóctone e ao mesmo tempo sincrética, misturada, difusa que une as Áfricas, seus valores e costumes, aos habitantes pré-colombianos da Latino-América com os colonizadores europeus. Um sincretismo soberbo que enche os olhos e aquece o coração.
    Belissima Cartagena!….. Difícil descrever a emoção que causa naqueles que contemplam suas paisagens através dessa linda postagem. Histórica, Cartagena!… Fantástica, imponente nos seus séculos de existência, apesar do sofrimento do seu povo. Arrebatadora nos seus recantos floridos, nas suas belas ruelinhas, no seu casario que contam e testemunham tantas histórias, nos seus monumentos e templos maravilhosos , nas suas músicas e danças calientes em noite de verão., com seus instrumentos típicos e suas lindas dançarinas.
    Sua arquitetura colonial é deslumbrante. Belíssimas linhas, lindos tons, pujantes monumentos, charmosos templos, elegantes arcadas, belo casario, com seus balcões coloridos. Um colírio para os olhos.
    Amei a postagem e a oportunidade de apreciar essa bela e histórica cidade, símbolo de uma época e dos seus desdobramentos, e testemunho vivo da alma da Latino-América.
    Parabéns meu jovem amigo viajante. Bela postagem. Fiquei com vontade de a conhecer. ¿Quien sabe un día? Mui bonito el post mi joven amigo viajero. Encantada de conocer Cartagena de Índias.

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