Guatemala

Lago Atitlán, Guatemala: Entre flores e vulcões

A região do Lago Atitlán na Guatemala, a um pulo de Antígua, é dos lugares mais cênicos e pitorescos que já encontrei na vida.

As fotos o convencerão, mas saiba que este não é um passeio só aos olhos. Há também muita cultura nativa Maya nos povoados tradicionais às margens do lago, à sombra dos vulcões. É uma uma atmosfera natural e cultural.

E, caso você tenha sido confundido pela forma como os meios de comunicação em geral tratam disso: os Maya seguem vivos. Nesses povoados, as pessoas inclusive falam uma língua Maya no seu dia-dia, em lugar do espanhol. Há cerca de 30 diferentes línguas da família Maya reconhecidas atualmente aqui na Mesoamérica (México + América Central).

Aquele tempo das grandes construções, de que nos fala a História, é nada mais que o dito Período Clássico (250-900 d.C.) dos Maya. Mas eles seguiram aí, com sua diversidade interna, por todo o período colonial e até o presente. 

Junto com o sul do México, a Guatemala é talvez o melhor lugar onde ver cultura Maya de perto.

O majestoso Lago Atitlán, na Guatemala. Ali um dos povoados à sua margem. Parece surreal, mas é verdadeiro.
Muitos vulcões nos arredores, alguns deles ativos, embora já não explodam há algum tempo. O lago em si fica a 1.560m de altitude, e todos aqueles vulcões ultrapassam os 3.000m.
Flores em janeiro, inverno no hemisfério norte e portanto uma época bastante fresquinha aqui.

O escritor Aldous Huxley, autor de Admirável Mundo Novo (1932), esteve aqui e escreveu a respeito naquela época. Ele comparou Atitlán ao Lago de Como na Lombardia (Itália). “O Lago de Como, me parece, toca no limite do permissivelmente pitoresco, mas Atitlán é Como com embelezamentos adicionais de vários imensos vulcões“, escreveu o autor inglês.

O famoso naturalista alemão Alexander von Humboldt (1769-1859) diria este ser “o lago mais belo do mundo.

Os astecas em sua língua náhuatl o chamaram de Atitlán, que quer dizer “entre as águas”, referindo-se aos dois oceanos que encerram a América Central neste istmo.

O nome pegou. Não vi referência a como os Maya o chamavam antes disso, nos tempos de Samabaj. Esta era uma cidade Maya que aqui já existia na época de Cristo como uma ilha no lago, hoje afundada — se crê que desde 200 d.C. — e apelidada pelos arqueólogos de a Atlântida Maya.

Num dos povoados ao redor do lago. A gente morena com seus têxteis seguem os mesmos, embora outras coisas tenham mudado.
Atitlán.

Nós adquirimos este passeio em Antígua, que é como normalmente se faz. Basta organizar de um dia para o outro, e qualquer das muitas agências da cidade faz isso. Porém, os preços variam, então converse com várias e pesquise se quiser economizar.

Há quem durma num dos povoados, e não faltam agências também em Panajachel, a principal cidadezinha à margem do lago. Estas organizam traslados diretos a outras partes da Guatemala (como a cidade de Flores, no norte) ou mesmo ao exterior, como a Copán, em Honduras, não tão distante daqui. Fica a seu critério.

O lugar é pequeno. Só recomendo dormir a quem gosta de viajar bem devagar para se embeber da paisagem. À maioria, um bate-e-volta desde Antígua será o suficiente. Foi o que eu fiz (USD 60 por pessoa).

O nosso café da manhã da pousada em Antígua era um híbrido cultural proibitivamente gostoso de pães franceses com geleias tropicais.

São muitos os europeus endinheirados que vêm se radicar aqui para uma vida melhor. Portanto, quando eu digo pães franceses, falo dos autênticos — inclusive feitos por franceses aqui — e não aquilo que passa por “pão francês” no Brasil.

A nossa mesa de café da manhã naquele dia, com croissants franceses, pães e geleias tropicais. (A pedra falsa era o suco de laranja, que nós no Brasil temos muito melhor. Mas a gente releva.)
Perdoem-me o pornô gastronômico.
Mui tropical geleia divina de manga, de perturbar a alma.

Uma daquelas vans de transporte de turistas passou cedo à nossa porta para nos apanhar rumo a Atitlán. São 50 Km de distância desde Antígua, por entre algumas curvas. Compute aí um par de horas na estrada, contando as paradas para ver mirantes e vendedoras de souvenirs estrategicamente posicionadas.

Selfie pela manhã com o Lago Atitlán ao fundo. Demos sorte de pegar um dia com sol.

As fotos que mostrei no início da postagem foram quase todas deste mirante. Agora iríamos ver o lago mais de perto.

A van nos deixou numa espécie de agência de viagens com um restaurante aos fundos em Panajachel, um dos povoados à margem dos lagos. Tínhamos tempo para tomar café da manhã ou ver as lojas de souvenir que abriam, até a guia depois aparecer para nos apanhar e levar de barco aos povoados mais pitorescos.

Ninguém espere encontrar os Maya de hoje vivendo em ocas nem em templos de pedra. O bonde andou para todo mundo. Se os espanhóis já não vestem mais aqueles roupões do tempo da Rainha Isabel (sem terem deixado de ser espanhóis por isso), os Maya também abraçaram o desenvolvimento tecnológico, sem deixar sua língua nem outras heranças culturais. Hoje vivem com estas identidades múltiplas, sendo Maya e guatemaltecos ao mesmo tempo. 

Aqui, portanto, temos um povoado latino-americano interiorano típico, com suas tradições, seu planejamento urbano deficiente, a pobreza e as zoeiras — tudo junto e misturado.

Ruas de Panajachel. Muitas lojas de souvenir e outros estabelecimentos de cidade pequena. Algumas ruas mais bonitinhas que outras.
Após tomar o desayuno habitual de pão com ovo e pasta de feijão, localizei devidamente umas bananas-da-terra fritas.
E as coisas que a gente encontra à venda. A imagem mereceria toda uma análise semiótica. Geleia real com ginseng, fórmula coreana da Europharma. “Todo el poder masculino en usted.

Não comprei do “Poder sexual” (eu me garanto suficientemente bem, nem isto era hora). Você fique aí achando que os Maya são só aquela gente etérea que construía pirâmide. Havia — e há — amor & reprodução aqui, compadre.

Falando em Maya, a guia finalmente apareceu para nos pegar, Marta, uma moça morena baixinha de seus 23 anos, com o biotipo evidentemente indígena. Era simpática, e nos levaria a três dos povoados ao redor do lago. Ela própria era desta região, e sua língua nativa era o idioma Maya kaqchikel

A nossa guia hoje.

Não há rodovia ligando os povoados ao redor do lago, então todo o transporte é feito de barco. Vamos à água?

À margem do Lago Atitlán.
O vibrante lago, que chega a 340m de profundidade e tem 18 x 8 Km de extensão. Prepare-se para o vento que sopra, o chamado Xocomil (nada a ver com chocolate ao leite). No idioma kaqchikel significa “o vento que leva embora o pecado”. Certamente a tradução é moderna, já que os espanhóis é que introduziram aqui a noção de “pecado”, e o nome provém de mitos Maya mais antigos.
Como estamos na América Latina, ali há mui explícito o “Dios bendiga esta lancha y sus pasajeros“.

As pessoas aqui hoje são sincréticas, naquela mistura habitual de cristianismo católico com crenças indígenas tradicionais. Há uns toques de presença evangélica também.

Do que tange das tradições, das mais belas que eles mantêm aqui é o tecer com algodão nativo.

A quem não sabe, o algodão é uma planta com variedades nativas em quatro cantos do mundo. Eu digo “quatro” literalmente, pois são quatro as espécies de algodão comercialmente usadas.

Cada uma foi historicamente aproveitada por uma civilização diferente — nenhuma delas na Europa. Os europeus só passaram a vestir algodão após aprendê-lo com os índios das Américas, dentre eles os ancestrais deste povo aqui.

    • Gossypium herbaceum — Do Levante, usado pelos egípcios antigos e algumas outras civilizações da África, da Arábia e da Mesopotâmia.  
    • Gossypium arboreum — Da antiga Índia, nativo do Vale do Indo atualmente entre a Índia e o Paquistão. 
    • Gossypium barbadense — Da América do Sul, usado há 6.000 anos pelos indígenas dos Andes ancestrais dos Incas. É considerado um algodão de alta qualidade, de fio longo. Este é que às vezes é comercialmente vendido como “algodão egípcio”, sem ser. Nomenclatura algo enganosa, já que ele recebe o nome só porque foi levado a ser cultivado lá. É sul-americano. (Você aí perceba o nível dos nossos vieses. Se dissesse, como é, que é “algodão peruano”, iriam achar que é vagabundo. Como põe o nome de “egípcio”, soa algo quase místico que justificaria o preço maior. Precisamos valorizar mais o que é nosso, sul-americano.)
    • Gossypium hirsutum — Daqui da antiga Mesoamérica, cultivado pelos indígenas mexicanos e guatemaltecos, e aquele que responde por 90% da produção global. Se você veste roupa de algodão hoje, provavelmente deriva de cultivares que estes indígenas daqui originalmente selecionaram.
Senhora nos demonstrando como tradicionalmente é fiado o algodão. Você ali vê também algodão marrom na caixa. A planta tem variedades de múltiplas cores, como também amarelo e vermelho — e o bom é que esta coloração de origem nunca sai. Porém, estas variedades coloridas são difíceis de encontrar, já que a indústria há muito prioriza o plantio de algodão branco que então recebe uma tintura posterior.
Moça guatemalteca a fiar.
Estávamos aqui no singelo vilarejo de San Juan La Laguna, com muitos têxteis e outros produtos à venda.
Pintor guatemalteco nos explicando seus motivos.
Pessoas cultuando a planta do milho, alimento nativo tido como sagrado. Na cosmologia Maya, o ser humano originou-se do milho, não do barro.
Outros quadros desse pintor aqui de San Juan La Laguna. Visitem-no.
San Juan La Laguna, com o Lago Atitlán lá adiante.
Igrejinha singela em San Juan La Laguna.
Por dentro.
Cachorro a observar.

Como eu disse, o ambiente é pitoresco, mas não se engane achando que isto seja uma “Disneylândia Maya” para turistas. Há muito turismo, mas há também uma economia local bem povão, bem vida real. Este é um lugar autêntico com todos os seus prós e contras.

Nós tomaríamos agora o barco ao segundo povoado, San Pedro, onde veríamos um ambiente algo distinto, com mais muvuca popular. 

Duas moças nos seus belos trajes típicos quase desfilando pela feira livre.
O mercadão em San Pedro. Tem de tudo.
Um tuk-tuk pelas ruas do povoado, com uns senhores de chapéu aqui a prosear. No interior da América hispânica, a cultura rural rancheira frequentemente se encontra e se mistura com a indígena.
Mulheres em belas saias guatemaltecas numa praça de San Pedro.

Foi por aqui que Marta, a singela guia, nos deu um choque.

Eu e minha amiga italiana somos amigos de longa data. Ela é 10 anos mais velha que eu, porém baixinha, do tipo mignon. Como bons latinos que somos, há abraços, sentar no colo, etc. Eu estava preparado para as pessoas suporem que éramos um casal. Por isso tratei com naturalidade quando, na praça diante de alguns outros do grupo, a guia comentou em tom maior: 

— “Aaaah! Son amigos. Creía que era su…”

Mentalmente, eu completei a frase com novio (namorado em espanhol).

— “... hijo” (filho).

Minha amiga quase teve um passamento, como dizem lá no interior da Bahia.

A guia não soube onde esconder a cara. Nem eu sabia que cara eu fazia. Minha amiga internalizou a coisa, apesar da fama dos italianos. Uma brasileira que conhecemos no grupo e presenciou a cena aumentou os olhos, aquele olhar de “vish”, a emitir um conciliador “Calma…”. 

Não houve barraco. A vida seguiu em Atitlán. Os homens a circular e as mulheres vendedoras a continuar falando alto umas com as demais.

Naquela aura de “vamos fazer que nada aconteceu”, eu já estava mesmo azul de fome, e fomos para um almoço tardio no que seria o terceiro e último dos povoados que visitaríamos hoje: Santiago. (Sim, cada povoado aqui é com o nome de um santo.)

Bem-vindos a Santiago de Atitlán, compadres.

Sim, como provavelmente você, eu também já estava achando o nível de muvuca um tanto elevado. O ar pitoresco de San Juan La Laguna parecia dar lugar a um aspecto meio favelão nestes outros povoados. É a realidade.

Provas de que estas cidadezinhas interioranas da Guatemala preservam sua autenticidade de outras eras, não faltam frutas expostas repletas de moscas na feira. Nem o zum-zum-zum que você imagina aí. Faz parte. O desfile das mulheres nos seus trajes coloridos, todavia, seguia a meu ver sempre belo.

Pelas ruas de Santiago de Atitlán. Aquilo ali é coco. Começava a nublar.

Santiago é um dos principais destes povoados do Lago Atiltán, e seu ponto central é catedral. Ali, naquela praça, em 1990 foram massacradas 14 pessoas pelas forças de extrema-direita do governo. A Guatemala vivia uma ditadura, das muitas patrocinadas pelos Estados Unidos na América Latina. 

A História é sistematicamente a mesma. Os guatemaltecos em 1944 e depois em 1951 elegeram governos de esquerda que desagradaram às históricas elites daqui e aos EUA, em âmbito de Guerra Fria. Em 1954, houve um golpe militar, pondo no poder uma ditadura que se perpetuaria 42 anos no poder até 1996.

A partir de 1960, guerrilhas comunistas tomaram também as armas, e foram aí mais de 30 anos de uma guerra civil. O governo, julgando automaticamente que todos os povoados rurais — sobretudo os indígenas — faziam parte da rebeldia contra a capital, os massacravam sem dó. Foi nesse contexto que houve o morticínio de 14 aqui na praça da Catedral de Santiago em 1990, com mais 21 feridos.

Uma comissão da verdade (La Comisión para Esclarecimiento Histórico) foi estabelecida pela ONU em 1997 e apontou que 93% das mortes e “desaparecimentos” durante a Guerra Civil da Guatemala foram causados pelo próprio governo, e que 83% das vítimas foram gente Maya.

O ex-presidente Efraín Ríos Montt chegou a ser condenado por genocídio em 2013, antes de falecer em 2018. A exclusão estrutural histórica, entretanto, segue presente.

Praça principal em Santiago de Atitlán, com sua catedral ali.
O enfeitado interior da catedral.
Este foi um tio curioso que estava de prosa ao celular na praça, e quis uma foto com a nossa guia.
Rua de Santiago de Atitlán com muitos estandes de souvenirs. Apesar da pobreza que ainda persiste, as pessoas aqui talvez hoje estejam vivendo melhor.
A quem gosta, não faltam vendinhas. Só não confunda os têxteis autênticos de algodão daqui com aquelas coisas coloridas de fábrica que vêm dizendo “100% pashmina“.
O almoço que deu tempo de comermos foi este prato de nachos com queijo e massa de feijão. Levou uma era para chegar, e só enganou o estômago, mas quebrou o galho.
Passar a tarde em Atitlán… ♫. Não há exatamente um sol que arde em Atitlán, mas dá para falar de amor.

Assim terminaríamos este nosso passeio pelo Lago de Atitlán e seus povoados.

Em Panajachel nos despediríamos da guia, sem nome de mãe nem mão na cara. A van nos trasladaria de retorno até Antígua, de onde no dia seguinte partiríamos rumo ao norte da Guatemala.

Outras coisas nos aguardavam por lá.

O Lago Atitlán com um dos seus vulcões.
Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

One Reply to “Lago Atitlán, Guatemala: Entre flores e vulcões

  1. Ihhhh que belas imagens, Que lago lindo.. Que lindas e tranquilas águas azuis, com seus magníficos vulcões , suas cores e suas flores. Um espetáculo. Parece mesmo surreal. Belíssimo. Lindas paisagens. Uma delicia esse ambiente de gente simples e cheio de natureza, de cultura e de história. Não sabia que a região era tao interessante. E relativamente perto do Brasil. Obrigada, jovem amigo. Uma beleza essas postagens de viagens. Achei semelhanças com a região do Lago Titicaca, na Cordilheira Andina entre o Peru e a Bolívia, e a cidadezinha de Copacabana. O tom das águas é semelhante e a natureza também, a meu ver.
    Pois é. Aqui se fala, inclusive nos livros didáticos, como esse povo tivesse existido…. E fica a coisa no ar… No passado… E no passado ficam, a vida, a história, as dificuldades, os anseios, as lutas pela sobrevivência, tudo apagado, como fatos passados, la atrás. A vida deles parece que ficou no passado, enterrada com ele. Eita educação defasada. Essas informações são outro belo produto das viagens do jovem amigo e das postagens. Vamos sugerir a atualização dos livros de Estudos Sociais, de Geografia , de História pelas viagens do jovem Mairon Polo ..haha.
    As artesanias com seus tons vistosos são lindas. Que maravilhosas são essas pinturas com as vibrantes cores de Latino América.. Dá vontade de comprar todas hahah. Magnificas.
    Que lindas as peças de algodão. Adoro algodão e amo seus diversos tons naturais. Maravilhoso. Aceito os tingidos mas prefiro os naturais. Belo trabalho. Povo simpático.
    As comilanças são de dar água na boca. Gostosas e bonitas. Gostei também das apresentações dos pratos. Parecem saborosos.
    Muito bonita essa igreja que parece de pedra. O interior simples e bonitinho. Curiosa a decoração alegre simples e popular do interior dessa outra igrejinha. Lembra também igrejinhas do interior do México e do interior do NE brasileiro. Muito bonitinha. Esse furdunço é muito conhecido e o tuk tuk é mesmo uma onda hahah.
    Adorei a região, as informações, as belas paisagens, o povo e as artesanias. Tudo lindo. Só reforça o que penso sobre a America Latina. Apesar dos pesares, é um celeiro exuberante e belo, de cultura, vida, arte, história e um exemplo de povos que não se deixam abater na sua luta para sobreviver. Parabéns ao viajante pela escolha dos lugares e pela bela postagem. Amo .

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