Guatemala

Visitando Tikal (Guatemala), das maiores ruínas Maya do mundo

Quando eu fui ao México pela primeira vez, um compatriota me provocou. Comentou, sem saber que aquilo me provocaria, que aquelas impressionantes ruínas Maya que víamos em Yucatán eram pequenas se comparadas a Tikal, na Guatemala. Ele não sabia com quem estava falando.

Finalmente, eu agora vinha a Tikal. Embora cada lugar tenha sua beleza, Tikal é muito especial por estar em meio à floresta — além de realmente ser maior que Chichén Itzá, Uxmal, ou outras ruínas Maya no México.

A mata e a densidade bem menor de turistas fazem com sua visita adquira um toque mais mágico, silencioso. Você pode realmente crer-se perdido na floresta em meio aos ancestrais espíritos Maya e suas obras.

Um dos muitos templos Maya remanescentes no que era a cidade-estado de Tikal. Hoje, Tikal é todo um parque arqueológico onde você passa uma manhã ou um dia.

Vir a Tikal não é difícil. Você precisa primeiro chegar à cidade guatemalteca de Flores, no norte do país, que mostrei no post anterior. Há aeroporto, embora seja mais prático vir de ônibus se você já estiver na Guatemala ou em algum dos países vizinhos. 

De Flores, toda e qualquer agência de rua organiza transporte com ou sem guia para vir a estas ruínas, a 50 Km de distância. O mais habitual é vir sem guia. O parque é extenso, você circula por horas por entre as várias partes das ruínas, e a maioria dos turistas que encontrei o fazia de forma livre. Fica a seu critério.

Você compra as entradas antecipadamente em agências do Banrural, o principal banco da Guatemala, e as troca aqui na entrada do parque por uma pulseira de acesso. O ingresso custa 150 quetzales (USD 22).

Esse banco tem agências na Cidade da Guatemala, em Antígua, nas vizinhanças do Lago Atitlán, em Santa Elena (município geminado com Flores), ou em Melchor de Mencos (cidade fronteiriça com Belize aqui no norte do país). Leve o passaporte para a compra, embora haja relatos de eles aceitarem cópia. No dia da visita, basta trazer a cópia. Eles nem sempre pedem, mas é bom tê-la consigo.

O parque é assim extenso, compadres. Mas é uma visita conveniente, com muitos pontos ali com banheiros “íveis” e lugares básicos onde comer, como vocês poderão ver no mapa. Essas pernadas aí de um lugar ao outro levam 20, 30, 40 minutos. Não são distâncias homéricas, mas tampouco é pequeno.

Antes de eu falar da minha própria visita, deixem-me só completar as instruções.

Como em outras ruínas (vide Angkor Wat, no Camboja), há também ofertas de tours do nascer do sol (sunrise tour) e de pôr do sol (sunset tour), afora o ingresso comum de passar o dia. O tour para o nascer do sol precisa ser adquirido no dia anterior, naturalmente. E, é claro, não há garantia de que não será um amanhecer nublado. 

Note que esses são tickets diferentes. Se você quiser ver o nascer do sol e também ficar o dia todo, são dois ingressos.

Os ingressos para o nascer do sol ou pôr do sol podem funcionar, portanto, como suplementos, que você agrega no preço e que vêm discriminados no seu ticket. Eles custam 100 quetzales ou USD 14. 

Tenha quetzales consigo para comprar merendas durante a visita. Ao contrário de Machu Picchu, aqui é permitido comer no interior do parque. Há umas barracas de refrigerante e lanches simples concentradas em alguns pontos, além de restaurantes na entrada.

À área de recepção de Tikal com uma maquete da área. Ali atrás, uma banquinha de café e uma série de vendas de artesanias e souvenirs.

Nós chegamos de manhã, uma manhã fresquinha de janeiro, minha amiga italiana ainda de mangas compridas e lenço no pescoço, que ela devidamente tiraria com o avançar do dia. Eu, já sabendo que o calor nos assaltaria, e não me importando com os braços nus ao frescor da manhã, fui sem apetrechos.

Compramos para forrar o estômago uns pedaços de bolo de massa de milho — que ficavam anos-luz aquém do bolo de milho da minha vizinha lá em Feira de Santana — antes mesmo de entrar no microônibus para Tikal, e tomamos rumo.

Um bolo de milho que compramos para a viagem de 1h15min de Flores à entrada do Parque Nacional de Tikal. Não estava lá essa coisa toda. No Brasil se fazem bolos de milho melhores.
Os guardas à entrada do parque de manhã, ainda com as mãos nos bolsos pelo fresquinho da temperatura.
As ruínas ficam rodeadas pela floresta, então é preciso ainda caminhar uma “légua” para chegar até elas. Uns 30 minutos até as primeiras.

Os ônibus de retorno à cidade saem de hora em hora, então você provavelmente vai almejar um específico. Quando estiver lááá parque adentro e for o momento de retornar, aloque pelo menos 1h de caminhada de retorno lá do miolo das ruínas até aqui a entrada. (Conheci gente que subestimou a distância, perdeu o ônibus, e teve que esperar o próximo uma hora depois.)

O ambiente por onde se caminha é autêntico. Mata centro-americana ainda preservada, provavelmente semelhante ao que tinham os Maya que construíram Tikal.
Árvores altas sob o sol da manhã.
Caminhamos meia hora até chegar às primeiras ruínas de porte, a Plaza Este (Praça Oriental). Este é um templo que havia ao lado do que era um mercado aberto.
Construções dos antigos Maya.
Visualize a área.

Tikal data do Período Clássico (250 – 900 d.C.) da civilização Maya, quando eles tiveram seu esplendor. Reitero que os Maya não desapareceram; eles seguem visibilíssimos aqui na Guatemala como no sul do México, com seus costumes hoje formatados pelos hábitos modernos, mas suas línguas ainda vivas.

A partir do século X, eles sofreram uma desintegração. Grandes cidades-estado como Tikal dariam então lugar a povoados menores, e passaria aquele auge cultural de grandes avanços.

Os Maya já tinham um calendário mais preciso e uma matemática, astronomia, engenharia mais desenvolvidas que as dos europeus da época. (Ex. os números romanos não têm zero, o que lhes limitou na matemática. Os Maya tinham. Os europeus só aprenderiam isso séculos depois com os árabes e os numerais arábicos que usamos até hoje.)

Não se sabe ao certo se houve crise ambiental, hídrica, ou exatamente o que ocorreu. O certo é que os Maya já viviam seu período Pós-Clássico (900 – 1539 d.C.) quando da conquista espanhola entre 1531 e 1697. As grandes cidades-estado haviam sido deixadas para trás, abandonadas na floresta, e os Maya passado a viver em cidades mais modestas. Se dividiriam mais também em sub-grupos. Hoje há mais de 30 línguas Maya distintas ainda em uso cotidiano.

A maioria dos templos de pedra de Tikal datam de 400 a.C. a 400 d.C. A cidade prosperou até os idos de 900 d.C.

Tikal foi das maiores cidades Maya de todas. Graças aos códices que escaparam às fogueiras espanholas, sabe-se até da linhagem de soberanos e seus nomes.

Um dos mais famosos foi Grande Pata de Jaguar (o animal que nós no Brasil chamamos de onça, Panthera onca). Seu nome original em Maya foi Chak Tok Ichʼaak I, e reinou entre 360-378 d.C.

Há muitos relatos sobre eles, suas conquistas e derrocadas. Sabe-se também que, nos idos dos séculos V-VIII, Tikal manteve relações diplomáticas com Teotihuacán, a grandiosa cidade indígena (esta não-Maya) próxima de onde hoje está a Cidade do México, a mais de 1.200 Km daqui.

As casas do povo eram feitas de adobe e madeira, por isso não sobreviveram à passagem do tempo. As grandes obras ainda em Tikal hoje portanto eram templos, estes feitos de pedra calcária.

Os mais importantes estão hoje numerados de I a VI. São, em geral, pirâmides de degraus, embora não sejam todos idênticos. 

Este é o Templo I, ou Templo do Grande Jaguar, com 47m de altura, construído em pedra calcária (como quase tudo aqui) no ano 732 d.C. Apesar da denominação, este não tem a ver com o rei homônimo, que viveu séculos antes.
O Templo II, ou Templo das Máscaras, devido a ilustrações aqui encontradas. É um dos melhor preservados em Tikal. Com 38m, também do século VIII d.C. Você pode subir nele pelos fundos.
Lá de cima, com uma antiga praça Maya e seus templos vistos do alto.
Aquele ali é o Templo III, ou Templo do Sacerdote Jaguar. (Sim, eles aqui eram tão ligados em jaguar quanto os chineses em dragão ou os indianos em elefante.)

Esse espaço que você vê nas fotos é apelidado de Gran Plaza. Segundo os arqueólogos, aqui ficava um mercado aberto e se dava muito do dia-dia de Tikal.

Os demais templos numerados ficam mais distantes. Hora de caminhar pela mata nas amplas trilhas abertas. É espaçoso, mas você caminha à sombra das árvores quase todo o tempo.

O Templo IV é especialmente notável. Primeiro pelo tamanho: uma das edificações mais volumosas de todo o mundo Maya, com 65m de altura. Ele é nada menos que a mais elevada estrutura pré-colombina ainda de pé em todas as Américas — maior mesmo que a Pirâmide do Sol em Teotihuacán, embora se creia que esta na época fora maior e tenha perdido parte de sua estrutura no topo. 

De 700 d.C., ele é um pouco mais antigo que os outros. Foi erigido como mausoléu sob ordem do filho de Jasaw Chan K’awiil (ou Chuva Celeste), um dos mais prósperos soberanos, que derrotou a cidade Maya rival de Calakmul (hoje em Campeche, no México) e restaurou a primazia de Tikal nesta região.

Cena de Guerra nas Estrelas, Episódio IV: Uma Nova Esperança (1977), filmada aqui do alto do Templo IV.

A grande obra foi redescoberta em 1848 pelo corregedor Modesto Méndez, guiado aqui por campesinos Maya que sempre souberam de Tikal.

Terceiro, uma curiosidade. Deste Templo IV, também chamado o Templo da Serpente Bicéfala, foram feitas gravações do primeiro filme de Star Wars (Guerra nas Estrelas: Uma Nova Esperança) em 1977. Daqui são as imagens do que no filme é mostrado como a Lua Yavin IV, onde há uma base rebelde. 

O topo do Templo IV, ou Templo da Serpente Bicéfala, de 700 d.C. Ele segue rodeado de vegetação, então não dá para vê-lo sozinho e por inteiro como os demais.
Lá no alto você se sente no topo do mundo, acima do dossel da floresta.
Você se senta aqui e contempla.
No Templo IV de Tikal, com algumas outras cúspides de templos Maya no horizonte.
O horizonte. Aquele, se não me equivoco, é o Templo V.

O que as fotos não mostram, mas que também se nota cá no alto é o silêncio. O silêncio de barulhos humanos, pois você escuta muito bem os sons naturais da floresta.

Tikal felizmente está distante de rodovias ou cidades, então não há roncos de motores, nem ruídos mecânicos, nem nenhum som que os antigos Maya não ouvissem quando vinham aqui ao alto realizar as suas orações aos céus.

Esse isolamento cria uma atmosfera retirada toda especial em Tikal, diferente de monumentos que são por demais rodeados de zum-zum-zum humano ou superlotados de turistas.

O Templo IV é literal e figurativamente o ponto alto da visita a Tikal. Nós ainda veríamos o Templo V, além de muitos outros menores aqui e ali, mas esse é o mais importante.

O Templo V, de 57m de altura, o segundo maior de Tikal. Também data dos idos do ano 700 d.C.

Na maioria destes templos não é permitido aos turistas subir suas escadarias principais. Há por vezes escadas “modernas” de acesso atrás (nada fino, coisa de canteiro de obras). A razão é tanto pela conservação das milenares escadas históricas quanto pelo risco de queda, nós bem menos habituados a subir escadas íngremes que os Maya de outrora. 

Por entre os sons e a brisa da floresta, o sol já estava quente. Fiquei de breve papo com uma gaúcha que visitava o sítio com o pai, revoltada porque não visitaram as cascatas de Semuc Champey (que eu também deixei para uma futura outra vinda à Guatemala).

Sentei-me para tomar um refrigerante comprado de uma barraca numa das arqueológicas plazas e seguimos, minha amiga italiana e eu, aos poucos a fazer a nossa longa rota de retorno.

Macacos lá no alto, nas árvores.

Caso você esteja a se perguntar sobre o Templo VI, ele fica um tanto mais distante, e é menor que os templos IV e V. Entre grandes e pequenos, já havíamos visto ali uns 20, no que já haviam sido horas aqui no parque. Por volta da 1h da tarde, meu estômago roncava e eu não queria ficar só em lanchinho. Já estava satisfeito com tudo que vi.

Minha amiga italiana até quis ficar o dia todo contemplando a floresta, e eu reiterei que ela tinha plena liberdade para fazê-lo. Mas ela tem hábito de comer pouco ou pular refeições; eu, não. Amo a natureza, mas me dá impaciência essa coisa de ficar muito tempo sem fazer nada — ainda mais com fome.

Nós já estávamos às vésperas de encerrar a estadia aqui na Guatemala. Não vimos desta vez Semuc Champey, mas haveria outras belezas naturais no nosso caminho.

De Flores, rumaríamos até a fronteira com Honduras para adentrar este país. Restava-nos apenas uma parada, um lugar perdido e pouco turístico no interior guatemalteco: Río Dulce.

Encantado, Tikal. Prazer em vê-la.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

2 Replies to “Visitando Tikal (Guatemala), das maiores ruínas Maya do mundo

  1. Meu jovem, que maravilha!… Fiquei boquiaberta com a beleza desse parque, com a exuberância da vegetação, com a grandeza majestosa das ruínas e com a bela ambientação natural. Um espetáculo para os olhos. Belíssimo. Que maravilhosas essas ruínas. Pujantes e charmosas. E que vida interessante deve ter se concentrado por ali nos anos em que ocorreu o auge da sua civilização. Muito interessante. Belíssimo parque, lindíssimo cenário. De encher os olhos.
    Gostei também da autenticidade das trilhas e da manutenção do ambiente quase que ao natural do que deve ter sido ha séculos atrás. Muito interessante. Dá a sensação que o tempo não passou e que ainda se vive um pouco a época do apogeu maya. Muito bem conservado. Percebi que as pedras são mais claras que aquelas das ruínas do parque do Camboja.
    Gostei também da simplicidade das estruturas de suporte do parque, e da maquete. Muito bonitinha. Bom porque dá uma visão geral do parque. Além, claro, do mapa.
    Fiquei um pouco assustada com os macacos pois soube que em alguns lugares ,turistas às vezes são abordados por alguns deles, para pegar objetos coloridos. haha.
    Essas escadarias são assustadoras. Gostaria muito de conhecer o parque mas com certeza não subiria. haha. Não tenho medo de altura mas de escorregar. hahaha Corajoso o senhor, meu jovem amigo viajante.
    Belo passeio. Gostei muito. E são bem altas e elegantes as ruínas.
    O céu azul tropical e a vegetação, de um verde deslumbrante, completam o belo e bucólico cenário.
    Parabéns pela escolha do local e pela bela postagem. Amei. Obrigada; Prazer em conhecê-lo Tikal.

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