Honduras

Honduras, a República das Bananas original: Indo a Copán e seu Parque de Aves

Estas aves são sobreviventes, como o povo, de uma terra arrasada. Poucos países nas Américas são tão mal-vistos quanto Honduras. Não completamente sem razão, embora seja um olhar parcial do país.

No miolo da América Central, este país é assolado por instabilidade social e política desde que os primeiros espanhóis pisaram aqui no século XVI. A terra onde hoje fica Honduras era o limite sul da Civilização Maya. Aqui houve de suas impressionantes cidades de pedra, limítrofes com outros povos indígenas como os Lenca, mais ao sul.

Se você, como eu, nunca tinha ouvido falar nos Lenca, considerem-se apresentados. São os indígenas mais numerosos de Honduras, altamente misturados na população e que hoje falam mais o espanhol que seu idioma nativo.

Povo Lenca, com seus trajes coloridos, o grupo indígena mais numeroso de Honduras. Há também gente Maya, e bastante mestiçagem.
Aqui estamos, senhoras e senhores. A alcunha de Triângulo Setentrional (Northern Triangle) é dado às vezes por agências internacionais para caracterizar esta parte da América Central. Os pontos brancos são as respectivas capitais: Cidade da Guatemala, San Salvador, e Tegucigalpa — aqui em Honduras apelidada carinhosamente de Tegúci.

Honduras foi uma das clássicas “Repúblicas das Bananas”. O termo, surgido em 1901, foi pensado primeiro de tudo para Honduras e só depois aplicado mais extensivamente a outros lugares.

O escritor William Sydney Porter (1862-1910), da Carolina do Norte, cunhou o termo “República das Bananas” no seu livro Repolhos e Reis, de 1904, após visitar Honduras.

Após a independência da Espanha em 1821, Honduras formou com Guatemala, El Salvador e os demais países da região uma Federação Centro-Americana. Durou poucas décadas, instável internamente e sob pressões externas, sobretudo dos Estados Unidos.

Empresas estadunidenses de plantações de frutas — a United Fruit Company a mais famosa delas — tornaram-se notórias aqui. Basicamente governavam o país com auxílio da plutocracia local. Daí a alcunha de República das Bananas, dada pelo beberrão escritor norte-americano William Sydney Porter na sua obra Repolhos e Reis (1904), que ele escreveu após visitar Honduras.

O que começou como sarro virou crítica política de quem achava vexatória a perpetuação daquela situação.

Bananas e crianças em Honduras. Se você acha que esta foto é antiga, saiba que ela é de 1990. As coisas aqui não mudaram tanto ao longo do século XX. (Foto de Lynn Hilton, da Associated Newspapers)

Para assegurar seus interesses comerciais, os EUA chegaram a ocupar Honduras militarmente nada menos que sete vezes só na primeira metade do século XX. 

Hoje são cerca de 10 milhões de pessoas aqui no país, numa extensão territorial algo maior que Portugal ou que o Estado de Pernambuco. O maior elemento (20%) do PIB são remessas de dinheiro enviadas por quem foi trabalhar nos Estados Unidos às famílias que aqui ficaram. Destaca-se o café dentre as atividades econômicas daqui, porém este é ainda um país muito pobre, arrasado por falta de infraestrutura econômica, violência, e instabilidade política.

A capital Tegucigalpa, assim como a segunda maior cidade, San Pedro Sula, são das cidades mais notoriamente violentas do planeta — em par com as cidades brasileiras, só que talvez com uma precariedade geral maior.

Não há quase nada de interesse turístico naquelas duas cidades, já lhes adianto. Porém, o país não se resume a elas. Honduras tem natureza e um belo litoral norte (ainda por conhecer), assim como povoados tradicionais como este aqui: Copán, que atualmente leva o nome oficial de Copán Ruínas, devido ao legado de uma antiga cidade Maya cujo legado se pode ainda visitar. Fica próxima à fronteira com a Guatemala e foi por onde eu cheguei.

Bem-vindos.

À fronteira da Guatemala com Honduras.

El Florido foi o ponto onde cruzamos a fronteira, um lugar de terra seca e infraestrutura precária com movimentação de gente pobre lá e cá. De pitoresco só tem o nome.

Embora Guatemala e Honduras tenham uma extensa fronteira, não se engane: há apenas três pontos de travessia, este aqui sendo o mais central de todos.

A nossa jornada num verde ônibus Litegua desde Río Dulce foi menos que direta. Paramos diversas vezes para apanhar gente no caminho e ainda trocamos de veículo em Chiquimula, embora em Río Dulce tenhamos adquirido já passagem até o destino final (El Florido, a última cidade).

Estes ônibus largam você na fronteira e dão adeus — você cruza a pé e se vira lá do outro lado. 

Cruzando o grande Lago de Izabal, o mais extenso da Guatemala, e que através do Rio Dulce se conecta com o Atlântico. A caminho de Honduras.
Comemos aqui, lugar típico popular latino-americano, com os cartazes da coca-cola e as comidas industrializadas chegando antes da infraestrutura moderna. (Comida de fogão de lenha é uma delícia, mas desse jeito aí é uma bomba ao sistema respiratório das mulheres que têm que estar todos os dias tomando fumaça.)
Nosso mini-ônibus Litegua rumo à fronteira de El Florido. Vamos que vamos.
Paramos para pegar gente — e carga — no caminho. Lá em cima estava o elegante motorista. Pareceram-me pesadas sacas de raízes de mandioca ou algo parecido.
Nós na beira da pista. Sim, o ônibus ficou deveras rebaixado e mais lento. Eu me perguntei se ainda conseguiríamos dar partida.
Deixando um passageiro no caminho.
O ambiente já se distinguia da floresta tropical de Flores e do norte da Guatemala, nas vizinhanças de Tikal. Aqui é este ambiente algo mais elevado e seco, que lembra a Sierra Madre no sul do México.
Transporte coletivo de qualidade, ainda no lado guatemalteco. (Isso foi antes da pandemia. Agora imagine essas pessoas sendo pedidas que façam distanciamento.)
Na fronteira, pronto para atravessar a Honduras. Talvez esta tenha sido a primeira imigração que eu fiz cruzando a pé de um país ao outro.

Não é preciso visto para adentrar Honduras, mas se paga uma tarifa de 3 dólares (pagável também como 30 quetzales ou na moeda hondurenha, da qual falo em breve). Nesta imigração nada me perguntaram, ao contrário de quando adentrei a Guatemala. 

Só é necessário trocar algum dinheiro de imediato com os cambistas na rua. É aquela coisa informalíssima, de um cidadão suspeitoso (sospechoso, como eles dizem em espanhol) com maços de dinheiro no bolso anunciando-se em voz alta e abordando aqueles com cara de turista. Não há outro jeito aqui.

Trocamos quetzales guatemaltecos remanescentes e alguns dólares por lempiras, a moeda hondurenha. O nome, caso você se pergunte, vem de um cacique Lenca que em 1530 resistiu aos espanhóis. (Se dentre vocês houver algum amante de literatura histórica indigenista, o romance El Señor de la Sierra, publicado em 1987 pelo autor hondurenho Ramón Amaya Amador, disserta sobre aquele período e o cacique Lempira.)

Não faltarão motoristas gritando “Copán!” aos passageiros em potencial.

Usamos nossos primeiros lempiras para tomar um transporte de 10 minutos até a singela cidadezinha de Copán Ruínas (esta, sim, singela sem ironia). Chegamos ao cair da tarde. 

Nota de um lempira com a figura do cacique falecido em 1537. Como ele era homem, note que o nome da moeda é no masculino.
Cair da tarde na pequenina Copán Ruínas, que parece até cidade cenográfica. Ali uma corrida de tuk-tuk sendo negociada.
A pitoresca Copán Ruínas ao cair da tarde, já em Honduras.

Por alguma razão, Honduras e as ruas de Copán me deram uma sensação de Velho Oeste que não vi na Guatemala.

Os hondurenhos me pareceram um pouco mais ressabiados que os guatemaltecos, os quais são relativamente alegres e sossegados. A vida parece mais dura do lado de cá. 

Não sei se é a atmosfera geral ou o jeito dos homens na cidade. Não faltam sujeitos de chapéu de vaqueiro pela rua, um ar meio de cangaço, trocando-se o contexto do sertão pelo centro-americano. Como as fotos abaixo mostram, é um pouco de Wild West hispânico.

(Os que sofrem da violência contumaz, talvez vão mais longe e diriam que é meio que uma uma distopia country. Uma versão latino-americana e mais realista de Westworld, o seriado que imita o que seria o Velho Oeste americano nos tempos de outrora.)

No centro de Copán Ruínas.
O cair da tarde, da varanda da pousada onde me instalei. (Perdoe a fiação, mas fazia parte da vista que eu tinha.)
Esquina nas ruas de Copán à noite.
Ruela com bancas de artesanias e seus vendedores, frequentemente de chapéu.
Tem uns “recantos” assim, como este bar que encontrei, que parecem saídos de Um Drink no Inferno, o filme de 1996 com George Clooney (antes de ele ficar grisalho e virar galã do Nescafé) e Quentin Tarantino. Notem ali o aviso de não entrar com arma de fogo.

Quem tem experiência com o Brasil e possui aquele sexto sentido de detectar lugares de segurança duvidosa, aqui os alertas amarelos se acendem.

Porém, nem tudo são horrores. Tudo isso se sobrepõe a uma base indígena antiga e a uma natureza mais antiga ainda, da qual ainda podemos ver algo. 

Instalamos-nos na pousada de Fernando, um cidadão boa-praça de seus 45 anos. Daqueles homens ligeiramente pesados e de cavanhaque, que usam camisa tamanho GG. Balconista nato, tinha aquele jeito de comerciante, do tipo que fica com a mão sobre o balcão à espera de alguém com quem conversar.

Pousada aconchegante, não possuía quarto de número 13, pois pelo visto as pessoas aqui também são supersticiosas. Minha amiga italiana e eu ficamos no número 14, no avarandado de segundo andar de onde tirei a foto do pôr do sol com a fiação.

No dia seguinte, visitaríamos as ruínas da Copán antiga dos Maya, assim como o Parque de Aves (igual em espanhol), uma pequena reserva com muitas e belíssimas aves tropicais coloridas.

Sabem as lindas aves nativas que o Brasil tem? Pois aqui você encontra as espécies aparentadas. Tão lindas quanto, porém distintas.

Tucano-de-peito-amarelo (Ramphastos sulfuratus), também chamado tucano-de-bico-arco-íris. É nativo desde a Colômbia até o sul do México, passando aqui pela América Central.
Tucaninho-de-nariz-amarelo (Aulacorhynchus prasinus), também aqui nativo da América Central.
O Parque de Aves aqui em Copán.
Há muitos tipos de araras. Note essa verde com penas também azuis.

Caso você esteja curioso, saiba que há pelo menos 17 espécies de arara ainda existentes — fora as extintas.

A principal causa de perda desses animais não é tanto a busca por suas penas, mas a destruição dos seus habitats. Mais da metade do Cerrado brasileiro, por exemplo, já foi destruído para dar lugar a pastos e monocultura de soja. A Amazônia também segue sob motosserra, e com ela se vão estes animais. Aqui na América Central, as dinâmicas são semelhantes.  

Araracangas (Ara macao), ave símbolo nacional de Honduras. Parecem uma pintura, mas são de verdade. Esta se encontra desde a Amazônia até aqui a América Central.

Uma curiosidade que pouca gente sabe é que o nome maracanã (do tupi “semelhante a um chocalho”) advém dessas aves. Dantes, quando o Brasil era Brasil, se viam dessas aves no Rio de Janeiro. O Rio Maracanã, que ali passa e que deu nome ao septuagenário estádio de futebol, era assim chamado pelos índios devido à presença das coloridas aves. 

Agora você pode se referir ao estádio sabendo o que seu nome popular significa. 

Pau de arara.
Crianças, a quem quiser fazer isso assim à pele nua, lhes aviso que essas garras não são moles. Tomei também uma bela bicada leve na mão. As araras são aves temperamentais. Beleza selvagem.
Uma araracanga com o bico marcado, no programa de conservação.

No próximo post eu mostro as ruínas Maya de Copán e conto do seguimento das andanças aqui por Honduras.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

One Reply to “Honduras, a República das Bananas original: Indo a Copán e seu Parque de Aves

  1. Ihh que apoteose!… esta foto de abertura é apoteótica, meu jovem amigo. Espetacular, pela beleza, sintonia, simbolismo, graça e coragem . Que maravilhosos espécimes e que linda essa espécie de araras. Belissimas!… De uma graça, de um colorido sem par. Que belos tons!… Uma beleza com B maiúsculo. A foto merece exposição em um belo mural. Magnifica. Encantada.
    E que belo parque e que belas espécies. Esses coloridos e a elegância dessas aves dão um tom magistral ao ambiente. Lindo o parque e belíssimas as aves. Natural, bem conservado, e de maravilhosos exemplares. Coisa de Deus. Um encanto. Um espetáculo para os olhos. Que natureza prodigiosa. Amei.
    Cada foto é mais bela que a outra. Um esplendor. Esses tucanos são esplendorosos, essas duas ararinhas cochilando estão magnificas, encantadoras. Adorei.
    Esse ambiente de córregos e cascatinhas de água cristalinas é surreal de tao bonito. É lindo. Convida à meditação e à prece de gratidão ao Senhor da vida por tanta beleza.
    By the way, o senhor ficou magnifico como sustentáculo das araras. Combinando a sua camisa com a cor da penugem das aves e o verde da vegetação hahaha Um deslumbre haha. Perfeitamente ambientado haha parece parte da paisagem , ora ora.
    O senhor é habilidoso em achar belos lugares e insuspeitados sítios. Ótimo. assim ficamos conhecendo. conhecer é preciso. E coitado. Deve ter tomado varias beliscadas hahah com as garras e com os bicos hahah. Amo, mas não para tomar beliscadas hahah.
    Valeu jovem amigo viajante, Que venham mais belezas.

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