Nicarágua Panamá

Planejando uma viagem na América Central: Lugares, dicas e alertas

A América Central é uma terra fascinante que em muito superou as minhas expectativas, tanto em natureza quanto em cultura.

Não é um destino caro, e é uma terra cheia de personalidade própria ainda que algo precária na infraestrutura. Seus países não são todos iguais, mas compartilham algo de comum — como se dá com os países do Sudeste Asiático ou de outras regiões do mundo.

Até o momento, conheci algo do Panamá, Guatemala, Honduras, El Salvador e Nicarágua. Há mais por conhecer, sem dúvida, tanto nesses países quanto em outros que ainda preciso visitar, como Belize e a Costa Rica. (Isso para não falar no Caribe, que será todo um outro departamento.)

Neste post eu faço um balanço da minha passagem por estas terras. Em seguida dou algumas dicas, faço alertas, e recomendo lugares a conhecer — inclusive aqueles que estão na minha lista para visitar quando retornar.

A América Central. Todos estes países em destaque são de língua espanhola, com exceção de Belize, que foi colônia britânica e fala inglês.

Primeiro, um balanço geral do que achei da minha experiência.


    • O que mais gostou. Das lindas paisagens com seus vulcões no horizonte e da cultura indígena Maya de raiz, especialmente na Guatemala.
    • Visita obrigatória. Antígua, na Guatemala. Eu arriscaria dizer que ela é a cidade colonial mais pitoresca de toda a América Central. 
    • O que não gostou. Da limitada infraestrutura de transporte, especialmente entre os países. Voos custam um rim, e os ônibus são parcos e poucos. Você acaba dependendo dos shuttles, vans para turista, nas poucas rotas que existem. Deslocamento é o maior limitante aqui, mais que a insegurança.
    • Queria ter visto mas não viu. A Ilha de Ometepe no Lago Nicarágua, assim como as belas cascatas de Semuc Champey, na Guatemala. Ficaram para uma próxima. 
    • Comes & bebes a experimentar. O típico feijão com arroz daqui, que recebe nomes distintos nos vários países; banana-da-terra frita no almoço; e as tortilhas. (Detalhes na seção dedicada ao tema mais abaixo.) 
    • Momento mais memorável da visita. As primeiras impressões tanto de Antígua (Guatemala) quanto de Granada (Nicarágua), duas cidades que dão aquele efeito “Uau” quando você logo as vê.
    • Alguma decepção. Que a maioria destes países estejam tão “americanizados”, com predominantes fast food à là EUA por toda parte, cidades feitas para automóvel e pouco amistosas ao pedestre no modelo norte-americano, etc. Isso ofusca um pouco a cultura local, sem falar no abismo que revela entre ricos e pobres, sobretudo em San Salvador e na Cidade do Panamá.
    • Maior surpresa. A cachoeira naturalmente quente em Río Dulce, Guatemala. Não sabia que isso existia na natureza; foi uma surpresa encantadora.

Vistos & Imigração. Nenhum país da América Central continental exige visto a brasileiros ou portugueses. No entanto, costumeiramente há tarifas a serem pagas na entrada e também às vezes na saída.

El Salvador cobra 12 dólares (USD) por um “passe turista” (tarjeta turística) a quem entra pelo aeroporto — por via terrestre não há essa cobrança. Na prática é que uma forma de visto na chegada colado ao seu passaporte. Cidadãos europeus estão isentos.

Honduras cobra USD 3 na entrada, embora não cole adesivo nenhum no seu passaporte.

A Nicarágua cobra USD 10 na entrada, mais USD 2 se você estiver entrando por terra. Ela também cobra uma taxa de saída de USD 2 ou 3, a depender da fronteira. Como em Honduras, eles normalmente aceitam o pagamento tanto em USD quanto na moeda local, mas o troco geralmente é na moeda local.

Belize não cobra taxa de entrada, mas cobra USD 20 de taxa de saída.

Costa Rica, Panamá e Guatemala nada cobram.

Outras informações a ter em conta:

    • Traga o Certificado de Vacinação contra a Febre Amarela, se você estiver viajando com passaporte brasileiro. Eles nem sempre pedem, mas teoricamente o certificado é exigido e eles às vezes requerem.
    • A imigração da Guatemala às vezes é um pouco chata — não me pergunte por que. Tenha consigo a reserva impressa de onde vai se hospedar e, se possível, a passagem de saída do país. Foram os únicos que, na minha experiência e de outros com quem conversei, fizeram perguntas e questionamentos. 

Segurança. Esta é uma das questões centrais e talvez a principal má-fama da América Central. Tem suas razões, mas não é algo que inviabilize o turismo.

Primeiro, é preciso notar que há uma diferença gritante entre as cidades pequenas & turísticas (ex. Antígua, Copán, Granada, León) e as cidades grandes, pouco turísticas. É um pouco como comparar Belo Horizonte a Ouro Preto, ou Salvador a Lençóis. As cidades grandes são tão perigosas quanto suas correspondentes brasileiras, enquanto que as cidades turísticas são bem sossegadas.

Via de regra, é útil ter aqui os mesmos cuidados que se têm no Brasil: evitar chamar a atenção, não exibir objetos de valor, e ficar especialmente atento à noite. Nas cidades turísticas isso importa menos, mas nas cidades maiores eu evitaria circular muito à noite, sobretudo em áreas desertas. Lembre-se de que está na América Latina.

Falaremos mais sobre transportes a seguir, mas cuidado ao tomar ônibus-povão (os aclamados chicken buses) em longas distâncias, pois eles às vezes são assaltados na estrada. Para viagens mais extensas, os ônibus explicitamente turísticos como TicaBus, Maya de Oro & cia são mais seguros. Eu sei, pode parecer contra-intuitivo, mas os gângsters sabem que se um gringo sair machucado o pepino é maior, então evitam.

Há uma diferença grande entre as pacatas ruas das cidades históricas, como Antígua Guatemala
… e locais como o centro de San Salvador, a capital de El Salvador.

Clima. Quando vir? A melhor época para visitar a América Central é durante a estação seca, de dezembro a abril. Vale ter em conta que de junho a novembro é o período de furacões aqui no Mar do Caribe, e eles às vezes chegam já em maio. Não é legal ter sua viagem assaltada por um furacão.

Eu fui ao Panamá em novembro, e embora não tenha encontrado furacão, choveu bastante — com trovoada e tudo. Não é o ideal para passear.

Já os demais países eu visitei entre janeiro e fevereiro, o que se revelou um período ótimo. Compre suas passagens de avião com antecipação de uns 4-6 meses pelo menos, pois é alta estação. São dias agradáveis, com um leve sol, nada de chuva, flores a brotar, e noites fresquinhas que podem pedir uma jaqueta. 

As flores e o céu limpo às margens do Lago Atitlán, Guatemala.

Câmbio & Dinheiro.

Quetzales, a moeda da Guatemala.

El Salvador e Panamá não têm moeda própria, usam dólares americanos (USD). Os outros, no entanto, cada um usa sua própria moeda.

Dólares são sem dúvida a melhor moeda forte a trazer na sua viagem. Alguns pagamentos para coisas turísticas, como certos passeios, transportes e acomodação podem às vezes lhe ser cobrados em USD, ainda que os gastos do dia-dia sejam normalmente na moeda local.

Você consegue trocar a moeda de um país para o outro, mas não a cotações lá muito boas. O ideal é não deixar acumular muito, e adquirir basicamente aquilo que vai usar.

Tenha em mente que, embora existam, casas de câmbio não são algo muito corriqueiro nesta região do mundo. Nada comparado à Europa ou partes da Ásia. Talvez pela insegurança, aqui o mais habitual é converter moeda em bancos, o que quase sempre o limita aos horários bancários e a fichas de espera. A exceção para mim foi a Nicarágua, onde há cambistas autorizados pelo governo em plena rua.

Ou seja: Quando trocar, troque logo tudo o que quiser. Não conte poder a cada hora trocar mais um pouco.

Pagamentos com cartão existem, mas não são tão corriqueiros quanto no Brasil. Em um monte de lugares eles só aceitam pagamento em espécie.

Há pousadas simples e aconchegantes por toda parte na América Central, especialmente nas cidades mais turísticas.

Acomodações, Transporte & Custos gerais.

Os custos para se viajar pela América Central não são altos, mas naturalmente dependem do nível de conforto que você deseja.

Há hoteis e albergues para todos os gostos — isto além das minhas favoritas, as pousadas cheias de charme. Um quarto duplo numa boa pousada simples costuma sair na faixa de USD 40-60/noite. Há também hoteis-butique muito finos e elegantes, se você estiver disposto a pagar mais. Já uma cama em dormitório de albergue sai na média de USD 10/noite, nem sempre com café da manhã incluso.

Note que Panamá e Costa Rica são mais caros que os demais países da região, e todos eles são em geral mais caros que Colômbia, Argentina, ou a maioria dos países da América do Sul. A América Central compara-se mais ao Chile em termos de preços.

Tudo varia um pouco a depender dos seus hábitos e preferências. Comer comida local no mercado ou em algum restaurante simples (vulgo bodega) é barato. Você almoça nelas por USD 2 ou 3, mas se quiser algo mais refinado pagará o dobro ou o triplo. Novamente, Costa Rica e Panamá são mais caros, nível Brasil ou até mais: USD 10-12 por uma refeição de praça de alimentação de shopping.

Transporte é talvez o que mais consome o seu orçamento, sobretudo para passar de um país ao outro. Fica-se quase dependente dos shuttles, serviços de vans privadas que ligam os pontos das cidades turísticas, sobre os quais eu expliquei mais num post anterior.

Voar de um país a outro aqui na América Central custa o olho da cara; é algo praticamente exclusivo a viajantes de negócios ou outros endinheirados. Como ônibus são limitados a certos trechos mais óbvios (ex. San Salvador à Cidade da Guatemala), os shuttles vêm bem a calhar, sobretudo entre Guatemala, Honduras, El Salvador e Nicarágua. Uma jornada longa de um país ao outro sai facilmente por USD 100/pessoa ou mais, a depender da rota. 

Táxis do aeroporto de San Salvador ou da Cidade do Panamá custam em geral USD 30. Esses acontecem de ser os melhores aeroportos por onde chegar à América Central, aqueles com maior número de boas ofertas. Só leve em conta que, caso resolva entrar pelo Panamá, ele está um pouco distante dos demais países.

Comidas típicas. A comida típica varia um pouco América Central afora, pero no mucho. Come-se feijão com arroz por quase todas as partes, um quase baião de dois tipicíssimo aqui. Chamam de gallo pinto em Costa Rica ou casado em El Salvador e Honduras.

Ovos mexidos, bananas-da-terra fritas e queijo branco ralado também estarão por toda parte. São a comida do dia-dia. Conforme mais perto do México, mais semelhante a coisa fica da comida mexicana com suas tortilhas de milho, pimentas e abacate. Este é especialmente o caso da Guatemala, que é basicamente como o sul do México neste respeito.

Aqui há os tamales de milho, embora às vezes mais moles e grandes que os que você encontra no México; e a partir de El Salvador e Honduras as tortilhas de farinha de trigo passam a se tornar mais comuns que as de milho. As pupusas (tortilhas espessas de trigo, às vezes rechadas com pasta de feijão e/ou queijo) são praticamente o prato nacional em El Salvador.

Embora haja pratos de ocasião e uma série de guisados especiais (ex. pepián de pollo), esta é na prática uma culinária muito mais de dia-dia, como a mexicana. 

Tortilha de maíz negrito, como eles a chamam na Guatemala. Feita com milhos nativos de grão escuro.
As célebres pupusas de El Salvador, essas rodas de massa com ou sem recheio. Aqui, tinha queijo derretido e pasta de feijão dentro. É proibido sair do país sem experimentar (os maras te pegam).
Prato em León, na Nicarágua. Queijo assado, ovo, feijão com arroz, banana-da-terra frita, e tortilha. O cardápio básico do dia-dia aqui na região é este.

Aonde ir? Quanto tempo em cada lugar?

Os países da América Central têm muitas semelhanças entre si, mas eles não são idênticos. O destino ideal depende um pouco daquilo que você mais procura.

    • Se você busca praias, Panamá, Belize e Honduras.
    • Se você busca floresta, parques e trilhas, Costa Rica.
    • Se você busca cultura popular e nativa indígena, Guatemala.
    • Se você busca cidades coloniais pitorescas, Guatemala e Nicarágua

Todos esses países têm História e algo de cidades históricas, mas o perfil dos passeios varia. Quase todos os turistas que vão à Costa Rica estão em busca de natureza, trilhas e visitas a parques nacionais, enquanto que na Guatemala o foco está mais nas várias cidadezinhas — e por aí vai.

Abaixo algumas linhas gerais do que há nos países e quantas noites sugiro em cada lugar-chave que conheci.

Antígua Guatemala, com seu portentoso vulcão. Foi minha cidade favorita em toda a América Central. Pitoresca no úrrrtimo.

A Guatemala provavelmente foi o país centro-americano que mais me encantou. Eu recomendaria uma semana só nela, pegando aí a Cidade da Guatemala (1 noite), a imprescindível Antígua (3-4 noites) com um bate-e-volta ao pitoresco Lago Atitlán nas adjacências, e uma ida ao norte do país, possivelmente passando pelas cascatas de Semuc Champey no caminho, até Flores (2 noites). Lá próximas de Flores estão as magníficas ruínas Maya de Tikal, das mais impressionantes que há.

No alto das ruínas Maya de Tikal, em meio à mata no norte da Guatemala. São construções imensas e impressionantes — das maiores que restam da América pré-colombina em todo o continente.

De Flores você pode facilmente esticar a Belize, se seu interesse for beleza litorânea. É um país que eu ainda preciso conhecer, mas sei que o maior atrativo lá não é a capital (Belmopán), mas suas ilhas, a mais famosa dela sendo Caye Caulker.

As ruínas Maya de Copán em Honduras, com uma linda avifauna de araras nativas soltas.

Honduras, vizinha à Guatemala, é um país bem menos turístico. Ali há dois grandes interesses: a cidade de Copán Ruínas (2 noites), onde está um belo sítio histórico de uma antiga cidade-estado Maya; ou, bem mais ao norte, a região praieira de Roatán, um conjunto de ilhas que ainda preciso conhecer. Útila, uma das ilhas, é notório ponto de mergulho. Há ferries até lá saindo de La Ceiba, mas creio que a maioria dos turistas vai às ilhas de avião.

El Salvador é meio que um primo humilde. Não é tão rico de atrações turísticas. Se você acontecer de se encontrar em San Salvador (1-2 noites), vale visitar a cidade e talvez ir a Santa Ana e Coatepeque, não muito distantes, factíveis num bate-e-volta.

No vulcão de Santa Ana, El Salvador. Próximo à cidade de mesmo nome.

A Nicarágua já é bem mais rica de atrações. León (2 noites) e Granada (2-3 noites) são as rainhas do turismo no país, duas cidades coloniais com história de rivalidade. Se você curte natureza e paisagens, deve achar o caminho até a Ilha de Ometepe no Lago Nicarágua, à qual se chega de ferry. Entretanto, o caminho até ela (a partir de Granada) não é muito objetivo; requer certo tempo, então não planeje ir num dia para já voltar no outro. Se você quiser ver a ilha, provavelmente precisará de 1 semana ou mais na Nicarágua.

A pitoresca praça principal de Granada, Nicarágua. Uma das cidadezinhas mais adoráveis de toda a América Central.

A Costa Rica eu ainda preciso conhecer, mas se fala em 1 semana, 10 dias, ou até mesmo 2 semanas no país se você quiser explorar bastante as várias trilhas e parques do país — que é o que lá procuram a maioria dos turistas.   

O Panamá também é um país que eu ainda preciso conhecer melhor, como as ilhas de San Blas e outras partes. A Cidade do Panamá (2 noites) em si não é muito turística, mas se você pernoitar nela, vale a pena tomar um táxi e acertar com o motorista para ir conhecer o Casco Viejo (centro histórico), Panamá Viejo (outro centro histórico) e, é claro, ver o Canal do Panamá, onde há um centro de visitantes e um pequeno museu.

Cidade do Panamá com seus altos prédios. É uma cidade comercial e de shoppings, mais que de turismo.

Compras

Aos fãs das “comprinhas” de souvenirs quando viajam, há muito em termos de artesanias típicas. (A Cidade do Panamá e suas muambas eletrônicas são um caso à parte. O próprio aeroporto já tem tons de shopping popular. É um Paraguai de coisas originais.)

Se você procura algo característico, todas as cidades turísticas têm seus mercados. Na Nicarágua eles gostam bastante de pinturas; já na Guatemala você encontra a forte tradição têxtil, a mesma que se encontra também no sul do México. Coisas seculares dos indígenas e que permanecem até hoje.

Para artesanias, a Guatemala talvez seja o melhor país onde fazer compras. Honduras e El Salvador são bem mais simples e oferecem menos, enquanto que os guatemaltecos oferecem uma imensidade de produtos feitos à mão.

Ateliê de produtos têxteis na região do Lago Atitlán, Guatemala.
Têxteis em padrões coloridos característicos da Guatemala.

Se você ficou com alguma dúvida, quer algum toque, ou tem alguma pergunta que eu não respondi, é só pôr abaixo nos comentários.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

One Reply to “Planejando uma viagem na América Central: Lugares, dicas e alertas

  1. Amei conhecer essa parte encantadora da America Latina. Pouco ou quase nada sabia sobre ela. Grata ao jovem viajante pelas belas postagens, imagens e histórias. Amo viajar. E essas postagens são como uma janela aberta a um mundo espetacular. Uma maravilha, só superada pela própria viagem. Através dela se pode conhecer esse mundão de meu Deus, ter muitas alegrias e fazer grandes descobertas. Grande abraço, jovem amigo. Que venham mais belezas

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