Colômbia

Bogotá, Colômbia: Ouro, Botero e Candelaria

Olhando assim, Bogotá parece até um povoado colonial no interior da Colômbia. Já foi isso. Hoje, é uma capital com 8 milhões de pessoas. A altitude de 2.640m acima do nível do mar, nestes verdejantes Andes cá do norte da América do Sul, continua a mesma de outrora. Tudo o mais mudou.

Bogotá não é exatamente uma cidade que goza de grande fama turística. Passada a onda de medo da época dos narcos dos anos 80 e 90 e retomado o turismo, a Colômbia parece chamar muito mais pela sua costa caribenha e pelo café que por suas principais cidades: Bogotá, Medellín, e Cali.

Porém, Bogotá tem, sim, atrativos bem interessantes que me fizeram revalorizá-la depois de conhecê-la. Superou as minhas expectativas, até porque honestamente elas não eram muito altas antes de eu desembarcar no Aeroporto Internacional El Dorado naquela manhã.

Bom dia, Bogotá. Há um sistema de ônibus integrado que o leva do aeroporto ao centro ou vice-versa, mas leva um tempo. Eu havia pernoitado no aeroporto da Cidade do Panamá, já estava algo cansado, e me permiti tomar um táxi.
Aqui foi no aeroporto de Bogotá. Eu acho fascinante como em muito desta América hispânica eles são um pouco como nós éramos há 50 anos. Note a atenção contra “fins que atentem contra a lei, a moral e os bons costumes“. Isto no Brasil iria virar meme. É que aqui os hábitos sociais são um pouco mais conservadores.
O centro comercial de Bogotá lembra em algo o Brasil. Os prédios aqui têm um quê envelhecido, meio século XX ultrapassado tipo em Johanesburgo ou partes de São Paulo. Aquele velho que não é pitoresco nem antigo o bastante para ser atrativo (como Olinda ou um Pelourinho da vida), mas tampouco é atual. Um aspecto meio que de coisa “passada”.

Eu me instalaria em La Candelaria, talvez o bairro de maior personalidade em toda Bogotá. Ele lembra a Lapa no Rio de Janeiro com sua arte urbana por ruas estreitas.

Este era o centro histórico da cidade, vazio e quieto durante o dia e repleto de jovens a beber na rua durante a noite.

A rua onde me instalei em La Candelaria.
A Colômbia tem uma tradição muralista bastante forte, como o México e algumas outras partes da América Latina. Só que enquanto lá no México a temática é bastante indigenista ou zapatista, de cunho socialista, aqui a coisa é mais afro-popular com toques e cores também indígenas.
Claro que a limpeza poderia ser melhor, mas c’est la vie (en Amérique Latine). Vê-se a bela e esmerada arte.

Aos curiosos, o nome Candelaria (com ou sem acento, pronunciado de um jeito ou do outro) vem de candela, que acontece de ser “vela” em espanhol. Vem do latim e indica luz, como na palavra “incandescente”.

A origem do nome destes bairros, tanto aqui quanto no Rio de Janeiro, é religiosa. Advém da Nossa Senhora ou Vírgen de la Candelaria, uma das muitas manifestações marianas, esta de Tenerife na Espanha. De uma igreja, passou nos diversos casos a ser nome do bairro. Há muitas Candelarias no mundo latino afora.

Meu abrigo em La Candelaria, Bogotá.

Eu me instalei nessa casa de muro azul, um albergue que mais parecia uma pousada familiar: mãe, pai e filho geriam a coisa. A mãe, uma senhora amorenada de seus cinquenta e poucos anos foi quem fez meu check-in de manhã.  Tinha jeito bondoso, punha os óculos quando ia escrever algo, e possuía certo ar típico de professora tranquila. 

— “Y por qué hablas con el acento mexicano?“, indagou-me ela com candura.

Eu amo como aqui na América Latina não fica só aquela relação comercial de sorrisos superficiais — ou nem isso! — de algumas outras partes do mundo. Gosto como aqui as pessoas genuinamente interagem com você.

Eu confesso que não sabia que tinha sotaque mexicano em espanhol, mas aparentemente tenho. Não fiquei muito surpreso, já que o México é o país hispanohablante onde mais passei tempo. Trabalhei com uma chefe mexicana por dois anos, e o sotaque mexicano é daqueles que você pega e não larga mais, cabrón.

Só que aqui na Colômbia se diz mais “Qué chévere!” em vez do clássico “Qué padre!” mexicano, ambos algo como “Que legal”.

E aqui na Colômbia o café geralmente é melhor que no México, onde já tomei umas “águas de batata” disinfelizes. (Que meus amigos mexicanos não me leiam, mas acho que eles concordam que a Colômbia neste quesito é melhor.)

Ah, o cheiro do café de manhã numa casa colombiana! Não tão diferente daquele numa casa brasileira que faça café, diga-se de passagem, mas não deixa de criar uma atmosfera, ao mesmo tempo familiar e exótica, por saber-se na famosa Colômbia, um outro país.

Café na Colômbia, uma delícia. Este não foi o da pousada (ninguém ache que eu fiquei num só, após virar a noite no aeroporto devido ao tempo de conexão no Panamá), mas o interior era parecido. Decoração com Mafalda, personagem de origem argentina, a quem não sabe.

Na pousada, eu tomei foi um café preto com ovos mexidos e pão — uma delícia — que entrou por escrito na conta do “brasileiro-mexicano”, como ela me mostrou escrito na nota para lembrar de quem era.

Saí por aí. Bogotá é surpreendentemente boa de circular a pé, pois a praticamente todos os lugares de interesse turístico você vai caminhando.

La Candelaria, de manhã, tem de bela a arte. Nem todos, mas tantos dos murais são espetaculares. À noitinha é que a furzarca começa.
Você caminha por ruas gostosas assim ao centro histórico de Bogotá. Esqueça a paranoia da mídia, que só aborda a Colômbia quando é para falar das FARC ou de cocaína. Aqui você caminha talvez com mais tranquilidade que no Brasil.
Centro de Bogotá. Seu casario histórico e uma biblioteca.
Olha que lugar perigoso.
Chega-se à Plaza de Bolívar, coração de Bogotá, fundada em 6 de agosto de 1538.
Aquele prédio com colunas lá adiante é o Capitolio Nacional, sede do Congresso.
A Catedral Basílica Metropolitana de Bogotá, também nesta praça principal. Notem as montanhas ao redor; estamos na extremidade norte da Cordilheira dos Andes.
O interior neoclássico da catedral. Ela foi erigida entre 1807-1823, já no albor do movimento independentista colombiano, no lugar de igrejas anteriores que aqui estiveram no tempo colonial.
O altar singelo.

Bogotá foi fundada por Gonzalo Jiménez de Quesada como Santa Fe, em 1538. Derrotados os índios Muisca que aqui viviam, os espanhóis fundaram o Nuevo Reino de Granada, sendo esta sua capital. Quesada quis homenagear sua terra de origem, já que ele era andaluz.

Note-se aí com o Brasil a semelhança da destruição das sociedades indígenas, mas a diferença de que havia muitos reinos — depois convertidos em vice-reinos — distintos pela América espanhola.

Para você ver a riqueza artística e metalúrgica dos indígenas Muisca e tantos outros destas partes da América do Sul, recomendo muitíssimo a visita ao Museo del Oro, aqui no centro histórico de Bogotá.

Museu do Ouro, com o fabuloso legado indígena que por alguma razão escapou aos espanhóis. Estas obras são o que não foi derretido e levado à Espanha para decorar interior de igreja.
Concha marinha revestida de ouro, da cultura Yotoco (200 a.C. – 1300 d.C.) na região de Calima, aqui perto.
Muitas jóias douradas de época, feita pelos indígenas da Colômbia.
Peças complexas. Como detalhei numa outra postagem, os indígenas da América do Sul há séculos já dominavam muito bem a metalurgia, só que não a usavam para fabricar armas.
Há algumas outras obras de arte indígena daqui também no museu, embora este se foque em peças de ouro.
Assim vestia-se um cacique daqui. Tudo é ouro maciço. (Essa coisa de “banhado a ouro” é pobreza de hoje em dia.)

É daí que surge a famosa lenda do El Dorado, meus queridos.

Dizem que nos anos 1530 os frades e conquistadores espanhóis souberam (ou viram, ou ouviram) de uma cerimônia dourada aqui entre os índios Muisca.

Num lago aqui nos Andes, o herdeiro para se tornar o novo cacique passava por um ritual. Tinha seu corpo untado com uma terra pegajosa e cobria-se então de ouro em pó, até que ficava completamente dourado. Então, numa jangada de junco, ia com outros até o centro do lago, onde punha oferendas preciosas aos espíritos.

Vamos procurar esse índio dourado!“, teria exclamado o conquistador Sebastián de Belalcazár (1480-1551), segundo os cronistas. Não foi o único. Isso foi em 1530, antes de Gonzalo de Quesada (1509-1579) tivesse vindo cá com essa mesma pretensão e fundado Bogotá no caminho.

O El Dorado inicialmente era portanto uma pessoa, ou o costume de um lugar, mas vocês sabem como as histórias mudam ao longo do tempo. Na cabeça dos gananciosos espanhóis, não demorou a converter-se numa mítica cidade toda feita de ouro — que eles certamente iriam levar embora e derreter.

Gonzalo de Quesada passaria anos liderando expedições com centenas de homens Andes e Amazônia adentro em busca do tal El Dorado. Nunca achou, como ninguém achou. Os Muisca sequer tinham minas; eles obtinham ouro do comércio com outros povos vizinhos. Quesada morreria de lepra muitos anos mais tarde, em San Sebastián de Mariquita, aqui na Colômbia.

A lenda do El Dorado viraria desde álbum de Shakira a música de Iron Maiden; de menções por Voltaire a história em quadrinhos do Pato Donald; de jogo de computador a filmes de Indiana Jones ou da Disney.

Este ouro negro, sim, se encontra. Com a devida licença de vossas mercês, eu me detive para tomar um café no meu amigo Juan Valdez. Talvez a melhor rede de cafeterias do mundo, original aqui da Colômbia e portanto mui presente em Bogotá.

O nome da cidade mudou quando da independência, por ordem de ninguém menos que Simón Bolíviar, El Libertador. Ele, que seria o primeiro presidente da Gran Colombia (que à época também incluía os atuais Venezuela, Panamá e Equador), queria distanciar-se da renegada coroa espanhola.

Após a decisiva Batalha de Boyacá (1819), em que as forças leais à Espanha foram derrotadas, decidiu-se resgatar o nome indígena de um povoado onde estava Santa Fé. Bacatá, chamavam seu ancestral povoado aqui os indígenas Muisca, nome que os hispanohablantes então resgataram como Bogotá.

A raiz indígena é mais que meramente nominal aqui na Colômbia. O sangue das pessoas é altamente misturado, e tantas de suas tradições culinárias ou artísticas têm raízes ameríndias. A chicha de maíz, por exemplo, é um ancestral refresco de milho que existe de antes da chegada dos europeus. Você encontra dele também no Peru.

Um outro museu interessante que visitei, caso você curta uma coisa mais moderna, foi o Museu Botero (Museo Botero — Red Cultural Banco de la Republica).

Trata-se de um espaço todo dedicado à obra de Fernando Botero (1932), um dos mais icônicos, difundidos e peculiares artistas latino-americanos ainda vivos. Ele no Brasil pelo distanciamento pedante que nossa mídia colonizada têm com os vizinhos latino-americanos por alguma razão é pouco conhecido, mas canso de encontrar suas obras nos países mais inesperados. Mundo afora ele é bastante famoso.

Sua principal peculiaridade é que suas figuras humanas são todas rotundas. Os especialistas não gostam que digam que são “gordas”, retrucam que não são pessoas obesas, mas proporcionalmente rechonchudas de corpo inteiro, o que é às vezes lido como contra-cultura estética, crítica social à ganância humana, ou simplesmente originalidade artística. 

Acharam a mulher do Queiroz.
Casal a dançar.
A Mona Lisa em versão Botero.
O Museu fica nesta elegante casa com pátio mouro.
Você pode se juntar a um dos tours que há, inclusos no preço do ingresso ao museu.
Há quadros bastante grandes…
… e umas bizarrices também, com a devida licença artística. (Botero reinterpretando o sentido de “afogar o ganso”? Não. Como bem lembrou o leitor, abaixo nos comentários, se trata de uma releitura do mito grego em que Zeus se transforma num cisne e engravida Leda, a rainha de Esparta.)

Como de hábito, a cultura latino-americana tem essa relação meio esquizofrênica com a sexualidade. Por vezes, fala-se em “moral e bons costumes”, num certo conservadorismo só-que-não, e doutras vezes há uma hiper sexualidade. Deixo para os antropólogos explicarem.

Você passa um bom dia inteiro circulando pelas ruas mais interessantes de Bogotá. Dei-me numa loja de souvenirs onde me apercebi ainda mais destas semelhanças da nossa vizinhança, onde tocava uma cúmbia colombiana clássica que me lembrou um forró arrasta-pé. 

Claro que não é “a mesma coisa”, mas se percebem as semelhanças instrumentais e de tema, com o cantar dos viveres simples de um interior agrário alegre e tradicional.

Quando retornei a La Candelaria já ao fim da tarde, encontrei-a repleta de turistas e do “povo de humanas que faz miçanga” instalados. Suas estreitas ruas grafitadas ficam plenas de jovens gringos.

Meu albergue/pousada à tardinha.
La Candelaria “acorda” ao fim da tarde. É relativamente seguro mesmo à noite, mas cuidado com o resto do centro da cidade após o dormir dos pombos.

Eu achei curioso que, embora esteja quase à plena Linha do Equador (a exatamente 4ºN de latitude), comparável portanto a Manaus, Bogotá me lembre muito mais o Sudeste que o Norte ou Nordeste do Brasil — este último claramente assemelhado a Cartagena, na costa caribenha colombiana. 

É que a altitude faz toda a diferença. As pessoas se esquecem dos efeitos dela quando veem a Colômbia no mapa e a imaginam muito tropical. Sua altitude (2.640m) rende a Bogotá um clima subtropical, quase temperado. O fato de estar distante do mar e você avistar as serras também lhe conferem um ar interiorano.

Pedaços de Bogotá que me lembram Belo Horizonte ou São Paulo. Embora estejamos quase na linha do equador, devido à altitude (2.640m) a temperatura média varia de 9º a 20ºC.
Uma praça simpática.

Bogotá é gostosa de visitar 1-2 dias, mas não me pareceu lugar onde permanecer muito mais tempo.

Eu encerrei minha curta estadia visitando o Morro de Monserrate, um agradável mirante. Você pode subir a pé, se quiser e tiver pernas, ou pode tomar o funicular para chegar aos 3.150m. (Não, não senti qualquer efeito da altitude aqui, embora não possa falar pelas outras pessoas.)

O lugar de subir ao Monte de Monserrate em Bogotá.
A vista para a cidade, de dentro do funicular. Note como é extensa, ainda que o centro seja relativamente pequeno.
Fevereiro é época de flores nesta parte do mundo. Um tempo fresquinho também. Lá em cima há algumas modestas escadas ou rampas, mesmo se tomando o funicular.
Flores e vista.
O lugar lá no alto. Aquela igreja branca ali é o ápice.

Este é um lugar tradicional de peregrinação religiosa, como o nome há de sugerir, então não se surpreenda se vir cenas da Via Crucis ou algo do tipo.

Montserrat, ou Monte Serreado, é uma localidade na Catalunha, próximo de Barcelona. Lá há outra imagem de Maria, a Virgem de Montserrat, original do século XII — embora a crença popular seja de que ela teria sido levada ali pelo próprio São Lucas, evangelista, no ano 50. 

“Monte de Monteserrate” é, portanto, um pleonasmo, mas é como o chamam. 

O militar a observar uma das quedas de Jesus.
Estruturas de época, como esta cisterna. Foi no século XVII, portanto ainda no período colonial, que construíram uma capela cá no alto. A basílica atual data de 1920.
Monte de Monteserrate, em Bogotá.
Há várias lojinhas de artesanias cá em cima.
Lá no alto, com a cidade (e a poluição) atrás.
Pacatá.
Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

2 Replies to “Bogotá, Colômbia: Ouro, Botero e Candelaria

  1. A gordinha com o ganso, na verdade, é uma releitura do mito grego de Leda e o cisne, em que Zeus transforma-se num cisne para copular com a rainha de Esparta.

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