Noruega

Trens e fiordes pela Noruega: O roteiro “Norway in a Nutshell” no verão

O Norway in a Nutshell, que se traduziria como “A Noruega numa casca de noz”, é um compacto das extensas belezas naturais e paisagísticas do país. (Em inglês, qualquer coisa in a nutshell — como no livro “O Universo numa Casca de Noz” — é forma de dizer que se trata de um resumo.)

Neste passeio de um dia inteiro, você anda de trem, vê montanhas, e navega os emblemáticos fiordes noruegueses (braços de mar que adentram o continente).

Seu roteiro vai entre Oslo e Bergen, as duas principais cidades da Noruega, passando por vilarejos e vales pelo caminho. Eu já havia feito esse roteiro antes no inverno, o que dá completamente outra paisagem, e agora retornava para fazê-lo no verão. Acabam sendo duas experiências bem distintas.

Vales e montanhas pela Noruega no verão.

Vantagens de vir no inverno? Paisagens nevadas e vistas mais pitorescas, se você faz o estilo que gosta de “inverno mágico”. Menos gente. (Dezembro a março.)

Vantagens de vir no verão? Dias claros, longos e lindos. Mais opções de horário de saída, sobretudo dos barcos. (Junho a setembro.)

E as meias-estações? Estas eu ainda estou por experimentar. Sei que novembro é um mês escuro e de chuvas aqui pela Escandinávia — não recomendo. Primavera, entre abril e maio, é preciso ver se compensa. Já não haverá mais neve, e não sei se a paisagem já estará verdejante do verão. Aqui em julho neste post você verá a natureza toda bastante viva.

Este é o mapa do roteiro Norway in a Nutshell. Você pode fazê-lo iniciando em Oslo ou Bergen. Inclui um pouquinho de tudo que a Noruega tem a oferecer: trens, montanhas, e fiordes.

Deixem-me esclarecer que não é preciso nenhuma agência para realizar este passeio. Tudo se dá em transporte coletivo norueguês. Vale a pena, sim, você reservar tudo de antemão para garantir vaga, mas se trata de passagens de trem convencionais e viagem de ferry também convencional, abertas a qualquer um para compra pela internet. 

Antes de eu mostrar aos vossos olhos o percurso que fiz, vale lembrar o roteiro e a forma de adquirir as passagens.  

    • Oslo — Myrdal (5h em trem moderno, com belas vistas)
    • Myrdal — Flam (1h em trem antigo, com vistas mais belas ainda)
    • Flam — Gudvangen (2h em ferry pelos fiordes)
    • Gudvangen — Voss (1h de ônibus ainda com vistas)
    • Voss — Bergen (1h num trem moderno, já pra descansar)

Se você optar por começar de Bergen, é só reverter. Eu comecei de Oslo, já que a capital é bem melhor conectada com o estrangeiro. 

Todas essas passagens de trem e ônibus você adquire diretamente no site da Cia Norueguesa de Transportes Terrestres, dantes NSB e hoje VY. É uma empresa pública bem-mantida, pois os noruegueses são espertos. 

Sugiro enfaticamente que você puxe o aplicativo da VY e, se possível, faça por ele a compra de todas as suas passagens. Os bilhetes ficam no celular e você só mostra — aqui na Escandinávia hoje em dia nada disso precisa mais ser impresso.

A passagem de ferry você adquire no site oficial Visit Flam. Procure lá por Fjord Cruise Nærøyfjord e é só dizer quantas pessoas são e que você deseja só ida (one way).

Em 2020, com o coronavírus, as partidas do ferry estão reduzidas a dois horários apenas: de manhã (9:30) ou de tarde (15:00) se você fizer o sentido Flam – Gudvangen. (No reverso, as saídas de Gudvangen para Flam são 12:00 ou 17:30). Normalmente, há uns 5-6 horários distintos durante o verão, o que deve retornar à normalidade a partir de 2021.

Tudo se adquire com cartão, tanto online quanto durante sua estadia. Você não precisa trocar dinheiro norueguês (Norwegian crowns ou krone), a menos que queira ver as notas, mas saiba que alguns lugares sequer aceitam pagamento em dinheiro.

Na estação de Myrdal. (Sei que quem está me lendo dificilmente virá cá em 2020, mas só para constar que aqui pelos países escandinavos não há exigência de usar máscara, nem ninguém usa, exceto um ou outro idoso ou visitante asiático.)

Ponha os horários na ponta do lápis para ver que tudo encaixa, que chegará em tempo a cada lugar. Ambos os sites — da VY e dos ferries — informam a duração da jornada e o horário de chegada.

Os serviços noruegueses são pontuais. Não se preocupe com o tempo de conexão curto entre cada trecho da viagem, pois eles sabem que centenas de passageiros fazem essa rota todos os dias com o mesmo propósito. Ninguém fica para trás.

Qualquer dúvida, podem me perguntar nos comentários abaixo.

Estão prontos?

A vista para a paisagem ainda nas proximidades de Oslo, naquela manhã.
O interior do trem entre Oslo e Myrdal. São 5h30 de jornada aqui. Normalmente, há vagão-restaurante para quem toma um cafezinho enquanto aprecia a vista, mas confirme a informação na hora de efetuar a reserva — o site mostra as amenidades em cada trem.
Lugares pelo caminho.
Lago e a erva florida que às vezes chamam de fireweed em inglês. Muito comum por toda esta latitude alta, aqui pela Eurásia como no Canadá.
Vista para um interior que vai ficando rugoso e elevado conforme o trem avança.
Neves eternas em algumas partes. O miolo da Noruega é bastante elevado (mas pode ficar tranquilo, não chega a oferecer nenhum “mal da altitude”).
Chegamos a Myrdal, a primeira parada.

Era cerca de meio-dia quando chegamos a Myrdal. Não há nada além desta estação ferroviária com um breve lugar onde comer, ir ao banheiro, e uma lojinha. Não planeje passar muito tempo aqui — pode adquirir já o primeiro horário do trem seguinte 

Daqui parte o pitoresco Flamsbana, trem meio à moda antiga que faz a segunda parte do percurso, ainda mais pitoresca.

Fique atento à chegada do trem, pois neste não há poltrona marcada e todo mundo quer se sentar à janelinha.

Garota vendendo morangos e café numa barraquinha na estação.      
O Flamsbana, trem tradicional, com vagões em estilo antigo. (Há uma certa agonia para entrar, já que todo mundo quer a janela e ninguém tem lugar marcado.)

Esta é uma jornada curta, de apenas 1h de duração, e extremamente pitoresca.

Vistas do Flamsbana.
Vistas e córregos.

Num dado momento, o trem se detém diante de uma cachoeira e todos podem descer por uns 15 minutos. Eu já o havia feito no inverno, quando testemunhei esta cachoeira congelada (relembre aqui). Hoje, ela estava a pleno fulgor. Jorrava naquele espetáculo de milhões de gotículas e estrondoso som.

Como se não bastasse, ainda me surpreendi de ver uma bela exibição de música tradicional (inspirada nos cantos e cordas do tempo Viking) e o aparecer de uma Huldra, personagens do folclore escandinavo que são como sedutoras criaturas míticas da floresta.

Não são boas nem más, visto que maniqueísmo é uma invenção do Oriente Médio e suas religiões. (Não havia divisão entre deuses bons e maus na mitologia grega tampouco.) As huldras eram sedutoras, um tanto como as sereias. Podiam ser gentis com uns e nem tanto com outros.

Vejam uma palhinha abaixo no breve vídeo que fiz da exibição.

A portentosa cachoeira chama-se Kjosfossen.

Dali a pouco estamos em Flam, o vilarejo que dá origem ao nome do trem. 

Não se trata de um vilarejo remoto, nem de nada muito rústico. Rústicas somente as casas de madeira pintadas nas cores habituais escandinavas. Com tanto turismo, este é mais um entreposto de lojas de souvenirs e restaurantes em meio à paisagem montanhosa que qualquer outra coisa.

Serve de parada breve, pois daqui saem os ferries que fazem próximo trecho da jornada.

Flam. É mais um entreposto comercial de apoio ao turista que realmente um vilarejo.
O centro de acolhimento ao visitante em Flam, na arquitetura tradicional escandinava em madeira e nas suas típicas cores.
O espaço é assim, e ali já aguardam as grandes embarcações que navegam o fiorde. Estamos aqui ao fim de um braço de mar.

Este trecho de 2h navegando fiordes é talvez o meu favorito dentre todos do Norway in a Nutshell. O barco é amplo, tem lanchonete, banheiros e assentos bastante confortáveis no interior, de onde é possível mirar toda a paisagem através do vidro.

O lado de fora, com vento, é para quem quer ver tudo mais de perto e não se importa com a brisa algo gélida que pode bater aqui mesmo no verão.

Espaço amplo onde se sentar no interior da embarcação. No verão, quase todo mundo prefere o lado de fora, onde há múltiplos andares.
Com o fiorde e toda a paisagem impressionante da Noruega.
Água marinha por entre as montanhas.
Cascatas trazendo água doce que vai se juntar ao fiorde.
Gaivotas seguindo nosso barco.
Visões magníficas.
Pessoas do lado de dentro, cada um a fotografar.
O caminho, no magnífico Nærøyfjord.
E, caso você queira um pouco de História, no rótulo deste suco de maçã que comprei no barco eu aprendi sobre a batalha naval de 1184, que teve lugar no Sognefjord aqui pertinho.

Aos curiosos, tratou-se da Batalha de Fimreite, durante a guerra civil norueguesa pela coroa. O Rei Magnus I foi destronado aqui por Sverre Sigurdsson.

Ao contrário do típico comandante nórdico que ia à frente nas batalhas, dizem que Sverre era baixinho e comandava as tropas de cima de um cavalo. Ele reinaria por quase 20 anos, embora disputas predominassem e com a Igreja já no meio, ora apoiando um, ora apoiando outro. Sverre chegou a ser excomungado em 1194, até morrer em 1202.

(Imagina se no Brasil rótulo de produto falasse da História do lugar e do país?)

Ao fim da jornada de ferry, um (ou vários) destes simpáticos ônibus estarão lá a postos para levar todos até Voss. Ninguém fica para trás, a menos que queira. Os ônibus nunca lotam, e é possível adquirir a passagem com o motorista caso você não a tenha comprado antecipadamente.

Se durante o inverno você a esta altura do roteiro já não enxerga patavinas, pois os dias são curtos, no verão você chegará a Bergen ainda sob a luz do dia.

Foi somente desta vez que finalmente percebi a beleza deste trecho de aproximadamente 1h de ônibus entre Gudvangen (onde o ferry aporta) e Voss, pelas estradas que serpenteiam as montanhas. 

A estrada que serpenteia de Gudvangen a Voss. Mas não se preocupe demais; os motoristas aqui são bastante prudentes.
Se você prefere paisagens invernais assim, veja o meu post “Norway in a Nutshell” no inverno.

Desta vez era verão. O sol ainda raiava quando chegamos à cidadezinha de Voss, a penúltima parada, de onde um trem nos levaria até Bergen, nosso destino final.

Voss vista de dentro do ônibus.
A estação de Voss. O ônibus deixa a todos próximo da estação ferroviária. Daqui é mais 1h até Bergen, agora de trem.
Todos a bordo!
O fulgor do sol às 9h da noite, como se vê ali no relógio da estação ferroviária de Bergen. O verão e seus dias longos têm suas vantagens.

Era hora de ver no verão esta que provavelmente é a mais pitoresca de todas as cidades norueguesas. Bom estar aqui de novo, Bergen.

O Norway in a Nutshell estava completo. Havendo dúvidas, é só perguntarem. 

Como seu nome sugere, ele é um resumo do que a Noruega oferece, mas não é o todo. Eu desta vez resolveria ver mais deste todo e “subir” de trem até o norte do país. Bergen desta vez não seria fim de linha.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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