Itália

Livorno: Turismo na Itália após a pandemia

Bem-vindos de volta à Itália, um dos países mais turísticos e atraentes do mundo, e que volta a tomar um ar.

Este post tem propósitos mistos. Primeiro, de começar a narrar um pouco como está sendo visitar a Itália como turista após o pandemônio que todos viram pela mídia em 2020. Falo em “após a pandemia” de maneira casual, pois a esta altura em que vos escrevo ela ainda não acabou, mas o turismo já foi reiniciado para quem está dentro da Europa (meu caso) ou tem cidadania europeia.

Segundo, pretendo naturalmente mostrar a cidade de Livorno, maior cidade portuária da Toscana, ainda que esta tenha sido uma passagem muito breve e que a cara da cidade, é claro, esteja marcada ainda pelos eventos de 2020 e pela restrição à entrada de turistas de outros continentes.

A Itália está um tanto diferente, mais quieta, menos movimentada — e por isso mesmo bem mais tranquila de visitar, se vocês querem que eu lhes seja franco. Quase todas as atrações turísticas já reabriram, e com bem menos filas. É preciso usar máscara, mas a quantidade de gente é notavelmente menor.

Bem-vindos de volta. Livorno é apenas o início de uma viagem pela Itália pós-Covid.

Idoso de máscara, na praça diante de uma estação ferroviária da cidade.

Eu chegava de ferry, vindo da França, o que é uma mera travessia de 4h desde Bastia, na Córsega. Livorno, mais que tudo, é uma cidade comercial portuária de médio porte, mais logística que turística, embora tenha seu passado — como todo lugar aqui na Itália.

Desde o pronunciamento oficial do presidente francês Emmanuel Macron dia 14 de julho, aniversário da revolução, a companhia de ferry estava solicitando uma Declaração sobre a Honra (Déclaration sur l’honneur) de que você não tinha sintomas de Covid para poder viajar. Preenchi, e vi a hora de anexar um fio da minha barba para dar tarimba como fazia meu bisavô, mas acabaram ninguém pedindo minha declaração e eu a guardando como souvenir de época.

Ninguém creia que os ferries estavam desertos, sem turistas. Pelo contrário, o distanciamento social foi para o espaço nas horas do embarque e desembarque, ainda que todos — ou quase todos — estivessem de máscara. Os restaurantes do navio estavam em pleno funcionamento.

Estes são os imensos ferries que fazem as travessias entre a França continental e a Córsega, e entre a Córsega e a Itália. (Num post anterior eu expliquei como reservá-los.)
O interior, com seus salões amplos, cafés, restaurantes etc. em vários andares. Todos estes ferries europeus parecem-me ter estrutura semelhante.

Estes ferries têm um décor dos anos 1920 aos anos 1960, aquele glamour velho, século XX, que parecem luxos de um tempo que não é mais. Dá uma impressão ligeiramente decaída; aqueles ambientes internos que parecem do tempo do Titanic — ou ao menos tentando imitá-los — e que ainda duraram nos cruzeiros luxuosos dos áureos tempos dos antigos filmes de James Bond.

Luzes, reluzir, coisas semblantes a ouro e, se você vir, nada a ver com plantas, nem sustentabilidade, nem o minimalismo que caracteriza algo do décor século XXI. Pusessem umas plantas vivas do lado de dentro, como no aeroporto de Singapura ou em algumas estações de trem da Escandinávia, e pareceria mais atual — quiça até meio ferry futurista. Ainda espero ver.

Tomei meu café enquanto uma funcionária passava pedindo que as pessoas que haviam retirado suas máscaras, por favor, as recolocassem. (Eu nesta viagem veria gente carregando máscara na mão, no braço, na testa, no queixo, na orelha, e até como joelheira.)

O piti do velho veio quando um dos rapazes num quarteto de italianos, à hora da aglomeração do desembarque, ria-se feito palhaço naquela pose máscula latina de “Não vou colocar isso não.” Tomou um esporro público de um idoso sob o olhar de dezenas ao redor, “Ma siamo tutti, ha!“, como quem diz “estamos todos de máscara e você se acha o especial que não pode usar?”. Resignou-se calado por falta de opção.

Ali, no barco repleto de italianos, eu já me dei conta de que havia uma mudança com relação à França (ao menos o sul), onde ninguém parecia se importar muito. Os italianos, afora o temperamento habitual que todos conhecemos, pareceram-me muito mais sensibilizados pelo ocorrido.

Desembarquei em Livorno para o que era um lindo fim de manhã de sol, quente porém não muito.

Ali fica Livorno, na costa da Toscana. São cerca de 20 min de trem até Pisa ou 1h30 a Florença, ambas no interior.
Lá adiante fica o porto de Livorno, de onde eu vinha caminhando rumo ao centro histórico da cidade.

A cidade estava deserta. As ruas por ora pareceram-me mais povoada por refugiados africanos que ocasionalmente passavam, ou conversavam sentados às praças, que por italianos. A esses duros-na-queda que por tanto já passaram na vida, talvez a pandemia não tenha assustado muito.

Todos os passageiros à exceção de um jovem casal de turistas pareciam ter desaparecido no próprio porto, com carros ao estacionamento a esperá-los. São dali uns 20min de caminhada até a Via Grande, principal avenida da cidade.

Você no caminho avista algumas igrejas, a Fortaleza Velha dos Médici (Fortezza Vecchia), e o bairrinho simpático e apelidado de Pequena Veneza (você verá por que).

A Fortaleza Velha, erigida por ordem dos Médici nos idos de 1518, quando Florença assume o controle e desenvolve o que até então era um pequenino vilarejo costeiro.
Ali perto, a Igreja de São Fernando (Chiesa di San Ferdinando), de 1707. Livorno aos poucos cresceria para se tornar hoje a terceira maior cidade da Toscana, com cerca de 160 mil hab.

O casal de jovens turistas parecia um pouco atrapalhado, e ziguezagueva por entre uma rua e outra enquanto eu vagarosamente seguia tirando fotos.

Por nós passou um africano animado pedalando e guiando outra bicicleta ao lado com a mão, uma bicicleta velha que ele animadamente ia levando.

Uma das raras outras pessoas na rua o encarou com olhar divertido, ao que ele respondeu também animado — e com aquele gutural que os africanos por vezes têm — “Sei bella“, e seguiu animado. Dei-me conta de que os africanos aqui amam bicicleta e hoje pedalam por toda parte, já que lhes permite deslocar-se sem gastar dinheiro.

Eu seguia cruzando a breve “Pequena Veneza” até o centro.

A Pequena Veneza é uma pequenina vizinhança próxima ao mar e marcada por canais seculares que lembram a rainha do Adriático (i.e. Veneza), embora muito menor.
Canais por Livorno, nas ruas quietas de verão.
Flores na janela dava a graça, junto com o sol.

Avistei uma sorveteria solitária sem nenhum cliente. Ao que apareci à entrada com minhas mochilas, a funcionária sentada atrás do balcão ao celular se levantou. Eu precisava sacramentar com gelato o meu retorno à Itália, e aquilo acabou sendo o meu almoço. (Chego à Itália e começo a almoçar sorvete. Que horror.)

Pedi no meu italiano de improviso com a voz a ressoar por dentro da máscara, já que aqui em todo lugar se usa máscara nos ambientes internos. Na rua, alguns usam, mas a maioria, não. O comum é ver as pessoas carregando a máscara na mão, e ficar num tira-e-bota de dar queda de pressão nos epidemiologistas.

Meu almoço.
A Câmara de Comércio.
As ruas de Livorno quase sem pedestres no meio do dia.
Na Piazza del Municipio, onde tomei meu sorvete. Aquele edifício à direita é o Palazzo Granducale, construído em 1605 por ordem dos Médici.
A Catedral de São Francisco, que teve sua construção iniciada em 1594 na Piazza Grande, adjacente à Piazza del Municipio.

Por entre as arcadas vazias eu finalizei o meu sorvete e tomei meu rumo.

A estação ferroviária Livorno Centrale fica algo distante deste centro antigo, alguns quilômetros, então o mais prático é tomar um ônibus que desce a Via Grande. Tenha isto em conta, caso chegue de navio e queira rumar a outra cidade.

Eu já o sabia, e não me demorei. Livorno não é uma cidade excepcionalmente turística, e o meu destino era primeiro Pisa, para daí então ir à cidade de Lucca, uma joia escondida aqui na Toscana.

Os ônibus urbanos estão todos com a entrada frontal vetada, então esqueça comprar qualquer coisa do motorista nestes tempos. Todos os bilhetes precisam ser comprados em bancas de revista, e então validados nas maquinetas no interior dos ônibus.

Livorno Centrale me foi um certo choque.

A vazia estação ferroviária central de Livorno, a 2,5 Km ou cerca de meia hora de caminhada do centro.

Na França até esta manhã, a vida me parecia um “normal + máscaras no interior”. Já aqui a Itália dava-me um ar pós-apocalíptico de ermo. Outras cidades mais adiante se revelariam algo mais movimentadas (algumas até bastante), mas este primeiro contato foi um verão excepcionalmente quieto na Itália. Talvez desde o fim da Segunda Guerra Mundial não se via um verão italiano tão sem turistas.

O ermo na estação central de Livorno em pleno verão na Itália.
Livorno Centrale. (Senti-me um sobrevivente pós-armageddon.)
Estas marcações no chão são para ajudar no distanciamento social, com faixas de ida e outras de vinda.

Não é que haja zero pessoas — vocês as veem aí —, mas as turbas de turistas indianos, chineses, norte-americanos e outros, tão comuns a quem vem à Itália na alta estação, pareciam ter sido levados. Desapareceram. Um ou outro italiano casual, afora os refugiados.

A maioria das lojas e lanchonetes seguiam fechadas (com cara de quem fecharam há meses e não reabririam tão cedo), deixando apenas uma ou duas em funcionamento.

Meu trem para Pisa, com as marcações de assentos indisponíveis, para o distanciamento social. Tão diferente dos trens plenos de gente e malas que eu havia visto de outras vezes na Itália.

As viagens aqui recomeçaram, o turismo reabriu, mas o ambiente está assim, diferente, mais rarefeito, distinto do habitual. Não que eu necessariamente sinta falta das multidões de turistas, embora lamente a razão pela qual não estão aqui.

Vejo por vezes na mídia umas conversas sobre “se vale a pena viajar nestas condições”. Minha resposta é um inequívoco sim. (Podendo, é claro). Não deixei de fazer nada que quisesse aqui pela falta do normal. Pelo contrário, foi mais fácil e mais tranquilo visitar certas atrações, como vos narrarei em detalhes nos próximos posts, por outras cidades.

Pisa pós-pandemia nos espera.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

2 Replies to “Livorno: Turismo na Itália após a pandemia

  1. Nossa, meu jovem, Impressionante esse deserto italiano de turistas. Um horror. Acostumados todos os que viajam a esse destino maravilhoso, com o agito dos turistas e da vida italiana, com sua riqueza histórica e cultural, suas atrações muito disputadas, seu comercio alegre e concorrido, ficam surpresos e meio “debaclé” com essa realidade pós pandemia. Um desastre cultural, econômico, artístico, turístico, financeiro etc e tal para a querida Itália, sempre tao cheia de vida. Que essa realidade passe logo e que possamos ver a Itália ressurgir pujante, alegre como sempre foi a quem a visita.

  2. Muito bonitinha, Livorno, com seu casario , com os tons gostosos que são a cara da Italia, suas belas e bem cuidadas praças, lindos balcões floridos, belos e vetustos monumentos, sob esse lindo céu azul. Muito bonita.
    Linda a Piazza do Comercio, a charmosa Livorno Centrale, as belas arcadas, a linda praça com seu monumento, as igrejas simples e belas. Um museu a céu aberto. Bela.
    Tem aspectos semelhantes ao da Rainha do Adriático, embora ao que parece, mais simples e menor.
    Enorme esse ferry. Nossa. Não conhecia essa parte da Italia. gostei. Obrigada.

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