Itália

Cinque Terre em um dia: A rota mais famosa da Itália

(Este será um post longo.)

Tenho um prazer imenso em finalmente escrever sobre as Cinque Terre, um destino que há anos eu desejava visitar.

Tudo começou quando, anos atrás, na recepção de um albergue europeu, um rapaz ao meu lado respondeu “Eu percorri as Cinque Terre” num sotaque estrangeiro não sei de onde. A recepcionista havia-lhe perguntado se ele se importava de ir a pé até uma atração na cidade, e ele se gabou.

Eu talvez até já tivesse ouvido falar, mas aquilo ainda assim me intrigou. “O que eram mesmo essas tais Cinque Terre?” Aquilo ficou adormecido até que, anos depois, cá estou eu.

As Cinque Terre não são uma atração turística das mais vetustas da Itália — ao contrário do que costuma acontecer neste país. Os lugares são antigos, mas foram declarados Patrimônio Mundial da Humanidade pela UNESCO apenas em 1997, e é uma rota turística que passou a bombar a partir dos anos 2000.

Trata-se de cinco cidadezinhas pitorescas à beira-mar aqui na Região da Ligúria, próximo a La Spezia e não muito distante de Gênova.  

São elas: Monterosso, Vernazza, Corniglia, Manarola, e Riomaggiore. Todas pareceram-me ter coisa de 1-2 mil habitantes. São fofas e pequenas. Estão distantes poucos quilômetros uma das outras, e formam uma sequência de charmosas cidadezinhas tradicionais.

(Portovenere às vezes é apresentada como a sexta terra, mas fica noutra direção, e recomendo vê-la num dia diferente.)

As Cinque Terre são cinco cidadezinhas pitorescas à beira-mar na Região da Ligúria. Minha recomendação é se hospedar em La Spezia e visitá-las todas num ou mais longo(s) dia(s) de passeio.
Vernazza numa manhã.

Há mil maneiras de fazer Neston. Digo, as Cinque Terre. Você pode dormir numa delas (opção um pouco mais cara, e recomendada àqueles que querem curtir tudo devagarinho); ou você pode fazer um passeio de ferry a partir de La Spezia e vê-las desde o mar, o que certamente renderá belas vistas e fotografias. 

Para mim, a opção mais atraente é andar por elas — e entre elas. Algo mais ativo. As Cinque Terre são vendidas como um percurso porque há trilhas entre uma e outra. Se suas pernas não forem para trilha, você pode ainda assim tomar o trem entre elas e curtir a aventura de vê-las todas num mesmo dia.

Eu vejo um charme adicional em fazê-las assim como percurso, todas num mesmo dia. Fica com cara de gincana, de desafio. Há vários lugarejos a visitar em cada uma — com vistas, ruelas, e guloseimas escondidas. É descobri-las, e partir para a próxima.

Algumas informações antes do meu relato:

Não há custo de entrada para as cidades em si, mas para fazer as trilhas entre elas, sim. Você pode adquirir dois tipos de passe no site oficial das Cinque Terre, que hoje formam um parque nacional:

⇒ O trekking card (€ 7,50) para percorrer as trilhas entre as cidades (e há gente checando no começo das trilhas, como uma bilheteria), ou

⇒ O treno card (€ 16), que inclui tanto o direito de trilhar quanto o de fazer viagens ilimitadas de trem por 24h nesta região, incluso o acesso até La Spezia.

Você pode adquirir um passe impresso na lojinha das Cinque Terre em La Spezia Centrale, mas achei mais prático comprar online e mostrar no telefone — contanto que a sua bateria dure o dia todo. Caso você não vá fazer trilha, o treno card começar a valer a pena se você for ver mais de duas cidades no mesmo dia. (Note, na hora da compra, os descontos para menores de 12 anos ou maiores de 69.)

♣ Originalmente, há trilhas ligando os cinco destinos (A-B-C-D-E), mas algumas seguem fechadas para restauração. Monterosso ↔ Vernazza ↔ Corniglia podem ser feitas a pé (aprox. 2h de trilha moderada cada trecho), e vale a pena. Já Manarola e Riomaggiore são mais facilmente visitadas em trem. (Há um caminho interiorano de Corniglia a Manarola passando pelo povoado de Volastra nas colinas, e há quem recomende, mas encontrei gente que fez, penou, e não viu graça.)

♣ Há torneiras públicas de água potável em todas as cidades. Leve uma garrafa ou beba na bica. Há também o que comer em todas elas — e às vezes até entre elas — além de muitas vendinhas. Só leve lanche se fizer questão de mordiscar algo durante as trilhas. Eu optei por comer nas cidades para não carregar nada, e não me arrependi.

Um balanço geral com considerações finais eu faço no final. É hora de batermos perna. Tudo irá cronometrado para aqueles que desejarem saber quanto tempo algo levou, ou pretendam seguir os meus passos.

Estação de Manarola. Tudo está perto do mar nas Cinque Terre.

♦ (7:55) Trem de La Spezia

Eu havia deixado todos os meus companheiros de dormitório dormindo, e tomei um trem relativamente vazio após comer algo “de sustança” na estação La Spezia Centrale. As coisas lá abrem cedo. Sendo verão, o sol já raiava, apesar das ruas da cidade ainda quase completamente vazias.

Um imigrante ou outro se fazia presente, além de uns poucos italianos  idosos a passear com seus cachorros. Nesta epicurista Europa do século XXI, nós imigrantes do Terceiro Mundo e os cães parecemos ser os que mais cedo acordamos.

As ruas de La Spezia cerca de 7h da manhã. Eu fico impressionado como aqui na Europa o dia começa tarde, distinto do Brasil — e vários outros países — onde às 6h já há grande movimento nas ruas. (Jamais me esquecerei do Taiti, onde a feira de domingo acabava às 8h. Começava às 4h.)

Com a pandemia, metade dos assentos nos trens estão vetados, e ainda assim ele ia bastante vazio. Vi um par de homens brancos com ar de turistas, e noutro canto dois homens romenos morenos, provavelmente ciganos, um dos quais eu curiosamente reveria depois tocando acordeão e coletando esmolas no meio de uma das trilhas. 

Eu me perguntava onde estava o “milhão” de pessoas que, segundo Giulia no meu albergue em La Spezia, tinham tido a mesma ideia que eu de visitar as Cinque Terre logo no vazio deixado pela pandemia.

Meu destino seria primeiro a última das cinco terras, Monterosso, aquela que fica mais além, e de onde eu gradualmente retornaria. O trajeto ferroviário é quase todo por túneis, mas você vislumbra um pouquinho do mar.

La Spezia quase vazia na manhã em que zarpei, embora nem tão cedo assim fosse.
A lojinha das Cinque Terre na estação La Spezia Centrale. Eu optei todavia por adquirir o meu passe online.

♦ (8:20) Chegada a Monterosso

Monterosso foi quando eu comecei a tomar gosto por este passeio, até então um ermo. Foi uma chegada deslumbrante que fisicamente me fez sorrir.

A estação da cidadezinha fica bem de frente para o mar, e muitas flores acompanhavam o rosa do prédio antigo da estação. 

Um turista ou outro se fazia presente. Eu não seria o único expedicionário hoje, embora o movimento estivesse longe de ser a turba de pessoas que se fazem presentes aqui todo verão, a ponto de — dizem — congestionar um pouco as trilhas. Não hoje.

Como não iniciar este passeio com alegria?
O prédio rosa da estação acompanhado de flores nesta época do ano. Os meus primeiros passos em todas as Cinque Terre foram dados aqui neste promenade.
Logo ali em frente à estação, esta bela vista para o mar. Lembrei que o nome inteiro da cidade é Monterosso al Mare. Explica-se.

A cidade se revelaria uma fofura; ainda quieta nesta manhã de sol, mas já com um início de movimento. (As pessoas do interior sempre levantam mais cedo.)

Monterosso é algo maior que as demais. Ela tem uma pequena praia a quem quiser se banhar, algumas igrejinhas de muitos séculos atrás, torres de pedra, e um casario colorido por entre as flores.

O ambiente pitoresco é realmente o que faz a graça destas cinco terras.

Praia que avistei logo ali, a água certamente ainda fria de manhã. Depois enche de gente.
O centrinho de Monterosso al Mare com o relógio da torre a dizer a hora em que estávamos.
Um início de movimento…
… por entre o casario pêssego, rosa e amarelo sob as luzes da manhã.
Este é o Oratorio Mortis et Orationis, no estilo típico preto-e-branco genovês. Desde o século XVII ele abrigou uma confraria que assistia viúvas, órfãos e náufragos.
O interior da Igreja de São João Batista, do século XIII, aqui em Monterosso.
Vista do outro lado, com o sol da manhã a banhar suas colunas de bandas brancas e negras.
Flores e casas neste pacato verão italiano.
Pelas pequenas ruas agradáveis de Monterosso.

Agora me digam se não dá vontade de ficar aqui se embebendo de cada cantinho, de cada vista bonita.

Todavia, caminhar era preciso. Eu queria saber o que as outras me reservavam, e queria aproveitar meu pique da manhã.

Estátua de Giuseppe Garibaldi na praça principal.

♦ (8:50) Início da trilha a Vernazza pela esquerda da estátua de Garibaldi

A saída foi pela esquerda. Um beco não muito difícil de encontrar, às costas da estátua. Dali em diante, eu aprenderia a seguir as marcas de tinta vermelha e branca da bandeira de Gênova, mas que na real me faziam lembrar a bandeira da Indonésia.

O Maps.me ajuda você a encontrar o caminho caso tenha dificuldade e queira usar um aplicativo para orientação.

Você logo se vê subindo muitos degraus e ganhando altitude, como que a testar a seriedade da sua decisão de fazer o percurso.

Seriam ali 30 minutos iniciais de pura subida, seguidos de 45 minutos serpenteando num sobe e desce.

O começo, francamente, é inglamuroso — escadarias de concreto por uma zona peri-urbana, mas depois as trilhas de chão por entre a vegetação vão ganhando lugar, e você começa a avistar o mar lá ao longe. A beleza e o charme se estabelecem aos poucos.

Ganhando elevação ao sair de Monterosso.
Os rumos quem dá é a Indonésia. Siga aquele sinal e você não se perderá.
Hora da verificação do bilhete. Se não o tiver, aqui poderá também adquiri-lo — foi a minha impressão.

As máscaras são apenas para a interação com o funcionário. Porém, no ano todo, com ou sem pandemia, faça chuva ou faça sol, é proibido trilhar de sandálias, sapato de salto, ou outros calçados inadequados à caminhada. Você toma uma multa.

Muitas pessoas vão à praia e depois querem fazer a trilha em havaianas, o que por anos levou os funcionários a frequentemente ter que socorrer pessoas acidentadas. Não vi trechos realmente perigosos, mas há pedaços um tanto íngremes onde um calçado adequado, mais firme, facilitará sua vida. 

Afora a sinalização em vermelho e branco, há por vezes placas assim. Não há dificuldade para se orientar.
Vistas para o mar depois da subida inicial com muitas escadas. Note a altura em que já estamos!
Havia outras pessoas que eu às vezes encontrava, mas não foram muitas. Era capaz de eu passar 10 minutos de trilha sem ver ninguém. (Não costuma ser este o caso nos verões normais. Desta vez, só havia residentes europeus.)
Caminhante, há caminhos.
As belas vistas lá do alto, na trilha entre Monterosso e Vernazza.
Olhem que épico. Já conseguem ver Vernazza ali? Senti-me como no medievo — ou em O Senhor dos Aneis ou algo assim — fazendo estas jornadas a pé até a cidade mais próxima, ali no seio das montanhas.

Após os 30 minutos de subida e os 45 de sobes e desces mais moderados, vieram 15 minutos de pura descida. Tive pena de quem vinha subindo desde Vernazza, no sentido contrário.

Ao todo, foram então 1h30min na trilha (que teoricamente, de acordo com as informações dos folhetos do parque, leva 2h), mesmo com paradas para fotografar. Não é para me gabar, mas para dar uma perspectiva talvez mais realista a quem vier. (E olhe que sou um trilheiro mediano; alguém mais atlético o fará em menos tempo.)

A vista para Vernazza a partir da trilha.

♦ (10:20) Chegada a Vernazza

Senti-me um expedicionário ao chegar a Vernazza. Aquele sentimento de um viajante mercador que acaba de adentrar uma cidade nova até onde fez sua jornada. É uma delícia.

Delícia também foi, chegando de cima, ver as ruelas floridas por onde eu gradualmente descia. Procurei logo uma das muitas torneiras públicas de água potável que há pelas ruas. (O Maps.me às vezes indica as fontes no aplicativo.) O suor precisava ser reposto.

Ainda havia aquele frescor gostoso do fim de uma manhã de verão no ar.

A sensação de adentrar a cidade por estas vias.

Vernazza estava deveras movimentada. Eu quase diria que “no ponto”: com vida, porém sem gente demais.

As lojas já estavam todas funcionando, barracas postas à rua, e gente a se banhar no mar. Há uma prainha modesta na mini-enseada da cidade. Sentei-me para tomar um sorvete.

O movimentado centrinho de Vernazza com seu casario tipicamente colorido.
As ruas de Vernazza naquele fim de manhã. O verão fazendo presente a sua aura.
A prainha que há em Vernazza.
Numa agradável varanda, sentei-me para tomar este sorvete — e só depois da metade é que me lembrei de fotografar. Gelateria em funcionamento desde 1968, naquele estilo tradicional de pôr os sabores do dia no quadro que você vê ali. Escolhi mel e manjericão (basilico), aquela coisa saborosinha singela a cara da Itália.

Tomei meu sorvete numa boa, visitei uma igrejinha de época, e subi até o Castelo Doria, que na verdade é uma pequena fortificação alta (€ 1,50 para o que é basicamente um mirante).

Interior da igrejinha de pedra em Vernazza. (As flores são naturais.)
Acima, rumo ao Castelo Doria, uma fortificação medieval elevada. Prepare as pernas. Paga-se €1,50 para entrar e chegar basicamente a um pátio no alto, onde o belo são as vistas.
Pura provocação.
A vista para Vernazza do alto do Castelo Doria. Confesso não saber exatamente o que é cultivado ali, mas sei que fica um encanto.
Descendo novamente para procurar a saída, avistei esta entrada para a chamada Praia Escondida, mas estava temporariamente vetada por umas reformas que faziam.

Ao todo, levei cerca de 1h em Vernazza. Claro que dá vontade de passar a manhã toda na cidadezinha, mas aí seria preciso dividir as Cinque Terre em várias partes.

Um breve olho no relógio, e hora de começar a buscar a trilha rumo a Corniglia.

Pronto para mais uma pernada, com Vernazza lá atrás. (O cilindro lá na ponta é a torre do castelo onde subi.)

♦ (11:20) Saída de Vernazza rumo a Corniglia

Notem que já estamos novamente deveras elevados aí nessa foto, à saída de Vernazza. Pernas pra que te quero. Deixei para almoçar logo em Corniglia, ainda que isso fosse levar ainda algum tempo. (Preferi esperar a ter que subir escadas de barriga cheia.)

Esta se revelou mais uma trilha bem ondulada. Havia uma subida um tanto puxada, e o sol esquentando conforme nos aproximávamos do meio-dia.

Por sorte, havia Il Gabbiano no meio do caminho. Moradores que resolveram abrir um pequeno negócio. Deus os abençoe.

Ótimo para tomar uma granita de limão fresco — raspadinha feita com suco de limão de verdade, não aquele troço industrial com sabor artificial. Uma delícia refrescante na hora certa. Parecia mágica, você estar ali trilhando e de repente se deparar com isso.

No meio da trilha havia… um bar? Na realidade, uma lanchonete na casa de pessoas que moram aqui. Doces, refrescos… muita coisa de limão que eles aqui cultivam.
Olha que gordice deliciosa para quebrar de vez seu dia atlético de trilha. Afasta de mim esse bolo, pai.
Tomei uma saborosa granita de limão amarelo — suco com raspadinha de gelo — e esta vista. Imagina morar aqui, com esta paisagem? (Notem Corniglia ali adiante.)
Corniglia lá além, onde eu precisava chegar. Era meio-dia, e ainda faltava um caminho.
Trilha entre Vernazza e Corniglia.

Mais adiante nesta trilha, eu reveria um dos ciganos romenos com quem tomei o trem de manhã cedo. Ele estava aqui com uma sorridente mulher, também cigana, a colher esmolas tocando sanfona. A música agradável ecoava pela trilha.

Eu de repente me sentia feito uma versão masculina e mais velha de Dorothy, a personagem principal de O Mágico de Oz, na sua estrada de tijolos amarelos, a encontrar personagens e coisas fabulosas pelo caminho.

♦ (13:00) Chegada a Corniglia, aquela que não tem saída para o mar

Eu chegava a Corniglia tendo caminhado por cerca de 1h15, somada a uns 25 minutos de descanso (tomando suco de limão na janela e depois sentado numa pedra). É, porém, uma trilha com seus muitos sobes e desces — não é uma caminhada de 1h na avenida.

Debaixo do sol do começo da tarde, eu estava oficialmente pronto para almoçar. Desejava que Corniglia me tivesse algo típico, e sem demora encontrei.

Adentrando Corniglia, e descendo rumo ao centro. Alguns homens fazem fila a encher garrafas d’água na torneira pública. Ali adiante, a fachada da Igreja de São Pedro, documentada desde 1267.
O interior restaurado da medieval Igreja de São Pedro em Corniglia. Note as figuras dos evangelistas no teto.
Sentei-me para almoçar. Bom apetite.

Esta foi só a entrada: farinata com pesto. Simples, mas muito saborosa.

A farinata é algo típico aqui da Ligúria, uma massa fina feita de farinha de grão-de-bico em vez de trigo. Se bem feita, tem aquela consistência macia e densa. Fica essa massa amarela levemente salgada que se come até pura — não é como pão que é fofo e sem muito gosto. Já o pesto de manjericão eu cheguei a descrever antes. (Pode ficar um pouco salgado a depender de quem fez, então aprecie com moderação.).

Depois veio a focaccia com queijo e tomate, aquele pão achatado que se espalhou pelo mundo e, você talvez não saiba, tem origem aqui na Ligúria.

Pão focaccia, original aqui da Ligúria, com queijo, tomate, e pesto de manjericão. Para deixar o viajante feliz.

Naquela lanchonete de Corniglia onde aconteci de me deter, eu observava a vida se passar diante dos meus olhos, e a escutava atrás de mim. 

Um italiano branco orgulhosamente careca — que parecia uma versão mais queimada do novo presidente da FIFA — sentava-se com a mulher de costas para mim numa mesa alguns metros à minha direita.

Atrás, não demorou a chegar uma pequena família de franceses: pai, mãe, e duas crianças. Pude escutar toda a briga sobre a limonada, que nos serviram sem açúcar, como é de praxe aqui na Europa, tanto a mim quanto aos franceses.

A mulher achou de dizer — em bom francês — que era mais saudável assim, ao que uma das crianças concordou, e o pai deu um piti. “Eu, eu achei azeda. O que seria do mundo se todos tivéssemos o mesmo gosto? As pessoas podem ter gostos diferentes! Achei azeda.” Eu também achei azeda. A conversa deles depois descambou para um brainstorm sobre formas mais saudáveis de adoçar, como com mel ou mesmo xarope de maple. Eu respirava um ar.

Um casal jovem italiano sentou-se ali perto, com uma moça animada demais, daquelas meio elétricas. Dançava na cadeira a qualquer música que tocasse na rádio. Era divertido. Quando pediu o cinzeiro à garçonete e anunciou-se ser mais uma fumante no meu entorno, após o sósia queimado do presidente da FIFA (ó, Itália!), resolvi me levantar e circular melhor para ver a cidade.

Corniglia se revelaria das minhas cidades favoritas dentre todas estas cinco. Tomei novamente sorvete (Pai, eu pequei), e até umas comprinhas eu resolvi fazer.

É para arregar logo. (Eu certa época tive um professor de filosofia na UFMG em Belo Horizonte, há um tempo atrás, que dizia que se você vai pecar, peque bem.)
Pelas ruas de Corniglia naquele início quente de tarde.
Corniglia.

Dei umas belas voltas. Vi muita gente almoçando, inclusive uma combinação pra mim estranha de presunto de Parma com cortes de melão cantaloupe, daquele alaranjado. Pareceu-me típico.(Cada qual com seu gosto, como sugeriu o francês.)

Corniglia é a única das Cinque Terre que fica completamente elevada, e que portanto não tem praia. Afora as ruelas, há um belo mirante de onde ter lindas vistas.

A vista lá de Corniglia para o Mar Tirreno.

♦ (15:15) Saída de Corniglia

Se você reparar, esta foi a cidade onde mais me demorei — e eu teria ficado mais tempo.

Muito agradável, mas ainda me faltavam duas, e a tarde já estava rumando para a sua metade. Como a trilha que margeia o mar daqui a Manarola está fechada, assim como a famosa Via dell’Amore entre Manarola e Riomaggiore, meus dois trechos restantes seriam em trem. As trilhas por hoje haviam se encerrado.

A estação de trem de Corniglia fica lá embaixo, e uma escadaria inglória espera quem fizer o sentido contrário. No meu caso, bastava descer. Há um microônibus entre a praça principal da cidade e a estação — cuja passagem está inclusa no passe das Cinque Terre — mas eu não quis esperar o próximo. Para descer, todo santo ajuda.

A estação ferroviária fica ali embaixo. Esta é a escada para descer (ou subir), a outra opção sendo a rua, que dá mais voltas, ou o glorioso microônibus que faz o traslado com uma frequência razoável de seus 20-30 min. Eu, porém, cheguei a tempo de vê-lo ir embora, e não quis esperar o outro. Desci.
Todo mundo “de boa” no calor do verão italiano, aquele asfalto gostoso às três da tarde, à estação de Corniglia.

♦ (15:30) Na estação de Corniglia

Estava um “calor da miséria”, para dizer por menos. Não havia uma única sombra na pequenina estação (ô glória!), e todos os ambientes internos estavam ainda fechados devido à Covid. O trem pra Manarola passaria dali a 20 minutos, às 15:50. O jeito era esperar. (Sugiro informar-se sobre os horários destes trens se você fizer o passeio todo em um dia, senão as esperas podem ser maiores.)

Era um calor úmido. Esqueça por ora a fama do clima Mediterrâneo quente e seco; a Ligúria é quente e úmida pela adjacência do mar. Guarde também consigo que, nestas zonas temperadas do globo, a tarde é bem mais quente que o meio-dia. Das 15h às 18h é que o bicho pega, enquanto que nesse horário no Brasil a gente já começa a ensejar uma fresca tardinha. Eu estava grato de já ter encerrado minhas caminhadas do dia.

A metálica voz masculina da estação que diz “alontanarsi dalla linea gialla” de repente soava fruto de algum futuro distópico e excessivamente quente na Terra. A máscara obrigatória, se fazia alguma coisa, era agravar a sensação de distopia.

Sol inevitável sem uma única sombra às 15:30 na estação de Corniglia.

♦ (15:50) O trem passou

Eu nem sei se chegou a fechar 10 minutos. Sentar-se num trem era como sair de fase, fazer uma pequena pausa nesse trajeto das Cinque Terre. Dez minutos depois, eu voltava ao jogo. Manarola é logo a primeira parada.

♦ (16:00) Chegada a Manarola, a 4ª das cinco terras

Nublou, agora que já não precisava mais.

Manarola e Riomaggiore são um pouco distintas das outras no que você caminha por um túnel para ir da estação ferroviária até desembocar já no meio da cidade. Não sei se eu já estava cansado, mas eu as achei mais interessantes para banho de mar que por jeitosas ruelas, diferentemente das anteriores.

São, porém, todas semelhantemente belas na paisagem quando vistas de longe. Em verdade, à distância, achei Manarola até cênica que as demais, pois daqui você tem caminhos laterais de onde tirar boas fotos.

Manarola por sobre a rocha diante do mar.
“La Donna dell’Uva”, escultura em homenagem a uma falecida mulher que suponho ter sido vinicultura da região. Fica num jardim elevado num lado aqui da cidade, com o centro de Manarola ali em vista.
O banho de mar aqui é de respeito.

Deu-me, mais uma vez, vontade de dar um tchibum na água nesta tarde quente. Eu agora já suado após todas aquelas horas de trilha, sentindo o vento do mar.

As ruas do centro de Manarola. Têm um jeito ligeiramente mais comercial.

Circulei bastante por Manarola, as nuvens a dançar no céu sem se decidir se ficavam ou não. 

No centrinho, há esta artéria principal ampla onde aposentados ficam sentados ou passam com algo, cumprimentando animados uns aos outros, os velhos conhecidos, enquanto turistas andam lá e cá.

Claro que você desemboca noutras sorveterias, onde o auto-controle é fundamental.

Esta, a 5 Terre, talvez tenha sido a melhor de todas as sorveterias que eu visitei neste passeio. Tomai nota.

Falando nisso, é aqui em Manarola que fica o restaurante mais recomendado das Cinque Terre: Nessun Dorma.

Eles não fazem reservas, então é preciso pegar fila. Dizem que não se espera uma eternidade. Há, inclusive, quem primeiro visite Riomaggiore e depois volte cá para encerrar as Cinco Terras com um jantar nele, em Manarola.

(Sozinho eu nem sempre faço questão dessas coisas, e tomei tanto sorvete que fiquei sem fome.

Por este túnel se trafega entre o centro de Manarola e sua estação ferroviária. (“Commune de Riomaggiore” na parede é porque esse é também o nome da comuna onde Manarola está.)

Era hora de eu zarpar rumo à última das Cinque Terre.

♦ (17:40) Rumo à estação de Manarola e à Via do Amor

A Via dell’Amore provavelmente é o trecho mais encantado em todo o parque das Cinque Terre. Ela, porém, está fechada para restauração, e apenas seus 200m iniciais estão acessíveis. Você os acessa por uma escada; em caso de dúvida, pergunte a um funcionário da estação.

O início da Via dell’Amore entre Manarola e Riomaggiore.

Fui vê-los, os 200m da Via dell’Amore com seus muitos cadeados enferrujados, de antes de o caminho ser fechado. Quem sabe o que se deu.

Ninguém mais parecia saber que vir até aqui era possível, por uma escadaria velha detrás da estação ferroviária, pois eu estava ali completamente sozinho.

Diz a lenda que reabrirá em abril de 2021; mas é tipo previsão de inauguração de obra de metrô, melhor não tomar por certa.

A Via do Amor, esperando reabrir.

♦ (17:55) Partida de trem de Manarola a Riomaggiore

Esta jornada foi ainda mais curta que a anterior. Pus-me um momento ao celular — olhando sempre a bateria para que durasse até o fim, já que meu passe estava nele — e quase que perco a hora de descer.

♦ (18:00) Chegada à 5ª das Cinco Terras

Aqui eu encerrava a cronometria, chegado que era ao destino final.

Era fim de uma tarde semi-nublada em Riomaggiore. Como em Manarola, um túnel comprido o leva em cerca de cinco minutos da estação ferroviária ao centro, onde novamente uma artéria principal concentra o movimento de pessoas.

O comércio já estava aos poucos se fechando. Alguns jovens ainda tomavam banho de mar, e idosos com ares de aposentados sentavam praça.

Eu tinha interesse em levar para casa uma garrafa de limoncino, o irmão lígure do limoncello do sul da Itália, e logo me pus à fila para entrar num dos mini-mercados. Com o distanciamento social, só permitiam dois por vez.

A diferença entre o limoncello e o limoncino, em tese, é a origem dos limões. Ninguém soube me explicar se há qualquer diferença na feitura. As receitas de fundo de rótulo me parecem iguais, e os sabores também são semelhantes. Os mesmos 30 graus, embora você encontre algumas versões de 25%.

Na artéria principal de Riomaggiore, naquele fim de tarde quente que voltava a nublar.
Algumas pessoas sentadas, e as flores da época.
Limoncino em Riomaggiore.

No porto, Riomaggiore me lembrou alguma antiga “enseada dos piratas”.

Ela é mesmo daquelas épocas, com suas alcovas de pedra, ar de pequeno porto escondido, e cantos ou recantos ali onde muita coisa aconteceu nos tempos quando os barcos não traziam turistas, mas mercadores, pescadores, marujos e treteiros.

Foi a única das cinco cidades que me teve um ar de “arraial dos pescadores” à italiana.

O cais de Riomaggiore.
Seu jeito de esconderijo dos piratas.
Os edifícios coloridos com as roupas a secar — a cara da Itália.
As vistas magníficas naquele entardecer.
Suado após o longo dia nas Cinque Terre.

Assim eu encerrava este longo dia, ali diante do mar em Riomaggiore. Ainda vi os últimos raios de sol antes de as nuvens tomarem novamente conta. O pôr do sol acabou sendo nublado. Ocorre. O dia já havia tido o seu brilho.

Depois de uma viagem inesquecível, era de retornar a La Spezia para, na manhã seguinte, tomar meu rumo a outra região da Itália. Valeu, Ligúria.

O mar em Riomaggiore.


DICAS FINAIS

♦ Cada um tem seu ritmo, mas minha preferência foi por fazer as trilhas logo pela manhã, e após o almoço relaxar mais. O mais bonitinho de tudo são as cidades, desde quando as vemos de longe até o passear por suas ruelinhas, tomar sorvete várias vezes, etc.

♦ Lembre-se de que a época do ano afeta a duração dos dias. Só é possível você chegar às 19h, 20h com o sol raiando entre maio e setembro. Nos meses frios do ano, o pôr do sol é mais cedo.

♦ Evite os fins de semana — são mais cheios. Você pode achar que nas férias não faz diferença, mas há muitos italianos e franceses aqui perto que vêm justo no fim de semana. Fica ainda mais repleto de gente.

Em qual cidade se deter mais? Praia (Monterosso); Banho de mar (Riomaggiore ou Manarola); sorvete (Manarola é o melhor); comprinhas (Vernazza e Corniglia); compras de mercado, de produtos italianos com preço de supermercado e não de loja de souvenir (os mercadinhos Coop 5 Terre em Manarola ou Riomaggiore; ou veja se acha em La Spezia).

Qualquer outra coisa, é só perguntar nos comentários.

Vejo vocês na próxima.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

One Reply to “Cinque Terre em um dia: A rota mais famosa da Itália

  1. Meu Deus!… essas Cinque Terre existem e são um pedacinho do Céu na Terra. Acho que o senhor, meu jovem, descobriu o paraíso!… Nossa. Surreal essa beleza. Parece fotoshop, Diria saída do computador… Coisa de cinema.
    Difícil descrever a emoção diante de tanta beleza natural e produzida pelo ser humano. Esplendorosa. Os olhos repousam nesse azul diáfano, nesse cenário fantástico e não mais querem sair daquela imagem tão bela. Fantástica. E você não consegue parar de contemplar. Uma beleza. Amei
    Todas lindas, fofas, mimosas, joias raras de beleza, arte, historia e cultura, isso sem falar na beleza natural da região, da estação com suas flores e céu azul, e do soberbo Tirreno. Cenário perfeito. Um encanto para os olhos, para o coração e para a alma. Ficaria muito feliz em conhecer, mas pelo visto é mais para jovens, como o senhor, meu caro amigo viajante. E o senhor conseguiu a proeza de fazê-lo em um dia só. Haja pernas.
    As flores, o céu, o mar, o relevo acidentado, as construções antigas, dão um toque mágico às cidadezinhas. Parece que se entrou em um lugar encantado e irreal. Foi um sonho. Acordei. Sonhei que visitei um paraíso na terra, hahah
    Linda viagem. Das mais bonitas postadas pelo senhor. Parabéns pela escolha do lugar e pela linda postagem. Amei. Eita Itália bela.

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