Itália

O oculto lado histórico de Milão

Milão evoca moda, negócios, a Itália moderna, e no máximo uma pitada de história com sua linda (e imensa) catedral gótica. Costuma ficar nisso.

Ela é aquela cidade que sequer fazia parte dos típicos itinerários turísticos dos brasileiros viajando pela Itália. Florença, Roma e Veneza eram as rainhas (provavelmente ainda são), com uma paradinha rápida para ver a torre inclinada de Pisa.

A galeria comercial Vittorio Emanuele II, que todo mundo visita em Milão, com suas requintadas lojas de grife.

Milão era vista — e em certa medida ainda é — como uma cidade essencialmente comercial, das grifes, do dinheiro, mas não tanto de legado histórico ou artístico a visitar. 

Pus a observação em parte no passado porque essa é uma visão que aos poucos vem mudando, conforme as pessoas passam a conhecer melhor Milão.

Eu próprio me incluo nessa. Quando visitei pela primeira vez a cidade no fim de 2013, me diziam que bastava ver o impressionante Duomo de Milão (a catedral) e pronto. Não houve quem contradissesse aquela impressão limitada. Cheguei a ver a Pinacoteca di Brera, assim espontaneamente, mas ficou só naquilo.

Vim a Milão já quatro vezes até o momento, e cada nova vez descubro algo de que não sabia antes. É esta experiência que continua a crescer e que compartilho com vocês aqui.

Afinal, de onde surge esta cidade que hoje é a segunda maior da Itália, mas de que mal ouvimos falar na Antiguidade ou na Renascença? Você já sabia que há até castelo medieval em Milão?

Dragão símbolo medieval da cidade de Milão.
Vamos entrando, senhoras e senhores.

Milão, faça-se nota, é uma rara metrópole europeia que nem está à beira-mar nem possui acesso a um rio navegável, caso você nunca tenha reparado.

Quem teve a ideia de fundar a cidade num lugar desses? Mediolanum, como Milão era conhecida na Antiguidade, era uma urbe celta no meio das planícies (medio-lanum), e que veio a ser conquistada pela república romana em 222 a.C.

Roma nas décadas seguintes viria a dominar todo este norte italiano, que viria a chamar de Gallia Cisalpina — ou seja, deste lado dos Alpes, diferente da Gallia Transalpina, a atual França. Todos porém sabemos que o interessante ao império romano era o Mar Mediterrâneo e suas trocas com as outras grandes civilizações: gregos, egípcios, cartagineses, persas. Os lugares a norte de Roma e no miolo da Europa eram vistas como um quintal relativamente primitivo.

Durante as famosas invasões bárbaras que viriam a derrubar o Império Romano do Ocidente, Átila, o huno, chegou a sitiar Milão em 452 d.C. Dali a algumas décadas, em 539 d.C., ela seria novamente arrasada, desta vez pelos godos (origem do adjetivo “gótico”) em combate com romanos de Constantinopla que tentavam reter o controle da cidade. 

Os romanos do oriente, ditos bizantinos, ainda segurariam a cidade sob o comando distante do grande imperador Justiniano, mas Constantinopla, o novo centro imperial, ficava muito distante. Permaneceu aqui apenas uma pequena guarda que não resistiria ao avanço dos lombardos, povo germânico que chegaria para ficar. O nome atual da região onde fica Milão, Lombardia, se deve a eles.

Se os italianos do norte são por vezes alourados e de olhos claros, em contraste aos bem morenos italianos do sul com seus cabelos negros (e por vezes sangue árabe), leve essa migração em conta. 

A migração dos lombardos, povo germânico que no século VI, segundo a teoria mais aceita, migrou cá desde o atual sul da Suécia.

(Aí você vê como estes povos — mesmo os europeus — são misturados, e como a noção nacionalista de fronteiras é repleta de fantasia. Talvez, se dentre outros os suecos e italianos levassem mais em conta que são aparentados, a União Europeia tivesse uma integração melhor.

Carolus Magnus, em quadro do século XVI pelo magnífico pintor alemão Albrecht Dürer.

Calma que a gente já chega no emblema do dragão. 

Os lombardos se converteram ao cristianismo e reinaram gozosos aqui até os idos de 774, quando Carlos Magno, rei dos francos (742-814), cruzou os Alpes na direção contrária ao que haviam feito os romanos e conquistou estas terras de cá. Ele se proclamou também o novo rei dos lombardos e, em 800 com a coroação do papa, Sacro-Imperador Romano Germânico, o primeiro de todos, o fundador. 

Foi nesse bojo medieval que tivemos cidades-estado, condados, baronatos, etc. Milão se tornaria um ducado a partir de 1118, e começando em 1277 ficaria sob o comando da família Visconti, que tinha como símbolo uma cobra — dizem que inspirados numa serpente de bronze que o arcebispo de Milão trouxe de Constantinopla. Feito Pokémon, o símbolo da cobra depois evoluiu para um dragão.

Se você reparou bem na foto do emblema, o dragão está a devorar uma pessoa de cabelos cacheados — um mouro, pois quase todas estas identidades medievais do sul da Europa se compuseram na guerra constante contra os árabes muçulmanos no Mediterrâneo. 

Emblema da Família Visconti, que acabou por passar à cidade de Milão. É chamado de biscione, aumentativo masculino do latim bestia. Ou seja: é o bestão.

Os Visconti foram destronados em 1477, mas não antes de comandar a construção do imponente Duomo de Milão. Eles construíram também uma série de canais por onde trazer as pedras, já que por aqui não há nenhuma.

A catedral viria a ser construída com mármore de Candoglia, oriundo dos Alpes.

Se você notar, a Catedral de Milão é excepcional na Itália por seguir o estilo gótico transalpino, assemelhando-se às igrejas góticas da França (ex. Notre-Dame) ou da Alemanha (ex. a catedral de Colônia). Nada muito a ver com o enfeitado gótico toscano ou lígure que se vê noutras partes da Itália. 

A Catedral de Milão, erigida em estilo gótico transalpino — como suas semelhantes na França ou na Alemanha — com mármore de Candoglia a partir de 1336.
Santo Ambrósio barrando a entrada de Teodósio na Catedral de Milão (1619-1620), quadro do mestre barroco belga Anthonis van Dyck. O original se encontra na Galeria Nacional em Londres. Embora a igreja à época não fosse o imponente duomo que é hoje, o quadro mostra o que teria se passado no século IV, quando Santo Ambrósio, bispo de Milão e hoje padroeiro da cidade, teria proibido o próprio imperador Teodósio (347-395 d.C.) de adentrar a igreja e receber a comunhão, devido ao Massacre de Tessalônica perpetrado em 390, quando em resposta ao linchamento popular de um oficial romano, tropas imperiais massacraram 7 mil homens, mulheres e crianças em três horas. (E você aí acha que hoje é que o mundo está louco?)

Voltemos à Milão medieval — já com Duomo — quando em 1450 a família Sforza toma o poder. Ela foi quem deu origem ao belo Castello Sforzesco, erigido ainda no século XV e que hoje abriga um complexo de nove museus: os Museus Cívicos (Musei Civici). 

Dada a sua posição cada vez mais estratégica entre a península itálica e a Europa ao norte dos Alpes, Milão logo se tornaria próspera, embora também alvejada por muitas coroas europeias.

O Castelo Sforzesco, erigido no século XV pela família Sforza, que governava Milão, por sobre uma fortaleza mais antiga.
Suas fortificações.
Pátio interno de acesso livre. Hoje o castelo abriga um complexo com nove museus, os Museus Cívicos.

Esse castelo mudou de mãos diversas vezes. Franceses, espanhóis e os Habsurgo da Áustria disputaram o controle daqui a ferro e sangue. 

Retrato de época de Ludovico, o Mouro (1452-1508). Foi grande patrono das artes, e mecenas do seu contemporâneo Leonardo da Vinci. Foi o último soberano de Milão, antes de as potências estrangeiras a tomarem.

O último duque realmente independente de Milão foi Ludovico Maria Sforza (1452-1508), mais conhecido, curiosamente, como Ludovico, o Mouro, pela sua cor. (A palavra “moreno” deriva disso, viu gente?)

Ludovico patrocinou trabalhos de Leonardo da Vinci, seu contemporâneo, e se acredita ter sido ele quem comissionou a famosíssima A Última Ceia.

Da Vinci, que também fazia arranjos musicais, foi quem orquestrou (no literal da palavra) o casamento de Ludovico. Imagine tê-lo como seu maestro de cerimônia?

Como a nobreza europeia é toda aparentada, aconteceu porém que o novo rei de França, Luís XII, era neto de uma certa Valentina Visconti — da família que havia governado Milão. Esse foi o álibi perfeito para o monarca francês se achar no direito legítimo de retomar o que fora da avó.

Luís XII tomaria Milão, e esse domínio francês duraria algumas décadas, até perderem-na para os espanhóis. Que farra.

O Castelo Sforzesco hoje com italianos lombardos a gozar um pouco de ar livre após os lockdowns da pandemia.

Como vocês podem ver, Milão tem seu currículo.

Ela permaneceria por séculos sob a coroa espanhola, tal como também Nápoles e a Sicília. Isso duraria até a Guerra da Sucessão Espanhola (1701-1714), quando Carlos II — também conhecido como Carlos, o enfeitiçado — morreu sem deixar herdeiros.

A Áustria foi quem dessa vez abocanhou estes domínios, retendo-os por todo o século XVIII até Napoleão Bonaparte passar o rodo na Europa. Após um breve período republicano, Napoleão até mesmo se coroou em 1805 — em pleno Duomo de Milão — como Rei da Itália.

Fotografia de Giuseppe Garibaldi tirada em 1866.

Uma vez derrotado Napoleão, os austríacos voltaram, algo que os milaneses não queriam. Em 1848, rebelaram-se como tantos outros povos subjugados na Europa, e logo se juntaram ao Reino da Sardenha e Piemonte (dos Saboia) para dar volume ao movimento de Unificação Italiana que ganhava tração.

Giuseppe Garibaldi (1807-1882), um dos líderes desse movimento nacional e general sob o rei sardo Vittorio Emanuele II, tem uma estátua bem de frente ao Castelo Sforzesco em Milão — além de tantas outras Itália afora.

Vale dizer que foi nessa guerra contra os austríacos, numa fuga em 1849, que faleceu ainda aos 27 anos a sua esposa, a brasileira Ana Maria de Jesus Ribeiro, mais conhecida como Anita Garibaldi, febril numa complicação da gravidez do seu quinto filho. Giuseppe ainda viveria décadas de liderança italiana após aqueles anos de juventude no Brasil, até falecer em 1882.

Uma vez unido este norte da Itália sob uma única coroa, Milão despontaria como centro econômico da próspera região. A unificação total do país se alcançaria em 1861 com Roma capital.

Estátua do general Garibaldi em Milão.
A Galeria Vittorio Emanuele II em 1943 após bombardeio dos Aliados em Milão, durante a Segunda Guerra Mundial.

O que Milão veio a se tornar na modernidade todo mundo sabe.

A famosa Galeria Vittorio Emanuele II, na praça do Duomo, está hoje benissimamente restaurada. O que afligiu e chamou a atenção à Lombardia recentemente foi ela ter concentrado a grande maioria das fatalidades de Covid-19 na Itália: um terço dos casos e metade das mortes de todo o país, ainda que seja sua região mais rica.

Há muitas hipóteses. A principal é a descentralização dos serviços de saúde na Itália desde os anos 90. Houve um desmantelamento do sistema pública; os serviços de saúde na Lombardia ficaram predominantemente privados, com investimentos que — seguindo a lógica de mercado — optavam por áreas mais rentáveis. O campo de doenças infecciosas pouco recebeu atenção. Deu no que deu. (Você pode ler mais a respeito disso em inglês aqui.)

Sabendo do ocorrido como todo mundo, eu chegava a Milão nesse verão europeu de 2020 a imaginar o que encontraria.

No trem matinal desde La Spezia, na Ligúria, até a estação Milano Centrale, aqui na Lombardia. Os assentos marcado em vermelho são vetados, e linhas no chão agora distinguem as portas de entrada das de saída para reduzir o contato. É o obrigatório o uso de máscara no interior.

O Mar da Ligúria estava algo lúgubre naquela manhã. Nuvens escuras davam-lhe um ar quase invernal, embora fizesse calor. Aquele prenúncio de tempestade à vista. As minhas pernas ainda estavam meio moídas pelo dia intenso nas Cinque Terre.

Eu estava curioso para ver o que encontraria agora no pós-pandemia na histórica cidade de Milão.

Vendo o Mar da Ligúria, nas adjacências de Gênova, antes de o trem tomar rumo a Milão continente adentro.

Eu havia lido que, excepcionalmente, aqui na Lombardia era obrigatório o uso de máscara também nas ruas, mas isso não se mostrou verdade. Se era mesmo, isso ficava na teoria. Apenas dentro dos transportes o uso era geral.

No metrô de Milão. Note os sinais no chão e os assentos com sinal de indisponível, para distanciar os passageiros.

O metrô, de fato, estava deveras mais quieto que das demais vezes em que vim à cidade. Ainda assim, como você pode ver, havia gente.

Milão não estava exatamente um ermo, ainda que sua emblemática estação de trem — a imponente Milano Centrale — estivesse cheia de lojas fechadas, seções cerradas, e fitas tipo aquelas postas pela polícia quando bloqueia alguma cena de crime.

Fora dali, todavia, a vibração seguia a mesma. Muita gente com cara de indo para o expediente, e os tantos africanos e indianos às praças com suas traquitanas a vender — ou agora sendo entregadores de comida por aplicativo. Não sei se vi um único italiano entregador de aplicativo; todos, de bicicleta com suas mochilinhas térmicas rosa-choque ou verde-limão, pareciam-me imigrantes morenos.

Num parque amplo que visitei perto do Castelo Sforzesco, os milaneses tomavam sol na grama ou corriam. Às praças, ou na Via Dante entre o castelo a praça do Duomo, tampouco faltava gente.   

Milano Centrale quando eu cheguei. Havia gente, mas menos que o habitual bafafá que é. Muitas seções e lojas seguiam fechadas.
Alguém de pernas pro ar neste verão de 2020, num dos parques de Milão, com um arco do triunfo — versão menor — ali em homenagem a Napoleão I, que no século XIX foi quem começou com essa ideia de um “Reino da Itália”.
A Via Dante, aberta a partir de 1888 entre o Castelo Sforzesco e a praça do Duomo, a catedral de Milão.
Atrás, com vista para o castelo.
O charme das construções.
O Duomo ali adiante, ao fim da rua.
A Galeria Vittorio Emanuelle II, em homenagem ao dito “Pai da Pátria”, rei da Sardenha que logrou unificar toda a península italiana num só estado.
Inaugurada em 1877, a Galeria Vittorio Emanuele II segue sendo a mais famosa de Milão, com suas lojas de grife.
É um chiquê danado.
E ali o Duomo.

Essa catedral eu (re)mostro melhor no post seguinte. Inclusive com a subida ao seu telhado, agora possível, e algo que eu nunca tinha feito antes.

Estejam apresentados, ou reapresentados, a um pouco da história de Milão.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

One Reply to “O oculto lado histórico de Milão

  1. Milão sempre bela, charmosa, elegante, majestosa, cheia de vistosa arquitetura, com seu Duomo maravilhoso, secular, que desperta a atenção e deslumbra o olhar de quem aprecia suas linhas magnificas e sua pujança. Um espetáculo para os olhos. Linda. Magnifica arquitetura, lindo casario e a elegantérrima Galeria Vittorio Emanuelle ll , com seu charme e encanto. Belíssima.
    Avultam também suas praças bem arborizadas cheias de verde, floridas e bem cuidadas. Seus monumentos, calçadões e belas artérias. Uma bela e tradicional cidade, capital de estratégica e importante região italiana.
    Grande Garibaldi, Giuseppe Garibaldi, chamado Herói de Dois mundos, pela sua luta nas batalhas de tentativas de libertação tanto na Europa como na América do Sul, particularmente no Brasil, na Guerra dos Farrapos e no Uruguai contra Rosas, da Argentina. Uma das suas mulheres foi a brasileira Ana, chamada Anita Garibaldi que também lutava ao lado dos Farroupilhas. Tomaram Laguna em Santa Catarina. Hoje há um monumento a ela naquela cidade. Grande estrategista, ele. Famoso.
    Terrível essa cena da Galeria bombardeada na 2ª Guerra. Detesto guerras.
    Amei a bela praça com a estátua de Garibaldi. Muito bonita. E o parque com o seu elegante arco do triunfo. E claro, o Duomo.
    Muito interessante essa história de Milão. Como também muito bonito esse castelo com seu ar medieval, seu antigo portão, suas fortificações, sua torre e seu estilo antigo, Parece respirar a Idade Média.
    Sempre muito agradável ver e rever Milano.

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