Itália

Visitando “A Última Ceia” original de Leonardo Da Vinci em Milão

Eu por muitos anos me perguntei onde, afinal, ficava o original de A Última Ceia, talvez a mais famosa pintura do mestre Leonardo Da Vinci (1452-1519) após a Mona Lisa (La Gioconda). Que a Mona Lisa original está no Museu do Louvre em Paris quase todo mundo sabe; mas e A Última Ceia?

Mesmo durante todo o bafafá criado pelo livro — e depois filme — Código Da Vinci, com a polêmica instigada pelo autor Dan Brown de que a pessoa à direita de Cristo não seria João, mas Maria Madalena. Acho que vi mais documentários e comentários analisando a obra do que eu precisava, e curiosamente foi somente este ano que localizei e logrei ver a original.

Está em Milão, no antigo refeitório da Igreja de Santa Maria delle Grazie. Não é um quadro — nunca foi — mas um mural. Sim, Leonardo pintou na parede e não numa tela.

A Igreja de Santa Maria delle Grazie, ou Nossa Senhora das Graças, erigida em 1463.
De outro ângulo, com destaque para o domo feito pelo arquiteto renascentista Donato Bramante no fim do século XV.
O belo interior da igreja num estilo gótico italiano, e com as cadeiras bem espaçadas para distanciamento social.
Santa Maria das Graças, no interior da igreja.
Charme do interior de Santa Maria delle Grazie com a luz da tarde.

(A igreja é de entrada livre, mas tenha em conta que ela fecha para o almoço às 12h e só reabre às 16h. De toda maneira, o acesso ao antigo refeitório e à pintura de Leonardo é por outra entrada.)

Em 1494, o duque de Milão, Ludovico Sforza — mais conhecido como Ludovico, o Mouro, e de quem falei um pouco num post anterior — comissionou a Leonardo da Vinci que retratasse a última ceia de Cristo numa das paredes do refeitório dessa igreja.

Levaria anos, até 1498, para que a pintura ficasse pronta. Dizem que um prior do mosteiro chegou a reclamar que o trabalho estava demorando demais, ao que Leonardo teria dito que, se ele reclamasse muito, poria suas feições no rosto de Judas. Glup.

São afinal 4,6m de altura por 8,8m de largura, numa técnica ousada que permitiu tons mais ricos, mas se mostrou de difícil conservação.

Este não é um dos famosos afrescos mas um secco, que combina óleo e têmpera (aglutinante usado em pintura, como clara ou gema de ovo). Só era recomendada para detalhes, mas Leonardo resolveu fazer o mural inteiro nessa técnica.

Il Cenacolo [tche-NÁ-colo], é como ficou mais conhecida em italiano.

O original de A Última Ceia (1498), de Leonardo da Vinci, no antigo refeitório da Igreja de Santa Maria delle Grazie.

A perspectiva de Leonardo é fascinante, assim como a expressão que põe na face de cada um dos apóstolos.

A quem não sabe, esta não é uma mera pintura da ceia final de Cristo com seus discípulos, mas o momento imediatamente após Jesus anunciar que sabia que um deles o trairia. 

Na verdade, na verdade vos digo que um de vós me há de trair.
Então os discípulos olhavam uns para os outros, duvidando de quem ele falava. (João 13: 21,22)

Logo à esquerda de Jesus: Tomé, Tiago maior, e Filipe (nesta ordem).
Mais adiante na mesa, Mateus, Tadeu, e Simão, o zelote, discutiam.
Na outra ponta, (da esq à dir) Bartolomeu, Tiago menor e André pareciam estupefatos.
O trio final: Judas Iscariotes, com o cotovelo na mesa; Pedro, a questionar, e requerer que João perguntasse quem era; e João, plácido como parecia ser de sua natureza. No centro, Jesus.

A habilidade de Leonardo e outros pintores renascentistas em retratar as emoções foi o que revolucionou a arte sacra europeia, até então modelada nos padrões bizantinos de figuras em geral inexpressivas.

Da Vinci também inovou ao incluir Judas. Esta não foi a primeira vez que pintaram a última ceia de Cristo, mas em geral punham Judas como uma sombra, ou de costas. Leonardo humanizou-o bem ali. Você pode retornar à foto para ver melhor.

Por fim, a polêmica saborosa de que ali à direita de Jesus seria Maria Madalena, não João.

É curioso, mas não procede. Leonardo da Vinci era conhecido por retratar homens de forma um tanto andrógina, e João era bastante jovem, ao contrário dos outros, já homens maduros e barbudos.

Nenhum dos quatro evangelistas reporta que Madalena estivesse presente na ceia. E se ali fosse ela, onde estaria João?

Por fim, outros pintores à época já haviam retratado Madalena em suas obras — não teria sido isso um problema.

A obra por inteira. É passível de se ficar um longo tempo ali analisando.

Um longo tempo, porém, não é permitido ficar. Você tem 15 minutos para apreciar a obra, até que o funcionário solicitará que os visitantes sigam caminho. 

Você reserva uma hora exata de entrada através do site oficial do chamado Cenacolo Vinciano. As entradas custam €15, e possuem identificação individual. Cerca de 20 minutos antes, você se apresenta à recepção e troca sua reserva pelo ingresso propriamente dito. Reserve com semanas de antecedência, se não meses    

É permitido tirar fotos sem flash. A obra deteriorou-se com relativa rapidez pela técnica que Leonardo usou. Já em 1517, vinte anos após completada, já há notícias de deterioração. À altura do século XIX estava quase sumida, e foi um feito ter escapado da destruição quando os Aliados bombardearam Milão — inclusive esta igreja — em 1943.

A obra vem sendo restaurada periodicamente desde o início do século XX, com técnicas cada vez mais sofisticadas, que permitem recobrar os tons exatos usados por Leonardo e os detalhes de suas expressões. A restauração mais recente se deu em 1999. Meus olhos tiveram a impressão de estar vendo uma pintura recente de tão vívida.

A entrada para o Cenacolo Vinciano.
Visitando A Última Ceia, a original.
E, para não omitir, na parede oposta do antigo refeitório há uma outra obra da mesma época, esta um afresco. Crucificação, de Giovanni Donato da Montorfano (1460-1513). A cena da morte de Cristo diante de Jerusalém.
Os detalhes.
E aqui, sim: São Domingos imaginado de um lado, São Tomás de Aquino do outro (ambos de preto), e agarrada à cruz diante da morte de Jesus, Maria Madalena. A interpretação é livre.
Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

5 Replies to “Visitando “A Última Ceia” original de Leonardo Da Vinci em Milão

  1. Interessante notar que Judas, ou seja, “o judeu”, era o único moreno. Na verdade com traços mais próximos da imagem imaginária sobre os semitas.

  2. Emocionante. Magnifica a perspectiva de Da Vinci.. Impressionante. Belíssima sua capacidade de demonstrar as emoções dos apóstolos, a placidez de Jesus e de João e o agito dos demais. Verdadeiramente uma Obra Prima. e que bom que se está tentando recuperar essa maravilha. Momento dramático belamente retratado. Perfect. Gostaria muito de apreciar tamanha beleza. Amo pintura e arte sacra. Obrigada, jovem viajante por esse presente. Maravilhoso. Fiquei encantada.

  3. E que linda essa Igreja de Santa Maria Delle Grazie. Esse gótico Italiano é uma graça. Lindo e leve. Gostoso de ver.
    Quanto ao afresco da crucificação de Cristo na pintura faltam Maria, mãe de Jesus que segundo os evangelhos estava “de pé” (stabati), aos pés da cruz de Jesus e Maria mãe de Tiago e João, primos de Jesus.

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