Itália

Parma, Itália: Belezas e gostos na cidade de origem do queijo parmesão

Você jura que nunca havia se perguntando de onde surgiu o nome “parmesão”?

Este post não é exclusivo sobre ele — é sobre a cidade e suas atrações —, mas é que não dá para falar de Parma sem também falar de comida, como vocês verão.

A estação ferroviária de Parma naquela manhã, na Região da Emília-Romanha.

Parma surgiu no meu caminho a partir de um daqueles males que vêm para o bem.

Eu, em verdade, deveria estar em Milão num voo de volta à Suécia após este bordejo pela Itália, não tivesse a Brussels Airlines cancelado repentinamente o meu voo. (A propósito, não recomendo a empresa.) Vieram com historieta de voucher para usar até o ano que vem, sendo que eu tinha de voltar para casa esta semana.

Você liga e vai parar num daqueles call centers na Índia, com gente terceirizada e de sotaque carregado com quem nem dá gosto criticar a companhia aérea.

Após uma discussão, arrumaram-me um voo no dia seguinte. Aqui entre nós, me rendeu mais um dia na Itália. Mais tempo para ver destes aparentemente infinitos destinos belos que a Itália tem.

Viajar na pandemia tem desses contratempos, embora a Brussels Airlines seja atrapalhada até no mais limpo dia de sol. Depois você me diz se acha que ainda assim vale a pena.

Vou começar já jogando uma carta forte na mesa.

Este é o teto da Catedral de Parma pintado por Correggio (1489-1534). Daqui a pouco falo mais sobre ele e o mostro melhor.

Naquela manhã, eu me vi indo para Milano Centrale tomar um trem em vez de para o Aeroporto de Malpensa. Era ainda o início fresquinho de um dia que prometia sol. Eu tinha grandes planos para hoje, então era preciso começar cedo.

Arranjei logo um croissant com recheio de pistache acompanhado de um café na estação. Eu não gosto do microscópico café habitual dos italianos, então costumo lhes pedir um americano — ao que desta vez a mulher me veio com um daqueles copázios de meio-litro à là Starbucks. (Nem oito nem oitenta, né amiga?)

Enfim, meu brioche — como eles aqui chamam o croissant — estava uma delícia. Eles na Itália os fazem todos com massa de panetone. É engraçado, há de se notar a diferença, mas com o recheio de pistache — e bombado pelo café — eu fui ao céu logo de manhã.

Vem ni mim, Parma.

De manhãzinha à estação central de Milão, ainda com certa cara de sono antes do café.
Acordai. Meu magnífico brioche com recheio de pistache. (Desculpem esta pornografia alimentar logo de manhã.)
O belo saguão de Milano Centrale com seu baile dos mascarados naquela manhã.

Parma se revelaria uma cidade pacata, embora não seja exatamente miúda (são 330 mil habitantes).

Estávamos não mais na Região da Lombardia, mas agora na vizinha Emília-Romanha. É a mesma grande região onde ficam também as cidades de Bolonha, Módena, Rimini, e outras.

Desci na estação e segui a caminhar para o centro. Procurei o rio que vi no mapa, na verdade um ribeirão (menor que um rio) que leva o mesmo nome da cidade, mas encontrei seu leito praticamente seco e cheio de mato. Havia até mendigos sob a ponte onde deveria haver água.

Caminhando em Parma ao lado do ribeirão seco naquela manhã. São uns 20 min da pé da estação ferroviária até o miolo do centro.
O pátio público e coberto à entrada do portentoso Palazzo della Pilotta. O tapete vermelho leva ao interior do museu palaciano que eu à tarde visitaria.
Vista para o centro da cidade de Parma por entre as arcadas, com a dama a passear com seu cachorro.
O Teatro Régio de Parma, inaugurado em 1829.

Permitam-me uma breve digressão para falar desse período e explicar um pouco do passado de Parma, pois nem só do parmesão vive o homem (nem a mulher).

Esse teatro da foto só se tornou “régio” quando a Itália passou a ser um reino unificado em 1861. Ele originalmente foi inaugurado décadas antes como Nuovo Teatro Ducale. Ou seja, teatro ducal, pois Parma era à época um ducado. Governado sabe por quem? Maria Luísa da Áustria, a segunda ex-mulher de Napoleão Bonaparte. 

Eu tratei recentemente sobre Napoleão no post da visita a Ajaccio, sua cidade natal na Córsega (França). Ele se casou em 1810 com Maria Luísa da Áustria na esperança de se consolidar monarquicamente na Europa inteira. Isso foi embora ela tivesse ódio dos franceses, que em 1793 haviam guilhotinado a sua tia-avó, Maria Antonieta, última rainha de França antes da revolução.

(Sim, a decapitada Maria Antonieta era austríaca mas era rainha da França. Estamos antes do nacionalismo. Não havia essa fantasia de que gente nascida no mesmo pedaço de terra se deve laços maiores de solidariedade. O importante era o sangue azul. As realezas europeias eram quase todas relacionadas.)

Retrato da Imperatriz Maria Luísa (1810), pelas mãos do pintor François Gerard.

Napoleão e Maria Luísa tiveram um filho em 1811, Napoleão II, apelidado de O Rei de Roma por ser aparentemente herdeiro (através de sua mãe) do Sacro-Império Romano Germânico, ainda que este império já não existisse mais desde que Napoleão provocou sua dissolução em 1806.

Quando Napoleão é derrotado em 1812 na sua campanha para invadir à Rússia, as demais potências europeias acabam por miná-lo. Ele abdica, exila-se na Ilha de Elba (perto de Livorno aqui na Itália) em 1814, mas Maria Luísa não o acompanha.

Ela retorna ao seio da sua família austríaca, mas fica entre a cruz e a espada, sentindo-se angustiada no conflito entre a filiação sanguínea e a matrimonial. Dizem que ela queria ter ido se juntar a Napoleão no exílio.

De toda forma, ele voltaria para um reinado breve até ser novamente derrotado na Batalha de Waterloo em 1815. A Maria Luísa, com um pé na realeza austríaca, garantiram-lhe como consolação o título de Duquesa de Parma, aonde ela viria morar.

Bem aqui nesta cidade, meus caros. A Itália nessa época ainda era uma colcha de retalhos de pequenos ducados e reinos quase sempre sob alguma outra coroa europeia, como a Espanha, a França, ou a Áustria.

Maria Luísa viria a se casar de novo e ter outros filhos, vivendo até 1847.

O jovem Napoleão II chegaria a reinar por duas semanas, mas faleceria muito jovem de tuberculose aos 21 anos. A ele, de toda maneira, não foi permitido vir a Parma pois os monarcas da Europa não quiseram um descendente de Napoleão na linha de sucessão de lugar nenhum.

Napoleão Bonaparte viria a falecer em 1821 no seu segundo exílio na Ilha de Santa Helena, mas Maria Luísa viria a se casar de novo e ter outros filhos, vivendo até 1847.

Foi nessa sua época como Duquesa de Parma que o teatro foi inaugurado. Logo ele ganharia notoriedade europeia pelo enorme talento do contemporâneo da duquesa, o compositor italiano Giuseppe Verdi, nascido aqui perto.

Retrato de Giuseppe Verdi (1886), pelas mãos do pintor Giovanni Boldini.

A duquesa Maria Luísa não chegou a ver as agitações políticas que se sucederiam — ela morreu antes das insurreições de 1848 —, mas logo ganharia corpo o chamado Ressurgimento (Risorgimento), o período de construção social e política de um nacionalismo italiano no século XIX.

Giuseppe Verdi (1813-1901) participou desse movimento como um dos seus maiores expoentes culturais. Sua primeira grande ópera foi Nabucco (1842), que narra a dor dos hebreus subjugados sob a Babilônia no Antigo Testamento, com versos suspeitos como: 

O mia patria, si bella e perduta.

Tão bela e perdida, minha pátria. (Olha como certos versos guardam validade por tanto tempo e através das distâncias.) Se foi de propósito ou não, não sei, mas ressoou com o sentimento de muitos italianos de então.

Verdi escreveu então La Traviata (1853) e chegou a se engajar na política. Depois de um hiato artístico, retornaria com suas óperas ainda mais famosas, como Aida (1871) e Otello (1876). (Você acha tudo isso hoje no YouTube.)

A liderança política cairia na mãos de um outro Giuseppe. Aqui uma estátua de Garibaldi, a olhar para a idosa de máscara diante do Palazzo del Governatore. Daqui governaram duques de Parma. A última reforma arquitetônica, nestes ares mesmo de Europa Central, foi sob Maria Luísa.
Não muito longe dali, um monumento aos partigiani, os partidários comunistas — a turma que alçou como hino de resistência a famosa canção Bella Ciao — que resistiram ao fascismo italiano mais tarde, quando o nacionalismo descambou.

O centro de Parma é relativamente pequeno, e entre uma rua e outra você se depara com esses vários monumentos.

Visitei também uma grande quantidade de igrejas mais antigas que tudo isso. 

A neoclássica Igreja de Santo Alexandre (Chiesa de Sant’Alessandro). Alexandre I foi bispo de Roma, e portanto papa, entre 105-115 d.C. A igreja foi construída a partir de 1527 durante o Renascimento italiano.
A enfeitada Igreja de São Roque (Chiesa di San Rocco), barroca, completada em 1754.
Por fora, o Santuário de Santa Maria della Steccata, completado em 1539.
O interior do domo em Santa Maria della Steccata, com a Assunção de Maria pelo pintor renascentista Bernardino Gatti (1495-1576). (Quando eu entrei estava tendo missa, então esta foto é da Wikimedia Commons, por Livio Andronico.)
A Basílica de Santa Maria della Steccata com sua abóbada cercada de estátuas sacras. A cara da Renascença italiana.

Era hora de uma breve merenda, pois já fazia algumas horas desde aquele brioche de pistache na estação de Milão.

Achei uma sanduicheria típica que recomendo muito, a Pepèn. Boa para um lanche casual com coisas de qualidade, sem ingredientes vagabundos industrializados de fast food

Providenciei uma carciofa, torta salgada típica aqui em Parma. Carciofa literalmente é alcachofra em italiano — e eles adoram. Se você encontra coisas tipo pastel de alcachofra no mercadão de São Paulo e acha estranho, saiba que é certamente por influência italiana. Só que aqui em Parma esse nome denota (também) uma torta salgada com alcachofra, queijos e manteiga. Fica uma maravilha.

Minha carciofa, uma torta amanteigada aqui em Parma com alcachofra, ricota e parmesão.

O prosciutto de Parma é o que o presunto industrializado tenta imitar. Não há comparação. Mas como a maioria das pessoas jamais vai experimentar o original, engolem o sapo. Digo, o porco, processado industrialmente com saborizantes artificiais de toda sorte.

Prosciutto, e também o português “presunto”, vem do latim pro exsuctus. Significa algo que foi seco. Faz com pernil de porco, e os italianos o comem como uma iguaria até com melão — o que acho uma combinação um tanto curiosa, para dizer por menos.

Prosciutto não é algo exclusivo de Parma, mas o de Parma é talvez o mais famoso, especialmente sua versão crua, que é curada a seco e envelhecida.

É também pela imigração italiana que, espalhado a partir de São Paulo, o Brasil de hoje pegou hábito de comer presunto. 

Presunto com melão, combinação típica italiana (foto do site Buonissimo.it). Deus me livre. Esse é o cru; o presunto cozido (cotto) é mais rosado, mas mesmo assim não há comparação com aquela massa industrial processada que se vende mundo afora.

O queijo parmesão também é daqui, e provavelmente o produto mais famoso de Parma.

Em toda a União Europeia, há uma designação de origem protegida (D.O.P.) certificando por lei que apenas o queijo corretamente produzido e desta proveniência possa dizer ser de Parma (“parmesão”). Fora da Europa, incluso no Brasil, aí é o Deus-dará. Provavelmente é tudo menos parmesão, especialmente aquele que já vem ralado.

Por exemplo, é muito comum que o queijo similar, Grana Padano (originado mais ao norte na Itália, na região da Lombardia, onde fica Milão), seja vendido como parmesão. Não tem o mesmo gosto, advirto-vos.

O verdadeiro parmesão é o parmigiano-reggiano, imbatível na sua categoria. Um queijo envelhecido, de 12-36 meses de idade, quebradiço, feito com leite não-pasteurizado de vacas criadas soltas aqui na região da Emília-Romanha, mais especificamente nos prados entre as províncias de Parma e de Reggio-Emília, daí seu nome. (Reggio-Emilia é para não confundir com Reggio-Calabria. São basicamente duas cidades chamadas Reggio, uma lá no sul na Calábria, e outra cá no centro-norte na Emilia-Romanha.)

Filei um sanduíche com filetes de queijo parmesão na Pepèn que ficou obsceno demais para compartilhar aqui, com o pão abocanhado, então vai o queijo.

O queijo parmesão verdadeiro, o parmigiano-reggiano. Acha-se no Brasil se você procurar, embora invariavelmente seja mais caro que suas imitações. Quanto mais envelhecido, mais saboroso (e maior o preço).

Feito o lanche, era hora de seguir à catedral para ver aquela famosa pintura de Correggio. A Itália é assim, como quem veio aqui sabe: os prazeres e a contemplação constantemente se alternam entre a boca e os olhos.

A Praça da Catedral (Piazza del Duomo) de Parma tem dos enquadramentos mais belos da Itália, com o octogonal Batistério de São João, terminado no século XIII, ao lado da Cattedrale di Santa Maria Assunta, do século XII.

A Catedral de Parma e seu Batistério, ambos do fim da Idade Média.
De outro ângulo.

Cheguei a tempo de ver, enquanto eu tirava fotos, um imigrante árabe — talvez sírio — que vinha para o que me pareceu ser uma entrevista de emprego no prédio do episcopado. Foi-lhe dito na maior rispidez e sem a menor cerimônia na porta da rua que voltasse amanhã.

Ele foi desabafar com alguém no telefone, e eu fui ver o interior da catedral.

O interior da Catedral de Parma, consagrada em 1106 e dedicada à assunção de Maria.
A entrada. O estilo arquitetônico do seu interior é tido como um misto de romanesco e renascentista.
O teto da nave da igreja em detalhes.
Mais adiante sob a cúpula, a obra de Correggio, A Assunção da Virgem (1530), com este efeito de perspectiva tendo Maria sendo levada aos céus rodeada de anjos e demais figuras.

Você fica ali debaixo olhando, com o pescoço envergado até ele incomodar. O efeito de perspectiva e os detalhes da obra são impressionantes.

Correggio se chamava Antonio Allegri (1489-1534); Correggio era o vilarejo de onde ele provinha, aqui perto. Esses apelidos por lugar de origem eram comum na época. Só para constar, Caravaggio tampouco se chamava Caravaggio: seu nome era Michelangelo (vish). Não confundir com Michelangelo Buonarroti, pintor da Capela Sistina. São tantas emoções, como diz Roberto.

Para completar esta parte sacra do périplo por Parma, vejam esta bela igreja barroca de São João Evangelista, uma das raras dedicadas a ele.

A Igreja de São João Evangelista em Parma, de 1519.
Seu interior mescla aspectos renascentistas e barrocos. Obras continuaram sendo feitas ao longo dos séculos seguintes à sua inauguração.
Aqui uma obra de 1687, Visão de São João Evangelista em Patmos, do pintor Giovanni Merano. Essa visão teria sido o que foi escrito no bíblico Livro do Apocalipse.
O altar com mais decorações ao fundo.
Ali ao fundo, a obra Coroamento da Virgem, por seu filho Jesus, uma obra de Cesare Aretusi (1549-1612) seguindo um original de Correggio com esta mesma temática e que hoje se encontra na Galeria Nacional de Parma.

Você pode, se quiser, também adentrar o Batistério de Parma, aquele edifício octogonal adjacente à catedral, mas neste dia ele estava fechado. (O Google lhe informa todos os dias e horários de abertura. Atenção com os fechamentos das igrejas à hora do almoço.)

Eu daqui faria algo ambicioso.

Fui a Módena, a meia-hora de distância, ver umas coisas por lá — que vos contarei no post seguinte — e retornei a Parma, que fica no caminho de volta para Milão, para ainda ver mais coisas. (Neste dia eu estava virado. Um beijo, Brussels Airlines.)

De Módena eu conto depois. No fim de tarde ao retornar a Parma, fui finalmente conferir o interior do Palazzo della Pilotta, por onde passei no início e com o qual encerrarei este post.

O palácio leva esse nome — você não vai imaginar — devido ao nome pelota em espanhol, que quer dizer “bola”. Lembra que no meu post sobre o pano de fundo histórico de Milão eu comentei que a coroa espanhola tomou umas posses por aqui? Pois bem, os soldados espanhóis às vezes jogavam bola enquanto guardavam o palácio, daí seu nome.

Bola em italiano é palla; aqui ajustaram do espanhol e ficou pilotta mesmo. Hoje, ele é um complexo museal com obras da Roma Antiga, a invejável Biblioteca Palatina, e o impressionante Teatro Farnese — anterior ao Teatro Ducal que vos mostrei no início.

Venham cá pra dentro.

À tardinha, diante do Palazzo della Pilotta, onde outrora jogaram bola soldados espanhóis. Hoje é um complexo de museus. Há várias partes, mas você paga uma só entrada.
Muitos retratos de época, inclusive da duquesa Maria Luísa e seus muitos contemporâneos.
Dois colossos romanos de basanito, rocha ígnea semelhante ao basalto, do século II d.C., trazidos de um dos palácios dos imperadores em Roma (o Domus Flavia). Impressionante ver estas obras originais aqui.
Baco, o Dionísio dos gregos, e um fauno.
Do outro lado, Hércules.

Ambas as estátuas foram castradas — como tantas outras — por pudor da Igreja, como você pode notar. Elas foram trazidas para cá em 1724, inicialmente para decorar um jardim, e depois postas onde estão sob a observância da duquesa Maria Luísa em 1822. 

Antes de esses austríacos serem os duques, Parma, tal qual Milão, esteve nas mãos dos espanhóis e também dos franceses. Foi sob os Bourbon — dos famosos “Luíses”, cujo XIV foi sol e cujo XVI viria a ser guilhotinado na revolução — que em 1761 se ordenou a construção da Biblioteca Palatina, também aqui. Ela é felomenal, como dizia o personagem do finado José Wilker.

A Biblioteca Palatina (ou seja, do palácio), numa nomenclatura com evocações também romanas. Foi inaugurada em 1761 quando Parma estava sob o domínio francês.
Quero uma dessa em casa. Ela é hoje uma biblioteca pública.

Havia aqui uma biblioteca anterior, que os espanhóis levaram embora para Nápoles na década de 1730. Ela era a Biblioteca Farnesiana, relativa aos Farnese, a família que comandou o Ducado de Parma durante seus anos soberanos, entre 1535 e 1731, antes das ocupações estrangeiras.

Ranuccio Farnese (1569-1622), Duque de Parma que comissionou o teatro, em retrato de Cesare Aretusi (o mesmo pintor da coroação de Maria). Note a gola típica do século XVII.

Foram os Farnese que ordenaram a construção de todo este palácio em 1583, e mais adiante em 1618 a do renascentista Teatro Farnese, que você ainda pode visitar aqui dentro.

É curioso, pois esse teatro foi construído com relativa rapidez para ser inaugurado quando o poderoso Cosimo Médici, de Florença, estivesse de passagem por Parma numa viagem que ele previra fazer até Milão.

Não aconteceu. Dom Cosimo ficou doente e cancelou a viagem. O teatro foi largado pronto e não inaugurado (feito obra política de hoje em dia) por 10 anos, até que em 1828 — numa cerimônia com a devida presença da filha de Cosimo, Margherita de Medici — o inauguraram.

Ainda que do ponto de vista político tenha sido uma obra sob medida para estreitar os laços entre Parma e Florença, do ponto de vista sociocultural foi a reinvenção do teatro, a redescoberta do modelo Antigo, rompendo com o medievalismo que limitava apresentações a passagens bíblicas e sempre dentro de igrejas ou em praça pública, como nas procissões. O teatro enquanto tal havia desaparecido e agora ressurgia.

O Teatro Farnese, com clara inspiração nos da Antiguidade clássica.
Com detalhes renascentistas.
A frente atual do teatro. Ali em cima os dizerem em latim, para a vossa compreensão: RAINVTIVS FARNESIS PARMÆ ET PLACENTIÆ DVX IV CASTRI V AVGVSTA MAGNIFICENTIA APERVIT ANNO MDCXVIII. (Boa diversão traduzindo. Deixo a dica que ele era duque de Parma e também de Piacenza, aqui perto.)

Minha dica final é que, do outro lado da rua do palácio, o sorvete da Gelateria La Pilotta é uma delícia. Está mais que recomendada.

É mesmo uma cidade de encantos tanto mais os olhos quanto para a boca.

Do pistache ao pistache hoje, tal qual Roma foi de Rômulo a Rômulo.
Parma. Estejam apresentados.
Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

One Reply to “Parma, Itália: Belezas e gostos na cidade de origem do queijo parmesão

  1. Que maravilha, meu jovem amigo. Que beleza de cidade. Encantadora, como a própria Itália, com sua cultura magnifica, sua arte que atravessa os séculos, sua belezas naturais, suas construções soberbas, sua história grandiosa e polêmica, cheia de feitos heroicos, mas também de dominação e martírios, mas sempre a Itália… Belíssima. Terra de sonhos e de belezas ímpares. Até os nomes das cidades são sonoros e belos. Cada uma com sua graça, suas particularidades e beleza. E Parma é uma delas. Encantadora.
    Amei as suas construções antigas, seu casario de época, seus templos magníficos, de estilos requintados, recortados, outros mais simples e também elegantes, seus belos interiores suas fachadas, sua arte sacra e profana, seus belos museus e palácios, seu teatro belíssimo, sua impressionante biblioteca, seus monumentos, e que enchem os olhos de quem aprecia a arte e a História. Magnificas: arte, historia e cidade. Avulta a grandiosidade dos interiores. Estonteante aquelas pinturas dos tetos dos templos, as cores magnificas, a riqueza dos detalhes, a profusão de cenas e acontecimentos registrados, os tons, o jogo de luz e sombra, suas arcadas elegantes tudo respira beleza e bom gosto. Belíssimos quadros . Lindas cúpulas. Fantástico acervo cultural.
    Apreciei também as ruas bem arborizadas, com bastante verde, as praças também bem cuidadas e aprazíveis a linda arquitetura e a bela natureza da região, apesar do desgaste do curso d’gua.
    Interessante a história de Maria Luísa, pouco falada na História Contemporânea.
    Apesar de desagradável, o importante registro da mutilação das estátuas. Uma das marcas que desabonam a história da Igreja ao longo dos séculos.
    Amei a postagem e a oportunidade de conhecer Parma.
    Verdade. Não tinha me dado conta de que o famoso parmesão era de Parma.
    By the way, que horror, meu amigo essas companhias aéreas. Deus me livre. Ainda bem que o senhor transformou o limão numa bela limonada. Lucramos nós que fomos apresentadas a essa linda cidade.
    E haja sorvete e altas comilanças. hahah É isso ai. Apreciar o que há de bom nas regiões é necessário.
    Obrigada. Valeu. Que venham mais belezas.

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