Suécia

Visitando o Palácio Drottningholm em Estocolmo, a morada do rei e rainha da Suécia

Eis um dos dos palácios barrocos mais impressionantes da Europa. Ao contrário de muitos, ele não copiou, mas surgiu em paralelo a Versailles, na França, quando aquela era a moda das realezas europeias. Estamos aqui na década de 1660.

No interior de Drottningholm.

Drottningholm quer dizer “ilhota da rainha” (da mesma forma que Estocolmo, ou Stockholm, significa “Ilhota dos Troncos”, pelos troncos de madeira que, no tempo medieval, eram postos ao redor da ilha para protegê-la de incursores).

Estocolmo, a capital sueca, fica num arquipélago junto do continente, e uma dessas múltiplas ilhas é onde fica o Palácio Drottningholm.

João III, Rei da Suécia (1537-1592). Era filho de Gustavo Vasa, aquele cujo navio de época segue preservado num museu homônimo em Estocolmo.

Embora originalmente levantado em 1580 sob ordens de João III, rei da Suécia, para a sua polonesa esposa Catherine Jagellon, o palácio ganhou seus contornos atuais e notoriedade no século seguinte. Ali foi reformado sob comando de uma das mais interessantes — e poderosas — personagens da História sueca: a geniosa rainha Hedvig Eleonora.

Os portugueses a chamavam de Edviges Leonor, mas eu vou aqui manter seu nome original e como os suecos a conhecem.

Nascida em 1636 e filha de nobres germânicos, ela se casou aos 18 anos com o rei sueco Carl Gustav X, o primeiro da nova e também germânica casa real Wittelsbach. 

Christina Vasa (1626-1689), rainha da Suécia que abdicou aos 28 anos e foi embora para Roma.

Aqui eu preciso explicar duas coisas. Primeiro, que a linhagem dos Vasa, desse João III e seus ancestrais, perdeu o poder na Suécia quando sua última representante no trono, Christina Vasa (1626-1689), “vazou” para Roma e abdicou do trono.

Christina era conhecida como a “Minerva do Norte” pelo seu letramento notório, patrocínio das artes, e também rebeldia. Chocou seu mundo social quando declarou que não pretendia se casar. Em sua autobiografia, escreveu que sentia “um desgosto insuperável pelo casamento” e “tudo o que as mulheres conversavam e faziam“. Dizem que estudava as ciências, as letras e as artes todo o tempo; dormia três a quatro horas por noite, não se detinha a pentear os cabelos, e usava sapatos masculinos por conveniência.

Aos 28 anos, Christina abdicou do trono sueco e foi embora para Roma. Converteu-se ao catolicismo, abandonando o luteranismo protestante da realeza sueca, e envolveu-se com os jesuítas na Contra-Reforma. Ela chegou, inclusive, a ter o nosso Padre Antônio Vieira como seu confessor num dos seus interlúdios europeus antes de regressar à Bahia.

Era muito comum, portanto, que um novo monarca viesse de outro lugar e “adotasse” um reino.

A segunda coisa a explicar é que Christina abdicou em favor de seu primo, um germânico Wittelsbach. Na época não havia a mínima importância que o monarca fosse um “estrangeiro”. Eu sei que isto é difícil de entrar na cabeça de pessoas do século XXI, mas lembrem que não existia a ideia de nação. Quem partilhava algo era a nobreza e realeza europeia como um todo — a gentalha não importava.

Era muito comum, portanto, que um novo monarca viesse de outro lugar e “adotasse” um reino. Foi assim com a monarquia mais famosa do mundo, por exemplo. Elizabeth II — sim, a famosa Rainha da Inglaterra — tem origem germânica. Saxe-Coburg é seu sobrenome original. O atual nome Windsor foi adotado em 1917 pelo seu avô George V. Em plena Primeira Guerra Mundial, quiseram evitar confusão popular ou sentimentos desagradáveis contra a monarquia, já que os britânicos combatiam os alemães na época.

O fundamental sempre foi, portanto, que a pessoa viesse de uma família nobre, que fosse uma aliança política útil e, é claro, alguém da religião “certa”. Neste caso, os suecos sendo protestantes luteranos, deserdaram Christina quando ela se bandeou para o catolicismo em Roma.

Hedvig Eleonora (1636-1715), Rainha da Suécia.

Esse seu primo da família Wittelsbach assumiu a Suécia como Carl Gustav X e se casou então com a também nobre germânica Hedvig Eleonora. Inclusive, foi Christina quem sugeriu o arranjo ao passar por terras alemãs no caminho para Roma — veja você.

Carl Gustav X, porém, não viveria muito. Hedvig ficaria viúva aos 23 anos, em 1660. Foi aí que sua a vida de poderosa começou.

Quando o antigo Palácio Drottningholm original de João III pegou fogo em 1661, foi ela quem o reconstruiu ao seu gosto. Enquanto isso, lá na França, Luís XIV fazia o mesmo com Versailles, que até então nada mais era que uma modesta residência de caçadas para Luís XIII.

Uma das seções mais notáveis do Palácio Drottningholm é a sua escadaria de entrada, em mármore e com esculturas das nove musas, obra do artista flamengo [hoje Bélgica] Nicolaes Millich.
As nove musas são figuras da mitologia grega, deusas responsáveis por inspirar os artistas dos diversos ramos. Esta aqui com a máscara é Melpômene, a musa das tragédias.
O interior do Palácio Drottningholm com seus vastos salões. Ainda que menor que Versailles, ele é impressionante. Influências e retoques do século XVIII e, mais tarde, também do XIX se acumulam na sua estética.

Hedvig Eleonora foi formalmente rainha apenas nos seis anos que precederam a morte do seu marido; mas na prática, foi rainha por 61. Como?

Quando seu filho Carl XI (1655-1697) herda a coroa aos meros quatro anos de idade, sua mãe é quem se mantém como regente. Vocês aí sabem como isso funciona.

Dizem que os embaixadores de outros reinos, já sabendo como a banda aqui tocava, cumprimentavam primeiro a mãe.

Aos 17 anos, Carl XI seria formalmente coroado ao atingir o que era então a maior idade na Suécia, mas Hedvig Eleonora é quem na prática segue mandando. Mesmo depois que ele se casa e adquire, portanto, uma rainha, ele se referia à mulher como “minha esposa”.

“A rainha” era reservado para a mãe — quem realmente mandava. Ou como ele às vezes se referia, “Vossa Majestade a Rainha minha Prezada Dama Mãe“.

Um recanto de audiências da Rainha Hedvig Eleonora no século XVII. Notem-na ali, no quadro à direita, sendo aclamada.
A viúva rainha sueca Hedvig Eleonora em destaque na pintura, no trono.
O quarto da rainha viúva nas cores azul e dourado da Suécia, é claro. O estilo barroco que dominava na Europa daquele tempo se vê por toda parte.

Dizem que os embaixadores de outros reinos, já sabendo como a banda aqui tocava, cumprimentavam primeiro a mãe e só depois a rainha de fato, com quem Carl XI se casou. Esta se chamava — só para nos confundir — Ulrika Eleonora, uma filha do rei da Dinamarca.

Ela morreria antes da sogra, diga-se de passagem. Em 1693, faleceria de uma doença não identificada. Parece ter sido uma pessoa boa, e dizem que o luto foi tanto que faltou roupa preta na cidade para quem queria comprar.

Quatro anos depois, morreria também o rei antes da mãe. Avaliou-se depois que se tratou de câncer de estômago. O rei teria dito, no seu leito de morte, que perdera a felicidade depois que a esposa morreu.

O rei Carl XI no seu leito de morte em 1697, em retrato pelo pintor e nobre sueco David Klöcker Ehrenstråhl.

Ascendeu ao trono Carl XII, neto de Hedvig Eleonora, aos 15 anos de idade. Ele, no entanto, era um tanto menos cordato que seu pai. A avó teve mais trabalho, embora seguisse no topo da monarquia sueca.

À minha graciosa dama avó agrada-lhe perdoar-me. Doravante eu nunca mais beberei vinho.

Dizem que, certa vez, o rei estava enchendo a cara — ao que ele pelo visto era dado com frequência em festas e arroubos no palácio — quando, trêbado, deparou-se com a avó.

Ela, que só para constar era de escorpião, olhou-o sem dizer nada. Ao que ele, geminiano festeiro, virou a taça de vinho para o chão e declarou: “À minha graciosa dama avó agrada-lhe perdoar-me. Doravante eu nunca mais beberei vinho.

Se ele passou a beber outra coisa, eu não sei, mas dizem que de fato não mais tomou vinho depois dessa.  

Suas iniciais neste símbolo que está por toda parte até hoje em Drottningholm. Hedvig Eleonora Regina Suecia, em bom latim. (“Regina” sendo “rainha” em latim, pra quem não sabe.) Note as quatro letras sobrepostas.

Hedvig Eleonora seguiria no comando do reino durante as ausências do seu neto, o rei, como quando ele saiu em campanhas militares na Grande Guerra do Norte (1700-1721).

Os adversários nessa guerra foram sobretudo os russos, mas não apenas. A Suécia a essa época dominava terras também do outro lado do Mar Báltico, onde são hoje Polônia, Estônia, Letônia e Lituânia. Nessa grande guerra ela as perderia, ficando então limitada ao lado “de cá” do mar, seu território atual.

Em 1715, a longeva monarca sueca finalmente faleceria. Três anos depois, morreria o rei em batalha, e ascenderia ao trono sua irmã, portanto neta de Hedvig Eleonora: Ulrika Eleonora, a jovem. (É para dar um nó na cabeça da gente.)

Há partes do Palácio Drottingholm que são mais recentes, já desse século XVIII, de após a Grande Guerra do Norte. Nas fotos abaixo vocês podem comparar e observar as diferenças.

Este é o estilo barroco do século XVII…
… o teto, tudo nas cores azul e dourado da Suécia…
… e este é o estilo mais leve do século XVIII, o dito Século das Luzes, do Iluminismo. Aqui uma biblioteca feita por ordem da Rainha Louisa Ulrika entre 1747-1760.

Um dos lugares mais interessantes do palácio é o Salão de Estado (Hall of State), onde ocorreu o baile de casamento da Rainha Louisa Ulrika no século XVIII.

Em meados do século XIX, ele seria redecorado com retratos pintados dos principais monarcas da época. 

Oscar I, Rei da Suécia entre 1844 e 1859, ali (estrategicamente) posto entre talvez seus pares mais poderosos: Napoleão III da França (à esquerda) e a britânica Rainha Vitória.
Francisco José da Áustria (1830-1916), que aqui achei curioso de ver jovem, seus retratos quase sempre sendo mais tardios, de um homem já velho e de barbas brancas.
O quadro estava longe e posicionado contra a luz, mas eis Pedro V de Portugal, dito “o esperançoso”, e que reinou de 1853-1861. Era neto de Pedro I, o que declarou a Independência do Brasil em 1822 e reinou brevemente como Pedro IV em Portugal.

Muito tempo depois disso tudo, eu visitava este palácio onde ainda vivem os atuais rei e rainha da Suécia.

A parte histórica aqui de Drottningholm é aberta ao público como um museu. Já a ala esquerda do palácio é privativa, onde acontecem de morar o rei Carl Gustaf XVI e a teuto-brasileira rainha Sílvia.

Eles têm três filhos já crescidos e que não moram mais aqui: a princesa herdeira Victoria (nascida em 1977), o príncipe Carl Philip (1979), e a princesa Madeleine (1982), a caçula.

No meio da moçada, notem o idoso rei Carl Gustav XVI; a Rainha Silvia sentada no banco; à direita da foto a filha mais velha e princesa herdeira Victoria; atrás ali galante de cabelos pretos penteados para trás o príncipe Carl Philip; e aqui à esquerda da foto, sentada no braço do banco e toda prosa, a princesa mais nova, Madeleine.

Eles são todos da Casa Bernadotte, a dinastia que governa a Suécia desde 1818, após as Guerras Napoleônicas. Sim, é um sobrenome francês. Foram buscar um nobre lá no sul da França numa cidade chamada Pau (é verdade), um tal Jean Bernadotte que aqui virou Carl Gustav XIV da Suécia. Veja como são as coisas.

Eles portanto têm origem francesa, mas não procederia dizer que “são franceses”. A gente aí entraria numa longa discussão sobre o que significa “ser francês”, e vale lembrar que já se foram muitas gerações em que o sangue de Jean Bernadotte — lá de Pau — vem se misturando ao de esposas suecas ou de outras bandas. O Bernadotte fundador desta dinastia é 1/64 da genética do rei atual.

Para deixar claro, o previsto é que a princesa Victoria se torne monarca, pois como em alguns outros países há uma lei de primogenitura absoluta — isto é, a coroa passa à filha ou filho mais velho, seja quem vier primeiro, independente do sexo. Se isso se concretizar, ela será a primeira rainha sueca reinante desde Christina Vasa e Ulrika Eleonora.

O Palácio Drottningholm em Estocolmo, morada do rei e rainha da Suécia.

Drottningholm continua lindo, embora não seja o Rio de Janeiro e muito tempo tenha se passado desde os idos de Hedvig Eleonora. Ainda que ela tenha sido rainha regente e não reinante, é o seu símbolo com as iniciais H.E.R.S. sobrepostas que seguem decorando o palácio.

Ao seu redor, há um belo e amplo jardim feito mesmo naqueles mesmos moldes de época de Versailles — árvores simetricamente dispostas, copas bem cortadas, tudo exibindo a mão humana. Distinguindo-o, portanto, da natureza selvagem, vista à época como caótica e desordenada. Lembrem-se de que Descartes (1596-1650) já então fazia suas ideias presentes na intelectualidade europeia.

Alamedas nos arredores do Palácio Drottningholm.
Seus amplos jardins, que na primavera são floridos. Aqui, porém, já era um fim de verão com ares de princípio de outono e um céu nublado.
A guarda sueca do palácio.
Drottningholm ao longe em meio aos jardins feitos à mão.
Jovens a caminhar por entre os jardins.
Palácio Drottningholm.

Naquela tarde de outono precoce, eu já via as primeiras folhas amarelas do ano dançarem ao vento no chão. A filha da minha amiga sueca Susanna corria pelo gramado aprontando uma e outra.

Fomos ainda ver a simpática cafeteria do palácio (que propagandeio aqui) e o Pavilhão Chinês, uma edificação separada e feita em moldes imaginados chineses no século XVIII, quando era moda a fascinação das elites europeias pelas coisas do Oriente.

O café com horário e tudo a quem se dispuser a vir.
O Pavilhão Chinês do Palácio Drottningholm.

O ônibus 177 o traz aqui após três breves paradas desde a estação de metrô Brommaplan, na linha verde. É bastante fácil vir. Recomendo fazê-lo entre as 12h e as 16h, quando encontrarão também o café aberto.

No fim de semana seguinte, eu curiosamente visitaria uma outra morada real sueca, de outros tempos, e que relato a seguir.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

3 Replies to “Visitando o Palácio Drottningholm em Estocolmo, a morada do rei e rainha da Suécia

  1. Uuuu que maravilha!… Adoro palácios, Não para morar, até porque não tenho sangue azul hahaha, mas para visitar e ver as belezas. E este é dos mais belos.
    Magnifico, elegante, charmoso, de um bom gosto a toda prova, ricamente decorado, com seu maravilhoso mármore rosa que é um verdadeiro encanto, sua impressionante galeria retratando várias gerações, seu espetacular estilo, suas belíssimas linhas arquitetônicas. Um esplendor.
    Belos salões e ricos lustres. Charmosa a Biblioteca. Os tons dourados e azuis ficaram espetaculares. Lindos recantos, formoso quarto . Um luxo. A esplanada ampla, bem cuidada e ajardinada do Castelo, com linda fonte, é um espetáculo à parte.
    Parece que se está na Franca. Lindo. Amei
    .

  2. E que história interessante. Poderosa a rainha. Pelo visto reinava e governava.
    E a Mocinha a Cristina Vasa, pelo visto sabia o que queria e aonde tinha o nariz.
    Quanto ao sangue francês de Bernadotte e Désirée, sua esposa, convido o ilustre viajante a ler o interessante romance de Annemarie Selinko, da década de 1950, Désirée, o grande amor de Napoleão Bonaparte. Nele, Bernadotte aparece como um dos grandes generais de Napoleão Bonaparte, e ela, Désirée, sua esposa, como o grande amor do mesmo Napoleão. Segundo a autora, Napoleão a teria deixado pela importante aliança com Josefina. Désirée, preterida por Napoleão, casou-se com Jean Batiste Bernadotte vindo a se tornar rainha da Suécia. Curiosidades da História.

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