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Tanzânia

Experiências e tretas pelas ruas da Cidade de Pedra (Stone Town) em Zanzibar

(Este será um post longo.)

Bem-vindos à Cidade de Pedra. Há tanta coisa nesta foto que eu nem sei por onde começar. Se pelo árabe comilão que flagrei ali atrás, pelo olhar trocista do tio olhando a minha selfie, ou pelo meu próprio “visual de Guma”, como me chama a minha goiana colega de trabalho quando me vê assim. (Quem for muito jovem ou não conhecer, assista a Porto dos Milagres na internet.)

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Como foi a minha chegada a esta terra que até o século passado viu escravos sendo levados e trazidos pelos seus belos mares?

Não confie em ninguém na rua.“, advertiu-me Kassim enquanto dirigia. Foi-me pegar ao aeroporto de Zanzibar por ordem do hotel, este senhor muçulmano de seus 55 anos e aquele chapeuzinho redondo típico, um breve barrete de pano. Falava-me animadamente de quando, há décadas atrás, trabalhou numa companhia de navegação de carga e acabara indo parar no Brasil.

Não visitou o Rio de Janeiro nem o Nordeste, mas Santos. Eu tentava explicar a ele sobre o Brasil que ele não viu.

Se você quiser organizar algum tour, não peça na recepção. Eu trabalho pro hotel, mas este carro é meu. Eu sei que eles não tem carro nenhum e vão lhe botar com qualquer um. Se algo acontece, e aí?

Eu me senti quase Ned Stark chegando a Porto Real e sendo alertado por Mindinho a não confiar em ninguém. Como conheço como essa história termina, tomei com um grão de sal o próprio Kassim. (A quem não conhece As Crônicas de Gelo e Fogo, o homem a fazer tal alerta é o próprio que depois trai a confiança de quem chegou.)

Eu vou lhe deixar o meu cartão.” Está certo, Kassim. 

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Kassim me trouxe ao elegante Hotel Mizingani. Nada grã-fino demais, mas elegante e bem localizado.

Suas escadas exibiam a elegância daquela madeira de desmatamento que você hoje olha com sentimentos mistos. Nas varandas, madeira bem talhada formava divisórias finas com os apartamentos vizinhos e franjas sob o telhado. Este estilo zanzibári do século XIX sofre tanto influências indianas quanto, sim, dos portugueses que estiveram aqui antes.

Por toda parte, exalava-se aquela atmosfera moura semelhante à encontrada no Marrocos. Curioso como este mundo de influência árabe se assemelha. A vista para o pátio interior do hotel, com sua piscina e arcos persas (esse ogival gordo) nas varandas me lembravam uma pousada onde fiquei em Marrakech.

Lá fora, o vigoroso mar tropical exibindo-se aos coqueiros, gentes negras na orla como no Nordeste do Brasil.

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As escadarias no Hotel Mizingani, onde me instalei em Zanzibar.
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Suas varandas com madeira talhada, os detalhes do telhado de influência indiana. Há muitos mercadores indianos imigrantes aqui desde os tempos das especiarias, do marfim e dos escravos no apogeu destes comércios aqui no século XIX.
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Um jeito mouro, árabe, de estética islâmica no hotel que me lembrava a pousada onde me instalei logo que cheguei ao Marrocos, em Marrakech.
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Varanda com vista para o mar logo ali defronte.
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Pelas ruas, por fora das emblemáticas e decoradas portas de Zanzibar, o que havia à minha espera na Cidade de Pedra?
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A orla de Stone Town, a Cidade de Pedra, parte histórica de Zanzibar City, a capital desta ilha tanzaniana.

A rua da costa pareceu-me Salvador, só que mais negra. Havia uma densidade de pessoas de cor escura apenas raramente contrastada com alguém de tez morena feito eu — às vezes um árabe, um indiano, um outro turista de lugar tropical — ou algum europeu ou anglófono branco.

Era curioso notar essa distinção: não-negros éramos uma ínfima minoria. Casais, famílias passeando, jovens a pular no mar ou jogar capoeira (sim), e crianças a brincar faziam um oceano social de gentes escuras. Era um ambiente fisicamente muito semelhante ao Brasil, com seu mar, árvores e clima tropicais, mas onde a gente negra era o padrão — sem aquelas conhecidas tensões racistas ocidentais.

Na praça da orla onde as pessoas congregavam naquele fim de tarde — os ditos Forodhani Gardens —, simpáticas moças negras em vestes quase sempre brancas de cozinheira ou garçonete punham-se atrás de barraquinhas a vender churrasquinhos, sucos, e uma miríade de outros preparos. Havia frutos do mar a rodo — um infeliz me mostrou polvo como se fosse a criatura mais apetitosa do mundo — além de banana, fruta-pão, mandioca, e espetinhos de frango ou carne.

Acabei tomando um suco de banana com maracujá e sorvete de baunilha — algo que nunca me havia ocorrido misturar, mas que acabou por ficar uma beleza.

O Velho Forte Árabe, feito sobre antigas edificações portuguesas do século XVI, estava ali dando testemunho histórico a um lugar que, hoje, já tinha uma atmosfera leve e jovial.

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O coreto no centro dos Forodhani Gardens, na Cidade de Pedra.
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A beira-mar logo ali, o sol aos poucos a se pôr.
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Você via um ou outro tanzaniano em trajes islâmicos tradicionais (quase todos aqui em Zanzibar são muçulmanos), mas a grande maioria das pessoas se vestia à maneira ocidental. Fazia seus 25 graus no ar.
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O histórico Velho Forte Árabe, erigido logo após 1698, quando o Sultanato de Omã captura Zanzibar após duzentos anos de domínio português aqui.
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Com a mesma latitude de Natal, no Rio Grande do Norte, esta costa da Tanzânia mostrava-se semelhante aos outros tópicos onde os portugueses puseram os pés. Fosse o Brasil, fosse Goa, numa Índia não muito longe dali, onde as seculares edificações históricas também se encontram com os coqueiros.

Achei as ruas menos buliçosas que as de Arusha, onde metade das pessoas o abordam. Aqui, estão mais cada um na sua. Os brancos que vi eram muito poucos e não encheriam duas mãos. Embora eu certamente chamasse um pouco a atenção, não mexiam comigo.

Detive-me ali para assistir aos que jogavam bola na praia ou aos rapazes negros que competiam entre si saltando mortais à là Daiane dos Santos. Vi a hora de presenciar um triplo tsukahara carpado ali na areia.

O sol se punha vagarosamente sem muita gente lhe fazer caso. Os que não estavam entretidos com a areia estavam na água, pulando e saltando, e os demais estavam envoltos com as comidas.

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Garotos jogando bola na praia enquanto o sol se punha.
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Outros competiam saltos mortais dados com aquele pneu onde pegavam impulso como se fosse um trampolim.
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O sol se pondo.
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Vendedoras às barraquinhas de comida no fim de tarde nos Forodhani Gardens. (Cuidado com frutos-do-mar “frescos”, pois nem sempre são frescos. As coisas cozidas são tranquilas.)

Eu vi a hora de encontrar alguma barraca de acarajé, mas faça-se saber que aqui nesta costa oriental da Africa não se usa — e em geral nem se conhece — o dendê (Elaeis guineensis), que é nativo da Africa Ocidental e usado em Gana ou países vizinhos, a 4.500 Km daqui, do outro lado do grande continente negro.

Por cá, as influências são outras. Foi nessa que pedi um zanzibar mix a essa moça da foto acima. Numa tigela, que pode ser pequena ou grande, uma mistura de ovo cozido, mandioca cozida, bolinhos de arroz frito, pedacinhos de churrasco (se você quiser), tempero verde, e um caldo amarelo onde o gosto que domina é o de limão.

Vi todo mundo retornando à barraca para adicionar com a concha um caldo marrom duma grande vasilha; perguntei à moça se aquela era a pimenta. “Não, a pimenta é aquela ali. Este é o molho de tamarindo.” Uau. Apreciei a riqueza da coisa. (Enche a barriga.)

E a gente, do resto do mundo, passa na ignorância sem quase nada saber das comidas africanas.

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Eu confesso que aparência inibe um pouco, mas estava saboroso. Um caldo cheio de coisas, ligeiramente espessado pelo aipim/mandioca e com o acre do limão. (Custou-me um dólar.)

Eu, que até o presente momento havia passado incólume com apenas uma tentativa de abordagem — invariavelmente nas adjacências do forte histórico — acabei cedendo conversa a Sassa, um negro tio magro conversador, desses que sabem coisas e dominam muitos temas. Achei que ele fosse mais velho, mas depois revelou ter 48 anos. A carência às vezes faz as pessoas parecerem ter vivido mais tempo.

Sassa tinha por hábito sentar-se com a mão no queixo e o cotovelo sobre a perna, meio como a clássica estátua O Pensador, de Rodin. Só que, diferentemente da introspectiva figura do escultor francês, Sassa tinha os olhos sempre vidrados nos seus arredores.

Falou-me que ano passado havia 100 vezes mais turistas, e que estava sendo difícil para eles sem o turismo. Fez aquele olhar e sorriso de “que turista estranho este” quando, em vez de simplesmente manter aquela distância polida com os desconhecidos, eu lhe disse que seu nome me lembrava uma música, e comecei a bater palmas entoando “Viva a bossa sa sa, viva a palhoça ça ça ça ça…“. A clássica Tropicália, de Caetano Veloso.  

Eles aqui não conversam muito com estranhos; os que conversam, em geral são conversadores, que depois vêm com aquela história de lhe vender algo, ou chamar para que você veja sua loja. Como Sassa faria, começam sempre com um “o que você vai fazer amanhã?“, tentando-lhe organizar passeios. Ou, o meu favorito, “o que você vai fazer hoje à noite?“, o que me tentava a responder “Aquilo que fazemos todas as noites, Pinky. Tentar dominar o mundo.

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Nestas muretas do quebra-mar eu conversava com Sassa, em Zanzibar.

Depois de uma conversa enquanto eu tomava meu zanzibar mix, Sassa insistiu para que eu fosse ver sua barraca, supostamente. Jurou que estava sem comer o dia todo. Levantou a camisa, não sei exatamente para que, talvez para me mostrar a barriga murcha (embora esse gesto eu nunca tivesse visto antes). Parecia um arranjador geral de coisas, desde compras a passeios de barco.

Essa coisa de pedir dinheiro eu não gosto, eu prefiro lhe mostrar o que eu tenho, e assim você fica com alguma coisa e eu também.” Achei razoável, embora eu soubesse que é também a fórmula para ele tirar mais que um mero trocado. Em vez do prato de comida por USD 1 que lhe ofereci (o mesmo que foi o meu jantar), ele poderia me vender alguma bugiganga por 10 ou 20.

Levou-me forte adentro, fazendo seu companheiro descobrir a lona sobre os produtos, ir acendendo as lâmpadas brancas, que me mostraram roupas femininas quaisquer, dessas de camelô de beira de praia. Cancelei o programa. Suspende tudo; pode deixar tudo guardado, eu vejo outro dia. Dei um trocado caridoso a ele, que ele aceitou de toda maneira, e fui embora. Longe de ser a última vez que eu veria Sassa.

O dia seguinte, em que eu previra fazer a maior parte dos meus périplos pela cidade, foi um lamaçal completo quando uma chuva fora de época caiu. Foi quando eu conheci Lukmaan.

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Pelas ruas da Cidade de Pedra sob a chuva.

Choveu pela manhã do dia seguinte, justo quando eu ia sair. Foi melhor assim que estar em qualquer lugar pela rua. Era um verdadeiro toró, um pé d’água, uma chuva de respeito daquelas que vêm com força. Meio fora de época, mas c’est la vie.

Sentei-me à varanda do meu quarto andar e pus-me a observar o casario velho, manchado de chuva, debaixo de chuva. Umas crianças pareciam brincar animadas num pátio lá adiante. O mais velho, de seus 9 anos, rodopiava divertido feito um pião, como se tivesse baixado um Erê. Movia-se mais que a dançarina dos clipes de Sia.

Fiquei tonto de olhar. Depois de um tempo, eles pararam. A chuva também foi parando aos poucos, e eu saí. 

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A chuva tropical caía, o menino rodopiava, e Mairon esperava. Aquele ambiente quente e úmido, que junto com o subdesenvolvimento das construções gera aquele ar urbano e “povão” de lugares como Índia e partes da África.

O que eu encontrei nas ruas pós-chuva da Cidade de Pedra requereram tanto as minhas botas resistentes à água quanto certa tenacidade de rua para passar pela balbúrdia. Não foi para os fracos.

Alguns becos estavam simplesmente intransitáveis, com água acumulada quase chegando às canelas. Bicicletas e pessoas circulavam aqui e ali sem cerimônia, inundando-se na água se necessário.

Eu caminhava certeiro como quem não duvidava de onde estava, tentando não trair a minha identidade de turista. A grande maioria passava batida por mim; um ou outro, mais arteiro, tentava puxar conversa ou perguntar se eu queria ver especiarias.

Naquela medina árabe que lembra as marroquinas, você hoje dá graças a Deus ao GPS do celular. Tentava não olhá-lo com demasiada frequência, e pelos becos segui vendo um e outro até entrar na igreja. Acontecia de ser domingo.

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As partes mais arrumadas desta medina que é a Cidade de Pedra são assim.
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Reconhecidamente, é um lugar de muita pobreza, com gambiarras por entre os becos e ruelas molhadas. A mulher vendia algo com seus preços escritos na parede branca.
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O miolo da Cidade de Pedra é assim. Eu os pouparei das fotos de ruelas inundadas que encarei depois que a chuva retornou e me pegou na rua.
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O fuzuê da rua, naquela manhã de domingo. Prédios antigos em meio à modernidade subdesenvolvida. Como os zanzibáris são predominantemente muçulmanos, o dia de folga é a sexta-feira, e no fim de semana tudo funciona.
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O antigo Mercado de Especiarias. Cheguei a mostrar algumas delas no post anterior.

A Igreja Anglicana, feita aqui pelos ingleses no século XIX exatamente onde se dava a venda de escravos, é também onde fica hoje o Museu do Antigo Mercado de Escravos, cujas imagens vos mostrei. Como aos poucos voltava a chover, eu pelo menos estaria num espaço coberto. 

Esse museu é uma visita sombria, num prédio com cheiro de velho e de mofo nestes interiores úmidos. Uns poucos casais de turistas aos poucos apareciam, invariavelmente acompanhados de algum guia local.

Você aqui não precisa de guia, mas eles se insistem à entrada. Se não quiser, seja firme. Eles aqui, como em alguns outros países nesta faixa de terra que vai do Marrocos à Índia, adoram lhe oferecer serviços não-requisitados.

A Igreja de Cristo, mais conhecida como a Catedral Anglicana, ali ao lado do museu se impõe desde 1879. Dizem que ela foi erigida propositadamente por sobre onde ficava o pelourinho, o lugar de punição pública aos escravos, que pareciam nada mais na vida receber além de punições.

Foi curioso que eu entrei bem na hora da missa. Se você nunca veio à África, não faz ideia do que eu encontraria aqui.

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A Catedral Anglicana com sua pedra coral já escurecida por mais de um século de chuvas em Zanzibar.
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O interior da igreja durante uma celebração.

As celebrações cristãs africanas são sui generis. Caso você não saiba, os africanos — sejam eles católicos ou protestantes desta ou daquela denominação — frequentemente acham muito paradas aquelas congregações cristãs quietas, comuns na Europa. Compare com essa que presenciei abaixo, e não deixe de notar como até o padre lá no altar tem um swing.

Fiquei ali um tempo assistindo à animada celebração, até que se aquietaram um pouco para um outro momento da missa.

Eu zarpei, pois do pão também vive o homem, e eu estava com fome. Era preciso encontrar um lugar onde almoçar por entre ruelas molhadas das sujas ruas brancas da Cidade de Pedra.

Dê por certo que eu havia localizado alguns lugares possíveis num aplicativo, mas dê por igualmente certo que — mesmo com o GPS — encontrá-los nem sempre é algo objetivo, nem estão os registros da internet sempre atualizados.

Dei idas e vindas que talvez tenham feito algum perguntar “por que é que esse rapaz está passando pra lá e pra cá”, vendo as crianças muçulmanas saírem da escola numa praça, e depois sentindo a chuva mais uma vez engrossar. 

Refugiei-me numa refinada casa de especiarias onde atendia uma mulher negra e pesada, com um daqueles coloridos lenços africanos na cabeça. Muito simpática e prestativa. Perguntei-lhe onde aqui se poderia comer bem, abandonando o digital pelo velho e bom método analógico de perguntar a alguém.

Vá ao Lukmaan“, sugeriu ela. “A comida deles é tão gostosa“, disse-me ela num breve sorriso, com aquela timidez culposa da pessoa gorda que gosta de comer e se julga por isso. Eu confio na sinceridade das pessoas que gostam de comer, e ela não me desapontaria.

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As esquinas da vida por onde eu dobrei naquela manhã molhada em Zanzibar.
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O pegar as crianças na saída da escola aqui é assim. A estética pode ser diferente; o amor de cada um às suas crianças, eu duvido que seja.
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Bem-vindos a Lukmaan, o restaurante popular mais querido de Zanzibar.

Lukmaan é quase uma atração em si aqui na Cidade de Pedra. Invariavelmente atrai turistas, mas também muita gente local. Afinal, sucos naturais maravilhosos por um dólar e refeições completas por dois ou três — e com muita comida típica — não se encontra em qualquer lugar.

Em verdade, tome cuidado para não pedir porções demais e acabar sem conseguir terminar.

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Uma refeição em Lukmaan é assim. Aqui, um prato de camarão temperado; e, lá adiante, aipim macio cozido no leite de coco. Eles têm um imenso cardápio de delícias da gastronomia local. Um garçom logo adota você à entrada e lhe traz um cardápio. Você pode também pedir que ele o acompanhe ao balcão para selecionar pelo olhômetro.
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A muvuca lá embaixo, olhando do segundo andar de Lukmaan.
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Quando não está chovendo, a medina da Cidade de Pedra até tem áreas aprazíveis nas suas ruelas. Muitas lojas com os vendedores a lhe chamar.

À tarde, de retorno ao hotel, eu me senti como se houvesse encerrado uma epopeia. Tomei um banho para me lavar da chuva, relaxei, e à tardinha voltei a sair — esbarrando uma vez mais em Sassa. 

Era preciso enrolá-lo tanto quanto ele a mim, então ficava naquela coisa de “Outra hora dessas eu vou lá na sua loja. Eu estou na cidade.

Breve, eu estaria cumprimentando mais transeuntes após dois dias em Zanzibar que após um ano em Estocolmo.

Eu rumava a uma das duas gelaterias italianas que há na cidade, ambas com donos de lá: a Tamu e a Mamma Mia, esta última a melhor na minha opinião, embora algo mais cara. O sorvete de maracujá é delicioso, essa fruta sul-americana que curiosamente me parece ser a mais popular aqui. (Os tanzanianos a chamam simplesmente de passion em vez de passion fruit. É uma paixão mesmo.)

Foi lá, na Mamma Mia, que reencontrei meu casal de amigos franceses que conheci em Arusha, e com quem eu faria o safari blue que já mostrei e também o tour de especiarias, no qual eles comeriam jaca pela primeira vez na vida. Eu, por meu turno, acho que nunca antes havia visto a planta do cravo-da-índia.

Demos uma volta, ao que caía aquela tarde após um dia de chuva, quando o céu começa a abrir tarde demais para se aproveitar o sol. 

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Mulher de véu olhando o mar sob o cair da tarde, na Cidade de Pedra.
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Com a vossa licença para a pornografia alimentar do meu delicioso sorvete de maracujá e coco com nutella — dos melhores que já tomei. Mamma mia!

Quando se via uma outra pessoa não-africana, tão raro era que muitas vezes nos olhávamos. Foi assim com a grega negacionista, daquelas pessoas que você tem o infortúnio de se ver caminhando na mesma direção que ela, e acaba apertando o passo para deixá-la para trás.

Falava loucuras sobre como o governo da Grécia era um governo hebreu contra o povo grego, e aos franceses sobre como a França hoje era controlada pelos islâmicos. (Se vocês me encontrarem por aí, me lembrem que eu imito ela falando isso em inglês com sotaque grego.)

Fosse outro o contexto, se diria que era uma assombração de algum velho marujo de Zanzibar.  

Por sorte encontraríamos Joseph, o agente de viagens cujo contato eu pus no post anterior, e que nos organizou os passeios acima-referidos. E foi assim, já no meio da noite, a caminho de apresentar Lukmaan para os franceses, que encontramos Captain George. Ou melhor, que Captain George nos encontrou.

Captain George era um senhor negro e de barba branca que apareceu do nada a nos acompanhar pelos becos escuros até Lukmaan. Fosse outro o contexto, se diria que era uma assombração de algum velho marujo de Zanzibar. Um dos maiores arrependimentos que eu tenho este ano é não ter tirado uma foto com ele.

Vocês estão indo para Lukmaan“, declarou-nos ele apertando o passo para acompanhar a nós três, sua voz raspada como a de algum vilão de filme de pirata.

Tentei dissuadi-lo em vão. “Nós sabemos o caminho“, disse eu sabendo desse jogo de pedir uma comissão por ter-lhe levado ao lugar.

Eu sei disso. Vocês têm GPS“, declarou Captain George — que assim se apresentou, com título e tudo — apresentando acuidade por debaixo de suas roupas simples de rua.

Captain George estava um passo à nossa frente, e com vários adentrou Lukmaan diante de nós dizendo aos caras do restaurante que ele havia nos trazido — e depois, certamente, solicitando um agrado ao restaurante em troca. Já não seria mais problema meu.

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À noite pela Cidade de Pedra, quase todos os gatos são pardos. Recomenda-se cuidado por estas ruas no escuro, mas eu não tive problemas.

O point mais popular à noite em toda a Cidade de Pedra é o chamado Jaws Corner, uma praceta no meio dos becos onde se assiste a uma televisão pública. Tarik, um dos lojistas na praça, nos explicava que às vezes dá briga entre quem quer ver filme e os que querem assistir a futebol.

Num geral, porém, o que se presencia é um grupo de homens ali comportadamente sentados assistindo ao que passa e conversando. Uma banquinha se instala à noite com um vendedor oferecendo café por R$ 0,20 a xícara.

O nome, Jaws Corner, deriva por conta dos filmes — Jaws sendo o título original de Tubarão (1975). Por que escolheram precisamente esse filme, eu não sei. Funciona como um centro comunitário para também jogar damas, dominó, ver TV, tomar café e prosear. Há ainda um quadro-negro com as informações à comunidade (se alguém morreu, etc.)

Você avistará turistas de todos os gêneros, mas observo que o lugar aqui me pareceu ser um espaço essencialmente masculino — como em geral é a vida social nos lugares públicos no mundo muçulmano e na Índia.

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No Jaws Corner à noite em Zanzibar.
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As pessoas ali assistindo televisão. Um ou outro jogando damas ou dominó. (A TV fica numa caixa trancada, caso você esteja curioso. Três lojistas da praça têm a chave e se responsabilizam por encerrar a sessão ao fim de cada noite.)

Captain George às vezes aparece por aí, onde certa vez me abordou de surpresa. Eu ainda o encontraria duas vezes, embora sempre à noite, nunca de dia.

O lugar como um todo é pobre, você pode notar. Nota-se por toda a (falta de) infraestrutura aqui e ali, e talvez mais que em qualquer outro lugar no Palácio do Povo, como foi renomeado o antigo Palácio Real dos sultões de Zanzibar.

Parece mais uma mansão abandonada (cenário de Resident Evil) que um museu. Um amalgamado de peças do fim do século XIX e começo do XX, quando viveu aqui a família real de Zanzibar. Há o relógio de pêndulo do vovô, mesas de madeira boa, uma cama empoeirada onde dormia a princesa, e gatos de rua que adentram pela janela dormindo sobre a mobília.

Afora isso, há alguns retratos pintados dos digníssimos sultões. Há informação escrita, e certamente alguém lá à bilheteria se oferecerá como guia sem você pedir. Trabalham com gorjeta, que ele se recusará a dizer de antemão quanto é. No fim das contas é opcional; você pode dispensá-lo se não quiser.

De lá, você ainda vê a Casa das Maravilhas (House of Wonders), um prédio à parte que Sultão Barghash bin Said construiu em 1883 para suas recepções. Era assim chamada por ter sido o primeiro edifício de Zanzibar com eletricidade e ter tido o primeiro elevador de toda a África Oriental.

Hoje, a Casa das Maravilhas está já há alguns anos fechada para restauração por estar literalmente caindo aos pedaços — e atualmente revestida de andaimes.

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A entrada do Museu do Palácio Popular, nome novo do antigo Palácio Real. Em 1964, poucos meses após obterem sua independência dos britânicos, o governo árabe do sultão foi derrubado pela Revolução de Zanzibar, que instaurou então uma república africana que depois se uniria a Tanganyika no continente para formar a Tanzânia.
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O interior ainda reserva belas peças de mobílias feitas nos fins do século XIX ou começo do XX, mas todo o lugar no geral está numa condição vexatória de má conservação. Havia poças de goteira e gatos de rua fazendo a festa.
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A Casa das Maravilhas numa foto de 2010 (da Wikimedia Commons). Sem manutenção, ela começou a desmoronar.
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Hoje, do Palácio do Povo, eu via a Casa das Maravilhas assim, e sem perspectiva de quando se completará a restauração.

Eu falei que nenhum lugar ilustrava tanto a falta de manutenção dos sítios históricos de Zanzibar quanto o Palácio do Povo, mas me equivoquei. Se você se atrever a entrar no Velho Forte Árabe — hoje um ninho de vendedores tentando lhe empurrar alguma coisa — e ousar subir as muralhas, será por escadarias assim, como na foto abaixo.

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Ao alto das muralhas do Velho Forte Árabe se chega por estas escadas — por sua conta e risco. Repare que não há propriamente degraus: você sobe e desce pela armação enferrujada. Loucura, loucura, loucura.
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No alto das muralhas do Velho Forte Árabe, em Zanzibar. Note que o interior do forte é oco, hoje sem nada exceto vendas para turistas. (A entrada no forte também é grátis. Não deixe que lhe convençam do contrário.)
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As lojinhas dentro do forte.

Sassa aqui me deu um susto pelas costas — como havia feito Captain George outro dia no Jaws Corner. Eles aqui eu acho que gostam dessa coisa de pegar de surpresa com o tapa no ombro, seguido dos altos rituais de brodagem masculina de rua.

Convenceu-me a comprar uma camisa de Zanzibar na loja da “irmã” dele. É claro que o preço foi alto, um preço de loja de aeroporto; mas se é para transferir a minha renda, eu prefiro fazê-lo diretamente a pessoas visivelmente carentes que às autoridades aeroportuárias ou suas lojas.

Breve eu iria embora, e Sassa descobriria a hora e se juntaria aos franceses no caminho para vir se despedir de mim à porta do hotel.

Com o casal francês, eu ainda visitaria a católica Catedral de São José, feita por seus missionários conterrâneos vindos de França; e ainda veríamos, pela rua, muita das belíssimas e decoradas portas de Zanzibar. Ao menos elas ainda encontram dinheiro, talvez por serem de propriedades privadas.

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As emblemáticas portas de Zanzibar, sempre decoradas.
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A Catedral de São José, feita por missionários católicos franceses na década de 1890. Sua entrada é meio escondida, por trás. Alguém prontamente o seguirá se oferecendo como guia. Quando você menos vê, o cidadão já começou a explicar. É um pouco a precariedade geral e a falta de alternativas de trabalho.
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No interior da Catedral de São José, que segue ativa com uma pequena comunidade católica em meio à maioria muçulmana.
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Seu colorido vão central, numa vivaz estética africana.

Os muezins aqui em Zanzibar não chamam, mas a hora chega. São como as silenciosas rosas de Cartola — ainda que em ruas decididamente menos aromáticas.

Naquelas ruelas eu havia perambulado por vários dias, conhecendo uns e outros. À partida, o casal francês acompanhados por Sassa vieram à porta do meu hotel me ver partir como uma comitiva de despedida. É curioso como tão pouco tempo pode conter tamanho significado. Poucos dias contendo tanto do que foi marcante de bom este ano.

Que nos venham muitos dias assim. Era hora de cruzar o mar, rumo a Dar es Salaam, para quem sabe um dia reencontrá-los.   

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

One Reply to “Experiências e tretas pelas ruas da Cidade de Pedra (Stone Town) em Zanzibar

  1. Nossa, que postagem emocionante. Parecia que o senhor estava em um filme policial, meu jovem amigo viajante. Uauu. Quanto suspense e emoções nas ruas, entre os becos e com o povo do local. Fiquei na expectativa dos encontros e desencontros. Ora ora. Muito interessante e instigante. Pelo visto e descrito tem muito a ver com o Marrocos.
    Belo esse hotel. A despeito do ser de madeira, com suas implicações ambientais, não se pode deixar de apreciar a beleza daquilo que com ela é feito. A madeira deixa tudo mais bonito e elegante. Há de se planejar de forma sustentável a utilização dela com a preservação ambiental e o equilíbrio ecológico.
    Magnífica essa paisagem, essa orla adornada de lindos coqueiros, a vida simples , ao ar livre, descontraída do povo ai.
    Lamentável a precariedade das estruturas, das instituições, a situação de pobreza, a falta de emprego e renda que dê ocupação adequada e dignidade às pessoas. Também aqui no Brasil muitas regiões padecem dessas doenças sociais, econômicas historicamente arraigadas à maioria das populações vulneráveis.
    Impressionante essa celebração africana na igreja. Muito rica de significados e de legado cultural negro. Muito bonita e alegre. Apreciei bastante.
    Lindo e vistoso o colorido do interior da Igreja. Belo.
    Que pena a falta de manutenção em templos, casarões tão bonitos e antigos. Belo esse mobiliário.
    Nossa, como o senhor se arriscou, meu jovem amigo. Jesus.
    Curioso esse espaço comunitário em volta da tv. Aqui no NE do Brasil há uns anos atrás também havia, inclusive entre vizinhos. Depois, com a popularização dos aparelhos de TV cada família conseguiu o seu, o que trouxe sérios problemas familiares, comportamentais, e educacionais a várias gerações.
    E que banzé esse ai, hahah. Há mesmo muito do comportamento do brasileiro.
    Pelo visto o senhor se deu bem com a comilança. Parecia que estava deliciosa.
    Natureza prodigiosa. Linda.
    Bela e rica a cultura da região. Gostei muito. Congratulations.

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