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Alemanha

Como é o Natal na Alemanha: Minha experiência

Antes de todo o distanciamento e restrições da pandemia, tive a experiência inesquecível de passar uma noite de Natal na Alemanha.

A Alemanha, a quem não sabe, é talvez o lugar mais tradicional do mundo em matéria natalina. Esqueça por ora os costumes recentes, do século XX, com o Papai Noel gordo em roupa vermelha da Coca-Cola ou o “peru de Natal” que nós copiamos do Dia de Ação de Graças e do próprio Natal dos Estados Unidos.

Na Alemanha, como em muito da Europa, remontam-se às tradições natalinas mais antigas, quase medievais: especiarias caras, frutos exóticos como laranja, todo o melhor e mais caro guardado para a maior festividade do ano.

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Biscoitos amanteigados, açúcar, coisas gordas… tudo isso era guardado para a festa mais especial do ano. Sendo inverno, consomem-se nozes, avelãs e outros alimentos ricos em óleos e calorias que nós no Brasil loucamente aí consumimos em pleno verão. Usam-se das outrora caras especiarias trazidas de longe, como cravo-da-índia ou canela, postas nos vinhos e bolos.

O aspecto religioso do Natal varia de acordo com onde se está na Alemanha. Há as regiões tradicionalmente católicas (ex. Baviera, partes do oeste), a maioria protestante, e ainda outras — onde eu estava — na antiga Alemanha Oriental onde décadas de comunismo erodiram um tanto as tradições religiosas, e boa parte das pessoas hoje se foca no aspecto social e gastronômico do Natal.

Estávamos nos arredores de Leipzig, onde o “Natal é centrado em comida“, nas palavras da minha amiga anfitriã, com certa inevitável hipérbole.

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Decorações natalinas na casa da minha amiga, num cair de tarde precoce típico do inverno, escurecendo já por volta das três da tarde.

Com ou sem religião, tornou-se já hábito social por toda a Europa Central e entre os países nórdicos atentar para as semanas do Advento — algo que, no Brasil, só os mais religiosos reconhecerão.

O período do Advento (do latim para “chegada”) inclui os quatro domingos que antecedem ao Natal e é um tempo de preparação. Do ponto de vista cristão, isso inclui uma depuração pessoal. Culturalmente na Alemanha de hoje dentre todos, é o tempo de magia, preparativos, e decorações.

Lindt Advento Calendario
Calendário de chocolate do Advento da Lindt.

Acendem-se gradualmente velas grandes num quarteto (uma para cada domingo), e as crianças ganham calendários de chocolate do advento onde cada dia é um bombom diferente para comer. É claro que elas adoram.

Há pessoas que leem o blog e vivem na Alemanha, ou são de famílias alemãs e portanto podem comentar mais e melhor — e são bem-vindas a fazê-lo. Podem acrescentar detalhes que eu talvez não tenha experimentado.

O que eu vos relato é a minha experiência própria, com suas particularidades. Não sei dizer se a família da minha amiga tinha alguma particularidade que só ela faz, mas checando com outros amigos alemães tudo me pareceu ser bem típico — inclusive com certas coisas inusitadas ou que me deram um nó na cabeça.

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A estação de trens de Leipzig, a um pulo de Dresden, no Natal.

Eram umas 14h quando, ao dia 24 de dezembro, rumamos à casa dos pais da minha alemã amiga Stephanie. Nós nascemos quase no mesmo dia, no mesmo ano, e somos amigos de longa data. Já tenho encontros curiosos com os pais dela há mais de década, e que um dia ainda preciso relatar.

Então não foi estranho que me tivessem chamado para o Natal, nesta excepcional ocasião em que eu me encontrava no país. O Sr. Hagen, pai dela, não faz nem de longe o estereótipo do alemão animadão bebedor de cerveja. Bebe cerveja, mas é um canceriano quieto, embora cheio de opiniões. É uma destas pessoas de quem eu gosto de graça. Já tivemos longas conversas sobre carros e desemprego na Alemanha, embora nem ele fale inglês nem eu fale alemão.

Chegamos perto das 15h, aquela escuridão noturna invernal já se instalando, combatida apenas pelas velas acesas e luzes fracas de canto de sala para dar um charme (as luzes brancas que gastam menos e muito comuns no Brasil nunca ganharam popularidade nas residências no norte da Europa). A árvore, elemento quintessencial do Natal na Europa central e do norte, também acesa estava.

Não demorou para, às 16h, estarmos convidados à mesa para um café com bolo — o tradicionalíssimo kaffee und kuchen dos alemães. Eu não costumo tomar café de tarde, mas em Roma faça como os romanos.

O bolo não era qualquer um, mas um denso e pesado bolo de frutas cristalizadas típico do Natal, recoberto com açúcar fino.

Acompanhava-lhe a miríade de docinhos do centro da Europa. São muito distintos dos docinhos brasileiros (que são quase todos à base de leite condensado). Os docinhos da Europa Central são menos doces, e costumam ser à base de farinha, amêndoas, nozes — e, se você quiser ser mesmo tradicional em vez de moderno, mel em vez de açúcar.

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Há muitos tipos de bolo ou pães de frutas secas na gastronomia alemã, embora todos eles tenham textura mais firme e sabor algo distinto do panetone italiano. Acompanham-nos os muitos biscoitos e docinhos caseiros com nozes, amêndoas e afins.

Não demoraram a chegar parentes da minha amiga: seu avô a namorada nova que conseguiu depois de ficar viúvo; a tia conversadeira de quem todo mundo tinha medo porque não conseguiam se livrar das conversas dela quando ela começava; o cunhado, típico tiozão do pavê que fala alto e se muito engraçado; e as crianças a brincar no chão.

Os presentes ficam todos aglomerados à base da árvore, como em cartão postal. Não se usa aqui a tradição do amigo secreto, nem é a entrega feita pelo Papai Noel no meio da noite.

As tradições da entrega variam: em alguns lugares, alguém se veste de Papai Noel e aparece à hora do jantar do dia 24 para encantar as crianças e dar os presentes. Em outros, esse lance da cartinha das crianças e do presente deixado no meio da noite se dá 6 de dezembro, no Dia de São Nicolau. Quando é assim, no Natal são os próprios familiares que entregam seus presentes uns aos outros. E não é raro que todo mundo presenteie todo mundo.

Acabou que eu só tinha levado presente para a minha amiga e os pais dela. Glup.

Ganhei licores de flor de sabugueiro (elderflower), doces e toda uma sorte de coisas. Breve, ainda antes das 18h — e antes mesmo de eu terminar de digerir o bolo — retornaríamos à mesa para jantar.

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Um pouco do ambiente.

Antes do jantar, porém, tivemos um momento importante da festa natalina alemã: as cantorias de Natal. Todos recebemos um folhetinho com as letras do que cantaríamos juntos.

Eu praticamente não leio alemão — ou melhor, eu sou capaz de ler, mas sem saber o que estou dizendo. Não fazia diferença; o importante era se juntar aos outros para entoar melodias tradicionais do Natal germânico como O Tannenbaum (“Ó Pinheirinho de Natal”) e tantas outras de origem popular folclórica.

Se você suspeita que não conhece O Tannenbaum, muito provavelmente está enganado. É uma música característica nos concertos de Natal da TV, em trilha sonora de filme, e até em desenhos animados. Escute.

É um grande lamento que não haja vídeos comigo fazendo que estou cantando em alemão, mas foi assim que se deu.

Glühwein, o tradicional vinho quente doce com rodelas de laranja e especiarias era servido a rodo para empolgar e soltar os adultos enquanto as crianças já abriam os seus brinquedos, a fazer aquelas observações fofinhas de menino de três anos. 

Como era esperado que todos fossem à missa da noite após a refeição, a ceia de Natal tradicionalmente é leve e sem carne.

Logo estaríamos de volta à mesa para o jantar. Foi-me informado que, normalmente, as comidas da véspera de Natal são todas frias, e os pratos quentes ficam para o almoço do dia 25. Excepcionalmente, como tinham gente convidada do Brasil (e eu só ficaria para a noite do dia 24), serviram também alguns pratos quentes, embora sem aquela abundância esperada para o almoço do dia seguinte. 

Como era esperado que todos fossem à missa da noite após a refeição, a ceia de Natal tradicionalmente é leve e sem carne. Comia-se peixe, no máximo. O hábito mais antigo na maior parte da Europa Central (portanto também na Tchéquia e outros) é comer peixe na noite de Natal, suponho que seguindo as imagens que se fazem da Bíblia.

Aves apareceram depois aqui na Alemanha, como na Grã-Bretanha e na América do Norte. Já em outras partes, como na Dinamarca, se come porco, mas em muito da Europa Central permanece o hábito do peixe.

Vocês hão de entender que eu não fiquei fotografando a mesa em plena ceia de natal dos meus anfitriões. A comida foi simples, com alguns legumes ao forno, uma breve torta salgada, batatas cozidas, e toda a variedade de saladas frias como repolhos mil além de salsichas. Bebia-se cerveja, embora o glühwein estivesse continuamente presente.

Por volta das 21h já estava tudo se encerrando. Como escurece às 16h, esta já era noitada extensa. Cada um retornava às suas casas, já que na família da minha amiga não se ia à missa.

Não nevou, mas era uma noite escura e fria lá fora — um contraste imenso com os natais de verão brasileiros. Aqui na Alemanha, fica-se à mercê dos calores internos, do aconchego da casa de cada um. Que, mesmo com o verão e o calor lá fora, vocês não deixem de encontrá-lo.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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