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Itália

Roma no Ano Novo e os Museus Capitolinos em 10 fotos

Foi em Roma, viu o papa?”, perguntava-nos sempre a minha avó quando saíamos e retornávamos, indagando se tínhamos resolvido o que fomos resolver.

Sim, vim a Roma pela quarta vez (você pode ver algo sobre as outras aqui e aqui), pois sempre há algo a mais a visitar aqui, e aconteci de ver o papa pessoalmente. Cheguei já a relatar a minha visita ao Vaticano na noite de réveillon, em que Francisco veio até nós na praça com a sua simpatia habitual.

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O Papa Francisco na noite de réveillon na Praça de São Pedro. Você pode ver o post completo aqui.

Roma estava em polvorosa no raiar de 2020. O ano começou inocente, sem dar qualquer ideia do que a Itália viria a experimentar. 

Peguei a cidade nos seus últimos agitos. Os metrôs, uma esculhambação para acomodar as massas humanas de residentes e turistas. Metade das coisas — escadas rolantes, máquinas de comprar bilhete, lugares de enfiar os bilhetes na nas catracas — estava fora de serviço, quebradas. Isso além do jeitão geral meio acabado, por vezes sujo e com molhações suspeitas aqui e ali. É uma pena que cidade tão vetusta e relevante sofra de má manutenção.

“Ma donna, aspetta sbarcare questa povera gente!”, declarou aflita diante de mim uma italiana de meia idade quando eu aguardava no bolo, vendo as pessoas entrarem aos montes no vagão do metrô sem aguardar primeiro o desembarque.

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O metrô de Roma ao albor de 2020.

Nota-se que a ideia de distanciamento social na Itália parecia ainda pertencer puramente à ficção. Eu chegava com minha bagagem a essa agonia romana moderna para ver o que há da Roma antiga.

Reservei uma acomodação próxima à Piazza del Popolo, sítio tradicional das festas de fim de ano, apenas para descobrir que, desta vez, elas ocorreriam no Circus Maximus bem longe dali. Ocorre.

Era o apartamento de uma siciliana de meia idade toda arrumada, aquele breve aspecto poderoso de chefia que, com seu visível dinheiro, fez-me crer que eu pudesse estar hospedado na casa de uma família mafiosa.

A manhã, porém, era típica italiana. O meu 2020 começou com um daqueles minguados desjejuns da Itália: café pequeno e bolos, doces, croissants de supermercado e estas coisas. Ecoou-me pela milésima vez a frase da garota filipina que eu conheci na Armênia: “Eu não entendo porque os europeus gostam de comer sobremesa como café da manhã.”

Talvez fosse um sinal do que seria 2020. Olhando para trás, soa irônico quando revisito em retrospecto as mensagens de um 2020 pleno de alegrias…“, etc. Se bem que o meu foi melhor que o de muita gente, então nem posso reclamar muito. Obrigado a quem me fez votos ano passado, porque acho que funcionaram.

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O meu primeiro dia do ano foi vendo algo de Roma que eu ainda não conhecia: os Museus Capitolinos, que apesar do nome no plural são um museu só, porém em diversos palácios numa praça desenhada por ninguém menos que Michelangelo.

Antes de eu vos apresentar o museu hoje ali instalado , permitam-me mostrar apenas o espírito com que Roma começou este ano.

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Nas ruas de Roma na manhã do primeiro dia do ano.
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O Panteão, uma das edificações melhor preservadas da Roma Antiga. Data de 126 d.C., do tempo do imperador Adriano. Era um templo que, no século VII, foi convertido numa basílica católica.
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Selfies e a Fontana di Trevi.
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O interior de uma das muitas igrejas em Roma, todas mui portentosas. Quando se vê essa pompa, não se duvida que a Igreja Católica — sobretudo aqui na Europa — herdou os modos e gostos do império.
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Monumento dos mais emblemáticos, ainda que dos mais novos de Roma: um templo de mármore em estilo clássico erigido após a Primeira Guerra Mundial a Vitor Emanuel II (1820-1878), o primeiro rei da Itália. É tido como um monumento à pátria italiana moderna na sua capital.

Fazia tal belo dia de sol que a minha anfitriã siciliana apontou parecia “tudo de ponta a cabeça este ano, com calor no norte e frio no sul” da Europa. Enquanto o norte europeu experimentou um inverno cálido, nublado e molhado, eu cá no sul europeu vivia um inverno frio, de sol e céu azul. (Aos menos versados em inverno, quando nubla o calor se retém e não esfria tanto. Céus limpos são, quase sempre, sinal de temperaturas menores.)

Essas vistas acima foram de manhã. À tarde, após o almoço, eu rumaria a uma das sete emblemáticas colinas de Roma para visitar os Museus Capitolinos.

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O meu almoço antes de, à tarde, ir aos Museus Capitolinos. (Porque as postagens na Itália, sem comida, ficam incompletas.)
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Subindo ao Monte Capitolino, uma das sete colinas de Roma. Havia aqui um Templo de Júpiter apelidado de Capitólio, onde hoje há palácios renascentistas que você cá de baixo avista.

Lá chegando em meados da tarde, encontrei a Piazza del Campidoglio desenhada por Michelangelo já repleta de turistas. Para a minha sorte, porém, esta é uma das raras atrações italianas hoje em dia que ainda se pode visitar sem comprar ingressos previamente pela internet nem mofar na fila.

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Ao Monte Palatino, diante do museu, era como se Marcus Aurelius montado em seu cavalo estivesse a organizar as filas.
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A imagem de Marco Aurélio na praça pública do capitólio diante de um dos palácios de fachada renascentista reformada por Michelangelo.

Este desenho e arranjo da praça cá no alto data de 1536, décadas depois do teto da Capela Sistina, que consolidara a fama de Michelangelo Buonarroti como pintor na Itália. O Papa Paulo III estava para receber a visita do imperador Carlos V em 1538, e quis impressioná-lo.

As várias mansões da aristocracia romana medieval e renascentista — ditos palácios — viriam a abriga uma crescente coleção de obras de arte, peças arquitetônicas romanas antigas, etc.

Reserve 2-3h de visita se quiser ver tudo. Pode-se passar ainda mais tempo, naturalmente. Aqui, eu lhes apresento-lhes estes Museus Capitolinos em 10 fotos escolhidas por gosto próprio dentre as muitas obras. Espero captar um pouco da alma deste lugar para vocês.

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1. Loba Capitolina, a escultura original. Embora hoje haja cópias suas urbi et orbi, esta é a original que remanesce, uma escultura de bronze datada da Idade Média — embora, tradicionalmente, se diga que ela é etrusca dos idos de 500 a.C. Mostra um dos episódios mais conhecidos do mito fundador de Roma. Rômulo e Remo são abandonados por sua mãe, Reia Silvia, filha do Rei Numitor em Alba Longa, uma antiga cidade latina a 20 Km daqui. Seu tio Amúlio usurpa o trono e a obriga a servir como vestal, uma classe de sacerdotisas castas, para que ela não gerasse descendentes. Ela, no entanto, têm os filhos, que são deixados à margem do Rio Tibre, mas são salvos pelo espírito do rio e chegam a ser amamentados por uma loba. Crescem criados por um pastor, até que vêm a descobrir sua linhagem e removem seu tio-avô usurpador do trono. Uma trama clássica, que segue repetida de uma forma ou de outra em inúmeros livros e filmes. Rômulo tornar-se-ia o fundador de Roma em 753 a.C. O nome da cidade, inclusive, origina-se dele.
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2. Mármores da Antiga Roma. Num dos pátios, muitos mármores originais de edificações da Roma Antiga com finos detalhes.
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3. Escultura equestre de Marco Aurélio. Um dos raros monumentos públicos com os imperadores da Roma Antiga a permanecer. Esta é a original de bronze do século II d.C., que ficava no exterior onde hoje está a cópia onde formam-se as filas de visitantes. Marcus Aurelius (121-180 d.C.) foi imperador romano e filósofo, cujas reflexões estoicistas estão compiladas no clássico Meditações.
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4. Interior dos palácios. Os salões dos Museus Capitolinos remontam aos interiores dos palácios que lhes deram origem. São muitos salões vividamente decorados com obras de cunho histórico, religioso cristão, ou da mitologia clássica.
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5. Aníbal na Itália. Afresco de 1507-1508, por Jacopo Ripanda, de Bolonha, mostra o general cartaginês Aníbal Barca na sua épica invasão à Itália, quando em 218 a.C. cruzou os Alpes com um exército de elefantes africanos na Segunda Guerra Púnica. Ele derrotou muitas cidades aliadas a Roma e ocupou a Itália por 15 anos. Por razões que ainda se discutem, ele não invadiu Roma, o que mais tarde lhe custaria a guerra quando os romanos atacam Cartago e o forçam a retornar ao norte da África.
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6. Ulisses e Circe. Ulisses (ou Odisseu), protagonista do clássico Odisseia, ameaça a feiticeira Circe, que havia transformado as feições dos seus companheiros em feições suínas. Obra do século XVIII por Giovanni Andrea Sirani.
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7. Madalena penitente (1598), por Domenico Tintoretto. Mostra Maria Madalena em oração, o duo clássico do crânio e do crucifixo simbolizado a fugacidade da matéria e a atenção ao espiritual. Trata-se bastante de uma obra do seu tempo. Note certa sensualidade, na tradição renascentista de humanizar as figuras sacras até então desprovidas de humanidade ou emoção. Saiba-se também que os católicos medievais construíram essa associação — sem base — de Maria Madalena à prostituição, e à época da Contrarreforma em resposta ao Protestantismo no século XVI redobrou seu proselitismo usando sua figura como pecadora em busca de penitência. Contraste essa figura com a Maria Madalena dos 4 evangelhos canônicos ou do apócrifo Evangelho de Maria e verá.
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8. Ceia na Casa do Fariseu (1747), por Maria Felice Tibaldi, uma das incomuns obras feitas e assinadas por uma mulher no período barroco. Mostra a passagem bíblica da ida de Jesus à casa de Simão, um fariseu, onde Maria de Betânia, irmã de Lázaro, teria ungido seus pés com perfume e depois os enxugado com seus cabelos — o que você vê retratado ali na esquerda do quadro.
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9. O Tigre e o Touro. Mosaico do século IV d.C. que é um dos grandes arquétipos da Antiguidade. Às vezes um tigre, às vezes um leão, temos o símbolo da virilidade masculina sobrepujando o símbolo anterior das antigas religiões matriarcais do Oriente Médio e da Índia centradas na fertilidade. (Eu cheguei a mostrar uma versão mais antiga deste mesmo símbolo quando fui a Persépolis, no Irã.)
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10. Sepultamento de Santa Petronilla. Esta magnífica obra de Giovanni Francesco Barbieri, dito Guercino, ficava na antiga Basílica de São Pedro, no Vaticano. Dos idos de 1621-1623, retrata aquela que teria sido filha de São Pedro e uma das primeiras mártires do Cristianismo.

São várias as outras obras renascentistas ou antigas dos Museus Capitolinos em Roma. Assim se iniciava o meu ano, que tanto ainda haveria de trazer.

Esta cidade eterna que tanto já viu veria mais em 2020, e ainda mais o que estiver por vir. Fica a dica deste museu que já atravessou tantas eras.

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Os Museus Capitolinos no anoitecer em Roma.
Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

2 Replies to “Roma no Ano Novo e os Museus Capitolinos em 10 fotos

  1. Linda, Roma. A cidade Eterna!… Sempre bela, majestosa, cheia de encantos, de uma riqueza histórica, cultural e artística ímpares.
    Que emoção poder contemplar, mesmo de longe seus museus, suas esculturas, seus templos, suas ruas e ruelas cheias de História, suas praças belamente decoradas por escultores e pintores magnificos, seu belo Tibere!… Enfim, estar em Roma é mágico, Atemporal. Parece que se está fora do tempo. Entra-se na História, na Arte e na cultura milenares. Impressionante o impacto que essa cidade causa em quem a visita, mesmo que não seja a primeira vez. O impacto é o mesmo. Incrível. A cidade exerce uma enorme atração sobre as pessoas. E não é para menos. São séculos e séculos de poderio, de arte de história e de belezas. A despeito de muito do seu passado de poder e de destruição, como centro do poder do Império Romano, o que se aprecia hoje, vem revestido de beleza de arte e de poesia em Roma. Parece que a Arte e a Beleza atenuaram o seu enfoque bélico que ficou para trás. Amo Roma.

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