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Lituânia

Na Praia de Nida conhecendo a última nação pagã da Europa

Qual foi a última nação europeia a se converter das religiões ancestrais ao cristianismo?

Quem leu meu post anterior já sabe a resposta. Não foram os Vikings, talvez os europeus pré-cristãos mais cantados na mídia — mas que à altura do ano 1000 já estavam sendo forçosamente cristianizados pelos seus convertidos reis.

A última região europeia a abraçar o cristianismo foram os Países Bálticos, e destes, a Lituânia

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Aos curiosos, este era em linhas gerais o mapa religioso da Europa à época do Grande Cisma do Oriente, quando a Igreja Ortodoxa que seguia o patriarca de Constantinopla (em azul) separou-se da Igreja Católica Romana, que segue a autoridade do papa. (Vale dizer que, em linhas gerais, mesmo mil anos mais tarde esta divisão se alterou pouco.) Em cinza, quem há ali sem seguir nem uma nem outra? Os Países Bálticos, o último rincão europeu a se cristianizar.

Foi somente em 1387, bem depois das famosas Cruzadas à Terra Santa, que os lituanos finalmente abraçaram o cristianismo. É algo que todos os lituanos sabem. Têm a informação na ponta da língua, e traem mesmo um certo orgulho ao comentar que missionários eram decapitados ao vir tentar convertê-los.

Esta é uma história sem mocinhos nem bandidos. Os missionários cristãos eram notórios por destruir os bosques sagrados dos povos bálticos, onde grandes árvores de carvalho — dentre outras — eram cultuadas. Eles vinham, frequentemente perdiam a vida de forma violenta, e eram prontamente canonizados pela Igreja (como Bruno de Querfurt, decapitado em 1009, e que então virou São Bruno, “apóstolo dos prussianos”).

Os lituanos, desde a Antiguidade, junto com os demais povos bálticos cultuavam as forças da natureza e, em especial, os astros.

Como eu cheguei a observar no post anterior, os prussianos originais (por assim dizer) nada tem a ver com Bismarck, Frederico o Grande, ou os demais figurões da Prússia moderna que nos acostumamos a associar com a Unificação Alemã.

Cavaleiro teutônico
Imagem clássica de um cavaleiro teutônico.

A Prússia, originalmente, era uma região à costa do Mar Báltico no atual nordeste da Polônia onde viviam povos bálticos (prussianos, lituanos, letões, dentre outros) que sofreram uma campanha de conquista e conversão ao cristianismo nas mãos — ou na espada — dos Cavaleiros Teutônicos, uma ordem essencialmente germânica que se dispunha a conquistar terras de “infiéis” pagãos no leste da Europa da mesma forma que franceses e ingleses se punham na Terra Santa contra os árabes. Ou como portugueses, aragoneses & cia se punham contra os também muçulmanos mouros na Península Ibérica. A política, as pazes e as guerras em toda a Europa e vizinhanças eram definidas pela religião. 

Os lituanos, desde a Antiguidade, junto com os demais povos bálticos cultuavam as forças da natureza e, em especial, os astros. Viam os planetas, o sol e a lua como uma família. As florestas eram tratadas não como propriamente deusas, mas como espaços sagrados por onde fazer solicitações ao divino.

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Figuras esculpidas em madeira que encontrei numa floresta no sul da Lituânia.
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As figuras mitológicas dos povos bálticos lembram aquelas de outras culturas europeias, com figuras bondosas ou perversas, e geralmente associadas a distintos elementos da natureza, tal como na mitologia greco-romana.
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Encontrando-me com figuras ancestrais na Lituânia.

Estas florestas de pinheiro hoje seguem aconchegantes, com o cheiro dessa madeira a tomar os narizes mais perceptivos. No verão, como quando fui, dão um cálido abrigo ao sol, com o vento a nos fazer imaginar contos de floresta europeus.

Porém, elas já não têm nem de longe a diversidade de árvores que um dia tiveram. Para não falar em fauna. Lobos e grandes mamíferos destes bosques, como alces, renas ou ursos, quase que só existem no extremo norte da Europa ou em algumas áreas remanescentes no leste europeu.

Era diferente nos tempos antigos. As práticas religiosas dos povos bálticos começaram a ser documentadas já na Grécia Antiga por Heródoto (484 – 425 a.C.), mas os relatos eram soltos. Os gregos e romanos antigos aventuravam-se por estas terras longínquas de forma muito irregular — ou, mais provavelmente, os que o faziam não chegavam a registrar por escrito o que viam ou aprendiam.

Os povos bálticos cremavam seus mortos, e tinham bosques sagrados que chamaram a atenção dos cronistas forasteiros desde o início. A sua reverência principal, no entanto, era ao sol (saule) e ao supremo deus celestial Dievas, uma figura à là Zeus comumente ancestral a todos os indo-europeus — e que o cristianismo até hoje carrega, com sua associação popular do Reino de Deus com o céu físico.

Alguns viriam a dizer que os bálticos pagãos, como os cristãos, também tinham uma espécie de papa ou sumo sacerdote, chamado de Kriwe, e que habitava o santuário de Romuva, o qual alguns cronistas cristãos tentaram descrever.

Romuva sanctuary
Esta imagem do que seria Romuva data do século XVI, segundo a qual havia um fogo eterno a queimar e um grande carvalho sempre verde ao lado das imagens de três deidades maiores dos bálticos.
Flag of Widewuto
Uma gravura de 1584. Sempre segundo os cronistas, estas seriam as três principais divindades dos antigos prussianos, lituanos, letões e demais povos bálticos (da direita para a esquerda): Patrimpas, deus da da terra, das lavouras e do mar; Perkunas, deus do céu e do trovão; e Patulas, deus dos mundo dos mortos.
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Eu, basicamente, me crendo o faraó da floresta na Lituânia.

Estas madeiras têm o toque firme, embora perceptivelmente mais leves que as densas e pesadas madeiras brasileiras. Os bosques parecem mais bosques que selvas.

Dizem que o último kriwe, ou sumo sacerdote, da religião ancestral dos bálticos foi Lizdeika, uma figura que hoje alguns imaginam quase como um Gandalf de O Senhor dos Anéis. (Ou, talvez melhor dizendo, as figuras modernas da ficção é que são imaginadas com base no que se sabe sobre estes sábios pré-cristãos.)

Lizdeika
Arte do que teria sido Lizdeika, talvez o último sumo-sacerdote da religião tradicional báltica entre os lituanos. Ele teria vivido no século XIII.

Ele parece ter sido o conselheiro do grão-duque lituano Gediminas (1275-1341), este uma figura histórica muito bem quista aqui na região, e fundador da atual capital Vilnius (sobre a qual trataremos no futuro).

Gediminas (cujo nome me faz lembrar algum mineiro falando da sua terra) vivia uma situação inusitada, ascendendo como um poderoso monarca pagão numa época em que a Europa tornava-se cada vez mais homogeneamente cristã.

Naqueles idos do século XIII, ele havia visto como os cruzados teutônicos haviam conquistado seus vizinhos prussianos — para lhes tomar até a alcunha e breve fazer uma Prússia germânica, a associação moderna que fazemos do nome até hoje. Enquanto isso, na sua fronteira oriental, os russo começavam a “engrossar o pescoço” após o fim da era mongol.

Como os teutônicos haviam formado um estado monástico religiosamente governado onde havia sido a Prússia original e sua razão de ser era a conversão de todas estas terras ao cristianismo, Gediminas decidiu formalmente converter-se para tirar dos teutônicos o pretexto para guerrear.

O duque lituano escreveu em 1322 diretamente ao Papa João XXII, dizendo que recebia bem franciscanos e dominicanos (embora os enforcassem no caso de tentarem converter os não-cristãos ou falassem mal da religião tradicional báltica) como forma de contrabalançar o poder dos teutônicos.

Gediminas chegou a solicitar que a Santa Sé enviasse uma comitiva para organizar seu batismo, o que levou Sua Santidade a proibir os demais cristãos de lhe fazerem guerra. Os preparativos durariam anos. Ao fim das contas, Gediminas ainda pediu um adiamento.

Ele morreria em 1341 plenamente aderente à antiga religião báltica, porém, com servos germânicos atirados vivos na sua pira funerária junto com seu defunto para fazer-lhe companhia.

Krikstas
Túmulo na Lituânia, com a cruz, mas preservando o achego à madeira. Quando os protestantes os proibiram de fazer cruzes nos túmulos, eles passaram a talhar figuras de animais ou outros símbolos da natureza.

Converter-se ao cristianismo acabaria sendo uma decisão de estratégia política, mais tarde. Vendo-se cercados, acabaram aderindo ao cristianismo como religião de estado em 1387 — embora o povão permanecesse aderido às suas práticas ancestrais ainda por bastante tempo.

Os lituanos acabariam entrando numa união de coroas com a Polônia, e convertendo-se ao cristianismo católico romano enquanto os teutônicos lidavam com a transição de muito da Germânia ao protestantismo luterano no século XV.

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Eu descobri um pouco mais sobre este passado lituano e báltico numa viagem a uma das áreas mais interessantes desta região, o Istmo da Curlândia (Curonian Spit em inglês, Kuršių nerija em lituano), um lugar curioso e ligeiramente estranho tanto pelo nome quanto pelo formato.

Isso dificilmente cai no ENEM.

Mapa de Kaliningrado
Eis o mapa da região atualmente. Note o exclave russo de Kaliningrado ali entre a Polônia e a Lituânia, algo que muitos ocidentais sequer percebem no mapa. É uma herança do século XX. Você está também percebendo que há uma linha de terra ali naquele cantinho de mar?
Curonian Spit and Lagoon
É assim, o Istmo da Curlândia (Curonian Spit), um fenômeno geológico natural, formado no terceiro milênio antes de Cristo, com o derretimento de uma geleira e acúmulo de areia ali. Hoje, são das melhores praias da Europa continental.
Curonian Spit from above
Visão aérea do curioso Istmo da Curlândia.

A gente do Brasil tende a achar que Europa nunca foi sinônimo de praia. Eu próprio ria quando os holandeses, nos muitos anos em que vivi na Holanda, me falavam animados de suas praias — umas faixas de areia sem graça, sem coqueiros nem calor, regadas de um vento frio e mar gélido.

Porém, preciso dizer que as dunas de Nida, a última cidade lituana naquela faixa de terra, são merecedoras de atenção. Foi onde eu também fiz os “passeios na floresta” deste post.

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O Mar Báltico e as dunas de areia em Nida, Lituânia. (Eu confesso que não acreditava que havia litorais assim no norte da Europa.)
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O Mar Báltico, assim parecendo que estamos no Brasil. (Daqui a pouco eu explico a minha posição na foto.)

A quem nunca se banhou no Mar Báltico, ele é curioso por ter muito baixa salinidade. Você consegue mergulhar de olhos abertos sem problemas e, quem sabe até, engole água sem perceber muito que ela é salgada. É como se fosse um grande lago. Isso se dá porque ele está bastante isolado, alimentado por rios, mas distante dos salinos oceanos.

Como fazia um caloroso dia de sol (sim, os verões podem ser bastante quentes por aqui), e eu sendo brasileiro neste contexto, meus companheiros europeus no evento em que participávamos em Klaipeda, com quem eu vim aqui, resolveram achar que estávamos no Brasil.

Como de hábito com essa geração de europeus, cantarolam Chorando se Foi — sem se dar conta de que a lambada há muito já não é moda no Brasil — e, é claro, partem do princípio de que todo brasileiro joga capoeira.

Sim, eu sou baiano, mas nunca joguei capoeira na vida. Exceto em Nida, Lituânia.

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Olhe a angolana arte do rapaz, a desviar-se do meu colega búlgaro nas praias lituanas.

Assim são estas terras hoje, depois de tudo que se passou.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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