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Lituânia

Kaunas: Pessoas, história e arte pelo interior da Lituânia

Kaunas é aquela cidade de médio porte (300 mil hab) e bem bonitinha de que você provavelmente nunca ouviu falar.

Estamos no interior da Lituânia, na sua segunda maior cidade. Um charminho de lugar, com muita coisa histórica — de desde a Idade Média — e do patrimônio artístico lituano.

Ah, ainda não conhece do patrimônio artístico lituano? Pois eu aqui vos apresentarei algo da obra de M.K. Čiurlionis, um dos pais da arte abstrata, e que conta com um museu todo dedicado a ele nesta cidade que dizem ter sido fundada por romanos que fugiam de Nero.

Quem sabe você repete o episódio e vem parar aqui.

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Kaunas, a segunda maior cidade da Lituânia.

Estava tudo certo para a minha chegada a Kaunas. Eu tomava o trem desde Klaipeda, a terceira cidade do país, no litoral, cá para a sua segunda. Para a surpresa dos europeus habituados a se mover em trem, eles são pouco úteis para chegar ou percorrer estes Países Bálticos, visto que seus trilhos ainda são soviéticos e, propositadamente, de tamanho diferente dos europeus. (Isso foi para dificultar invasões de cá pra lá ou de lá pra cá durante a Guerra Fria, e os Países Bálticos faziam todos parte da União Soviética até 1990.) Servem, no entanto, para viagens de uma cidade a outra dentro da Lituânia — e são até confortáveis.

Como eu fui dos últimos a ir embora do evento que agregara tantos novos amigos ao longo da semana que passou, tive o desprazer de tomar café da manhã naquele ambiente semi-vazio de onde nos hospedamos. Desprovido das pessoas que o fizeram significativo para mim, o lugar era um insosso hotel pós-soviético.

À estação, ainda encontrei Kestutis, o tímido coroa lituano fã de Sepultura. Foi o que ele mencionou quando soube que eu era do Brasil, ao passo em que tantos outros do leste europeu lembravam-se de lambada e Escrava Isaura (sim).

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Eu, volta e meia, vou parar numas situações assim. Estou lá atrás, e Kestutis na extrema esquerda.

À estação de Kaunas me esperava Ieva, uma amiga lituana de outros carnavais. (Vida de libriano é coisa boa, meus queridos.)

Reencontrávamos após algumas fuzarcas no Canadá, e ela aqui seria minha anfitriã e guia. Como trabalhava no Museu Nacional de Arte M.K. Čiurlionis, acabei ganhando uma visita VIP também.

Fui recebido com um prato de batatas cozidas e sopa de beterraba com creme azedo (sour cream). São coisas arquetípicas daqui. Lembro-me de morar com um letão (da Letônia, país aqui vizinho) e a primeira coisa que ele comprou no supermercado foi um saco de 5 Kg de batata, que às vezes comida fervida com creme azedo na cozinha.

Batatas com creme azedo
Esta foto está um tanto gourmetizada para a câmera, mas batatas cozidas com creme azedo é tipo o pão com manteiga dos bálticos.
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Minha sopa fria de beterraba com creme, tirada da geladeira, quando cheguei a Kaunas. (Eu já a havia experimentado na Polônia, e aqui você aprende que os lituanos e poloneses não se bicam muito, e lembram um pouco as rixas de brasileiros com argentinos.)
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Sim, as moradas são simples, e fora do ambiente histórico tudo é do tempo soviético (até 1990) ou posterior. Os prédios residenciais são assim padrão, mas as calçadas arborizadas são bonitas.

Era um lugar tranquilo, onde eu, Ieva e sua colega de apartamento Almante (que atendia pelo apelido de Almantusha) batíamos papo na cozinha — aqueles ambientes simples de jovem universitário, com coisas na parede.

Eu gosto como, nesta Europa de hoje, você mal faz amizade com a pessoa e já a chama para dormir na sua casa, contar por onde anda, do que gosta… Este ambiente universitário diverso e de cabeça aberta, muito turbinado pelo programa Erasmus de intercâmbio, é talvez o que a Europa tem de melhor hoje em dia. Espero sinceramente que os nacionalismos xenófobos não o destruam.

Era hora de darmos umas voltas.

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O centro histórico de Kaunas.

Eu cheguei a falar acima que os lituanos e poloneses não se bicam muito, e isto é em parte porque eles já foram casados.

Sim, por mais de 400 anos (!), entre 1386 e 1795, as coroas do Grão-Ducado da Lituânia e do Reino da Polônia foram unidas por um matrimônio direto entre o grão-duque de uma e a rainha da outra. Foi um período de grande prosperidade e imenso território, certamente o ápice de poder destas duas nações, mas como os poloneses é que, aos poucos, tomaram as rédeas, os lituanos o ressentem um pouco.

Como cheguei a comentar antes, eles se uniram em parte para resistir mais efetivamente à agressão germânica dos Cavaleiros Teutônicos, que faziam campanhas no leste europeu para converter populações pagãs remanescentes e conquistar domínios que permaneceriam alemães até estes os perderem nas guerras mundiais.

É dessa época o Castelo de Kaunas, pela primeira vez mencionado por escrito em 1361. Os teutônicos, que escreviam a maioria das crônicas da época que nos foram legadas, estavam a tentar tomá-lo da Lituânia ainda pagã, e teriam sucesso em fazê-lo no ano seguinte, em 1362.

Como vocês podem ver, a situação não estava fácil para os lituanos.

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O medieval Castelo de Kaunas, mencionado pela primeira vez na história em 1361. Ele seria perdido para os germânicos teutônicos no ano seguinte, mas depois recuperado pelos lituanos em aliança com os poloneses.
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Junto da aliança com os poloneses, veio o catolicismo romano à Lituânia. Ali adiante, a Igreja Jesuíta de São Francisco Xavier, inaugurada no século XVIII.
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O interior da Catedral de São Pedro e São Paulo, em Kaunas.

Os poloneses têm o catolicismo como parte de sua identidade nacional há muito tempo. Nessa época de que vos falo, os russos cristãos ortodoxos já ameaçavam este território a partir do leste, e breve (nos séculos XV e XVI) os germânicos converteriam-se em luteranos protestantes. Lutar pela fé católica era, pois, uma questão de sobrevivência identitária aos poloneses — e, breve, também aos lituanos.

Foi aí que surgiu a história, propagada até mui recentemente, de que os lituanos, na realidade, descendiam diretamente dos romanos.

Os poloneses tinham a noção de que estavam civilizando os “selvagens” lituanos, formalmente pagãos até 1387 (e, dentre o povão, ainda por muito tempo depois disso). No entanto, os lituanos não aprovavam nem um pouco essa visão dos seus cônjuges. 

Maironis
Maironis (1862-1932), sacerdote, dramaturgo e poeta lituano. Foi um dos que, mais recentemente, defendeu a ideia da origem romana dos lituanos.

Foi aí que surgiu a história, propagada até mui recentemente, de que os lituanos, na realidade, descendiam diretamente dos romanos, de uma leva de patrícios liderados por um tal Palemon, parente de Nero, e que teriam escapado das garras deste piromaníaco imperador.

Contornando os mares até estes confins então remotos da Europa, Palemon e cerca de 500 famílias de patrícios romanos teriam se instalado e dado início à nação lituana. Do nome de um de seus filhos, Kunas, teria surgido esta cidade de Kaunas.

Essa narrativa da alta classe lituana para defender a própria estirpe dos insultos poloneses prosperaria desde os idos do século XV até o século XX, com escritores lituanos importantes, como o poeta Maironis (!), perpetuando-a. Eu aqui, porém, já lhes digo que é infundada, e os bálticos descendem é dos bálticos mesmo, como conversei neste post anterior.

(Antes que alguém pergunte, não, meu nome não foi por causa do poeta lituano, de quem eu estou certo de que meus pais jamais haviam ouvido falar.) 

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Pra mim, no que se refere às pessoas, os bálticos não devem nada aos romanos.
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“Juntos amamos Kaunas”, à margem do Rio Neman, em cuja confluência com o Rio Neris se fundou esta cidade em tempos imemoriais.

Minha amiga aí é artista, e levou-me para conhecer por dentro o museu dedicado ao mais famoso pintor e poeta da sua terra, Mikalojus Konstantinas Čiurlionis (1875-1911). Como tantos nesse ofício, morreu relativamente jovem, ainda aos 35 anos, mas não sem antes compor 400 peças musicais e legar mais de 300 pinturas que serviram de vanguarda ao nascente movimento de arte abstrata na Europa.

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M.K. Čiurlionis (1875-1911), um dos pais da arte abstrata na Europa, e que teria sido avô do ator Johnny Depp (brincadeira).

A arte europeia, veja você, sempre teve por tradição uma perspectiva ou sacra ou realista. Do Renascimento em diante, note como ela sempre procurou ser uma representação de uma situação, de alguém, de um lugar ou de uma cena.

Čiurlionis [lê-se Tchi-ur-liônis] foi um dos que, no final do século XIX, quando a Europa abraçou mais influências esotéricas e orientais, rompeu com aquela tradição e avançou a arte abstrata, que por sua vez levaria à arte moderna.

Não me peçam para explicar os significados, mas seus quadros têm uma beleza própria.

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Amizade (1906-1907).
Ciurlionis Sol no signo de escorpião
O Sol passando pelo Signo de Escorpião (1906).
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Perkunas (1909), referente ao deus báltico dos céus e trovões, por vezes associados a Thor, dos nórdicos.
Ciurlionis A Criação do Mundo
A Criação do Mundo (1905).

Você pode apreciar a maioria das obras de Čiurlionis no museu aqui dedicado a ele em Kaunas. Ou pode ir ver meu quase xará, no Museu Maironis de Literatura Lituana, ou ainda conferir o Museu da História da Medicina e Farmacopeia Lituana. Coisas interessantes a conferir na cidade. 

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O prédio da Prefeitura de Kaunas, Lituânia.

Nós ainda subiríamos à imensa e moderna Basílica da Ressurreição do Nosso Senhor Jesus Cristo, erigida no alto de uma colina e consagrada apenas em 2004. É interessante, já num estilo bastante recente, e você pode subir (de elevador) ao seu telhado a mais de 50m para ter uma vista panorâmica.

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A Basílica da Ressurreição do Nosso Senhor Jesus Cristo, consagrada em 2004 em Kaunas, Lituânia.
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Seu interior, com uma referência à famosa Colina das Cruzes, que fica no interior da Lituânia.
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A vista panorâmica lá de cima.

Nublou um pouco, choveria, e nós à noitinha ainda iríamos a uma festa de colegas de programa Erasmus de Ieva. Conheci Tauno, um estônio, e fiquei secretamente me divertindo com estes nomes originais por aqui.

No dia seguinte, eu já iria para Vilnius, a finalmente conhecer a capital lituana. Uma hora dessas eu paro.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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