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Myanmar

De ônibus em Myanmar: A experiência e 3 surpresas

O tablado de madeira no chão fazia-me parecer até que eu estava em casa. Viajar de ônibus em Myanmar há de surpreendê-lo. Pelo bem e pelo mal.

Diante do estado arcaico das ferrovias aqui do país — que estavam já marcadas para renovação com ajuda japonesa até o golpe militar de fevereiro de 2021 bagunçar as coisas —  os ônibus são a melhor opção para viajar dentro de Myanmar.

Como os voos domésticos também são caros, viajar de ônibus acaba sendo a melhor opção para percorrer o triângulo clássico de visitas a este país: Yangon, Bagan, e Mandalay, as três mais visitadas cidades. Algumas pessoas ainda esticam para ver o Lago Inle (Inle Lake).

No mapa abaixo vocês podem ganhar uma dimensão melhor do país. De Yangon a Bagan ou Mandalay, estamos falando em 10-12h de viagem — quase sempre feita à noite, com ônibus noturno, mas viagens diurnas existem. 

Myanmar mapa com cidades
Mapa de Myanmar em detalhes. As três principais cidades (em termos de turismo) têm balõezinhos.

Myanmar fez como o Brasil — e muitos — e criou uma nova capital mais central para o país. Naipidau (Naypyidaw, ou ainda escrita Nay Pyi Taw assim separado) é mais uma destas estranhas cidades planejadas, como também Nursultan (antiga Astana) no Cazaquistão. Foi construída a partir de 2002, e tornada capital em 2005, liberando Yangon (Rangoon) dos encargos administrativos, embora ela continue sendo a metrópole principal.

Desnecessário dizer que turista quase nenhum vai a Naipidau. Há lugares mais interessantes para ver.

Despedindo-me de Yangon

Mesmo após fazer exposição da minha figura nos mercados de Yangon e visitar o estupendo Pagode Shwedagon (umas das edificações mais belas que já visitei na vida), ainda dei minhas circuladas pela cidade. Eu tinha um ônibus noturno até a cidade histórica de Bagan, mais ao norte, e portanto ainda algum tempo durante o dia.

Tomei mais mohinga na rua — da sopa arquetípica aqui de Myanmar, com macarrão no caldo de peixe (que mostrei antes) —, e fui visitar ainda o Pagode Sule no centro da cidade. Eu gosto de templos budistas.

Claro que Sule mal se compara a Shwedagon, mas vale a visita se você estiver por perto.

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A comilança do pessoal nas ruas de Yangon, vista típica aqui do Sudeste Asiático. (Outra coisa de que eu gosto é que há razoável mistura social entre homens e mulheres. Não é aquela coisa segregada, da vizinha Índia ou do mundo islâmico, de homens para um lado e mulheres para o outro.)
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Para não dizer que não falei das flores, uma bela mesquita para a minoria muçulmana de Yangon. Reparem ali que o seu relógio marcava meio-dia, sol a pino.

Meio-dia no centro de Yangon é quase semelhante a meio-dia num dia de calor no centro de alguma metrópole brasileira — suor, carros, poluição, movimento de gente, pessoas parando para comer, na indetível muvuca.

O Pagode Sule, que de certa forma é o centro do centro de Yangon, fica hoje bem no meio disso tudo.

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Notem fotos de como era o Pagode Sule à altura de 1948, ano da independência de Myanmar dos britânicos após a debacle da Segunda Guerra Mundial.
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Ele hoje. (Precisamos conversar seriamente sobre a sustentabilidade das nossas cidades atuais.)
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O interior da área do Pagode Sule.

A paz fica algo perturbada pelas buzinas dos carros logo ao lado de fora — é preciso atingir elevados estados de consciência para se concentrar — e a poeira se acumula com relativa rapidez nesse chão limpo de outra maneira limpo.

Pisar na área ensolarada era uma tarefa apenas para aqueles que, em transe, conseguem pisar em brasas. Há de notar a moça lá de guarda-sol ao andar.  

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Um dos altares. Apesar dos pesares, o templo inspira paz. Você ali nota as muitas flores, e no rosto da moça à direita a pasta thanaka para a pele — que mostrei num post anterior.
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Cocos verdes e bananas (também verdes?) como oferendas budistas.
Sule Pagoda em 1890
Notem como era o centro desta cidade e o Pagode Sule nesta foto que resgatei de Yangon em 1890.

A semelhança era andar de guarda-sol, para quem pode, mas se note também que a área era melhor arborizada.

Myanmar não é exatamente um bastião de sustentabilidade ambiental. Pelo contrário, desde a reabertura em 2011 o que não faltam são negócios espúrios — em grande parte movidos pela demanda chinesa, mas também com capital japonês ou ocidental — em termos de exploração madeireira ilegal, tráfico de animais, e essa coisada toda. Um tanto como a Amazônia brasileira.

Eu andei por ali naquele centro quente mais um tempo, dando um olhar final (por ora) aos prédios, e peguei uma exibição de praça sobre as coisas que ocorrem no norte e sobretudo à fronteira de Myanmar com a China.

Não se preocupem; vou poupá-los das fotos fortes. Preocupemo-nos é com as coisas que acontecem. 

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O norte de Myanmar, ainda de recursos inexplorados em grande parte pelo país ter estado fechado até 2011, hoje é aviltada feito a Amazônia brasileiro.

Temos aí a explosiva mistura de gente pobre querendo sobreviver a qualquer custo, a ganância de muitos que querem ganhar dinheiro com a exploração de recursos naturais, e a insensibilidade geral.

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A praça central, com o prédio histórico da Alta Corte ali adiante, as mulheres ali sob a sombra, os painéis de exibição no gramado, e o sol a fulgurar por sobre a minha cabeça.
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Um dos prédios históricos, do tempo do Raj Britânico — a colônia que compreendeu toda a Índia, atual Paquistão, e Myanmar sob Vossa Majestade do século XIX a 1948. A arquitetura indo-vitoriana, apesar dos pesares, é linda.

Vamos aos ônibus em Myanmar

A tarde cairia, e a noite chegava. Vamos aos ônibus em Myanmar, pois eu precisava tocar viagem. Acompanhem-me nestas três surpresas.

Surpresa 1: A rodoviária fica mais longe que o aeroporto

A rodoviária aqui é mais longe que o aeroporto, a cerca de 20 Km do centro. Mas não imagine 20 Km de rodovia, tolinho. São 20Km de espaço urbano, com semáforos, tráfego, e um ocasional engarrafamento. Não subestime o tráfego.

Recomenda-se estimar em média 2h de “viagem” de carro até a rodoviária. No meu caso, não achei o trânsito especialmente engarrafado, e ainda assim levei 1h30 pra chegar do centro lá. (Qualquer acomodação chama para você um motorista no Grab, o aplicativo que faz as vezes do Uber aqui pelo Sudeste Asiático.)

Foi uma verdadeira jornada de fim de tarde nesta cidade de 7 milhões de pessoas e que parecia não ter fim. Muito tranquilo, no sinal vermelho o motorista abriu sua porta com gentileza — e cuspiu também com gentileza, aquele cuspe que de tão gentil não cai direito, fica pendurado, aquela gosma vermelho-ferrugem da noz-betel que os homens daqui mascam. Perdoem os detalhes gráficos da narrativa.

Chegaríamos já no escurecer ao que é um imenso estacionamento a céu aberto (que deve ficar lindo quando chove) onde as empresas de ônibus têm seus respectivos escritórios e os ônibus estacionados em frente.

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Bem-vindos à rodoviária de Yangon.

Se vocês quiserem captar mais do ambiente, podem assistir a este curto vídeo abaixo que fiz.

Como comprar passagens de ônibus em Myanmar

Um pouco sobre como comprar passagens de ônibus em Myanmar. 

Se você achou que o caminho, a verdade e a vida eram só Jesus, enganou-se: é também a JJ Express, companhia viária birmanesa que, acreditem, usa esse mote como lema. “The way, the truth, the life”. Não me perguntem se a empresa é de donos evangélicos. Myanmar é um país notoriamente budista, às vezes beirando o fanatismo.

E o pior é que a empresa é muito boa. Você adquire suas passagens com muita facilidade pela internet através do seu site oficial (https://jjexpress.net/). É interessante comprá-las de antemão alguns dias ou até semanas antes para ficar certo de viajar naquele horário.

Quando você compra as passagens, precisa informar se é passageiro masculino, feminino, ou monge. (Para quem achou que “terceiro gênero” era modismo ocidental, aqui na Ásia há terceiros gêneros sociais bem consolidados há muito tempo.) Não sei se a empresa permite homem e mulher desconhecidos sentarem juntos. Mais abaixo eu falo sobre os preços e o nível de conforto.

Surpresa 2: Ônibus em Myanmar é mais confortável que no Brasil ou na Europa

Nós no Brasil temos alguns ônibus muito bons, mas iguais a estes de Myanmar eu nunca vi. Arrumados, bem espaçosos, com lanchinho e até tocador de música nas costas da poltrona à frente — feito avião.

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O interior do ônibus da JJ Express em Myanmar. Assentos confortáveis, ambiente espaçoso, e até tablado de madeira no piso (!).
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Meu assento parecia quase uma poltrona de massagem.
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Ônibus em Myanmar inclui cobertor, água, e telinha individual com músicas para escutar. Feito em avião.
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Inclui lanchinho também. “Como um avião é no céu, a JJ é na terra.” Pior que eles são mesmo os que mais se aproximam disso.
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O poderoso veículo da JJ naquela zona da rodoviária. Quem disse que viajar de ônibus em Myanmar é precário?

A passagem num ônibus noturno na primeira classe (esse das fotos, com assentos em 2+1), custa 20 USD à noite, para as 10h de viagem entre Yangon e Bagan.

Entre Bagan e Mandalay há apenas os Economy Premium, com assentos normais em 2+2. São 5h de estrada por USD 7. Ótimo mesmo assim — melhor e mais barata que muita viagem de ônibus no Brasil.

Note que, ao chegar aqui à rodoviária, é preciso fazer um check-in no escritório da JJ Express com seu passaporte e código da reserva (esta pode ser mostrada no celular), aí você ganha um adesivo de por no peito com seu número de ônibus e assento.

Meia-hora antes da saída, os passageiros são convidados a embarcar, e o ônibus sai relativamente no horário. (O meu zarpou 10 min atrasado, o que não é uma enormidade. A qualidade destes ônibus em Myanmar realmente me surpreendeu.)

Surpresa 3: Você é obrigado a descer do ônibus no meio da noite para comer

Estava tudo indo muito bem. Como quem viu o vídeo acima já sabe, eu naturalmente jantei ali pela rodoviária antes da viagem. Comi um belo macarrão frito tipicamente asiático numa das bodegas. Lugar fino, que alternei com a sala de espera da JJ para os seus passageiros.

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O fino restaurante onde jantei na rodoviária.
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Eis o escritório da JJ Express, a propósito. É sem dúvida a melhor empresa para viajar de ônibus em Myanmar. (Se alguém ficou curioso, o JJ é de Joyous Journey, ou “Jornada Alegre”.)
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O escritório da JJ, onde você vem fazer check-in com seu passaporte e código da reserva feita online.
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Uma sala da espera para os passageiros.

Com lanchinho e tudo a bordo, eu confesso ter sido pego de surpresa quando lá pelas onze da noite o ônibus para. Eu, de barriga cheia, já tinha caído no sono, mas era obrigatório descer. Veio a funcionária asiática de afável sorriso me comunicar.

Sendo um serviço parcialmente orientado para turistas ou birmaneses de alta renda (e gostos mais ocidentalizados), a parada foi num KFC. Nada do outro mundo; ninguém morreu; mas achei a parada desnecessária para uma viagem que já começava às 20h. Eu preferia ter seguido dormindo. Quem vier, esteja avisado.

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Parada no meio da noite no caminho para Bagan, viajando de ônibus em Myanmar.

Na manhã seguinte, após uma confortável viagem de ônibus em Myanmar, eu chegaria a Bagan, talvez a mais histórica das suas cidades.

Vejo vocês lá.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

One Reply to “De ônibus em Myanmar: A experiência e 3 surpresas

  1. Uauuu. Nossa… Que interessante. Surprise for me too. Que beleza de bus. Por fora parece um trio elétrico hahah mas muito bonito. E que chique!… Os daqui do Brasil estão abaixo desse nível. Pelo menos até onde conheço. Muito bons. Excelentes. Espero que tenham toillets hahah. Mais bonito que muita aeronave.
    Jesus, que rodoviária!… My God… lembro que vi umas parecidas nas postagens do senhor, meu jovem viajante, na Tailândia. Coitado do SE asiático com essas dificuldades estruturais. Esse tipo de restaurante pelo visto não difere muito de muitos daqui do Brasil, nas estradas e nas periferias das cidades.
    E que horror essa realidade das cidades, inclusive brasileiras, de hoje, com destruição das reservas verdes e seus espaços e a substituição das ruas por pistas , asfaltadas ou não, e dos transeuntes por um mar de carros poluidores e ruidosos. Aqui no Brasil padecemos do mesmo mal. Parece haver mais carros que moradores. Um desastre ambiental e citadino. Ha locais em que as pessoas não podem andar. Apenas os carros. Impressionante a diferença de ambientação em 1948 até duas décadas de de 2000. ambiente degradado e degradante sob as óticas humano e socio-ambiental.
    Um absurdo essa destruição das reservas naturais, principalmente das florestas e matas nativas. Um terror.
    Esses prédios históricos e essa praça central são muito bonitos mesmo. E esses complexos com templos, estupas pagodes, são maravilhosos. Riquezas culturais, artísticas e religiosas. Deslumbrantes.
    Afora os problemas ja citados e recorrentes também aqui no Brasil, tudo muito bonito.

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