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Brasil

Lençóis e o Morro do Pai Inácio na Chapada Diamantina (BA)

Lençóis se tornou quase o fundo da minha casa. Ou o jardim. Aquele lugar interessante, ligeiramente selvagem, aonde se levam os convidados aventurescos que o visitam.

Ao menos era assim que eu fazia com os meus amigos na infância, eu que cresci em casa de quintal grande — o mundo onde tantas peças e peripécias se deram.

Aos que ainda não sabem, eu sou natural de Feira de Santana (BA), uma cidade onde as atrações turísticas mais interessantes são sempre o último restaurante a ter aberto na cidade (e que, às vezes, cinco anos depois já não existe mais ou caiu no esquecimento dessa cidade adepta a novidades).

A Chapada Diamantina é um reino de muitas moradas, espelho da Casa do Pai, que reserva muitas cachoeiras, trilhas, morros, grutas e cidadezinhas pitorescas.

Vamos, então, às belezas da Chapada Diamantina. Aproveitei-me das visitas de alguns amigos para finalmente vê-la. (Como santo de casa não faz milagre, eu próprio só vim conhecer a Chapada Diamantina depois de muito ter visto do mundo, inclusos aí a Índia e o Japão. Passei, inclusive, pelo impropério de ter estrangeiros mundo afora comentando comigo “Nossa, você é de lá! Linda a Chapada Diamantina, não é? É.)

A Chapada Diamantina é um reino de muitas moradas, espelho da Casa do Pai, que reserva muitas cachoeiras, trilhas, morros, grutas e cidadezinhas pitorescas. Lençóis é seu principal centro, um município hoje de suas 12 mil pessoas (+ uns mil turistas), fundada no século XIX quando se acharam diamantes neste coração da Bahia, e que hoje desponta como hub de ecoturismo e do turismo gastronômico na região.  

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A velha Lençóis sob o firmamento num entardecer.
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O lugar preserva seu casario tradicional, e mantém ruas ainda com calçamento antigo.

Por que Chapada “Diamantina”?

A história, em poucas palavras, é que no século XIX a Bahia chegou a liderar a produção global de diamantes. Lençóis veio a ter 25 mil habitantes, o dobro do que tem hoje. Porém, como é típico dos empreendimentos mineiros, a riqueza fica com poucos — a devastação fica para trás, a movimentação de pessoas em busca da sorte, e um dia tudo acaba.

Por sorte ou consciência, a região foi redescoberta pelos seus atrativos naturais. Depois de abandonada quando a farra do que podia ser retirado com métodos manuais acabou, ainda se iniciou uma remoção mecanizada altamente impactante nos idos de 1970-1990.

Proibiu-se porém a prática, e floresceu um interesse de visitação a essa natureza — primeiro movido pelos ecoturistas estrangeiros, e cada vez mais pelo turismo nacional. O Parque Nacional foi criado em 1985, e segue cada vez mais visitado.

Natureza na Chapada Diamantina
Um pouco da região.
O Parque Nacional da Chapada Diamantina no mapa do Brasil
Localização da Chapada Diamantina. É um parque nacional de 1.521 Km², numa região geográfica de serras e rios no miolo da Bahia que se estende por mais de 41 mil Km².
A localização de Lençóis no mapa da Bahia
A cidade de Lençóis é seu principal ponto de apoio, seguida por Mucugê. A primeira tem aeroporto, mas a maioria dos turistas chegam de ônibus ou carro (5-6h desde Salvador).
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Estátua com a figura do garimpeiro em Lençóis (BA).

Eu vou tratar de diferentes atrações da Chapada Diamantina em posts diferentes. Neste, quero dar algumas dicas de Lençóis e falar da subida ao Morro do Pai Inácio, um dos mais emblemáticos da região.

Lençóis: Cidade histórica e base para passeios

A Cidade

Lençóis é relativamente pequena sem ser miúda demais. Pitoresca com o seu colorido casario de época de 100 anos atrás, oferece um ponto de apoio digno com muitas opções de acomodação, gastronomia, e lojinhas. Sem dúvida é a principal base turística para visitar a Chapada Diamantina.

O seu casario colonial bem preservado cria toda uma atmosfera bem gostosa de lugar do interior de aspecto antigo. 

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As ruelinhas gostosas de Lençóis.
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O casario bem conservado.
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Muita coisa fofinha nestas janelas que me lembram as obras de Jorge Amado ou coisas de época.

Você circula como que naturalmente por estes lugares — não é preciso um city tour específico para vê-los. Naturalmente ao buscar as opções de restaurantes, lojinhas de artesanias e agências de viagens você passa por estas ruelas e vai sentindo a cidade.

Você percebe que há uma mistura do povo antigo — com seus maneirismos gentis, que cumprimentam até estranhos com educação — e de pessoas jovens com os comportamentos de hoje. Eu às vezes via idosas à janela olhando a gente passar, e o meu ímpeto era quase tomar a bença.

À noite, como muito da economia da cidade gira em torno do turismo, não tenha dúvida de que as ruas ficam repletas e animadas até certas horas.

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O casario colorido de Lençóis.
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Esta é a Rua das Pedras, a mais movimentada da cidade à noite. As mesas vêm à calçada às horas do almoço e do jantar.
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A Rua das Pedras em Lençóis à noite.
Lençóis à noite
O lugar fica em festa.
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Sim, às vezes aglomera.

Lençóis em si você vê numa tarde ou numa manhã, mas os seus diferentes restaurantes e pratos podem requerer vários dias — ou múltiplas viagens. Para quem gosta de gastronomia de raiz, Jesus!, Lençóis se tornou um dos destinos mais interessantes do país.

São muitas coisas típicas a experimentar (sucos de frutas típicas,  culinária regional…) e outras tantas a levar pra casa (café da Chapada, doces caseiros…)

Antes de eu tratar da minha subida ao Morro do Pai Inácio (talvez a mais visitada atração da Chapada, e próxima daqui), eu compartilho com vocês a minha lista de favoritos na cidade.

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Nas ruas de Lençóis (BA).

Os meus lugares favoritos em Lençóis (BA)

Lojinhas favoritas na cidade:

  • Casa Artes e Sabores (@artesesaborescolaborativo), um espaço colaborativo meio livraria, artesanato, roupas e restaurante.
  • Pàdé Café Emporium (@padecafe). Você encontra a maior diversidade de cafés da cidade, além de incensos, produtos alternativos tipo óleo de abacate e um tanto de coisas. Bem diverso e agradável. (Só tenha em conta que os cafés mais comuns se acham mais baratos nos mercadinhos comuns de Lençóis ou Mucugê.)
  • Photo Síntese (Praça Samuel Sales, 36). Loja básica estilo mercearia antiga onde se acha de tudo mais em conta, desde pedras a café gourmet. O figura do Seu Tião, o dono conversador, é uma atração adicional. Só abre de manhã, porque de tarde ele faz outras coisas ou vai tomar um banho de cachoeira.

Meus restaurantes favoritos na cidade:

  • Cozinha Aberta. Espaço agradável, com mesas tanto internas quanto numa varanda ao jardim, com pratos muito criativos que utilizam das riquezas naturais de ingredientes do Brasil. É daqueles que cada um pede uma coisa e você sai experimentando dos pratos dos seus amigos.
  • Lampião: Cozinha Nordestina. Sertaneja, para ser mais preciso, distinta da culinária nordestina costeira e talvez mais habitual aos turistas ou pessoas das capitais. Combinam deliciosamente pratos de raiz com algumas invenções criativas.
  • Quilombola – Culinária Regional. Onde provar um godó de banana (“o que é isso?” venha e experimente) e outros sabores típicos. Fica na Rua das Pedras.
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O godó de banana é uma espécie de ensopado de carne com banana verde e, às vezes, bacon por cima. Comida do tempo do garimpo, típico da Chapada Diamantina.
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Caso você prefira algo mais leve, aqui um delicioso purê de banana-da-terra com camarão. (Hoje há também opções puramente vegetarianas de todos estes pratos, já que vêm muitos turistas de todas as partes aqui.)

Algumas coisas típicas a provar:

  • Godó de banana 
  • Cortado de palma
  • Purê de banana-da-terra
  • Suco de umbu, mangaba, todas as frutas típicas que puder, incluso de maracujá-bravo ou maracujá-do-mato se dele encontrar.
  • Caipirinha com alguma dessas frutas em vez de limão 
  • Pastel de jaca verde, ou outras coisas feitas com ela

Além das coisas típicas, você tem aqui em Lençóis um cenário de muita criatividade gastronômica que usa das plantas, frutas e ingredientes típicos para inventar coisas novas. Se é bom ou ruim fica aí para cada um dar a sua nota.

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Bombom de capim-santo, ou capim-limão.

Ligeiramente estranho, de leite condensado misturado ao que normalmente é folha de chá, mas não é que fica bom? Afinal, se os japoneses fazem até sorvete de chá verde, por que é que não podemos fazer de tudo também com os nossos chás aqui? É o que normalmente chamo de auto-confiança cultural para ir experimentando com as coisas suas.

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Bolinhos de queijo-coalho com o molho de maracujá, de entrada no restaurante Lampião. Delicioso.
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Suco de mangaba, daqueles que deixar seus lábios pegajosos (bons de dar um beijo), e que me faz ter dó de quem declara amor por refrigerante. (O canudo seria devolvido, tanto pelo meio ambiente quanto porque evitar o grude da mangaba nos lábios é trapaça.)
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Tem umas coisas que fazem para os turistas aqui também… (Geladinho é o que se chama de sacolé no RJ, e não sei como em outras partes do Brasil.)

Ainda falta uma boa sorveteria em Lençóis — ou tem (escondida) e eu não encontrei. Só encontrei sorveteria besta, que não usa as inúmeras frutas da terra, vendendo daqueles “sabores de menino amarelo” (como diz um amigo meu) completamente artificiais. Se alguém tiver recomendação, me diga.

Onde se hospedar:

Há centenas de pousadas hoje em dia em Lençóis — para todo gosto e orçamento. Eu tive uma experiência muito boa com a Pousada Solar Azul. Café da manhã caseiro estonteante, num lugar agradável e repleto de pessoas simpáticas. Bem no centro da cidade, de onde se facilmente circula a pé.

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Há do bom beiju aqui também, o que vem caindo no gosto do restante do Brasil — e do mundo — sob o nome genérico de tapioca. Uma coisa queijo, outra com goiabada, no café da manhã da Pousada Solar Azul.

Rumo ao Morro do Pai Inácio

O dia-dia em Lençóis consiste em comer bem à noite e sair a algum lugar na manhã seguinte — mas não antes de tomar um café da manhã caprichado e típico em alguma pousada. (Como diz um tio meu que frequenta o interior da Bahia há décadas, “o melhor é sempre o café da manhã.“)

O Morro do Pai Inácio (1.120m), um ponto alto da Chapada Diamantina e talvez o seu maior emblema, fica a meros 29 Km de Lençóis. A visita a ele geralmente é combinada com uma série de outras atrações num mesmo dia (em geral, a Gruta Lapa Doce, Pratinha, Rio Mucugezinho e a cascata do Poço do Diabo).

O morro em si é uma subida íngreme de 20 minutos, que ao final vira praticamente uma escadaria nas rochas, até que você chega ao alto de um daqueles típicos chapadões do interior do Brasil e, lá do alto, ganha uma gloriosa vista.

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Vista da Chapada Diamantina lá do alto. Típicas formações do interior do Brasil.
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Quando eu o visitei pela primeira vez, o Morro do Pai Inácio estava assim sob um céu nublado — o que é muito comum. O tempo aqui é notoriamente volúvel; por vezes há névoas que tiram qualquer visibilidade lá de cima. Estejam avisados.
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A subida ao morro, neste dia nublado, foi assim. Uma condição talvez mais típica que os esplendores ensolarados.
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A vista do alto do Morro do Pai Inácio, olhando o horizonte.

A alcunha de “Morro do Pai Inácio” se deve, segundo os guias da região, a um escravo chamado Inácio que tinha um caso com a filha do coronel local e foi perseguido.

Inácio teria fugido dos jagunços do coronel até chegar aqui em cima do morro, ao que confrontado diante do precipício teria sido ofertado com a escolha de morrer a bala ou se atirando.

O escravo, que pelo visto havia sido presenteado pela sua amada com um guarda-chuva, atirou-se então morro abaixo tentando usar o instrumento como pára-quedas. Nunca mais foi visto, embora tenha rumores de que sim.

Eu não sei até onde vai a lenda e até onde são fatos reais. A umbanda tem uma figura de preto velho hoje alcunhada de “Pai Inácio”, que tampouco sei até que ponto é associado a essa figura semi-folclórica aqui da Chapada.

Virou uma historieta que todos os guias contam aos visitantes cá em cima, enquanto os ventos fazem rendezvous no seu cabelo alinhado acostumados com o meu embolado.

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No alto do Morro do Pai Inácio, os ventos também são uivantes.
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As vistas cá de cima.
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Há sempre flores aqui e ali.

São muitos os lugares a se ver aqui na Chapada Diamantina. Impossível descobri-la toda de uma vez só. Eu pretendo mostrar alguns dos outros nos próximos posts. 

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Animação à noite em Lençóis.
Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

One Reply to “Lençóis e o Morro do Pai Inácio na Chapada Diamantina (BA)

  1. Magnifica a região. Belíssima!… Encravada no coração do Estado, com uma natureza
    em estado natural que parece semi- intocada. Com paisagens divinas, esplendorosas e sob um lindíssimo céu, muitas vezes azulado. Impressionante.
    Essas elevações das quais faz parte esse portentoso Morro do Pai Inácio integram a Região rochosa da Chapada Diamantina , que como o nome já diz produziu belas pedras, preciosas ou não, e que ainda hoje mantem esses espetáculo natural a céu aberto.
    Linda e cativante a região.
    A cidadezinha de Lençóis é uma fofura!… Parece saída do passado e como por encanto preservada, cheia de vida e colorido no presente. Uma cidade presépio, deliciosa aos olhos de quem chega.
    Essas ruelas e pracinhas cheia de gente alegre, de ruído, de luzes, são um encanto à parte. Lindinhas.
    Belo o casario colorido e bem conservado. Lembra bem as cidades do NE do Brasil há uns 60 anos atrás: a mesma arquitetura, traçado das portas e janelas de madeira geralmente fechadas à trancas por dentro, com um batente nas portas e peitoril de madeira nas janelas. Históricas, lindas.
    Amei os gatinhos cochilando no peitoril da janela. Uma graça. Parece mesmo cenas dos livros que retratam o NE do Brasil.
    Comilanças estranhas hahah mas com uma boa cara.
    Para mim os pontos altos foram: a natureza prodigiosa e deslumbrante, e a preservação do belo ambiente histórico.
    Muito bonita a região.
    Gostei.

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