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Singapura

5 coisas a esperar de Singapura, a mais rica metrópole do Sudeste Asiático

Eu já vim a Singapura algumas vezes. Postei antes sobre esta cidade-estado asiática, e desta vez resolvi tentar realçar alguns pontos de destaque — com o misto possível de generosidade e sinceridade, sem ficar na mera rasgação de seda nem tampouco cair na pura crítica.

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Ali estamos, para que ninguém se desoriente.

Singapura é talvez a única cidade-estado realmente genuína no mundo atual. Mônaco, San Marino e o Vaticano estão aí, mas não têm moeda própria nem, no fundo, uma economia independente.

É a pujança econômica de Singapura (“cidade leão” em sânscrito) que a faz realmente uma força, como Veneza noutros tempos, e de quebra a cidade mais rica do Sudeste Asiático.

Pois bem. O que esperar daqui como visitante, na concretude da prática? (Como diz uma professora de que gosto). Ao menos cinco coisas.

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O centro de Singapura.

1. Tempo quente e úmido – uma riqueza tropical

Não tem jeito: o ano inteiro você encontrará Singapura equatorialmente suada. Não há como ser diferente, pois estamos praticamente à linha do equador (a 1ºN), mais ou menos como Belém do Pará (1ºS). Como se não bastasse, Singapura ainda fica à beira-mar.

Prepare-se para um clima amazonense o ano todo, com aquelas tradicionais pancadas de chuva que fazem parecer que o mundo vai se acabar — e que daí então passam, deixando o vapor úmido subindo da água no chão e no ar. É uma sauna, mas c’est la vie. Alguns brasileiros se sentirão em casa.

Os singapurenses se refugiam com frequência nos ambientes com ar condicionado, como se faz no Brasil, mas para circular pela rua é preciso encarar a sua tropicalidade. Uma tropicalidade que, convenhamos, eles aqui integram muito bem ao seu urbanismo.

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Há maravilhas de arquitetura e urbanismo conjugados com a natureza tropical em Singapura.

Já se foi aquele tempo do século XX em que cidade era rival de natureza. (Embora no Brasil e por aí afora ainda haja gestores com a cabeça lá atrás.)

Singapura, como uma metrópole do século XXI, se lava de esbanjar a exuberância tropical de sua natureza. Há prédios cobertos de verde, um amplo e impressionante jardim botânico que mostrei numa postagem anterior, e também símbolos de um certo futurismo ambiental que caem nas graças dos visitantes, como os famosos Gardens by the Bay e suas torres em forma de árvores gigantes. 

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Estes Jardins na Baía (Gardens by the Bay) tornaram-se um dos símbolos de Singapura, com suas super-árvores iluminadas com energia solar em meio a um jardim botânico de verdade — e abrigando estufas nos interiores. Você pode caminhar por aquelas passarelas.
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As super-árvores do Gardens by the Bay iluminadas à noite.

Claro que, do ponto de vista ambiental, Singapura enquanto mega-cidade com grande consumo tem uma pegada ecológica bem acima da média. Mas é uma cidade que, no seu ambiente próprio, busca ser harmoniosa com a natureza local. Além do mais, é bem limpa e organizada, com um ótimo transporte público para cobrir suas distâncias.

Tem muito a ensinar de urbanismo neste século, em especial aos outros países nos trópicos.

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A metrópole erigida à beira d’água. O que era uma aldeia de pescadores e virou entreposto comercial.
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O merlim ali (Merlion), símbolo de Singapura, a criatura com cabeça de leão e corpo com escamas para identificar a relação umbilical que esta Cidade do Leão sempre teve com o mar.

2. Diversidade cultural e religiosa

Este é um ponto que eu sempre busco realçar aqui, como na vizinha Malásia, pois se trata de outra característica histórica e de grande valor geral à civilização: eles sabem conviver com grande diversidade religiosa e cultural.

Quem vier a Singapura encontrará belos templos budistas, em geral frequentados pela comunidade tradicional chinesa que constitui 75% da população do país; coloridos templos hindus utilizados pela população tâmil, originária do sul da Índia; igrejas cristãs erigidas aqui pelos ingleses; e mesquitas para a gente malaia muçulmana.

O inglês é a língua oficial de Singapura, com o mandarim, o tâmil e o malaio reconhecido também como línguas nacionais deste país que é oficialmente multi-étnico e multi-racial.  

Não é como Nova York ou demais metrópoles ocidentais com seus guetos ou comunidades de nicho à là Chinatown. Aqui, a diversidade tem muito mais volume e é parte constituinte da nação.

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Visitantes acendendo incensos num templo budista em Singapura.
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Interior de um templo em Singapura. Um terço da população da cidade-estado se declara budista.
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A quem ficou curioso, este é o Templo da Relíquia do Dente do Buda (Buddha Tooth Relic Temple & Museum), onde dizem haver mesmo um dente de Sidarta Gautama guardado. Ali, alguns monges nos seus típicos robes cor de açafrão.

O cristianismo é a segunda religião predominante aqui, professada por algo em torno de 19% da população. Muitos dos chineses daqui, que aqui estão há várias gerações (e, portanto, desde antes da proclamação da comunista República Popular da China em 1949), foram convertidos pelos britânicos. Há muitos anglicanos, presbiterianos, dentre outros.

Catedral anglicana de Singapura
A Catedral Anglicana de St. Andrews em Singapura. A edificação atual data de 1861, em estilo neogótico.
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O interior da anglicana Catedral de St. Andrews, em Singapura.
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Um colorido templo hindu tâmil.
Mesquita emblema de Singapura
A dita Mesquita do Sultão, que parece um prédio de fábulas na cidade. Utilizada pela comunidade malaia muçulmana.

Há três bairros étnicos e históricos em Singapura: Chinatown, Little India, e Kampong Glam (a área muçulmana, centrada em Arab Street). Não são, porém, guetos na cidade, mas patrimônio cultural tombado das comunidades que formaram esta cidade-estado. A tônica é outra e, embora os prédios elevados e modernos de Singapura chamem mais a atenção que tudo o mais nos cartões-postais, estas vizinhanças são onde estão as suas raízes — que ela bem preserva.

Edificações históricas e modernas em Singapura
Área histórica de Singapura, com os prédios modernos por detrás.
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Em Chinatown, com suas vendas. (É mais limpa e asseada que outras chinatowns que há mundo afora.)
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O casario típico dos fins do século XIX e início do XX, preservados.

3. Pouca democracia, mas pessoas ciosas do seu país

Singapura é muito organizada, mas notória por seu autoritarismo. Há multas pesadas e possível detenção para quem urinar em público, jogar lixo na rua, estiver em posse de material pornográfico, vender chicletes (é sério), utilizar a wi-fi alheia sem permissão, dentre um sem-fim de outras transgressões que incluem cuspir em público ou andar nu em casa à vista dos vizinhos.

Tráfico de drogas é punido com pena de morte, e sexo homossexual masculino carrega uma pena de prisão e surra de pau (caning, que é apanhar com um bastão). Não foi invenção dos asiáticos, mas autoria da sociedade britânica vitoriana do século XIX — que lá no Reino Unido desapareceu, mas aqui foi mantida.

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Evento contra a discriminação LGBT em 2019, em Singapura. É proibido aos estrangeiros participar de manifestações políticas, mas os singapurenses têm direito de assembleia — contanto que não haja “atentado ao pudor” aos olhos das autoridades. (Foto de Feline Lim, Reuters.) Durante a pandemia, em maio de 2021, o governo advertiu a Embaixada dos EUA por participar de um webinário (seminário online) sobre direitos LGBT.

Embora os singapurenses sejam muito ciosos do seu país e façam questão de não serem confundidos com pessoas da China, da Índia ou de onde quer que venha a sua etnia, alguns atribuem o ambiente sociopolítico aqui à tradicional cultura chinesa de influência confucionista e que tolera — ou melhor, estimula — coisas como o nepotismo, a hierarquia, e o coletivo acima do individual.

Há eleições, mas o mesmo partido está no poder desde que o país foi formado em 1965. De lá para cá, estamos apenas no terceiro líder. O atual primeiro-ministro acontece de ser filho do finado e mui reverenciado líder nacional Lee Kuan Yew, que governou o país de 1965 a 1990.

Ademais, democracia não é só voto, são também liberdades civis e instituições inclusivas. Disso, aqui, há pouco, como você já deve ter percebido.

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Lee Kuan Yew (1923-2015), considerado o Pai da Nação. Era bastante controverso, incluso com visões eugenistas que se concretizaram na forma de incentivos fiscais nos anos 80 para que mulheres com grau universitário tivessem filhos e aquelas sem escolamento se esterilizassem.

O visitante atento notará que aqui quase não há livrarias. Só daquelas bem básicas, de aeroporto, com livros de auto-ajuda e negócios.

Críticas ao governo? Análises dos problemas sociais? Nem se encuque com isso. As autoridades aqui querem que você estude, trabalhe, ganhe dinheiro e contribua à prosperidade nacional. A paideia — ou ideal de formação — singapurense não inclui cidadãos críticos nem muita reflexão. Quem pensa demais questiona as normas, as convenções, e nenhum regime autoritário gosta disso.

4. Comida!

A religião nacional, se houvesse uma, se chamaria gastronomismo, e o culto semanal ou diário seria o de comer bem (e bastante). Os singapurenses são orgulhosíssimos da sua diversidade culinária aqui.

Creia-me pois eu convivo com singapurenses há mais de uma década: se você vier a Singapura e não falar da comida, do que experimentou etc., é o mesmo que ir à Itália e boiar quanto à arte italiana. Imagina dizer ao italiano: “Arte? O que, assim?“. O singapurense o olhará da mesma forma se você falar só dos prédios ou da piscina de borda infinita do hotel.

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Os hawker centres são grandes pontos de encontro para fazer refeição em Singapura. Funcionam o dia inteiro, do almoço ao fim da noite, com dezenas de opções. São como amplas praças de alimentação (não-climatizadas) que existem pela cidade. O que Ásia afora é aquela barracolândia na rua, Singapura agregou nestes espaços designados.

Há de tudo o que você imaginar das gastronomias asiáticas — desde comida indiana a japonesa, passando por chinesa, malaia, tailandesa e outras.

E tudo bastante barato se comparado a outros países ricos. Sai coisa de USD 3-6 ou R$ 20-40 por uma refeição generosa.

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Há comidas asiáticas de toda sorte. Este é um buffet malaio/indonésio.
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Um pad thai tailandês.
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Coisas curiosas também, como perna de sapo na panela de barro. Os singapurenses adoram — e dizem que lembra um pouco frango.
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Sobremesa de cendol que tomei desta vez em Singapura. É algo típico da Malásia, Singapura e Indonésia, de uma goma verde de arroz no leite de coco e com caramelo de açúcar de palma. Fica bom!

Se você arregar e preferir alguma coisa ocidental, melhor ir aos restaurantes de shopping. Mas eu, se fosse você, não deixaria de experimentar. Aí você comenta com um(a) singapurense do que comeu e já ganhará sua amizade.

5. O aeroporto é espetacular — mas não tem banheiro no portão de embarque

Concluindo com esta jocosa observação prática, real, estupefaciente, e que os guias de viagem não mostram. O Aeroporto Changi, em Singapura, é um espetáculo — dos melhores do mundo, como detalhei nesta postagem.

Só há um porém a ter em conta se você vier aqui: há detectores de metais à entrada de cada sala de embarque, mas lá dentro não tem banheiro.

Aí eu acho engraçado que você observa com o funcionário em tom de reclamação (eu o fiz), e ao típico modo asiático ele tergiversa com um “Não tem problema, o senhor se precisar pode sair e entrar novamente 🙂“. Muito prático. Tende em conta para não sede surpreendidos.    

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Eu no Aeroporto Changi, em Singapura.

Como quem me lê já sabe, eu não sou maniqueísta. Não vejo sabedoria nenhuma nessa prática corrente de dizer que um sistema ou um lugar é de todo ruim e o outro é de todo bom. Fiz minhas críticas e elogios. O visitante há de notar esses cinco pontos e tantos outros (cuidado com o último).

Fica aí para que cada um avalie o que aprova e o que rejeita. Há néctar de mel em toda flor, embora alguns sejam mais doces que outros.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

One Reply to “5 coisas a esperar de Singapura, a mais rica metrópole do Sudeste Asiático

  1. Uauu… Que maravilha!… Eita cidade magnifica, meu caro jovem viajante. Bem projetada, bem cuidada, limpa, cheia de verde, urbanizada, moderna, com bela arquitetura, pujante vida econômica, alegre, com gente jovem, locais agradáveis de ver e passear e com um aeroporto magnifico, Changi, dos mais belos e bem cuidados. (exceto pela falta de toilete na área de embarque hahaha). Lindíssimo. Um charme. E com aquele astral maravilhoso da Ásia, inclusive com suas deliciosas comilanças, ele e a cidade.
    Há essa coisa do conservadorismo, da não crítica, da presença de governos autoritários , comum na Asia assim como em outras partes do mundo, o que é altamente lamentável e precisa ser revista, mas isso não tira a beleza e a grandeza dessa magnifica metrópole
    Uma riqueza. Um patrimônio mundial essa pujante Cidade-leão. Magnífica.

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