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Indonésia

Prambanan, o irmão mais velho de Angkor Wat na Ilha de Java (Indonésia)

Boa parte de quem ainda não visitou já pelo menos ouviu falar — ou viu imagens — de Angkor Wat, o complexo medieval de templos hindus no Camboja, que serviram de inspiração para muito Indiana Jones, Tomb Raider e outras obras da ficção.

Se você não se reconhece nem num grupo nem no outro, confira nos links acima. Você talvez reconheça ou, se não, terá adicionado mais um item importante à sua lista de monumentos do mundo.

Prambanan, dos idos da década de 850, é vários séculos mais antigo. Um lugar histórico tombado como Patrimônio Mundial da Humanidade pela UNESCO, e o segundo maior complexo hindu no Sudeste Asiático (depois de Angkor Wat).

Fica no centro da Ilha de Java (Indonésia), próximo à sua capital cultural, Yogyakarta.

É um lugar sub-comentado, do tipo que, se fosse na Europa ou nos EUA — ou mesmo no México, próximo dos outros ocidentais — receberia filas e filas de turistas. Na Indonésia, como quase todos os turistas estrangeiros limitam-se a Bali, você pode visitar Prambanan com relativo sossego — só se prepare para o calor.

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Jardins, e edificações milenares lá adiante.

Prambanan e sua época

Prambanan data do tempo em que a Ilha de Java era hinduísta.

O hinduísmo, que é uma colcha de retalhos numa matriz cultural comum (em vez de uma religião centralizada ou unificada), difundia-se naturalmente com o florescer socioeconômico e cultural do que hoje chamamos de Índia. À época, ela era um amalgamado de principados, reinados, etc.

Enquanto que, a Ocidente, ele se deparou com o zoroastrismo dos persas e, depois, o Islã, no oriente ele se espalhou por todo o Sudeste Asiático, suplantando ou — mais comumente — misturando-se com religiões animistas nativas.

Vejam no mapa abaixo. Foi dali que se fundaram sítios históricos importantes, como Bagan em Myanmar, o complexo de Angkor no Camboja, e Prambanan aqui em Java.

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Mapa da difusão do hinduísmo pelo Sudeste Asiático na Antiguidade e Idade Média. A Ilha de Java está cá no sul.

Foi somente com a chegada do Islã e a disseminação maior do budismo na Idade Média que o hinduísmo começou a perder espaço.

Vários líderes no Sudeste Asiático continental, como no Camboja, na Tailândia e em Myanmar, optaram por se converter ao budismo e deixar o hinduísmo para trás — ainda que absorvendo muitas de suas tradições, como o budismo por origem faz.

Já pela Malásia e Indonésia, foram os navegadores comerciais árabes e persas que trouxeram o islã consigo e converteram a população. Sobrou hinduísta por aqui apenas Bali, que é uma ilha e tanto, e sui generis por ainda reter estas tradições milenares. 

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Francisco Serrão (1521†), primo do também português Fernão de Magalhães, e primeiro navegador europeu a chegar a esta atual Indonésia. Criou relações comerciais com os sultões da época para compra de especiarias.

Foi apenas nos idos do século XVI que sultanatos locais, dos javaneses convertidos, passaram a ser o poder dominante aqui em Java. Isso foi concomitante com a chegada dos portugueses, cujos relatos nos falam dessas tratativas com sultões locais nestas que eram chamadas as “Ilhas das Especiarias”.

Eles trouxeram o cristianismo católico ibérico à ilha de Flores, aqui próxima, e ao Timor (que hoje inclui o país, independente desde 2005, Timor-Leste, lusófono), mas destas peripécias dos portugueses eu trato melhor quando visitar esses lugares.

Aqui em Java, nós visitantes tivemos a sorte de que os novos monarcas muçulmanos não puseram abaixo as obras hindus e budistas mais antigas. Em verdade, elas foram abandonadas ainda no século X — não se sabe exatamente por que — e engolfadas pelas natureza. Só seriam redescobertas pelas pessoas de fora da região no século XVIII, já sob o domínio holandês.

Prambanan e o vulcão Merapi ao fundo
Um dos templos de Prambanan com o famoso vulcão Merapi ao fundo. De vez em quando, ele explode. Cogita-se que uma erupção pode ter sido a razão para os reis javaneses irem embora desta região no século X.

Visitando Prambanan

A entrada em Prambanan custa 350.000 rúpias indonésias, o que sai na casa de USD 25. É algo cara, mas vale a pena. 

Sugiro visitar de manhã cedo, logo nas primeiras horas após a abertura do templo às 6:00h. Primeiro, para evitar o calor do meado do dia e da tarde, e segundo porque os templos estão posicionados de tal forma que o sol da manhã os ilumina melhor.

Como você irá constatar também na Índia e no Camboja, é hábito hindu construir templos voltados para o oriente, então é o sol nascente que os irradia. Os crepúsculos são menos especiais; você vai basicamente ver as estruturas escuras contra o sol.

Eu estive aqui pela primeira vez há 10 anos atrás na hora do pôr do sol, e posso confirmar que não é mera conjectura.

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Eu ali há dez anos atrás (no túnel do tempo), com o sol se pondo por detrás dos templos. Você pode ver a minha postagem anterior sobre essa primeira visita aqui.
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O complexo de Prambanan agora sob o sol matinal.

O meu despertador estava programado para as 5:00 da manhã, mas foi inútil. Às 4:00 já havia os chamamentos à oração dos muçulmanos no alto-falante, e às 3:00 os galos da região haviam começado a cantar. Meu dia começou antes do próprio dia.

Como a realidade é sempre mais rica e inusitada que a ficção, eu do quarto do hotel escutava vindo de longe num som de flauta as inconfundíveis notas da lambada “Chorando se foi”. Nós brasileiros nem fazemos ideia, mas esta é mundialmente uma das melodias mais famosas do nosso tempo.

(O que poucos tampouco sabem é que a original é uma música folclórica indígena boliviana, apropriada sem o devido reconhecimento, como de hábito. Aqui, a quem tiver a curiosidade de escutar. Não me perguntem o que ela estava fazendo aqui, agora nos sopros de algum flautista em Java.)

Qualquer transporte acertado com a recepção do seu hotel em Yogyakarta o leva até Prambanan, naquele estilo de o motorista ficar esperando. O templo fica a meros 15 Km da cidade.

Você leva um par de horas visitando até ser, provavelmente, posto para fora pelo calor que aumenta com o avançar da manhã.

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Bem-vindos a Prambanan! Encontramos estas animadas tias indonésias. Uma onda. Uma coisa que eu gosto é que as pessoas aqui são comunicativas, mesmo com estranhos.
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Você tem esta bela esplanada no caminho para os milenares templos.
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Chegam a mais de 40m de altura. Vejam como as pessoas ficam miúdas em comparação.
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Fiquei pequeno diante do templo de Shiva em Prambanan.

Templos e imagens em Prambanan – e seus significados

Prambanan, crê-se que erigido no ano 856, era originalmente chamado Shiva-grha, ou “Casa de Shiva”, referindo-se a um dos deuses da trindade hindu.

Os hindus têm um sem-fim de deidades, comparado ao quase sem-fim de anjos, santos, e variações da Virgem Maria no cristianismo. Ou seja, são “personagens espirituais”, não necessariamente todos eles deuses no conceito ocidental da palavra.

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Há flores de lótus por aqui, símbolo tanto no hinduísmo quanto no budismo.

Sua devoção, contudo, se centra sobretudo na chamada Trimurti: o trio Brahma (deus criador), Vishnu (deus que conserva), e Shiva (deus que destrói e renova).

A dinastia javanesa de Sanjaya, que governou muito da ilha durante o primeiro milênio, era shivaíta — ou seja, dava atenção especial ao deus Shiva, a quem foi dedicado o maior dos templos aqui em Prambanan.

O formato destes templos busca imitar o mítico Monte Meru, que está no hinduísmo um pouco como o Monte Olimpo estava para os gregos antigos: uma morada dos deuses, só que na tradição hindu com uma espécie de gradação desde o topo até o mundo terreno. Daí também o budismo, e quem sabe algumas outras religiões, tiraram a ideia de planos espirituais de existência a depender da elevação.

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Os templos de Shiva, Vishnu e Brahma no centro do complexo de Prambanan.
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Esta é a estrutura geral dos templos aqui, que — como muitos templos hindus em geral — imitam o mítico Monte Meru, morada dos deuses no hinduísmo.
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O maior dos templos, ao deus Shiva, tem 47m de altura, mas há dezenas de outros no recinto. Originalmente, eram um total de 240. Você pode subir em alguns deles até certo ponto, como fiz aqui para esta foto.
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Estes pináculos, estas decorações bojudas que você aqui vê, são como as estupas dos budistas: símbolos de elevação.

Os detalhes das imagens

Você ainda tem aqui esculturas e a gravuras em alto relevo de quase 1200 anos nas paredes. É impressionante.

Muitas fazem referência ao épico hindu Ramayana, grande obra da literatura universal que teria sido escrita antes do Bhagavad Gita (célebre inspiração para o clássico Gita, de Raul Seixas, sobre a natureza de Deus. “Das telhas eu sou o telhado; a pesca do pescador; a letra A tem meu nome; dos sonhos, eu sou o amor.”)

Enquanto esse último se trata de um pedaço do Mahabharata, com protagonismo de Krishna numa parte deveras instrutiva do que de outro modo é um épico, o Ramayana se ocupa dos feitos de Rama.

Os hindus creem que Rama teria sido a 7ª encarnação de Vishnu, enquanto que Krishna teria sido a 8ª. (Alguns aí acrescentam que Buda foi a 9ª.)

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Vishnu, costumeiramente retratado segurando uma flor.
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São inúmeras as ilustrações, feitas no século IX com passagens do clássico Ramayana.
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Um dos muitos velhos sábios dos mitos hindus, talvez Agastya.
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Rama com seu arco flechando os demônios.

Uma curiosidade é que a Ilha de Java já é mencionada no Ramayana. Segundo os historiadores, o clássico teria sido escrito entre os séculos VII e IV a.C. Isso significa que navegadores da Índia antiga já haviam mapeado estas paragens, enquanto que os gregos lá no Mediterrâneo circum-navegavam a Europa.

Yava ou java, em sânscrito, quer dizer cevada, planta que era comum aqui. Ela é mencionada pelos hindus da Antiguidade como Yava Dvip (quer quer dizer “ilha”), e há quem sugira que seja, não pela presença da planta, mas pelo formato comprido da Ilha de Java que lembra uma espiga de cevada.

A saber, Ptomoleu na sua obra Geographia (escrita em 150 d.C. no Império Romano) trata de Iabadiu, esta ilha. Vejam que o conhecimento dos antigos não era pequeno.

No clássico Ramayana, a princesa Sita é sequestrada pelos demônios, e Rama envia pessoas aqui a esta ilha — então vista como longínqua pelos indianos — para procurá-la. Ele acaba recebendo a assistência de Hanuman, o deus com rosto de macaco, razão pela qual os hindus permitem que gangues de macacos circulem pelos seus templos numa boa.

O hinduísmo é muito rico. São, afinal, milênios de história. Aos curiosos, o Mahabharata (contendo aí o Bhagavad Gita) foi escrito e compilado entre os idos dos séculos IV a.C. e III d.C., segundo as estimativas. É, portanto, posterior ao Ramayana.

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Entrada com a figura monstruosa de Kala sobre o arco da porta. É uma figura assombrosa um pouco como as carrancas.
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Um lokapala, que são os “guardiães das direções” no hinduísmo. Algo absorvido pelo budismo e também algo presente no xintoísmo japonês.
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Tomando um solzinho matinal diante das figuras em Prambanan.

O Templo de Sewu — e a história por trás do nome “Prambanan”

Para fecharmos a visita, não posso concluir sem explicar o curioso porquê do nome deste lugar: Prambanan.

A cerca de 800m da parte principal deste complexo fica o Templo de Sewu, pelo qual muitos passam batidos — incluso eu próprio da primeira vez em que vim aqui — mas que recomendo que você visite.

Se você não quiser caminhar a distância inteira, verifique no sítio o trenzinho — parecendo carro de golfe — no qual um motorista leva os passageiros e traz de volta. Eu, como ponguei de penetra no trem onde já iam outros, não sei se é pago, mas se for, é bobagem.

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O trenzinho que circula pelo imponente complexo de Prambanan e que pode levá-lo até o Templo de Sewu, a 800m desta parte principal, caso você não queira caminhar o trajeto todo sob o sol.
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Estas simpáticas tias indonésias ja iam nele e deram carona.

“Prambanan” é uma corruptela do nome javanês Rara Jonggrang (ꦫꦫꦗꦺꦴꦁꦒꦿꦁ). Significa a “donzela esbelta”. Seu nome completo atual é Candi Prambanan, ou Templo da Donzela Esbelta.

A tal donzela esbelta vem de uma lenda javanesa medieval, que dá a origem mítica de todos estes templos do século IX por aqui.

À ocasião, segundo o mito, havia dois reinos em Java. Um governado por um rei bom, onde vivia o príncipe Bandung Bondowoso, e outro por um rei cruel, gigante e canibal, que contudo possuía uma bela e elegante filha, a princesa Rara Jongggrang (literalmente, “princesa esbelta”).

Ela então lhe impõe uma segunda e final condição: construir mil templos numa noite.

Numa guerra, o príncipe Bandung mata o rei canibal mas se enamora de sua filha, que todavia rejeita o assassino de seu pai. Ele insiste, e ela então lhe impõe duas condições:

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Estátua do chamado milésimo templo em Prambanan.

Primeiro, cavar um poço. É uma armadilha; quando o príncipe termina de cavar o poço, os exércitos do rei morto o soterram com pedras, mas ele escapa, e perdoa a sua enamorada pelo estratagema.

Ela então lhe impõe uma segunda e final condição: construir mil templos numa noite. O príncipe Bondowoso, sabendo não poder fazê-lo sozinho, entra em meditação e invoca espíritos da noite para ajudá-lo. Constroem 999 templos.

Antes que construam o último, porém, a princesa junta umas amigas e começam a pilar arroz — prática típica do amanhecer aqui. Os galos despertam, começam a cantar, e os espíritos todos vão embora crentes de que o sol já ia nascer.

O príncipe, furioso, então transforma a própria princesa numa estátua de pedra. Essa que você viu na foto acima. Completa-se aí o milésimo templo. Sewu em javanês.

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O Templo de Sewu, quieto, com seu formato distinto dos demais. Apesar do mito, historicamente ele parece ter sido erigido no ano 782, portanto no século anterior ao restante de Prambanan.

Essa lenda, tudo indica, surgiu já muitos séculos depois, nos tempos dos sultanatos e da chegada dos portugueses. Se os muçulmanos quiseram jogar uma aura de feitiçaria e perfídia por cima dos hindus de antes, eu não ficaria surpreso.

Historicamente, havia embates entre as duas dinastias mais poderosas no primeiro milênio aqui em Java, os hindus Sanjaya e os budistas Shailendra, que ascenderam mais tarde. Crê-se que as histórias e mitos podem advir de combates reais, depois enfeitados. 

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Como há muitos e frequentes terremotos aqui pela Indonésia, muito desta área do Templo de Sewu está desmoronada e sendo relevantada aos poucos. É um lugar bem quieto, que vale a visita.
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Esses contos javaneses hoje são usados em toda sorte de quadrinhos e desenhos animados na Indonésia, assim como as histórias hindus do Ramayana e do Mahabharata viraram animação infanto-juvenil na Índia. Eu, certamente, assisti às aventuras de Krishna em desenho animado enquanto aguardava meu voo no Sri Lanka. Interessante ver estas coisas que poucos nos chegam cá no Ocidente.

Em clima de noite, eu deixo vocês para voltar no post seguinte com a visita ao contemporâneo templo budista de Borobudur — aqui perto — ao raiar da aurora. Uma visita inesquecível. Foi construído pela dinastia rival à que levantou este Prambanan, então assim você vê os dois.

Hora de voltar para almoçar em Yogyakarta, e no dia seguinte acordar antes do dia de novo. Com os galos.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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