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Bélgica

Visitando Waterloo, onde Napoleão perdeu a guerra em 1815

Waterloo. Um nome que os mais aficionados em História reconhecerão como a batalha em que Napoleão perdeu a guerra. Mas onde é Waterloo?

Waterloo originalmente se lê va-ter-LÔU (não uó-ter-LÚ como você escuta nos documentários ou aprendeu na escola), e fica hoje na Bélgica.

Como a Bélgica não existia antes de 1831, estávamos aqui em território holandês. Quando eu insisti na pronúncia inglesa, a minha amiga holandesa Koosje fez uma cara como se eu tivesse dito a um pernambucano que bolo de rolo é rocambole.

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Napoleão Bonaparte (1769-1821), imperador dos franceses.

Koosje, a propósito, se pronuncia quase como “colcha”, e Waterloo quer dizer floresta d’água ou pântano em holandês. Foi literalmente, portanto, onde Napoleão e seu exército foram para o brejo.

Waterloo hoje são amplos campos já não tão brejosos quanto talvez tenham sido um dia. Uma grande colina artificial com a imagem de um leão no topo marca o acontecimento do que foi a grande batalha final das guerras napoleônicas na Europa, e há um centro de visitantes onde conhecer mais dos ocorridos aqui. 

Eu vim a Waterloo mais por razões pessoais que turísticas com Koosje, mas nós aproveitamos para conhecer. Eis o que descobrimos.

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Waterloo hoje. Campos no que atualmente é o interior da Bélgica.

Minhas conexões pessoais com Waterloo

Há muito tempo trás, numa galáxia não muito distante, eu fiz mestrado na Universidade de Waterloo, no Canadá, instituição numa das muitas cidades que os colonos ingleses no século XIX batizaram de “Waterloo” na América do Norte.

Naquela Waterloo eu conheci Koosje, num desses curiosos episódios fortuitos da vida.

Eu ia passando de bicicleta no vilarejo estudantil da universidade, num começo de ensolarada tarde de verão. Ao que olhei a jovem loura com sapato baixo e calças pescando siri, ela disse “Hello” como quem cumprimenta alguém que passa.

Eu parei a bicicleta. Perguntei se era nova na universidade — algo não muito improvável num 1º de setembro, começo de ano letivo no hemisfério norte.

Acomodação na University of Waterloo, Canadá
Foi mais ou menos por aqui, numa destas típicas residências estudantis da América do Norte. Na University of Waterloo, Canadá.

Perguntei de que país era, e tive que rir quando ela respondeu “Países Baixos” (Netherlands), a boa e velha Holanda. (Às vezes se diz Holland também em inglês, embora Netherlands seja mais preciso e mais comum.)

Eu estava prestes a me mudar para lá dentro de poucas semanas, o que eu de fato faria dali a 20 dias. Conversa vai, conversa vem, ela se despediu dizendo que tinha que ir porque precisava fazer supermercado. Havia acabado de chegar e ainda não tinha nada pra cozinhar em casa.

Hoje é feriado”, eu lhe apontei. “O supermercado está fechado“, observei eu tentando não rir, já que Koosje tem um jeito sério de reagir às coisas — pelo menos até se soltar e depois recobrar a seriedade reverente, talvez resultado de ser filha de dois pastores (um homem e uma mulher, obviamente).

Dia do Trabalho, celebrado no começo de setembro no Canadá, é das raras ocasiões em que os típicos supermercados 24h da América do Norte estão fechados. Ela fez aquela cara de “Eita. E agora?”

Você pode vir jantar lá em casa”, indiquei. “Assim você conhece também os amigos com quem eu moro.” E assim foi.

Adianta a fita e estaríamos nós na Bélgica. Eu morando na Holanda, ela também já de volta, e juntos com um amigo canadense da universidade e em visita à Europa, viemos à Waterloo original — como que quase numa simbólica peregrinação.

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Na Bélgica, há um tempo atrás, no dia em que fomos a Waterloo.

A Waterloo original hoje

Waterloo hoje é um pequeno município cerca de 20 Km a sul de Bruxelas, a capital belga. Chega-se lá em meia hora de carro. Levávamos conosco Julian, um amigo canadense oriundo da tal Waterloo de lá e nosso companheiro de universidade em visita à Europa.

Ao longe, via-se já o morro comemorativo com o leão que nem sabíamos existir. Essa área do Memorial de Waterloo, com um centro de visitas, fica ligeiramente fora da pequenina cidade moderna que leva o seu nome.

Vir de transporte coletivo é possível, embora ligeiramente inconveniente. Se vier de trem, pode descer na estação Braine-l’Alleud Train Station (não na Waterloo Train Station, que orientada para a cidade e bem mais longe do memorial). Mesmo assim, serão 2.5 Km de marcha a pé. O ônibus da empresa TEC de Bruxelas a Charleroi é a melhor opção, com uma parada a 300m do monumento.

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Memorial de Waterloo, hoje na Bélgica. Há o pequeno centro de visitantes, que você vê ali, e o chamado Morro do Leão — um monumento comemorativo. Já falo mais sobre ele.

Napoleão após sua frustrada campanha na Rússia… até Waterloo

Aqui em Waterloo, em 1815, Napoleão perdeu a batalha e também a guerra — mas há quem diga que a guerra já havia sido perdida em 1812, com a sua invasão frustrada à Rússia.

Preciso observar que a famosa e malfadada invasão napoleônica à Rússia nunca, na verdade, se deu durante o inverno. Napoleão não seria imbecil de fazê-lo. O que ele foi foi prepotente: subestimou a resistência dos russos e a duração da invasão, que começou ao fim da primavera do hemisfério norte (em 24 de junho) e se estenderia por seis meses até dezembro.

Napoleão chegou a ocupar Moscou. Ele lá ficou por 5 semanas, numa cidade que os russos haviam abandonado enquanto resistiam nos campos sem se render. Daí, sim, os franceses não estavam preparados para os rigores do frio russo já no outono. Seu orgulho tampouco lhes permitiu bater em retirada antes de dezenas de milhares de franceses morrerem.

A maré virava contra Napoleão, e o engoliria dentro de poucos anos.

A retirada de Napoleao da Russia
A Retirada de Napoleão da Rússia, nos fins de 1812. (Quadro de 1851 do pintor germânico Adolph Northen.)

De volta da Rússia em 1812, Napoleão seria derrotado de forma quase cabal em 1813 na Batalha de Leipzig (atual Alemanha) por uma coalização de germânicos, austríacos, russo e suecos — a chamada sexta coalizão, de tantas que foram formadas para tentar deter Napoleão ao longo dos anos, no “todos contra um”.

Foi aí que Napoleão, vencido, foi exilado na Ilha de Elba (atual Itália), e os Bourbon restaurados à monarquia da França.

Napoleão, porém, escapou do exílio e retornaria à França para o chamado Governo dos Cem Dias — a etapa final das Guerras Napoleônicas.

O generalíssimo conseguiu recrutar ainda centenas de milhares de combatentes, para então enfrentar em Waterloo a sétima e última coalizão.

Reedicao da batalha de waterloo
Imagem de uma das reedições da Batalha de Waterloo (1815) que ocorre todos os anos in situ, com centenas ou às vezes milhares de participantes.

Nestes campos, os exércitos de Napoleão se encontraram pela última vez com aqueles dos prussianos, holandeses e britânicos, todos aliados contra o poderio napoleônico francês na Europa. Era domingo, 18 de junho de 1815.

Não existia ainda o país chamado “Bélgica” — aquilo que é hoje seu território era disputado entre França e Holanda. 

Quadro da Batalha de Waterloo (1815)
A Batalha de Waterloo, quadro do pintor irlandês William Sadler II.

Há diversas interpretações sobre os detalhes da batalha e o que teria definido o seu fim.

Sem entrar nos pormenores, vale dizer que Napoleão tinha apenas a metade do número de homens que sua coalização de adversários.

Derrotado, mas com vida ao fim da batalha, ele abdicaria dali a poucos dias. Seria agora exilado bem mais longe, na p*** que o pariu na Ilha de Santa Helena (no Atlântico Sul perto da costa da Namíbia). Lá, ele faleceria em exílio anos depois, em 1821, alguns supõem que envenenado.

Eu contei mais sobre Napoleão quando visitei Ajaccio, na Córsega, a sua terra natal.

De volta à Waterloo do século XXI…

Aqui em Waterloo, visitando o seu fim como marechal de campo, você pode ver um filme em tela panorâmica de 180º sobre a batalha no interior do centro de visitas, além de ter contato com alguns figuras vestidos a caráter como na época, às vezes fazendo demonstrações de cavalaria ou do uso de canhões.

Há detalhes das atividades no site oficial deste sítio histórico. Não sei como faz nem se é possível ver uma das encenações anuais, mas sei que as performances menores costumam estar disponíveis no verão (junho a agosto), e especialmente nos fins de semana.

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Eu em Waterloo com um dos soldados caracterizados como nos idos de 1815.

O Morro do Leão (Lion’s Mound)

A visita não está completa sem subir ao alto do Morro do Leão, o monumento erigido pelos holandeses e que marca a vitória sobre Napoleão. (Embora eu seja mais simpático ao ideário napoleônico que ao daqueles que o derrotaram, quis ter o gosto de estar presente neste monumento histórico.)

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Eu lá no alto do morro comemorativo, há uns anos atrás.
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O Morro do Leão, como ficou sendo chamado, foi erigido pelos holandeses vitoriosos.

Dizem que, exatamente nesse lugar, uma bala de mosquete acertou o ombro de Guilherme II, Rei da Holanda, derrubando-o do cavalo.

Ele não morreu, mas achou por bem eternizar esse pedaço de chão. Após a batalha, estes territórios passaram à Holanda, e ele então ordenou que aqui fizessem esta colina artificial que você vê hoje. Teria o símbolo da monarquia holandesa — o leão — lá no alto.

Há uma estória de que a estátua do leão foi feita com metal derretido dos canhões franceses, mas tudo indica que isso são apenas rumores. (Fake news.)

De qualquer forma, a comemoração do rei holandês por aqui não duraria muito. Em 1830, com ele ainda em vida, Napoleão haveria perecido, mas suas ideias, não. A Europa seria sacudida com movimentos nacionalistas, independentistas à moda do que já se via pelas Américas, e em 1831 surgia aqui o país chamado Bélgica, formado com alguns descontentes que não se viam parte nem da França nem da Holanda.

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O leão símbolo da monarquia holandesa no alto da colina em Waterloo, hoje na Bélgica. Comemoração da vitória sobre Napoleão.

Venhamos à Bélgica…

Os belgas, talvez por simpatia ao país vizinho, jamais removeram o leão lá de cima. Ele segue aqui. 

Esse país, contudo, não é a Holanda, embora muitas semelhanças haja. Com Waterloo e as revoluções que viriam na sua esteira em 1830 na Europa, começa a Bélgica.

E, aqui com Waterloo, começam também as minhas explorações por este curioso país — dos mais peculiares da Europa, pelo seu espírito livre, sua pluralidade cultural, e não menos por ter se tornado o centro político do continente. Eu volto com outras cidades da Bélgica nos próximos posts.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

One Reply to “Visitando Waterloo, onde Napoleão perdeu a guerra em 1815

  1. Nossa. Que monumental essa homenagem aos vencedores. Muito bonita a região. Sei muito pouco sobre detalhes dessas guerras, mas gostava das bandeiras do projeto napoleônico quando estudei História. Muito interessante , revolucionário para a época e contra os grupos conservadores daquela Europa, sobretudo do Império Austro-Hungaro . Também não simpatizava com os Prussianos.
    Como gosto da língua e da cultura francesa também me agradou ver ambas mais conhecidas e valorizadas. Gostava do slogan da Revolução Francesa, e não gostava dos Bourbons. hahaha Coisas de estudante.
    Sobre Napoleão dizem que ele estava doente(dizem que tinha úlcera gástrica) ao empreender aquela batalha e há forte rumores de que teria sido envenenado em Santa Helena.
    De toda forma, como o senhor bem disse, suas ideias e dos franceses da época(particularmente a burguesia) não morreram com ele, estava lançada a semente do inconformismo com a dominação até então existente e a Primavera dos Povos se estendeu pelo final do sec. XIX modificando o tabuleiro da Europa e lançando parte das bases dos conflitos do inicio dos século XX.
    E que lindinha a vila dos estudantes da Waterloo canadense. O Canadá é um belo país.
    Nossa, o senhor foi para lá novinho, heimm, com cara de menino. Nasceu dentes na escola hahaha.
    Muito interessante a postagem. Conheço quase nada sobre a Bélgica.
    Valeu.

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