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Bélgica

Lugares de Bruxelas (Bélgica), a capital da Europa

(Este será um post longo.)

A capital da Europa“. Lembro-me de quando uma amiga francesa mudando-se pra cá se referiu assim a Bruxelas, que até então era para mim apenas a capital da Bélgica.

Eu estava defasado, com meus conhecimentos de um tempo — guiado por futebolesco nacionalismo, de bandeiras e times nacionais — de antes da União Europeia e suas instituições.

Não me surpreenderei se, ainda dentro do meu tempo de vida, essa invenção de raízes deveras superficiais chamada “Bélgica” (posta no mapa em 1831, puxando do baú um nome de gauleses da Antiguidade) der lugar a uma Bruxelas internacional, puramente capital europeia — território sempre neutro e multi-colorido, de um finado país que sempre fora colorido mesmo.

Perdão aos belgas que se sentirem indevidamente anulados com meu prognóstico. Ainda que eu tenha minhas reservas sobre o país e seu mau funcionamento, eu adoro os belgas. São dos meus europeus favoritos, por seu comportamento leve, criativo (são os criadores dos Smurfs e de Tintin), e talvez precisamente por não terem aquela arrogância cultural vetusta, como se carregassem as tradições do mundo nas costas, de tantos dos demais europeus.

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Ali estamos. Mapa da Bélgica entre a França, a Alemanha e a Holanda na Europa.

Hoje, venha a Bruxelas e verá como ela meio que é “terra de ninguém” (ou de todos, se você assim preferir), cada vez mais repleta de não-europeus e tornando-se uma certa babel.

Foram várias as vezes em que vim aqui; incontáveis não por terem sido em tremendo número quanto a areia duma praia, mas porque nunca me dei ao trabalho de contar. Talvez umas sete, do tempo em que morava na Holanda e vir aqui era uma curta viagem de trem de 2-3h. Era meio “de casa”, portanto um tanto como viajar à capital do seu estado ou outra cidade grande mais próxima. Você não conta quantas vezes já foi.

Porém, voltar a Bruxelas é sempre preciso, para ver como estão as coisas e comer melhor. Ah, como os belgas cozinham melhor que os holandeses…!

Vamos dar umas voltas.

Grande Place de Bruxelas.
Bruxelas, cidade de mais de um milênio. Tornada capital desse novo estado chamado Bélgica em 1831, é hoje também a capital da União Europeia.

O lugar de Bruxelas na História. Ou, afinal, de onde surgiu a Bélgica?

Para quem ficou curioso com a minha breve provocação inicial, um pouquinho de pano de fundo.

A Bélgica é dos mais jovens países europeus. De 1831, é mais recente que o Brasil. O mais difícil, porém, é que a Bélgica enquanto nação é pouco coesa. Nação não é a burocracia estatal, é a coesão social, o sentimento de unidade, de que são um só povo.

Nação é o que une, por exemplo, os alemães, que só passaram a viver num país único em 1871, mas que têm um sólido sentimento coletivo de civilização unida por um idioma, uma etnia comum, etc.

A Bélgica não é bem assim. Nos tempos de Júlio César, aqui viviam certos gauleses chamados de Belgiae, mas isso hoje em dia é irrelevante. Buscaram, pura e simplesmente, um nome no fundo do baú para estas terras. (Os belgas modernos não são descendentes dos gauleses.)

Esta região da Bélgica moderna historicamente fazia parte dos ditos Países Baixos — assim chamados pela baixa altitude, perto do mar. Nos idos de 1500, não havia sequer Holanda independente. Isto aqui eram terras fronteiriças entre o Reino de França, seus ducados, e a multitude de principados e condados do Sacro-Império Romano Germânico.

Mapa da Europa em 1500
Mapa da Europa em 1500. Aquele polvilhado colorido no meio eram os pequenos principados, ducados e condados no Sacro-Império Romano Germânico. A atual Bélgica era aquela área verde a norte da França, “Austria-Borgonha” [Burgundy].
Estas eram terras comercialmente importantes, de cidades já vetustas que se viam um tanto como as cidades-estado italianas da época. Era pouco relevante sob qual coroa estavam, contanto que mantivessem sua autonomia. 

Como a realeza europeia se casava entre si, o “jogo dos tronos” era corriqueiro. Em 1519, por exemplo, era a coroa da Espanha que governava estas bandas que virariam as futuras Bélgica e Holanda. Aqui nasceu Carlos V, famoso rei espanhol, soberano das colônias hispânicas pela América Latina, e que naquele ano tornou-se também representante da casa austríaca dos Habsburgo e sacro-imperador dos germânicos. Era ele, bem possivelmente, o homem mais poderoso do mundo à sua época.

O que ocorreu foi que, com a difusão do protestantismo pela Europa do norte e central, algumas gentes daqui ficaram cada vez mais descontentes com o jugo católico forçado e a sua famosa Inquisição. Lembrem que a Inquisição espanhola foi precisamente a mais tenebrosa de todas.

Além disso, estas eram províncias distantes, no contexto europeu. Viviam-se os tempos do absolutismo, porém se levava ao menos 4 semanas para chegar daqui até a corte real em Madrid. Os nobres e burgueses locais, é claro, aproveitavam-se para tentar ganhar autonomia.

Gravura de Bruxelas em 1610
Bruxelas em 1610, já uma cidade de porte nestas baixas províncias do Sacro-Império Romano Germânico dos Habsburgo.

Começaria a Guerra dos 80 Anos (para você que acha que 2 anos de pandemia já são miséria muita em termos históricos) ou Revolta Holandesa, um conflito que viu as províncias de maioria protestante daqui se rebelarem contra o império.

Não saiu barato, obviamente, mas eles conseguiram, e assim a Holanda foi formada em 1581. Se eles vieram a invadir o Brasil e atacar os portugueses na Ásia, isso foi porque Portugal à época fazia parte da Espanha na chamada União Ibérica (1580-1640).

A guerra entre imperiais espanhóis e protestantes holandeses durou 80 anos (1568-1648) porque o império, obviamente, não queria largar o osso. Estacionou tropas aqui em Bruxelas, Antuérpia, e demais cidades católicas destes países baixos. O imbróglio duraria até 1648 porque, a partir de 1618, entrou no teatro maior da generalizada Guerra dos Trinta Anos entre católicos e protestantes Europa afora.

O resumo da ópera é que, ao fim dos conflitos, estas províncias de maioria católica — atual Bélgica — permaneceram leais à coroa. 

Napoleon at the Great St. Bernard Jacques Louis David Google Cultural Institute
Eis que breve viria Napoleão Bonaparte, aqui retratado no épico quadro de 1801 do pintor francês Jacques-Louis David.

Ainda no século XVII, Luís XIV (o rei sol) retomou um naco do império e anexou regiões francófonas, historicamente dos países baixos, mas que hoje seguem sendo da França, como onde fica a cidade de Lille (vou mostrá-la em breve).

Foi somente com a Revolução Francesa (1789) que estes tomariam o bocado todo, ocupando inclusive a Holanda. Como se sabe, Napoleão Bonaparte assumiu o poder e varreu a Europa. Desmontou o Sacro-Império Romano-Germânico, extinto em 1806, fez das baixas províncias imperiais católicas parte da França, e reorganizou toda a Holanda do jeito que quis.

(Curiosidade: foi Napoleão quem impôs sobrenomes aos holandeses, que eles até então raramente tinham. Daí o sobrenome mais comum na Holanda hoje ser De Jong, “o jovem”, pois era comum que pai e filho tivessem o mesmo nome. Ex. Pieter De Oud e Pieter De Jong. Como é o filho quem ainda procriaria, ficou o sobrenome mais comum hoje. Há vários tão simples e básicos quanto.)

Só que Napoleão seria derrotado em 1815 em Waterloo, como comentei em visita àquela localidade — que fica aqui na atual Bélgica. A Holanda, que constrói o monumento lá do leão ainda presente onde Napoleão perdeu, então cheia de galhardia toma para si todas estas regiões baixas e constrói o chamado Reino Unido dos Países Baixos, basicamente absorvendo as terras da atual Bélgica. Duraria pouco, só entre 1815 e 1831.

Estas províncias, porém, vieram a se sentir subjugadas e pouco representadas na nova formação. Tinham dificuldade em aceitar certas padronizações impostas, como do uso da língua holandesa da forma como era usada na Holanda, sem respeitar os dialetos daqui.

Sobretudo, estas províncias se viram oprimidas no seu catolicismo pelo protestantismo dos holandeses — numa certa troca de papeis do que havia sido o caso da secessão dos protestantes holandeses do império católico 250 anos antes. Deu briga de novo.

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Quebra-pau em 1830, com revoltas pelas ruas, incêndios em Bruxelas, e a decisão de se separarem da protestante Holanda. (Com a devida licença para o formoso quadro de 1835 do pintor Egide Charles Gustave Wappers mostrando as revoltas de rua que consumiram o país — aqui mesmo na Grand Place, a praça central de Bruxelas.)

Então, na Conferência de Londres de 1830, as grandes potências — nos acordos de cavalheiros e conveniência que ditavam a política internacional da época — definiram que isto se tornaria um novo país chamado Bélgica. Estas antigas províncias imperiais católicas não se juntariam nem à França nem à Holanda. Melhor que fossem um pequeno país-tampão. Arrumaram alguém de sangue nobre em algum principado germânico e proclamaram-no rei.

Eis que Bruxelas vira, senhoras e senhores, capital deste novo país. Unido quase que exclusivamente pela sua geografia e seu catolicismo. Não por idioma, pois havia quem falasse dialetos franceses e quem falasse dialetos germânicos semelhantes ao holandês — o flamengo, de Flandres.

Muito, muito tempo depois (ou será que 180 anos não são tanto tempo assim em termos históricos?), estaria eu pela primeira vez pondo os pés naquela mesma Grand Place dos protestos. Acompanhem-me, e eu trato dessa divisão linguística da Bélgica daqui a pouco.

A conferencia de Londres 1830
Litografia de época, de 1832, por Honoré Daumier do que teria sido a Conferência de Londres em 1830. A raposa é a Inglaterra. A lebre gorda com a luz da vela apagada é a França, que nesta altura havia abandonado as luzes do ideário revolucionário e retornado ao Antigo Regime. O macaco lhe fazendo careta é a Áustria. O cavalo quieto é a Prússia. A Bélgica e a Holanda estão amarradas. O urso branco é a Rússia, com a Polônia, por fim, morta no chão, pois havia sumido do mapa depois da derrota de Napoleão.
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Grand Place ou Groot Markt são os nomes em francês e flamengo (ou holandês) para a praça principal de Bruxelas — seu coração.

Grand Place (ou Groot Markt), o coração de Bruxelas

A Grand Place — ou Grande Praça — é aquele lugar apertado, e ao mesmo tempo amplo, no centro de Bruxelas onde nós visitantes dizemos “Nossa!”

É amplo porque assim é o grande espaço aberto de mais de 100m de extensão, circundado de prédios barrocos, uma portentosa prefeitura gótica medieval, e o impressionante Museu da Cidade de Bruxelas de fachada neogótica.

Apertado porque, de alguma maneira, ela está sempre cheia de gente. No Natal, então, parece Carnaval no Brasil. Nas breves ruas antigas que levam até ela, nós pedestres nos esprememos por entre mesas e cadeiras sob toldos postos do lado de fora pelos restaurantes. Vai lá, tem seu lado de aconchego apertadinho.

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Pelas vias e meandros que levam à praça principal do centro de Bruxelas.
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A Grand Place ou Groot Markt, praça principal de Bruxelas. Aquele prédio neogótico em frente é hoje o Museu da Cidade.

Aqui é onde vêm parar, inevitavelmente, todos os turistas.

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A portentosa prefeitura gótica de Bruxelas com a bandeira belga amarela, vermelha e preta. A prefeitura data dos idos de 1401-1421, portanto dos fins da Idade Média.
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Prédio da Prefeitura de Bruxelas, na Grand Place.
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Como eu disse, aqui vêm parar todos os turistas — inclusive eu. Na minha primeira viagem aqui há mais de uma década, com uma belga que fazia despedida de solteira (!)

Nessa ampla praça tinha lugar o principal feirão ou mercado da cidade — daí o nome de Groot Markt (Grande Mercado) em holandês ou flamengo.

Essa bipartição entre o francês e o holandês aqui em Bruxelas está por toda parte, com seus nomes de ruas e de lugares nos dois idiomas nacionais. Só não está na boca das pessoas, que falam predominantemente o francês por aqui — ainda que Bruxelas esteja mais em território flamengo que valão.

Falei grego (ou belga)? A Bélgica é dividida em duas grandes regiões, a Valônia (ao sul, que fala francês) e Flandres, província norte que fala holandês com um sotaque diferente, um dialeto que eles, por senso de identidade própria, chamam de “flamengo” como se fosse uma outra língua. (O nome do Clube de Regatas Flamengo — e do bairro do Rio de Janeiro — advém de navegantes oriundos destas partes e que foram parar lá no Brasil.)

Bruxelas está meio que como uma província semi-autônoma no meio das duas partes, porém desde os fins do século XIX fala predominantemente o francês.

Mapa regioes da Belgica
Assim está dividida a Bélgica, senhoras e senhores, geográfica e espiritualmente. No norte, Flandres (Vlaanderen), com uma língua que difere do holandês tanto quanto o português de São Paulo difere do português da Bahia. Ao sul, a Valônia (Wallonie), região francófona. No meio, Bruxelas, um distrito especial para a capital coração da Bélgica — e, cada vez mais, da Europa. Embora ela esteja dentro de Flandres, predomina o francês.

Eu preciso dispersar desde já qualquer ilusão que vocês tenham de que os belgas falam ambos os idiomas. Há quem saiba, mas via de regra um lado não fala a língua do outro — e você ficará a ver navios se tentar, podendo inclusive ofender as pessoas tentando usar o idioma do lado rival. Já conheci mais de um belga que preferiu ir aprender francês no Canadá que na outra metade do país.

Em Flandres, é melhor falar inglês se não souber flamengo. Na Valônia, boa sorte se não falar francês. Vi muito pouco inglês sendo usado; no máximo, entendem o que você diz e aí respondem em francês.

Já em Bruxelas, você fala até esperanto. São 180 nacionalidades vivendo aqui, e se estima que 55% da população da cidade nasceu fora da Bélgica. É visível aos olhos.  

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Na praça principal com seus prédios barrocos, numa outra vinda minha aqui. Vou falar assim em português mesmo.

Razão de união nacional: o lugar da gastronomia belga e onde encontrá-la em Bruxelas

Se há algo que une os belgas é a gastronomia — seus simbólicos patrimônios culturais imateriais, ainda que tenham uma materialidade comestível.

O chocolate belga, a cerveja belga, e mais uns comes pela rua são, em si próprios, razão de visita turística aqui a Bruxelas.

Eu nunca vou me esquecer de como, certa vez vindo da Holanda e rumo a Luxemburgo, optei por um trem com conexão de algumas horas em Bruxelas só para vir almoçar e ir embora

O lugar em questão, caso alguém queira a recomendação, se chama L’Arcadi ou Arcadi Café. Fica próximo à Estação Central de Bruxelas, e tem umas tortas salgadas do outro mundo. (Minha favorita é a torta amanteigada de cebolas.) Há belos bolos doces também. Já aconteci de vir a Bruxelas e passar a tarde aqui com amigos.

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L’Arcadi faz um estilo clássico — ligeiramente apertadinho, embora haja mesas mais espaçadas no andar superior — e que poderia estar num cenário de Amélie Poulain. É um restaurante levemente informal do tipo brasserie, especializados também em cerveja. Apesar da inclinação francófona, são espaços também presentes na Holanda, ainda que lá sem o mesmo talento culinário que aqui.

Brasseries, portanto, são visita obrigatória aqui em Bruxelas — goste você de cerveja ou não. Na Bélgica, há cervejas deliciosas até para quem não gosta de cerveja (como eu, que não sou o maior fã, mas aqui encontrei do que eu gostasse).

Os europeus digladiarão-se até o fim dos tempos para decidir quem faz a melhor cerveja: se os alemães, os tchecos ou os belgas. (O restante só assiste ou fica na ilusão de que seus próprios países fazem cervejas melhores.) O diferencial curioso das belgas, no entanto, que torna a coisa bem mais divertida, é que aqui cada cerveja tem o seu copo em formato próprio

É isso mesmo: não se bebe qualquer cerveja em qualquer copo, e há formatos que mais parecem balões de ensaio saídos de algum laboratório de química.

Não os conteste: tomar a cerveja na taça ou copo errado é o mesmo que não saber combinar comidas no Brasil (tipo comer goiabada com chocolate ou misturar acarajé com água de coco). Não é mera estética; os belgas dizem que o formato otimiza a experiência do sabor da cerveja. No mínimo, tem o efeito placebo.

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Uma breve amostra das cervejas belgas e seus copos variados.
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Alguns são deveras curiosos.

Com o devido respeito às pessoas que gostam, o que frequentemente se bebe no Brasil sob o nome de cerveja é uma água suja feita com mais de 45% de milho transgênico e que na Europa jamais passaria com o nome de “cerveja”. Começaram a aparecer umas mais dignas, como a Stella Artois (que é belga), mas isso ainda é a ponta do iceberg.

Na Bélgica, há mais de 3.000 tipos de cerveja, oriundas de mais de 300 fábricas distintas — algumas delas artesanais, como as dos beneditinos monges trapistas, que as fabricam desde a Idade Média. Procure. Em 2016, a UNESCO reconheceu as cervejas belgas como Patrimônio Mundial Imaterial da Humanidade, então a coisa é séria.

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Com um amigo alemão, há um tempo atrás na noite de Bruxelas.

Aqui em Bruxelas você também encontra um sem-fim de casas de chocolate belga — outra das iguarias do país. Só requer um certo cuidado. As cervejas aqui quase sempre são autênticas; os chocolates, não.

Se no ramo da cerveja os belgas se digladiam com os alemães e tchecos, no ramo da chocolateria é com os suíços que eles brigam para saber quem faz o melhor.

O distintivo dos chocolates belgas são, quase sempre, os bombonzinhos pralinés, geralmente com recheio de algo, pequenos, bonitinhos e modestos. Uma deliciosa bomba calórica.

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Eis o famoso chocolate belga, dos melhores do mundo. Aqui estão pralinés, bombonzinhos de chocolate com algo mais, algo que os belgas inventaram.

Só fazei boa avaliação antes de sair comprando qualquer coisa, pois o que mais tem em Bruxelas são casas de souvenir vendendo massa de cacau vagabunda com açúcar (frequentemente em formatos bonitinhos de mariscos) sob a aura de chocolate belga, mas comparável ao que você acha em qualquer shopping center no Brasil.

Se você está aqui, vale a pena pagar um pouco mais e comprar algo melhor.

Muita gente acaba em alguma rede, como a Leonidas, onde eu tanto já comprei também, e o chocolate lá não é ruim, mas se você quiser algo mais diferenciado, procure alguma chocolateria artesanal de renome como a Maison Pierre Marcolini, a Galler Chocolatier, Laurent Gerbaud, dentre outras. Basta ver se tem cara de fabrico próprio e fazer o melhor teste: experimentar um antes de comprar um pacote para levar. 

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Pralinés belgas da Laurent Gerbaud. É pra se acabar — também com o orçamento da sua viagem — nestes pecadinhos.

Por fim, se você vê daqueles pseudo-pralinés em forma de marisco aí pelas lojas de souvenir afora, é porque a Bélgica também é famosa na Europa por suas ostras e mexilhões. 

Moules-frites (mexilhões acompanhados de batatas fritas) são um dos pratos mais típicos de rua na Bélgica, e o que você certamente verá turistas comendo aqui em Bruxelas. É um prato cheio para quem é chegado em molusco.

As batatas fritas em forma de palito, a propósito, são também uma invenção belga. Os anglófonos as chamam de French fries, como se fossem francesas, mas elas são daqui. Recebem o nome de vlaamse frites na vizinha Holanda em reconhecimento à origem flamenga.

Favor notar que elas são tradicionalmente fritas na banha animal. Se sentir um cheirinho apertado pela rua, não se surpreenda. (Este detalhe os documentários de TV não contam, mas pergunte a qualquer belga.)

O lugar mais tradicional de consumir as verdadeiras fritas belgas talvez seja o Maison Antoine, um estande em operação desde 1948. Infelizmente, não há como vegetarianizar a coisa: os belgas lhe dirão que, se não for com banha animal, não é a verdadeira. E tem de ser com batatas frescas (não congeladas), e fritas duas vezes. Uma bombinha.

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Moules-frites, uma panelinha de mexilhões acompanhados da batata-frita em palito, algo que os belgas inventaram e deram ao mundo.

A verdade é que, ainda que você não necessariamente goste de nada desses pratos específicos, os belgas simplesmente cozinham melhor que os seus vizinhos mais a norte e a leste. Às vezes, eu saía de Amsterdã para Bruxelas e, de uma estação central a outra, o croissant de chocolate na Bélgica era incomparavelmente melhor — e mais barato.

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Os belgas são talentosos na cozinha. Aqui, mais uma doação sua às mesas do mundo: o waffle [uófol], mais comumente chamado aqui de gaufre [gôfre] em francês. Vai com tudo, até com coisas salgadas. Fala-se numa diferença entre os gaufres da cidade de Liège e os de Bruxelas, mas aí eu deixarei para você descobrir se vier.
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A Bruxelas é permitido vir só para comer e beber. Aliás, este menininho lhe parece familiar?

Urinai todos: O famoso menino belga (manneken pis) e a sua pouco comentada contraparte feminina

Tudo o que entra precisa sair (ainda mais cerveja), mas não é esta a questão aqui.

Quem curte identificar mascotes de seleções de futebol, ou simplesmente símbolos tradicionais dos países, já deve ter se deparado algum dia com o famoso menininho urinando dos belgas.

Ele é um dos principais símbolos contemporâneos de Bruxelas. Conhecido por seu nome original em flamengo, manneken pis, tornou-se símbolo também do Botafogo (!) há um tempo.

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Manequinho, mascote do Botafogo inspirado no Manneken pis de Bruxelas.

De onde tiraram essa ideia doida/besta? Algum sinal das besteiras da modernidade ou da frivolidade da vida hoje em dia? Longe de ser o caso. A ideia, na real, é romana antiga, e o símbolo de Bruxelas foi posto lá na Renascença.

Lembrem-se de Vênus e Cupido, Eros e Psiquê, e você verá que os mitos clássicos da Grécia e Roma antigas são repletos de garotinhos em situações nuas, amorosas, e por vezes — propositadamente — de interpretação duvidosa.

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Vênus e Cupido, ou Eros e Afrodite, quadro de 1530 de Lorenzo Lotto. Você pode passar um tempo o interpretando. O menino urina por entre a coroa de louros, num símbolo de fertilidade. No chão, uma rosa mas também uma serpente — um alerta sobre o ciúme. O original se encontra no Museu Metropolitano de Arte em Nova York.
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Se a beleza está nos olhos de quem vê, por vezes a malícia também. Este lavabo, que aos olhares neoconservadores de hoje pode parecer obsceno, fica na sacristia da Catedral de Florença.

Os pudores de hoje em dia e de vossos avós são coisa da sociedade europeia de modos vitorianos do século XIX, senhoras e senhores. Não vos aferreis a eles como se tivesse sido sempre assim.

Acho que já podemos, portanto, revisitar o manneken pis de Bruxelas com novos e artísticos olhos. Ele consta lá desde 1619, numa esquina no centro histórico.

Uma das muitas fontes assim criadas naqueles séculos do Renascimento, e provavelmente a que mais famosa se tornou.

Hoje, não é raro ver uma multidão de turistas a tentar tirar selfies e outras fotos ali. Só tenha em conta que ele é pequeno: uma estátua de menos 60cm de altura. Mas há cópias e figuras dele por toda parte. Esta, inclusive, é uma réplica aí posta em 1965, pois várias vezes a roubaram. O original hoje fica no Museu da Cidade de Bruxelas, que mostrei acima na Grand Place.

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Com o manneken pis da primeira vez em que vim a Bruxelas. É visita obrigatória. Como muitos, eu não havia me dado conta de como ele é pequeno.
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Mas o moleque está por toda parte.
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Está pensando que não? Bruxelas é assim mesmo: desregrada. (E assim vocês vão vendo minha cara mudando ao longo dos anos também. Agradeço a quem disser que eu fiquei mais bonito; assim me satisfaço mais com o passar dos anos.)

Brincadeira. O Quartier de la Putterie em Bruxelas não é o que você está pensando. Putterie vem de poteria em latim (como pottery em inglês ou a nossa palavra “pote”), e tem a ver com ceramistas que lá viviam na Idade Média. 

Nos anos 80, alguém resolveu fazer uma contraparte feminina do garoto urinando. Por que não? Eis que então foi inaugurada, também no centro de Bruxelas, a jeanneke pis: a menina de cócoras a urinar.

Em 1998, seria a vez do zinneke pis: alguém achou de fazer também o cachorro urinando. Como eu disse: urinai todos.

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Os vários monumentos urinantes aqui em Bruxelas. Hoje, são marcos turísticos no centro da cidade.

A aura da cidade — e outros lugares famosos

Eu comecei este post observando que tenho certas reservas sobre o país e a cidade, embora goste muito dos belgas.

Pessoas de muitos lugares aí Brasil afora (e em outras partes do mundo) às vezes têm aquela coisa de dizer que a cidade onde mora é uma zona, uma selva urbana que requer certas habilidades ou “ter as manhas”.

Bruxelas é um tanto assim. A cidade, sem dúvida, tem pedigree histórico e belas artes a serem consultadas aqui. É, com toda a certeza, uma cidade histórica europeia de calibre. 

Porém, o governo belga tem altíssimos problemas para funcionar. Os dois lados do país pouco se entendem, e Bruxelas fica ali no meio mais orientada pelas instituições da União Europeia sediadas aqui que pelo governo belga.

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O belo Parc du Cinquantenaire, feito em 1880 em comemoração aos 50 anos da formação da Bélgica.
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O Atomium é um monumento aqui erigido em 1958. Consta mais nos guias de turismo que nos corações dos europeus. (Ninguém aqui lhe dá muita bola. É meio que um elefante branco.)

Você, como turista, pode bem circular uns 2 dias inteiros na cidade para ver isso e aquilo, passando de uma atração a outra — quase todas elas numa distância que se cobre a pé.

Como observador, porém, não deixará de notar como a cidade é repleta de lixo (para padrões europeus). Não é raro se entrar numa estação de metrô fedendo a urina (acho que levaram muito a sério meu “urinai todos”), ou se deparar com trens que não funcionam, greves recorrentes… Por duas vezes eu vim cá e achei que não conseguiria ir embora devido aos cancelamentos de trem. A Brussels Airlines, por sua vez, é provavelmente a única cia aérea europeia que eu ativamente recomendo evitar, pelas furadas em que já me pôs.

Há alguns anos, a Bélgica inteira passou meses e meses sem governo, só com a burocracia de estado funcionando, e os efeitos desse desgoverno todo se notam. 

Não se surpreenda se vir grande número de moradores de rua aqui, e favor ter atenção aos seus pertences, pois embora assaltos à moda brasileira pouco ocorram, furtos são corriqueiros (arrombamento de casas também). Acho que foi a única capital europeia onde, com um dia na cidade, já houve pessoa precisada me pedindo que por favor lhe comprasse algo para comer na estação.

Venha, portanto, como quem caminha por esta “terra de ninguém” europeia. Terra de todos — perdão. Os belgas — e, em especial, os bruxelenses — sabem navegar bem por isso, sem perder o humor.

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Na pandemia, ficou famosa a promoção belga de “A vacina do momento: Tome 2 Coronas e ganhe grátis uma Mort Subite“, famosa cerveja belga.

Houve quem achasse que os belgas passassem do ponto. Há muitos que acham a todo momento que os belgas passam do ponto. Acho até que muitos alemães e franceses prefeririam tomar a cidade e o país sob sua direção, e de quebra tomar o timão da Europa.

Mas os belgas são irreverentes e não se dobram fácil, além de gostar de exercitar a sua criatividade. Como disse no começo, são eles os autores de clássicos mundiais como Tintin e os Smurfs, por exemplo.

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O lindo Palácio Real de Bruxelas. Completado em 1934, ele é um prédio de governo, uma monarquia parlamentarista, embora não seja a residência do rei.
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A gótica Catedral de São Miguel e Santa Gudula, padroeiros de Bruxelas. Completada em 1519.
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Esta catedral de Bruxelas é um primor, e merece a sua visita. Seu interior gótico foi elaborado ao longo dos séculos XI-XV.

Esta cidade de 1,2 milhão de habitantes tem seu pedigree, as suas coisas a descobrir. Aqui eu apenas indiquei alguns lugares. Se você vier pela estação Brussels Central, poderá facilmente “perder-se” a pé pela maioria deles. (Bruxelles-Nord é um ermo; e Bruxelles-Midi ou Brussels-Zuid é a estação maior de todas, embora mais usada a negócios que por turistas, devido à localização.)

Entre nas galerias, lambuze-se das comidas, e tenha um plano B caso seu trem ou voo seja cancelado. Bruxelas pode querer que você fique, como a tantos já segura aqui — seja por vontade própria ou como refugiado, dos muitos que vêm parar aqui e que você encontrará pela rua se bordejar o suficiente.

Bruxelas hoje é assim: esta selva multicultural do século XXI. Quem diria: as terras que “sobraram” da libertação da Holanda, e que depois seria o “noves fora” dos cômputos políticos europeus, viria a ser a capital da Europa — a babel que tantos procuram. Olho aberto e atento aqui, inclusive para vê-la.

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A formosa Galeria St. Hubert. em Bruxelas.
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O turista a fotografar, e o sem-teto a olhar. É Bruxelas.
Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

2 Replies to “Lugares de Bruxelas (Bélgica), a capital da Europa

  1. Linda Bruxelas. Percebe=se que guarda o charme dos áureos tempos da aristocracia européia e sua requintada vida, marcada sobretudo pelos belíssimos palácios ajardinados, pela deslumbrante arquitetura de estilos fascinantes, pelos seus templos magníficos e deliciosos parques como este com deslumbrante arco. Charmosíssimo..
    Impressionantes a beleza e a pujança dessa Grand Place. Belissima. Um conjunto arquitetônico impar.
    Que espetacular essa Prefeitura. Imponente, majestosa, linda, elegante.
    Que maravilha sua Catedral gótica. Belissima. E o seu interior, então, é uma festa para os olhos. Lindo.
    Lindas ruelinhas e belos jardins. Parece que o passado se faz presente nessa bela capital.
    Isso para não falar das charmosas galerias e da sua coleção de cervejas, com seus curiosos copos.
    Amei.
    Lindinha.
    Maravilhosa essa cidade que ostenta o título de capital da Europa.
    Soberba e bela.
    ,

  2. Muito interessante a História da Bélgica. Do lado de cá das brasílias terras, nada se sabe dessas interessantes paragens.
    Adorei a litografia, Paises muito bem representados hahah. Bem isso hahah. E coitada da Polônia, sumiu do mapa hahaha. Ainda bem que reviveu.
    Data vênia, o senhor ao meu ver está sempre muito bem, mais gostei mais da aparência mais recente de Vª Sª. Mais robusto e mais vibrante hahah.
    E adorei os chocolates.
    Linda postagem. Parabéns.

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