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Tchéquia

Český Krumlov: A charmosa cidade histórica com castelo medieval na Tchéquia

Bem-vindos ao Prado Torto! Ou, se preferirem algo mais poético, à campina na curva do rio.

É mais ou menos o significado de Český Krumlov, séria candidata a cidadezinha mais charmosa e pitoresca de toda a Tchéquia. Ah, para ser preciso, é Prado Torto Tcheco, pois há outro na Morávia — a região leste do país — chamado Morasvký Krumlov.

Como não se impressionar com a língua tcheca com seus acentos sobre o Y e os habituais engasga-gato de consoantes seguidas, como em čtvrtek (quinta-feira) ou Strč prst skrz krk (“botar o dedo através da garganta”). Sim, é possível ter não apenas palavras mas frases inteiras sem qualquer vogal em tcheco, a língua nacional daqui.

Deixemos de lado por ora a língua tcheca; eu não condenarei quem porventura não descubra onde no teclado se põem esses acentos ao comentar a cidade.

Só me permitam dizer que Český Krumlov se lê tchés-kii krum-LOV, e que o nome se refere a uma curva que faz aqui o rio Vltava — o mesmo que mais adiante cruzará a capital Praga

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Český Krumlov, Tchéquia. É pouco bonita?

Chegando a Český Krumlov a partir de Praga

Você pode visitar Český Krumlov a partir de Viena (muitos o fazem). A fofurinha medieval fica mais ou menos equidistante entre Salzburgo na Áustria e a capital tcheca, Praga, mas minha recomendação é visitá-la a partir desta última, num conjunto em visita ao país. 

Uma das razões é que, com praticidade e até mesmo no dia da viagem, você pode adquirir suas passagens de trem com a companhia ferroviária tcheca (České dráhy). Pode comprar online antecipadamente se quiser preços mais camaradas, mas pode também comprar na máquina na estação. No caso de muitos trens regionais, o preço é fixo. 

Hoje em dia há trens diretos (2h50min), mas o mais comum é que você faça uma breve conexão na cidade de České Budějovice, já bem próxima.

Lembrar também que aqui se usam coroas tchecas (Czech crowns) como moeda, não euros. (Um euro equivale aproximadamente a 25 coroas tchecas. Meu amigo se divertiu com as formas estranhas como isso podia ser interpretado.)

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Em České Budějovice, num setembro ainda ensolarado.

Como vocês talvez notem pela minha cara, esta viagem se deu há algum tempo atrás. Nem se sonhava em pandemia.

Meu amigo Brunno me visitava do Brasil em Amsterdã, e queria ver algo medieval. Deduzi logo que a Tchéquia seria a resposta, pois talvez em nenhum lugar da Europa se tenha tanta coisa tão preservada desse período quanto aqui.

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Prontos para entrar na cidade?

Chegamos e nos instalamos num hostel que mais parecia uma estalagem de época: portas grossas de madeira, potes pelo chão, corda daquela de cânhamo a segurar algumas coisas, e umas mesas daquelas de refeitório de mosteiro postas do lado de fora.

Essas mesas retangulares de madeira, com as tábuas onde se sentar de um lado e do outro, são hiper comuns hoje nos restaurantes e beer gardens (biergarten) por toda a Europa Central. São algo característico desta região, e sua origem taberneira nas estalagens de outras eras é clara. (Vale a pena vir nos meses quentes, de maio a setembro, para aproveitar melhor estes espaços ao ar livre.)

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Aqui já foi num restaurante onde eu me engajaria à noite, à beira do córrego. Estas mesas compridas de madeira são a cara da Europa Central.

Český Krumlov: Uma cidade medieval

Eis a década de 1240, quando se primeiro tem registro deste povoado. Estávamos aqui no Reino da Boêmia (Bohemia). Junto com a Morávia, são as duas principais regiões que compõem a Tchéquia.

A capital da Boêmia era Praga, onde o rei governava seus nobres, os quais podiam ser eslavos falantes de tcheco ou germânicos. Naquela época, esta Europa Central e do Leste era uma mistura de povos que hoje vivem cada no seu país: tchecos, germânicos, eslovacos, húngaros e outros.

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Sinta o ambiente.

Ocorria grande expansão e migração germânica de onde é hoje a Alemanha rumo ao leste, a ocupar lugares onde hoje são a Polônia, a Eslováquia, a Hungria, a Lituânia, a Romênia e outros. Esses povos ali viviam misturados embora nem sempre miscigenados. Era comum que houvesse comunidades desse ou daquele grupo, ainda que na cidade vivessem juntos.

O tcheco rei da Boêmia Venceslau II (1271-1305), portanto, não teve reservas étnicas ao ofertar estas terras aos Rosenberg, família nobre germânica, e a maioria dos habitantes aqui à época eram falantes de alemão.

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A ponte por sobre o rio no que parece uma cidade de conto de fadas.

Os Rosenberg expandiram o castelo que já havia, e fizeram da cidade um pequeno centro de artesãos e comércio. Mais tarde, acharia-se ouro nas montanhas próximas, o que trouxe ainda mais colonos alemães.

Se você se pergunta como a cidade acabou tcheca, a resposta está no século XX, mas depois a gente chega lá.

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Pelas vias de Český Krumlov.

A cidade parece uma viagem no tempo. Parece que você se insere num daqueles contos populares compilados pelos Irmãos Grimm (João e Maria, Rapunzel, Chapeuzinho Vermelho e tantas outras que virariam desenho animado depois). O foco não está tanto em atrações específicas (afora o castelo), mas no ambiente da cidade.

Eu recomendo duas ou no mínimo uma noite aqui para você ver tudo com bastante tranquilidade e absorver a atmosfera do lugar. O castelo, com sua ponte sobre o vão, é uma visita extensa. Além dos jardins, igrejas, e das voltas que se pode dar pelas ruelas do centro histórico. 

Foto do Castelo de Cesky Krumlov
O Castelo dos Rosenberg em Český Krumlov, expandido durante o período do Renascimento no século XVI.
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Pátio com fonte no meio.
No castelo de Cesky Krumlov
Lá no alto.

Prepare umas boas horas para visitar o complexo castelar.

É o tipo de passeio que você faz logo após ou café da manhã ou o almoço. Leva horas entre os jardins e meandros, além da torre onde porventura queira subir como eu fiz aí.

Parte das áreas são de acesso livre, e parte integra um Museu do Castelo com espaços internos preservados como há meio milênio atrás. Nem preciso dizer que vale a pena.

Se você é do tipo que gosta de se preparar, pode visitar o site oficial do castelo de Český Krumlov para ver os horários de funcionamento, etc. O preço do ingresso varia de acordo com as seções que você quiser visitar, e há uns combos. Por menos de 10 euros você visita tudo.

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Pelas áreas do castelo remodeladas à época da Renascença do século XVI.
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Jardins. 

Pela cidadezinha

Český Krumlov é o castelo, mas não somente ele. A cidadezinha merece — e muito — suas voltas, a pausa para tomar algo à beira do riacho, as ruas de pedras, a igrejinha, etc. Você pode se deliciar pelas ruas estreitas entre o casario em tons pastéis típicos aqui da Europa Central.

A cidade preserva muito da aura de antigamente. Isso, em grande parte, é porque ela “saltou” o século XX (aquele destruidor de cidades). Depois dos idos imperiais dos séculos XVI-XIX, a cidade acabou esquecida.

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Pelas ruas de Český Krumlov.

Com as guerras mundiais, os alemães foram embora. Český Krumlov só renasceu mesmo agora no século XXI, já quando os interesses turísticos ajudaram na conservação da cidade. Sua economia passou a girar em torno dos visitantes, que querem vê-la bem preservada.

(Só não ache que será o único. Český Krumlov agrega bastante gente. Se há algo que você deve reservar com antecedência, é acomodação. Sobretudo nos meses dia alta estação entre maio e setembro, quando realmente a cidade fica mais vivaz.)

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Nas ruas de Český Krumlov.
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A praça principal, onde às vezes há barracas e —certamente — feirinhas de Natal. Eu não a conheço nesse período, mas seguramente é a outra grande época a vir aqui, se você não puder vir no verão europeu.
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As ruelas.
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A igreja gótica de São Vito em Český Krumlov.

Às mãos da Áustria — e a filha do barbeiro

Os tchecos se tornaram tamanha minoria em Český Krumlov — que os germânicos simplesmente chamavam de Krumau — que em 1788 se encerraram os sermões em língua tcheca. (A missa em si era em latim.)

Como não era raro ocorrer entre a nobreza, se podia vender terras a outros nobres para quitar dívidas. Foi o que os Rosenberg acabaram fazendo aos Habsburgo da Áustria no século XVII.

O imperador Rudolfo II cedeu Český Krumlov ao seu filho mais velho, o bastardo Don Julius César d’Áustria (1584-1609) — que era esquizofrênico. Este veio morar aqui e se casou com a filha de um barbeiro tcheco. Pobre moça, acabaria atirada pela janela, e depois morta pelo marido (ela não morreu da queda, mas o marido pediu que ela voltasse). O imperador mandaria trancafiar o filho na prisão, onde ele morreu.

Estas terras são cheias dessas histórias meio macabras, e os tchecos adoram elas. Adoram dar um quê gótico aos causos e casos medievais que foram mais tarde romantizados no século XIX, antes de a Disney levar isso ainda mais adiante.

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O castelo tem o seu lado masmorra.
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Apesar disso, nada tema. Há também do bucolismo medieval.

Tornando-se uma cidade tcheca

Eu já comentei em diversas ocasiões, sobretudo nas postagens pela Polônia, como os germânicos na Idade Média fizeram uma onda rumo ao leste — com os Cavaleiros Teutônicos, realizaram praticamente uma Cruzada dentro da Europa entre 1100-1400 sobre os eslavos e povos bálticos, que ainda não haviam abraçado o cristianismo.

Assim sendo, se nos idos do ano 900 os germânicos estavam limitados às terras a oeste do rio Elba — que vai diagonalmente pela Alemanha atual, de Dresden até desembocar em Hamburgo — eles começariam a migrar a oriente e colonizar muito do que é hoje o leste europeu.  

Eram terras esparsas, vastas mas desunidas. Às vésperas da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), dois impérios governados desde Berlim e Viena governavam quase tudo isso, e foi só com as derrotas seguidas no século XX que a maré de quase mil anos viraria. A migração germânica medieval seria revertida, para ocuparem de novo quase que apenas a extensão que tinham lá atrás no ano 1000. 

Český Krumlov passou à Tchecoslováquia em 1918 com o fim do Império Austro-Húngaro. Como essa se divide pacificamente em Tchéquia e Eslováquia em 1993, a cidadezinha vem a integrar a Tchéquia. Seu reflorescimento agora como destino turístico sob cuidados tchecos é o que você pode conferir.

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O centro da cidadezinha de Český Krumlov, onde perder-se é uma graça. Você se transporta a outros tempos.
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Český Krumlov à noite — mais uma razão para pernoitar aqui, e poder reviver aqueles tempos em que as cidades eram ilhas urbanas em meio à natureza, com todos os efeitos do escuro da noite.

Na manhã seguinte, à estalagem da cidadezinha que começava aos poucos a ter manhãs frias em setembro, sentamos-nos ao lado de umas moças austríacas. (Uma das grandes coisas dessas longas mesas de madeira é a socialização, pois não raro você acaba compartilhando-a com estranhos, com quem começa a conversar.)

Meu amigo Brunno tem ascendência alemã, e fala algo, mas queixou-se de que não entendia patavinas do que as moças diziam entre si. O jeito de falar dos austríacos é mesmo bastante diferente. (Talvez comparável ao português de Portugal e o do Brasil.)

Conversa vai, conversa vem, falamos que ele havia vindo do Brasil para conhecer a Europa e estávamos num bordejo entre a Tchéquia e a Alemanha.

E a Áustria?“, indagou uma delas. Ops! Quando ele vier de novo a gente vai à Áustria. Eu ainda hei de conhecer melhor o país de Mozart também.

Hoje em dia, os austríacos são dos que mais vêm aqui. (Saudades de outras eras?). Com a Europa integrada e o fim da divisão oeste-leste da Guerra Fria, o que eu vejo é esta cidade se revelar mesmo como típica cidade da Europa Central. Esta, sim, é a alma mater de Český Krumlov.

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Český Krumlov, provavelmente a cidade mais pitoresca na Tchéquia, e das mais fofas de toda a Europa Central.
Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

2 Replies to “Český Krumlov: A charmosa cidade histórica com castelo medieval na Tchéquia

  1. Uuuuu!… Meu Deus, como é linda mimosa, parece saída dos Contos de Fada. Parece feita de chocolate, pirulito e caramelos. Nossa, que lindinha. Adoro essas casinhas claras, coloridas, com telhadinhos vermelho, serpenteadas por belos rios e emolduradas por verdes cinturões.. Lembro os joguinhos com pedrinhas de madeira colorida da minha infância feliz. Que linda essa cidadezinha, Fofa. Amei. Fascinante, encantadora.
    E o senhor está bem jovem meu jovem amigo viajante.
    Valeu. Adorei a postagem e claro, conhecer essa linda cidade. Obrigada.
    Adoro viajar nessas postagens.
    Esse país ali é lindo mesmo. Amo Praga, sua histórica, linda e charmosa capital

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