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Austria

Visitando o Castelo Franzensburg na Áustria

Quem disse que só hoje é que se tem fascinação pela Idade Média? Já séculos atrás, nos albores do romantismo, a alta classe europeia relembrava-se — romanticamente — com nostalgia dos tempos dos castelos, pontes e cavaleiros.

A baixa classe, vítimas preferenciais das pestes, precariedade e servidão, certamente teria outras coisas a dizer sobre o medievo.

Quem pode, pode. O século XIX traria modas artísticas medievais de volta. O gótico retornou como neogótico, e as abastadas realezas puseram-se a erigir castelos que lembravam os tempos de antes da pólvora.

Aqui não muito distante de Viena, os Habsburgo da Áustria construiriam Franzensburg, com direito a lago ao redor e torres de aspecto medieval. 

Ele tem, porém, luxos modernos no seu interior, como pinturas pós-renascentistas. É uma visita próxima de Viena que poucos turistas fazem, mas que eu mostro aqui a vocês hoje.

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Um dos portões de entrada do Castelo Franzensburg, em Laxenburg, Áustria.

Laxenburg, não confundir com Luxemburgo

Bem-vindos a Laxenburg — ou, para aportuguesar e confundir vocês ainda mais, Laxemburgo. (Até o autocorretor tenta me fazer mudar, mas Laxenburg existe mesmo.)

Não confundir com Luxemburgo, obviamente, o país que fica lá perto da França e da Bélgica. Nos cá estamos a um pulo de Mödling, ou 20 minutos de trem desde Viena

(Se os dois nomes compartilham da mesma etimologia, não sei. “Luxemburgo” dizem significar “pequeno castelo”. Estou tentado a achar que Laxemburgo é a mesma coisa num dialeto diferente, mas fica no ar.)

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Vista aérea do Castelo Franzensburg, nos jardins de Laxemburgo (!).

Laxemburgo é uma cidadezinha a 25 Km de Viena, onde a família real dos Habsburgo tinha várias das suas “casas de veraneio”.

Era comum que a aristocracia europeia e os governantes permanecessem nas cidades durante os meses frios do ano e se relocassem para palácios de verão, mais arejados e com entornos naturais, nos meses mais quentes (junho a setembro por aqui).

Inicialmente, na Idade Média, tais moradas temporárias costumavam ser nada além de cabanas ou mansões simples de madeira, onde os nobres vinham alojar-se para caçar durante o verão. Na ausência de guerras, a caça era a principal expressão de masculinidade naquela época em que a formação do sujeito (masculino europeu) girava em torno da violência.

Com o tempo, tais moradas dariam lugar a palácios ou castelos de luxo, como foi aqui.

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Cama real com decoração neogótica no Castelo Franzensburg, do início do século XIX.

Os Habsburgo adquiriram estas terras ainda no século XIV, mas foi somente com a imperatriz Maria Theresa (r. 1740-1780) que tudo isto aqui seria remodelado.

Construiu-se — ainda antes de Franzensburg — naquele século XVIII o chamado Novo Palácio, agora barroco e requintado, e que acabou ganhando o apelido de Palácio Azul (Blauer Hof).

Não é que ele seja realmente azul. Ele recebe esse nome por ter anteriormente pertencido a um senhor chamado Sebastian von Ploenstein (que quer dizer “pedra azul” numa grafia antiga) antes de ter sido adquirido pela realeza.

Você hoje o vê por fora bem amarelinho, na verdade.

Ele atualmente não é atração turística nem museu, mas sede do Instituto Internacional de Análise Aplicada de Sistemas (IAASA), onde trabalha uma amiga minha que vai me matar quando souber que eu estive por aqui e não avisei.  

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O dito Palácio Azul (Blauer Hof), do século XVIII.

Laxemburgo não tem muita coisa — pareceu-me essencialmente residencial, afora por uma pracinha onde fica esse Palácio Azul, a igreja principal da cidade, e a prefeitura. No mais, são vias largas com algum verde e casas contemporâneas.

Onde vocês estacionaram o carro?“, perguntou-nos um cidadão qualquer na rua primeiro em alemão, depois em inglês.

Era uma versão austríaca daquele sujeito pró-ativo, de perfil empolgado, que puxa conversa com gente na rua e faz o bem sem olhar a quem.

Quando dissemos que viemos de trem, ele demonstrou alívio. 

Os visitantes — geralmente gente da Alemanha — vêm aqui de carro, estaciona em qualquer lugar, não sabe que tem que pegar um ticket, e leva uma multa de €25 por hora“, disse em tom de empatia crítica, antes de nos orientar sobre como visitar o parque que rodeia o castelo. Chegaríamos lá.

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A prefeitura do que é hoje a cidadezinha de Laxemburgo na Áustria, acompanhada de sua igreja barroca.
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A paroquial Igreja da Santa Cruz, consagrada em 1699 num estilo barroco.
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Seu interior é uma formosura.
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O órgão, acima da porta na entrada da igreja, como de hábito.
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E o teto sob a cúpula.

Ao Jardim Inglês do Franzensburg

O Castelo Franzensburg fica um tanto escondido, então tenham paciência. Ele fica no meio de um extenso jardim inglês — a moda da época, hoje um parque público.

Sabe aqueles jardins bem geométricos de Versalhes, com linhas retas e bem acabadas? Aquilo, produto dos séculos XVII e XVIII, tinha a ideia de impor a “razão humana” sobre a natureza, a ordem racional cartesiana sobre o caos. Ou ao menos assim era o paradigma da época.

Nos séculos seguintes, viu-se que aquilo era um fetiche, uma obsessão que às vezes roubava a alma das coisas. O arcadismo e, depois, o romantismo viriam a buscar um resgate da natureza, das coisas do coração — claro que também idealizadas. É quando teremos o homem que supostamente sempre nasce bom, de Rousseau, e o “bom selvagem” dos indigenistas brasileiros.

Em contraposição à formalidade geométrica do jardin à là française, pega então a moda do jardim inglês, uma reprodução da natureza em estado puro — árvores, linhas curvas, lagoas. Já vinha sendo usado na Inglaterra desde o século XVIII, e foi ganhando popularidade Europa afora.

De quebra, punham-se alguns pavilhões e estátuas como decoração para lembrar a Grécia antiga.

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O jardim inglês tem este aspecto. É um jardim: a grama está cuidada, e não é uma selva — mas imita um tanto a natureza, adornada com pavilhões como este.
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A vista dos vários caminhos por aqui. (É verdade, não abandonaram por inteiro a geometria.)
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O teto do pavilhão no jardim inglês do Franzensburg cenas imaginadas da Antiguidade.
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Pontes…
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…Lagoas naturalescas em vez do canal retilíneo de Luís XIV em Versalhes…
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…até que, lá ao longe, você avista o Castelo Franzensburg.

Visitando Franzensburg, castelo do século XIX de inspiração medieval

Como vos revelei desde o princípio, Franzensburg não é realmente medieval. Em geral, estes castelos medievalescos ultra-pomposos — à là Disney — são idealizações posteriores, bem mais recentes. É que, a menos que haja algum vampiro nascido antes do século XIX entre os leitores, todos nós crescemos já alimentados com essas imaginações românticas.

No século XIX, século do romantismo por excelência, toda a Germânia estava em polvorosa pela Idade Média. Foi o tempo do neogótico, quando se retomou com nostalgia aquela estética de 1200. Foi também quando os franceses Alexandre Dumas e Victor Hugo publicariam, respectivamente, Os Três Mosqueteiros (1844) — que idealiza o código da cavalaria com o “um por todos e todos por um” — e O Corcunda de Notre-Dame (1831).

Não foram os primeiros. Duzentos antes antes, o espanhol Miguel de Cervantes com seu Don Quixote (parte I em 1605 e parte II em 1615) já resgatara aqueles elementos medievais idealizados por um olhar moderno. Neste caso, o fez com certa consciência crítica pré-romântica, meio jocosa, mas onde o personagem principal evoca uma nostalgia. 

Aqui nas terras germânicas, com o resgate pelo romantismo, não só se se idealizaram os castelos, cavaleiros e princesas: os monarcas realmente fariam castelos assim novamente, idealizados com pontes, torres, e fossos ao redor.

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A entrada de Franzensburg sobre a água.

A saber, é neste período que também surge o famoso Castelo Neuschwanstein (1884) lá na Alemanha, e que seria inspiração para o castelo da Cinderella à Disney no século XX. (Curiosamente, Neuschwanstein é adorado de tão pitoresco pelos turistas d’além-mar, mas visto como brega por boa parte dos europeus de hoje, já que finge ser o que não é: medieval.) 

Aqui na Áustria, foi Franzensburg. Menos dramático, porém mais antigo, com água ao redor, e direito até a altares e vitrais neogóticos dentro. Vamos entrar.

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Altar neogótico dentro do Castelo Franzensburg, Áustria.
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Vitrais neogóticos na capela do castelo.
Foto do Palácio Franzenburg circundado por água
O Castelo Franzensburg na Áustria. Chamem o barquinho, e preparem-se para entrarmos.

Um cidadão naquele barquinho atrelado às duas correntes fica o tempo inteiro no leva-e-traz de passageiros. Nele, um cidadão cobra 80 centavos de euro pelo traslado de um minuto. Depois, eu descobri que se pode acessar o castelo também a pé por detrás — mas aqui pela água ficou mais pitoresco. (Eu soube que, no inverno, eles substituem o barquinho por uma ponte de madeira.)

Antes, já havíamos pago os €2 de entrada no parque. Sim, é público mas não é gratuito — o que sempre dá um nó na cabeça da maioria dos brasileiros, que costumam equivaler as duas coisas. É público porque pertence ao estado (por conseguinte, ao povo austríaco), mas não é entrada franca. Você pode também adquirir um mapa de todo o imenso jardim inglês por menos de um euro, se quiser. É recomendado se você quiser explorar os vários recantos da área.

O amplo jardim inglês estava algo rarefeito de visitantes, embora fosse um caloroso dia de verão. É que sua extensão dispersa as pessoas — às vezes, tomam-se 20 minutos para andar daqui até ali dentro dele, e poucos estrangeiros vêm a Laxemburgo.

Detivemos-nos numa lanchonete que há no jardim, mas só havia lanches hiper-básicos — tipo cachorro quente só quem ketchup e mostarda, daqueles de filme norte-americano — e uma vendedora que não falava inglês. Tomei um suco de maçã com gás (apfelsaft gesptritz), e deixei para comer no almoço.     

Feita a breve navegação até os portões do castelo, no seu pátio há uma loja de souvenirs que também faz as vezes de bilheteria. Ali fomos atendidos por uma funcionária que nos explicou as condições de entrada — daquelas a quem você pergunta e, de repente, se dá conta de que nem está prestando mais tanta atenção na resposta.

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Pátio interno no Castelo Franzensburg, com direito ali a torre e tudo.

Só é possível visitar o interior do castelo como parte de um tour guiado. Disseram-nos que, embora normalmente haja tours em inglês, com a pandemia e rara presença de turistas estrangeiros, só estava por ora ocorrendo em alemão. Não tem tu, vai tu mesmo. Deram-nos um folheto em inglês para acompanhar. O que mais me interessava, afinal, era ver as coisas.

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Eis os preços e os horários. Há um outro tour para subir à torre, mas eu já havia subido em muitas torres, e optei pelo tour principal.

O interior de Franzensburg

O Castelo Franzensburg data especificamente de 1836, e seu nome homenageia o imperador Francisco II (1768-1835), último imperador austríaco a ser sacro-imperador romano germânico — entidade que seria abolida por seu genro Napoleão.

Sim, Francisco II era pai de Maria Luísa, esposa de Napoleão. Como era pai também da imperatriz Leopoldina, esposa do nosso Dom Pedro I, e portanto avô do brasileiro Dom Pedro II. (Francisco II era também avô de Francisco José, futuro imperador da Áustria, e do seu irmão Maximiliano I, que chegou a ser imperador do México no século XIX. Vê-se como as famílias reais do Ocidente estavam realmente todas misturadas.)

Almoçamos no restaurante do pátio do castelo — cuja comida desonrou a memória de Francisco II — antes de o rebanho para o tour aparecer. Havia até um número razoável de visitantes germanofônicos (uns 15), ao que eu me ocupava mais de ver as coisas, tirar as fotos e ler a respeito.

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O sacro-imperador Francisco II (1768-1835), na obra do hábil pintor Friedrich von Amerling. O original se encontra no Museu de História da Arte em Viena. Com o fim do Sacro-Império Romano Germânico em 1806, ele passou ao título de Francisco I da Áustria.
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A sala do trono em Franzensburg.
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Os detalhes deste teto de madeira, para você mandar fazer também em casa ou no seu apartamento.

Embora medievalesco por fora, nota-se que este castelo é bastante barroco por dentro — com aquele típico papel de parede azul escuro e as ornamentações rebuscadas em vermelho e dourado.

Como marca do século XIX, temos também retratos pintados de monarcas Habsburgo por toda parte.

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Note-se ali Francisco II (o homenageado com o nome do castelo) bem ali no centro, ao lado de vários outros.
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Estejam apresentados a Carolina Augusta da Baviera (1792-1873), a quarta esposa de Francisco II e imperatriz da Áustria.
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São muitos.

O interior do castelo mistura espaços como estes e áreas mais de aspecto “medieval refinado”, com arcadas ogivais, escadarias e pitorescos armamentos de época, mas também paredes pintadas, etc.

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No vão de arcadas góticas, uma pitoresca espada de duas mãos feita de osso de peixe. (Se o criador Naruto veio aqui e se inspirou para fazer a samehada, espada do personagem-tubarão Kisame, eu não sei.)

Há o espaço da capela neogótica, que já mostrei mais acima, e — a minha favorita — uma sala com pinturas das principais batalhas históricas deste império. (Claro que, sempre, do seu ponto de vista.)

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Nesta, como ilustração, temos Frederico, o católico (1175-1198), Duque da Áustria, aos portões de Jerusalém numa das cruzadas.

O tour no todo dura cerca de 1h. Você, à tarde, pode ficar ali relaxando no parque sob uma árvore diante de uma das lagoas. Pode também alugar pedalinho, se quiser.

Como tomamos o tour das 14h, era meio da tarde quando terminamos e ficamos ali um tempo, naquele dia de verão da Áustria. Breve, retornaríamos a Mödling e de lá a Baden.

Como vocês podem ver, Franzensburg pode não ter o luxo do Palácio Schönbrunn em Viena, mas tem o seu charme.

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Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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