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Austria

Cruzeiro pelo Rio Danúbio em Wachau (Áustria)

Um cruzeiro pelo rio Danúbio é uma coisa boa de se fazer na vida, e que muita gente nem se dá conta de que é bastante fácil de realizar. (Claro, uma vez que você esteja com os euros em mãos para vir à Áustria. O cruzeiro em si não é caro. A logística é mais fácil ainda — mais do que você imagina.)

Visualize aí aquele rio histórico de águas verdes — que nunca foram azuis, exceto na imaginação de Strauss — e repleto de paisagens campestres nas duas margens. 

Próximo de Viena fica a chamada Paisagem Cultural de Wachau (Wachau Cultural Landscape), uma área tombada pelo seu valor histórico-cultural. 

Wachau [lê-se “Varráu”] é terra de abricós (damascos), vinhos brancos e castelos medievais nas margens. Cidades pitorescas, duas das quais você visita de trem desde Viena e realiza um cruzeiro de quase 2h entre ambas.

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O rio Danúbio na Paisagem Cultural de Wachau, tombada pela UNESCO por seu valor histórico-cultural. É uma área ancestral austríaca de cultivo de uvas brancas, damascos, vilarejos antigos e castelos medievais. Não fica distante de Viena, a apenas 1h de trem.

O pacote sai por €66 por pessoa, com saída e retorno de trem a Viena, o cruzeiro fluvial entre duas cidades, e incluindo também o bilhete de entrada (que sozinho custaria € 13) na milenar abadia beneditina de Melk an der Donau, que mostrei em detalhes no post anterior.  

Parece conversa de vendedor, ou propaganda de agência, mas não é nem uma coisa nem a outra — é o compartilhar da boa notícia por alguém que fez o programa e gostou.

O melhor? Você adquire tudo online diretamente da companhia ferroviária austríaca, sem intermediários. Nesta página, bastando escolher a data.

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A página da ÖBB, a companhia ferroviária austríaca, vendendo este ticket-combo para visitar a região de Wachau, com cruzeiro pelo Danúbio.

Antes de eu tratar da minha experiência, deixem-me explicar em maiores detalhes como funciona.

Como funciona

Este é um dos chamados ticket-combo (ou kombiticket) da ÖBB, a companhia ferroviária estatal, a que opera o grosso dos trens na Áustria — e que às vezes leva a regiões como esta, reconhecida pela UNESCO como Patrimônio Mundial da Humanidade.

O pacote está disponível apenas entre maio e outubro, os meses quentes do ano (quando um cruzeiro por aqui é mais agradável). Ter isso em conta se quiser incluir este passeio numa viagem à Áustria.

Funciona da seguinte forma. Primeiro, você adquire o pacote no site da companhia ferroviária que pus acima. Não é necessário reservar com muita antecedência. Basta comprar de véspera, se você não quiser fazê-lo antes.

O combo inclui os seguintes itens:

  • Uma passagem de trem entre Viena e Melk an der Donau (45min de viagem, normalmente com conexão em St. Pölten);
  • Uma passagem de trem entre Viena e Krems an der Donau (1h9min de viagem, trem direto ou com conexão em St. Pölten);
  • Um ingresso para cruzeiro fluvial de cerca de 2h de duração no Danúbio entre uma cidadezinha e a outra, em qualquer um dos dois sentidos;
  • Entrada na milenar Abadia de Melk, dos beneditinos. Um complexo barroco belíssimo que mostrei naquele post.

Basicamente, portanto, você faz um triângulo a partir de Viena. Pode começar indo a Melk, de lá a Krems e daí voltar a Viena (o que eu fiz), ou pode começar por Krems, de lá ir a Melk, e então voltar a Viena. Eu comecei por Melk e recomendo esta rota.

Selfie com o barco no Danúbio
Num cruzeiro pelo rio Danúbio na Áustria.

A entrada na abadia você precisa trocar lá na bilheteria. Eu mostrei o lugar em detalhes no post da minha visita a Melk

As passagens de trem você usa diretamente, já que são providas pela companhia ferroviária — com horário aberto para qualquer trem regional naquela data. (Pode usar qualquer um exceto os trens expresso ICE ou RJX, que exigem reserva específica.)

Sobre passagens de trem na Áustria eu escrevei mais a respeito num post específico. Basicamente, você pode tanto (A) imprimir em casa, quanto (B) obter um código (pick-up code) para retirar as passagens em qualquer maquininha da ÖBB em qualquer estação ferroviária da Áustria. É super prático. (Normalmente, há ainda a alternativa C, de você comprar passagens pelo aplicativo da ÖBB e mostrá-las na tela do celular, mas esta opção eu não sei se está disponível para este combo. É possível que esteja; você pode tentar.)

O ingresso para o cruzeiro também você ganha na forma de um voucher a trocar no guichê de uma das duas empresas que operam os navios.  

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Os barcos são assim, de médio porte. Aqui, em Melk, você o toma no rio homônimo, fininho, antes de então desembocar no grande Danúbio.

duas companhias que realizam o mini-cruzeiro: a Brandner e a Blue Danube. Você basicamente escolhe em qual quer ir — o bilhete adquirido na ÖBB serve em qualquer uma das duas.

Não há grande diferença entre elas. Ambas têm barcos de médio porte com restaurante e cafeteria a bordo, espaços internos e externos. A Blue Danube me pareceu ter mais assentos na área aberta, então se quiser ir do lado de fora tomando um sol, ela me parece ser a opção melhor. (Se vier em julho ou agosto, saiba que normalmente faz calor, tipo >30 graus).

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Por dentro, é assim. Há espaço de sobra, mas os mais cotados são os assentos no exterior, ao ar livre. Para pegar um desses, eu recomendo que você chegue ao barco pelo menos uns 15-20 minutos antes do horário da partida.
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O lado de fora no alto, no barco Blue Danube que tomei.

É sua responsabilidade verificar os horários de partida de cada um dos barcos, e sua liberdade escolher qual vai tomar. Os guichês onde trocar o voucher da ÖBB por uma passagem ficam nas docas, pertinho de onde saem os navios. (Tanto em Melk quanto em Krems, essas áreas de partida e chegada ficam um pouquinho afastadas do centro — tipo uns 20 minutos de caminhada no caso de Melk e um pouco mais no caso de Krems. Leve isso em conta.)

Eis a tabela de horários da Blue Danube e a da Brandner, tanto no sentido Melk ⇒ Krems quanto Krems ⇒ Melk. Repare também nas datas de funcionamento, de meados de maio a fim de outubro.

Os barcos não me parecem lotar, mas os assentos bons — sobretudo na parte externa — serão já tomados pelos primeiros passageiros uns 15-20 min antes da partida, na alta estação. Se quiser escolher, chegue com antecedência.

Vamos, afinal, ao que há pelo caminho e à experiência?

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Ê vida!

O trajeto e a experiência do cruzeiro pelo Danúbio em Wachau

Estas pessoas que você vê na foto acima não são austríacas. Havia um grupo de senhoras nórdicas ao que eu cheguei, embarcado em Melk, a primeira das cidadezinhas e que já mostrei em detalhes no post anterior.

De manhã indefinida entre sol e nuvens, passamos felizmente a uma tarde soleada com vistas limpas e bastante calor. Por vezes, me suava a testa naquele clarão às duas da tarde — mas morando na Suécia eu aprendi a valorizar mais o astro-rei quando ele aparece.

Resolvi me sentar ao lado de fora para também apreciar melhor a vista. Logo eu precisaria pedir um apfelsaft gespritz para me reidratar — suco de maçã com gás, que eles aqui servem num copázio de meio-litro, e que faz parte da experiência de verão na Áustria.  

(Aí foi engraçado quando, pouco depois, eu fiz uma chamada de vídeo com um amigo de longa data, que há muito não me via, e que encucado indagou: “Você tá moreno, Mairon. Como é que pode isso, morando na Suécia?”. Eis a resposta. Danúbio.)  

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Boa tarde.

Começamos a navegar na direção errada, mas foi de propósito, para ver mais do rio e desta paisagem cultural antes de rumarmos realmente à cidade de Krems. (Por um momento, achei que o GPS estava doido, que eu estava no barco errado e que iam me levar de volta a Linz rio acima.)

Logo, apareceriam as vinícolas e, depois delas, os castelos.

A paisagem é pitoresca e quieta. Hoje não há mais nada que o lembre muito disso, mas eu ficava a imaginar a época, na Antoguidade, quando o rio Danúbio era um dos limites do Império Romano. À margem norte, as terras “selvagens” dos bárbaros germânicos.

Hoje, vinícolas de vinho branco e ainda igrejas fortificadas do tempo medieval, de quando estas terras eram ocasionalmente assaltadas por húngaros ou turcos.

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A vista, com as águas do rio Danúbio, os vilarejos às margens — destacados por sua igrejinhas sempre presentes — e as vinícolas nas colinas mais atrás.
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Castelo no rochedo à margem do Danúbio.

Uma curiosidade histórica é que, por aqui num destes castelos, ficou certa vez preso Ricardo Coração de Leão (Richard the Lionheart, 1157-1199), o rei inglês que participou da Terceira Cruzada a Jerusalém.

Eu não vou aqui entrar nos detalhes suculentos da Terceira Cruzada — chamada também de A Cruzada dos Reis — contra as tropas árabes de Saladino na Terra Santa. Basta-me dizer, por ora, que os nobres europeus não eram necessariamente tão amigos uns dos outros; havia disputas internas importantes.

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Ricardo Coração de Leão (1157-1199), talvez o mais famoso rei inglês do medievo, detido aqui em Wachau, na Áustria.

Um desentendimento desses era entre a Inglaterra e o Duque da Áustria, Leopoldo V, então súdito do sacro-imperador romano germânico.

Os cruzados falharam em tomar Jerusalém dos árabes, mas conquistaram parte da Terra Santa para os cristãos. Em Acre, porém, devido a desentendimentos políticos anteriores, Ricardo derrubou muralha abaixo o estandarte dos austríacos, deixando só o inglês e o francês. Isso lhe custaria mais caro do que ele imaginou.

No retorno à Inglaterra, o mau tempo encalhou o navio de Ricardo na Grécia, forçando-o a tomar uma rota terrestre. Passando por Viena, foi reconhecido. Prenderam-no então na pitoresca cidadezinha de Dürnstein — que você vê aqui deste cruzeiro — às vésperas do Natal de 1192. 

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A pitoresca cidadezinha de Dürnstein, com sua simpática igrejinha azul e, lá no alto, as ruínas do castelo medieval onde esteve preso o rei inglês Ricardo Coração de Leão nos fins do século XII.
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A bela — e até hoje fortificada nas bases — igreja azul de Dürnstein, à margem do Danúbio nesta região de Wachau, Áustria.
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Deste outro ângulo você vê melhore as ruínas do Castelo de Dürnstein, onde aqui à margem do rio Danúbio ficou preso o rei inglês.

Ricardo Coração de Leão saiu dessa vivo, mas não foi fácil.

Diz a lenda que um bardo inglês, Blondel, saíra Europa afora assobiando ou cantando versos de canções inglesas pelas prisões e castelos, a ver se encontrava seu rei, desaparecido no trajeto de retorno da cruzada.

Em Dürnstein, o rei aprisionado teria então cantado o verso seguinte da canção, revelando-se. 

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Esse Blondel existiu de verdade, mas segundo a História não foi bem assim que Ricardo Coração de Leão escapou. Ele, na verdade, entraria num imbróglio com o duque da Áustria, o sacro-imperador, e até o papa.

Ricardo foi acusado de capturar a ilha de Chipre, entreter intenções de tomar a Sicília, corresponder-se com Saladino, ter insultado do duque da Áustria, assassinado o Marquês de Montferrat, e acordado uma trégua de três anos com o sarracenos.  

O papa excomungou o Duque da Áustria, Leopoldo V, por aprisionar sob correntes um rei cristão combatente das cruzadas — mas não chegou a ponto de fazer o mesmo com o sacro-imperador germânico, monarca maior destas terras, como queria Ricardo. Desaforado, Ricardo Coração de Leão disse na cara do imperador que era “nascido numa posição que não reconhece nenhum superior a não ser Deus.

Isso foi num julgamento, diante de toda a Dieta Imperial, em que Ricardo foi acusado de capturar a ilha de Chipre, entreter intenções de tomar a Sicília, corresponder-se com Saladino, ter insultado do duque da Áustria, assassinado o Marquês de Montferrat, e acordado uma trégua de três anos com o sarracenos.  

O sacro-imperador e o duque da Áustria determinaram que o criminoso poderia ser libertado, mas mediante o pagamento de 100 mil libras de prata (uma quantia imensa à época, que correspondia a três anos de receita da coroa inglesa) — e entregues aqui na Áustria “sob perigo do rei”, ou seja, se assaltassem o comboio no caminho, o problema era dele, e teria de repor. 

A coroa inglesa precisou rebolar para arranjar essa quantia, o que — é claro — significou aumento de impostos nas costas da população, em especial a mais pobre, já que a nobreza era isenta de impostos (como ainda hoje com os paraísos fiscais). Há quem diga que foi daí que surgiu a lenda de Robin Hood no século XII, aquele que se contrapunha ao sistema e roubava dos ricos para devolver aos pobres.

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Nestas águas do Danúbio por onde tantos já passaram. No tempo dos romanos antigos, este rio era um limite entre o império e a “barbárie” — naquela margem norte. No medievo, serviu de principal via de transporte na Europa Central, quando viajar por água era bem mais rápido e seguro que por terra.

Cerca de 1h40min de passeio depois, das 13:50 às 15:30 para ser exato, chegávamos ao destino, depois de uma riqueza de paisagens e sol. Era agora hora de desembarcar em Krems an der Donau.

Vale muito a pena. Eu diria que poucas outras atrações recompensam tanto os seus euros investidos quando esta.

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Krems an der Donau, onde desembarcamos — e que visitaremos em seguida.
Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

2 Replies to “Cruzeiro pelo Rio Danúbio em Wachau (Áustria)

  1. Lindo o histórico Danúbio, cantado em prosa ,versos, melodias, oitavas, compassos , acordes imortais, por tantos gênios, das artes todas. Belissimo. Fantástico.
    Memorável passeio por belas cidadezinhas , vetustos e históricos castelos, cenários de guerras e paz, e hoje serenas terras, elas também históricas testemunhas de tantos eventos os mais diversos, por tantos séculos desse caminhar da humanidade.
    Magnifica região essa, meu jovem, lindas as casinhas, as construções outras, os templos, de estilos deliciosos, elegantes, delicados, artísticamente dispostas, que enlevam o olhar e a alma.
    Linda postagem, belas e bucólicas paragens. Uma delicia.Adorei.
    O Danúbio continua lindo.
    Obrigada pelo agradável e gostoso passeio.
    Amei.
    Essa Austria é linda mesmo. O senhor tem razão.

  2. Encantada com as paisagens bucólicas e citadinas dessa linda região. E que interessante a história da prisão de Ricardo Coração de Leão, famoso rei Inglês.
    Bela postagem. gostei muito e pretendo conhecer a região. hahaha se a pandemia deixar.

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