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México

A Rota dos Queijos e Vinhos no México

Queijos e vinhos no México? Não era este o país da pimenta, do milho e do chocolate original indígena?

Também. E digo logo de cara que o México segue sendo mais forte nesse quesito do que lhe é mais tradicional. Porém, como aqui vieram europeus, e queijos e vinhos são apreciados mundo afora, por que não também entrar nessa?

Ao contrário do que muita gente imagina quando pensa o México com aqueles cactos no sol, o México não é um país particularmente quente. Ao menos não muito tropical. Seu sul consegue ser quente e algo úmido na Península de Yucatán, onde estão as ruínas mayas e as praias que os turistas adoram, mas no mais muito do país está a 2.000m de altitude na Sierra Maestra. O trópico de câncer passa pouco acima da Cidade do México, o que quer dizer um clima mais parecido com São Paulo e o Sul do Brasil que com o Norte/Nordeste/Centro-Oeste.

Ora, os colonizadores espanhóis logo trataram de cultivar vinho aqui. São, em verdade, as vinícolas mais antigas das Américas, já do século XVI. Afinal, como de outra maneira celebrariam a missa católica?

Regioes viticultoras do
Estados mexicanos onde se produz vinho. Há outros que cultivam videiras — em geral estados vizinhos —, mas são estes os que fazem a bebida. Quase 90% do vinho mexicano provem da Baja California, lá em cima. Os outros, como Querétaro ali no meio, compõem o restante.
Zorro e Sargento Garcia
O Sargento García com Don Diego de la Vega, a identidade original do Zorro, no seriado de 1957.

Muito antes de a Califórnia se tornar parte dos Estados Unidos e este produtor significativo da atualidade, já se faziam vinhos aqui nas muitas missões jesuítas e bebia-o no pueblo colonial de Los Angeles.

Quem assistiu ao Zorro, sobretudo ao clássico (e inesquecível) seriado dos anos 50 que foi transmitido no Brasil mais tarde, pela Globo nos 70 e pela Record nos anos 90, jamais se esqueceu do emblemático Sargento García e sua paixão por vinho.

Água é para tomar banho“, dizia o célebre sargento defendendo matar a sede com vinho. 

Pois bem. Ninguém, portanto, se surpreenderá em saber que o estado da Baixa Califórnia — a parte que permaneceu no México após a Alta Califórnia ser capturada pelos Estados Unidos em 1846 — corresponde a 90% da produção vinícola mexicana. Deixo para tratar e mostrar melhor aquelas vinícolas quando for lá.

A que eu visitei foi em Querétaro, o estado mexicano mais ao sul a produzir vinho de forma expressiva, graças à altitude de 2.000m por aqui.

Queijos e vinhos no México -- altar de Dia dos Mortos dentro de uma cave
Só aqui no México você encontra um altar de Dia dos Mortos em plena cave com barris de vinho. (Eu por vezes tinha a impressão de que iria explodir.)

Tour pela Rota dos Queijos e Vinhos no México em Querétaro

Um tour pela chamada Rota dos Queijos e Vinhos em Querétaro não é só fácil de fazer, é o passeio mais popular para quem está em Santiago de Querétaro, a capital do estado.

O passeio geralmente inclui também paradas em Tequisquiapan e em Bernal, dois pueblos mágicos que vos mostrei em detalhes nos posts respectivos. Qualquer acomodação organiza pode incluí-lo nestes tours de um dia para o outro. Se você for investigador mais sério dos vinhos, certamente pode providenciar algo só focado nisso também.

Meu tour foi uma coisa casual — e divertida — em que paramos, primeiro, numa chácara onde se faziam queijos.

Aquele albor da manhã, ar fresquinho, cheiro de mato e de vacas. Ao que galinhas e patos circulavam por toda parte, você tinha que ter atenção para não pisar onde — ou no que — não deveria. 

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Ambiente tranquilo de interior nesta chácara em Querétaro, México.
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Vacas holandesas leiteiras, e galinhas a circular.
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Eis os produtos.

Os queijos mexicanos não são notoriamente fortes, e isso em grande parte porque os próprios mexicanos não estão habituados a queijos de sabor muito acentuado. Perguntados pelo guia da fazenda se preferiam queijos suaves ou fortes, meu grupo (quase 100% mexicano) respondeu quase em uníssono “suaves“. O dissonante fui eu, respondendo “fortes” sozinho.

Sim, eu gosto daqueles queijos que fedem, queijos azuis, queijos fungados, daqueles que parecem uma bomba no seu paladar. Gosto de uns queijos leves também, contanto que tenham sabor. Queijo sem gosto, só para dar textura, pra mim é enganação.

O México não é muito distinto do Brasil nesse sentido. Inclusive, achei engraçado quando me apresentaram um pedaço de doce — aquilo verde que você viu no pratinho acima — para comer com queijo, como se fosse algo muito extraordinário.

A diferença é que eles aqui, por vezes, jogam um molhinho de pimenta “do patrão” com o queijo — coisa que nunca vi no Brasil, já que em Minas se come pouca pimenta, e na Bahia eu nunca vi se botar pimenta em queijo.

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O apimentado “molhinho do patrão” (era vendido literalmente assim) na nossa degustação de queijos em Querétaro, México.
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Aquele doce verde que você viu no prato é um ate, como os mexicanos chamam estes doces estilo goiabada. Há de goiaba, mas este aqui é de maçã. (Não me perguntem por que é verde assim.)

Os queijos e vinhos no México trazem você a estes ambientais rurais pacatos e gostosos, com cara — e coisas — de “sabores da fazenda”, como naqueles deliciosos restaurantes de beira de estrada Brasil afora (ou, talvez eu devesse dizer, adentro).

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Olha o tamanho da linda cactácea. Afinal, estamos no México.
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O ar bucólico da chácara onde paramos.

Você não falou se gostou dos queijos“.

Calma. Havia queijo provolone da região, uma pontinha de queijo parmesão feito também aqui, e uma série de outros mais leves.

Se eu sugerisse a algum amigo italiano que se fazem todos esses queijos aqui na mesma região, sem que haja uma specialità del territorio, a pessoa iria rir e fazer aquele gesto conhecido com a mão.

Os queijos não estavam maus, mas não é nada assim também digno de nota. É um pouco o que se acha em qualquer supermercado pelo Brasil, se permitem a franqueza.

Na prática, o queijo na gastronomia mexicana é mais pra dar textura — o chamado queijo panela, branco, por cima da comida — do que como parte importante pra dar sabor.

Vamos aos vinhos.

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A salsa del patrón. Esta, sim, eu dei valor. (Ainda mais assim, com a embalagem melada, o rótulo encharcado do óleo na pimenta e com amendoim dentro. Coisa assim de raiz.)

Vinhos em Querétaro

Eu não sou enólogo, e tampouco quero dar uma de Pedro de Lara, sendo o jurado durão a quem nada agrada.

Do vinho aqui em Querétaro eu gostei. Em verdade, não foi propriamente vinho, foi champanhe — espumante sem ser, é claro, champanhe francês, que tecnicamente é o único que deve levar tal nome, já que é o nome da região da França de onde vem.

O espumante aqui de Querétaro — ou, como eles chamam aqui em espanhol, um espumoso — não fica devendo ao que encontro com certa regularidade Europa afora. Inclusive, já ganhou prêmios internacionais, então não é só a minha opinião.

Sendo espumantes, estamos tratando, portanto, de vinho branco, uvas sobretudo Chardonnay no caso daqui. Há outros, mas tal espumante talvez seja o predominante desta região.

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Os barris de madeira onde o vinho envelhece alguns anos.

Eu vou deixar para relatar detalhes do processo de fabricação quando contar da minha viagem ao antigo Condado de Champanhe na França, onde também fui a uma degustação. Por ora, vale dizer que o processo de formação de bolhas é originalmente natural, ainda que alguns produtores — como no caso do prosecco italiano — adicionem mais gás, o que dá um produto mais barato.

Os mexicanos emularam direitinho o mesmo jeito dos franceses de fazerem tais tours. Há sempre um vídeo promocional que põem para todo mundo assistir, e depois um recorrido pelas profundezas dos túneis onde ficam os barris em repouso, ao que a guia explica o processo de fabricação.

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Organizados para descer às caves de produção de espumante aqui em Querétaro, México. (Como são mexicanos, é claro que há lindos enfeites coloridos que na Europa não se veem igual.)
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Só no México seem veem tapetes e altares ao Dia dos Mortos em pleno interior das caves. Ali havia uma foto com velas a Doña Dolores (!), a que dá nome a esta fábrica.
Vinhos Dona Dolores
Olhem aí os vinhos Dona Dolores.
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Esta foto é promocional, pois eu vim na estação seca e a vinícola praticamente não existia, mas dá uma ideia desta região aqui em Querétaro.

O México tem dessas também, afinal. Faz de tudo à sua maneira — claro.

Bernabé (assim com E mesmo), nosso guia durante todo este dia, um sujeito divertido destes que contam piada sem rir, nos deixava circular em cada lugar por conta própria. Este da rota dos queijos e vinhos no México não é um tour em que o guia fale demais. Basicamente, deixa você por conta dos guias específicos dos locais X, Y e Z. Só dá o tempo a ficar em cada parada.

Os tours todos incluem degustação, tanto esta de espumante quanto a outra com o pratinho de queijos. Incluindo as paradas em Tequisquiapan e em Bernal (que, se você ainda não viu, não deixe de conferir, pois são lindas cidadezinhas), este tour de um dia inteiro costuma sair na faixa de 500 pesos mexicanos por pessoa — o que dá uns R$ 135 (a depender da cotação). Qualquer hotel em Santiago de Querétaro organiza, e vale a pena.

Entra aí mais esta experiência para o que é o colorido cultural mexicano. Simbora agora rumo a outro estado do país, rumo a um pouquinho mais ao norte.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

One Reply to “A Rota dos Queijos e Vinhos no México

  1. Nossa, que interessante e inusitado. Não sabia que o México era produtor de vinhos nem que tinha plantação de videiras. Sabia que os vinhos californianos eram famosos pela qualidade e antigos mas pensei que ficavam na Califórnia que os estadunidenses roubaram do México no sec. XIX. Muito interessante saber que a Califórnia que ficou para o México produz esses vinhos. Espero que a qualidade seja a mesma da qual se fala.
    Linda essa fazendinha. Adoro ambientes bucólicos e com animais. Belíssima essa foto do senhor com essa monumental cactácea. E florida. Aqui no NE se diz que quando ela dá flor na seca é sinal de chuva no sertão. Linda. Enorme, viçosa. Uma graça.
    Vigen que misturaram vinho com velas e flores para os ”difuntos” como eles chamam, dentro dos caves hahaha que risco hahah .Esse México é óoootimo, uma onnnda hahahaha.
    Ótimo que souberam aproveitar o que os colonizadores trouxeram de bom. É isso ai.
    Tanto o vinho como os queijos tem ótima aparência. O sabor é com o senhor hahahah. Ainda não se fazem postagens degustativas hahah. seria ótimo.
    Adorei a postagem. O passeio parece ter sido notável. Valeu, amigo viajante. Ficou um gostinho de quero mais no México.

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