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Suíça

Lucerna, o Monte Pilatos, e a origem da neutralidade Suíça

Lucerna é uma séria candidata a ser a cidade mais charmosinha da Suíça. Genebra? Zurique? Berna? Essas são cidades mais maiores, que têm as suas coisas (e que uma hora destas eu mostro melhor), mas a sensação daquela Suíça pitoresca — com montanhas, lago e pontes de madeira — você consegue melhor aqui em Lucerna.

As regiões montanhosas, já há pesquisa científica sobre isso, tendem a formar personalidades mais reservadas, comunidades sociais mais fechadas, e certa reclusão. Soa parecido com a Suíça? Se você já ouviu falar mais do que país que dos seus chocolates e queijos, sim. O que pouca gente sabe é que essa notória independência neutra dos suíços começou aqui nesta região de Lucerna — há bastante tempo. 

Estamos falando hoje numa viagem de 40-50 minutos de trem a partir de Zurique para esta cidade de apenas 75 mil habitantes. Isso na Suíça é uma cidade de médio porte, então espere certa infraestrutura. Acompanhada, é claro, de uma extensão modesta que permite que você faça tudo a pé.

Lucerna é talvez a cidade que eu julgue a mais bonita do país, e aonde eu vim depois de Basileia, no período do Natal. Preparem-se, então, para ver a neve, assim como decorações natalinas. A cidade em si não estava nevada — estava brumosa, imersa naquele cinza outonal —, mas os Alpes nevados você vê fácil fazendo a subida obrigatória ao adjacente Monte Pilatos.

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A vista para os Alpes e seus lagos sob a neve do alto do Monte Pilatos, grandes vistas nas vizinhanças de Lucerna, Suíça.

Lucerna na origem da Suíça

A Suíça surge como algo discernível nos idos de 1300, como algo chamado Confederação Helvética (Confederatio Helvetica), seu nome oficial até hoje — daí o sites suíços na internet terem a extensão .ch

Os helvécios (Helvetii) eram a tribo celta que os romanos antigos encontraram aqui neste planalto cercado que montanhas que hoje forma a Suíça. Diz a lenda, segundo a Historia Naturalis (77 d.C.) Plínio, o velho, que havia um sujeito dessa origem chamado Hélico que trabalhou como artesão em Roma e retornou ao seu povo levando um figo seco, vinho e azeite de oliva — o que levaria aqueles “bárbaros” a depois querer invadir as terras romanas para obter mais.

Lucerna, esta cidade que hoje vos mostro, à época não existia, mas se crê que seu nome tenha sido dado já pelos romanos por este lago que banha a cidade ser um ponto de pescaria do peixe lúcio (!). (São grandes peixes de água doce da Europa do gênero Esox.) Os romanos, como talvez vocês saibam, comiam muito mais peixe que carne como proteína animal.

Com a retirada e queda do Império Romano, os germânicos assentam-se aqui em povoados relativamente independentes. Aos idos da Idade Média, os poderosos Habsburgo da Áustria já queriam dominar esta região, todavia, e houve quem não quisesse. Aparecem as lendas do herói popular Guilherme Tell, desafiando os Habsburgo direto aqui desta região dos arredores de Lucerna.

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Ilustração do herói Guilherme Tell com a flecha na mão diante do governador austríaco Albrecht Gessler nos idos de 1300, nestas terras montanhosas que então pertenciam ao Sacro-Império Romano Germânico.

O Sacro-Império Romano Germânico foi a organização que se formou a partir do ano 800 d.C. em muito da Europa Central, juntando a autoridade papal em Roma à autoridade temporal de um sacro-imperador cuja sede mudava a seu gosto. Por vezes foi Praga, Viena, entre outras. Dependia da pessoa que ascendia ao trono.

Esse sacro-império foi o grande cobertor sob o qual se deu muito do feudalismo europeu de que escutamos. Era uma colcha de retalhos, sob a qual potentados regionais e famílias poderosas controlavam territórios e dali extraíam impostos. O imperador, “lá em cima”, não apitava muito no dia-dia das coisas cá no chão.

Pois eis então que estas terras aqui da Suíça estavam sob o mando dos nobres Habsburgo, que mais tarde formariam a Áustria levando-a ao seu esplendor posterior nos séculos XVIII e XIX. Antes disso, porém, eles foram postos para fora aqui da Suíça.

Lucerna, nos idos de 1200-1300, já era um centro urbano com milhares de pessoas. Foi nessa época da Idade Média que começaram a re(surgir) as cidades, buscando cada vez maior autonomia e independência dos nobres.

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Ilustração de 1554 mostrando Guilherme Tell com uma besta em mãos, obrigado pelo nobre a atirar numa maçã posta na cabeça do próprio filho (de Guilherme).

Certa feita, dizem que o preposto dos Habsburgo aqui, Albrecht Gessler, chegou num vilarejo desta região e um fulano bom de mira chamado Guilherme Tell não lhe tirou o chapéu como cumprimento.

O nobre não gostou, e como punição mandou o campesino ver se era bom de mira mesmo. Puseram uma maçã na cabeça do filho de Guilherme, e mandaram-no atirar para ver se acertaria.

Estes contos são mais lenda que História, então é claro que Guilherme Tell acerta a maçã de forma certeira. Sua mão, porém, já segurava uma segunda flecha. O nobre indagou para quê, ao que Guilherme teria respondido que era para ir direto no seu coração — o do nobre no cavalo — caso ele tivesse errado o tiro na maçã e acertado o filho. Revisite a ilustração colorida mais acima e veja essa cena de audácia.

Guilherme Tell virou um conto popular, de historicidade até hoje debatida, um pouco nos moldes de Robin Hood. As lendas e histórias que envolvendo ele são o tipo de coisa contada até hoje extensivamente em verso e prosa às crianças suíças.

O que ele personifica, porém, é a rejeição suíça ao domínio estrangeiro — que se manifesta até hoje, na ausência da Suíça da União Europeia embora esteja circundada por ela. Até mesmo na ONU a Suíça só entrou em 2002.

Formaria-se uma pequenina confederação de cidades chamada Confederatio Helvetica, envolvendo Lucerna e algumas outras, aqui no século XIV — confederação à qual depois se uniriam Zurique, Berna e outras. Desde então, nascida aqui da resistência aos austríacos, a neutralidade e independência dos suíços é seu emblema.

(Claro que há críticas. Houve conivência tácita da Suíça com os nazistas na Segunda Guerra, assim como há amplo envolvendo bancário suíço na economia globalizada de hoje. É cada vez mais difícil estar realmente isolado, mesmo para estes povos de montanha.

Torre medieval em Lucerna à noite
A torre medieval Wasserturm (34m) no Lago de Lucerna, numa destas noites de dezembro.

Lucerna hoje — na época natalina

Eis aí a cidade de Lucerna à margem do lago suíço que leva o seu mesmo nome. Ela hoje é um misto de cidade moderna com elementos remanescentes de sua História, como a torre acima, do século XIV.

Essa torre fica ao lado da ponte coberta de madeira mais antiga da Europa, a Ponte da Capela (Kapellbrücke). Trata-se de uma ponte relativamente estreita, feita para pedestres (não carruagens), e decorada por dentro com afrescos seculares que você ainda encontra. 

Sua construção original data de 1365. Sofreu incêndios, parte dos afrescos se perderam, mas ela segue sendo o lugar mais pitorescos e gostoso de visitar em Lucerna.

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A Ponte da Capela (Kapellbrücke), a mais antiga ponte coberta de madeira da Europa. Data do século XIV, embora tenha havido reformas. Note os afrescos ainda presentes.

Eu caminhei por aquele chão de madeira, sentindo o breve tremular do chão com as minhas passadas, e sentia o frio úmido vindo da água abaixo.

Havia ali uma tranquilidade que só era interrompida pela ocasional dupla ou grupo de turistas, além das passadas das outras pessoas. 

Você daqui tem belas vistas para a Igreja Jesuíta e outras partes deste ponto onde o rio Reuss e o Lago Lucerna se encontram.

Essa igreja, a saber, foi consagrada em 1677. Em estilo barroco, ela é exemplo da presença católica que marcava (e, de certa forma, ainda marca) Lucerna numa confederação predominantemente protestante. Houve guerras a valer, e foi em parte a derrota de tropas católicas daqui no século XVIII que fez com que Zurique e outras cidades despontassem à frente de Lucerna.

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A Igreja Jesuíta (1677) em Lucerna. A ordem jesuíta se instalou aqui ainda em 1567, quando a cidade se destacava como um bastião católico na Confederação Helvética apesar da Reforma Protestante (que foi abraçada na maior parte das demais cidades suíças). Segue sendo uma igreja católica romana.

As marcas históricas de Lucerna estão por toda parte. A própria prefeitura da cidade, completada em 1606, mais parece uma pequena fortaleza de época.

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A prefeitura de Lucerna, prédio de estilo renascentista italiano completado em 1606.
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Prédios com decorações germânicas de estilo medieval e letreiro gótico.
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Há muitos destes edifícios artisticamente decorados em Lucerna.

Se você acha que os lugares estão bem pacatos, isso é porque pareciam estar todos concentrados — em espírito de confraternização natalina — pelos restaurantes e feirinhas de Natal da cidade. Sendo dezembro, temos dias curtos, noites longas, e por sorte muitas luzes na cidade.

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Mesas de restaurante decoradas para o Natal em Lucerna.
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Uma das feirinhas de Natal da cidade.
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Esta daqui levou bem a sério. O burrinho é de verdade.
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As velas representando os quatro domingos do Advento que antecedem o Natal, ao redor de uma coluna no centro de Lucerna.
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Por ali, vencendo o frio.
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O frio aqui se vence com muito quentão ou vinho quente com especiarias (gluhwein) e, para os que gostam as típicas salsichas germânicas.
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É aconchegante.

Esta época de dezembro é um convite ao aconchego em todo o hemisfério norte, sobretudo nesta região montanhosa. Nos meses mais quentes (maio-setembro), claro, a coisa são outros quinhentos.

Lucerna num mes quente
Lucerna numa outra época do ano.

O Monte Pilatos e a lenda do dragão

Seja qual for a época do ano, é quase obrigatório tomar o teleférico e subir ao Monte Pilatos, nas vizinhanças de Lucerna. E, eu lhes digo, acho que nesta época fria o lugar se torna especialmente cênico. Ganha mesmo atmosfera compatível com a lenda do dragão que cerca este lugar.

Calma, eu ainda não estou trocando Pôncio Pilatos com São Jorge. Em verdade, há quem sugira que qualquer semelhança de nome entre esta alpina montanha e o governador romano que teria lavado as mãos diante da condenação de Jesus é mera coincidência. Mais provavelmente, é por ele estar frequentemente coberto (pileatus em latim) por nuvens.

Dizem que aqui viviam dragões. Não vi nenhum, mas que parece que a qualquer momento você se deparará com um, parece.

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Do alto do Monte Pilatus, nas vizinhanças de Lucerna, com o lago em vista. Linda vista dos Alpes.

Você chega aqui tomando o ônibus n.1 desde a estação ferroviária de Lucerna até a cidadezinha vizinha de Kriens. Lá, é uma curta caminhadinha até o teleférico que o eleva até o monte.

Vale pelas já desde o princípio, conforme você se distancia do chão e vai se juntar às montanhas.

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Distanciando-se do chão em Kriens.
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Paisagem outonal.
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É alto. Este teleférico o leva até o alto do Monte Pilatus, onde há uma estação.
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Bobo.
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Trajeto horizontal rumo à montanha.
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Lá no alto, com a paisagem alpina ao redor — e muita neve.

Nada tema, você não fica exposto aos elementos cá no alto. Há uma estação com um breve restaurante, lojinha de lembranças, e alguns espaços por onde caminhar no lado de fora. 

É esse o jeito de caverna que faz você se sentir em Game of Thrones ou algum outro contexto com dragões.

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Nas áreas por onde você circula lá no alto, no Monte Pilatos.

Dizem que já encontraram ossadas de dragão cá pelo alto, e outros falam que a alma de Pôncio Pilatos segue aqui em agonia, e que se agita toda Sexta-Feira Santa, arrependido pelas mãos sujas de sangue.

É claro que, hoje, o lugar deita e rola nestas lendas para animar os turistas, mas esses “causos” não são invenções de hoje. Em 1387, um grupo de sacerdotes foi encarcerado depois de subir aqui à montanha sem permissão, crê-se que para realizar algum ritual não-autorizado pelo bispo.

Havia enchentes no lago de montanha aqui ao lado, e se achava que as tempestades eram algo sobrenatural. Os próprios aldeões ficaram proibidos de subir aqui um bom tempo.

Eu, no entanto, a recomendo a vocês.

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A vista para o lago cá do alto em dezembro.
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O dito cujo, o cume do Monte Pilatos.
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As vistas são fabulosas.
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Você pode circular um pouco cá por cima.
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O sol amarelo no horizonte.
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Voltas por aqui.

Comendo como nas montanhas

Depois de voltar do antigo covil do dragão, descemos de volta a Lucerna para encerrar o nosso dia à moda montanhesa. Era hora de um fondue de queijo, com que encerro este post.

A saber, durante o verão há mais maneiras de ascender e descer de Pilatos. Há um pequenino trajeto de trenzinho panorâmico sobre o qual você pode se informar direto na sua acomodação. Há também oportunidades de fazer passeios de barco pelo Lago de Lucerna.

No inverno, porém, o nosso aconchego era outro. A Suíça é um lugar caro — disso todo mundo sabe —, mas vale a pena investir num fondue de queijo quando estiver aqui. O preço e o tamanho variam de acordo com o número de pessoas. 

Não poluirei a visão de vocês falando em preço. Vejam só o queijo, o pão e as batatinhas. Inverno feliz é assim.

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Fondue de queijo. os tipos variam, mas o mais clássico aqui na Suíça é o chamado moitié-moitié (“metade-metade”, o que quer dizer metade queijo gruyére e metade queijo vacherin, dois queijos suíços de renome). Em geral, acompanha pedaços de pão e/ou batatinhas cozidas.
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Olha “que tudo”, como diz uma amiga minha.
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Encerrando o dia em Lucerna.
Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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