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Polônia

Conhecendo Estetino (Szczecin) e o Ducado da Pomerânia

Szczecin, Polônia. Lugar que, pouco pronunciável aos não-eslavos, chama-se Estetino em português.

Os poloneses a chamam algo como Sch-tché-tsin. Estamos no ancestral Ducado da Pomerânia, uma terra que foi polonesa, alemã, e agora polonesa novamente.

Seu nome advém do termo eslavo pomorze, que quer dizer “ao mar”, no sentido de se referir às terras e pessoas que viviam aqui na costa do Mar Báltico. Grosso modo, estamos nos referindo à área que fica entre o rio Vistula lá no leste polonês e as ilhas alemãs ao norte de Berlim. (Sim, a Alemanha tem ilhas.)

Já lhes mostrei Gdansk (que já foi chamada Danzig) lá na ponta oriental da Pomerânia. Agora, apresento-lhes Estetino, cá no extremo ocidente polonês — quase Alemanha.

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A Pomerânia histórica num mapa de cerca de 1900. Note-se o Império Alemão; em amarelo-claro, a Prússia já germânica, e em vermelho a Pomerânia. À época, não existia Polônia: ela havia sido suprimida pelas potências vizinhas e só ressurgiria com a derrota das potências centrais na Primeira Guerra Mundial (1914-1918).
Pomerania mapa atual
Hoje, a Pomerânia está dividida assim. Parte ainda fica na Alemanha, mas a maioria hoje pertence à Polônia. Muitos brasileiros no Sul do país descendem de alemães que vagaram aquela região do que é hoje o país eslavo. Note Estetino (Szczecin) ali.
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Bem-vindos ao que é esta cidade atualmente.

O Ducado da Pomerânia e a Casa dos Grifo

O nome acima está no singular porque Grifo se refere a uma família; não uma família qualquer, mas a família dos Duques da Pomerânia

Aqui, o rio Odra (Oder em alemão) despeja suas águas no Mar Báltico e forma uma laguna natural. É uma área extensa (de 687 Km²), onde o estuário há tempos forma uma região estratégica tanto de habitação quanto de comércio naval entre o rio vindo do continente adentro e o mar.

Se você viesse aqui na Alta Idade Média, em torno do ano 1000, encontraria essencialmente eslavos de várias etnias numa habitação esparsa desta região molhada, de rios e brejos. Pouca gente hoje se dá conta, mas havia malária e doenças mil transmitidas por mosquitos na Europa daquele tempo — uma desgraceira só.

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Brasão medieval da Casa dos Grifo, duques da Pomerânia.

Nos idos de 1100, você já encontraria esta região controlada por Vartislau I, que usava a figura mitológica do grifo (misto de águia e leão) como símbolo no escudo.

Os Grifo (Gryfici em polonês), como viriam a ficar conhecidos, dariam as cartas aqui durante os próximos 500 anos ainda que sob imperadores distintos.

A Pomerânia nunca foi um reino independente. Em 1121, surgiu como parte do Reino da Polônia. Depois, caíram sob o Ducado da Saxônia e viraram parte do Sacro-Império Romano-Germânico. Em seguida, seriam conquistados pelos dinamarqueses, e em 1397 seria daqui desta família, Érico da Pomerânia (1382-1459), o rei dinamarquês a governar toda a União de Kalmar — quando toda a Escandinávia ficou sob a coroa dinamarquesa.

Como eu vos contei naquela postagem em Kalmar, que hoje é uma cidade da Suécia, os suecos se levantariam contra o domínio dinamarquês, e estes gradualmente minguaram enquanto potência nos idos de 1500-1600.

A Pomerânia passaria a ser dividida entre poloneses, germânicos, e também suecos (que conquistaram terras deste lado de cá do mar, e as retiveram por um tempo). Em 1660, morreria o último Grifo, o duque Bogislau XIII.

O castelo desses duques, porém, segue de pé aqui em Estetino. Chegou a hora de vermos um pouco de como está essa cidade hoje.

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Bom dia desde Estetino, na Polônia.

Szczecin, Szcz… Estetino, Polônia

Passei dias tentando refinar a minha pronúncia desse nome, a tentar explicar aos poloneses aonde eu ia. Por sorte, as minhas passagens de trem eu havia comprado pela internet (como instruí aqui), então minorei o risco de ir parar n’algum lugar outro do interior polonês.

Quando a cidade passou dos suecos aos alemães no século XVIII, chamaram-na Stettin. Mais simples.

Muito dessa presença alemã prussiana de séculos segue presente até hoje nos prédios e edificações, mas a cidade voltou a ser eslava em 1945. Os germânicos emigraram, e a Polônia trouxe para cá poloneses de outras bandas — inclusive do leste polonês, absorvido pela União Soviética em 1940 e nunca devolvido (persiste hoje como o oeste da Ucrânia).

Como foi bombardeada durante a Segunda Guerra Mundial, eu preciso dizer que  muito do que era histórico se foi. Resta pouco, além de algo que foi restaurado. Muito da cidade data dessa segunda metade do século XX de arquitetura moderna sem sal. Não é a cidade mais bela da Polônia, e eu acho 1-2 noites aqui o suficiente para ver tudo, mas é uma cidade que tem seu lugar na História.

Avenida em Estetino, Pomerânia, Polônia
Não há mentiras: o grosso de Estetino é hoje assim, com bulevares amplos, vias arborizadas, mas prédios pouco dignos de nota. É produto da Polônia dos anos 1950-2000.
Terraço sob o sol em Estetino, Pomerânia, Polônia
Porém, ainda há da antiga Pomerânia. Aqui, o chamado Terraço de Haken (Hakenterrasse) construído no promenade à margem do rio Odra pelos alemães no início do século XX. Haken era o prefeito prussiano à época. Os poloneses renomearam a obra Terraço de Boleslau, o Bravo, um de seus duques medievais, mas o nome original da obra segue na pedra.

A Pomerânia ainda exibe hoje um vai-lá-vem-cá de coisas polonesas e alemãs. Há hoje paz numa fronteira (a poucos Km daqui) que é aberta, inclusive sem qualquer checagem nestes tempos de União Europeia, e muitos alemães passeiam por cá, com seu idioma escutado também nas ruas, mas não deixa de haver certa tensão latente entre poloneses e alemães às vezes.

Os poloneses, basicamente, quiseram se certificar de re-polonizar Estetino e a Pomerânia, evocando o seu passado medieval eslavo a todo momento — e desfazendo certas alterações alemãs dos séculos recentes.

Um exemplo é a catedral, uma igreja do século XIV que viria não só a ser fisicamente modificada (em reconstruções após guerras dos séculos XVII e XVIII), mas que passou também a ser da Igreja Evangélica da Pomerânia. Com o retorno à Polônia em 1945, os poloneses a fizeram novamente católica, e reconstruíram à imagem do que era nos tempos da Renascença.

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A Catedral Basílica de São Tiago apóstolo, erigida no século XIV por cima de uma igreja romanesca do século XI que aqui havia. Os germânicos a haviam transformado fisicamente e integrado à Igreja Evangélica da Pomerânia, e os poloneses reverteram o processo após retomar esta região em 1945.
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A catedral é enorme, em estilo que mistura elementos góticos e neo-barrocos (estes do século XIX, como a ponta da torre, chamada coruchéu).
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O interior da Catedral Basílica de São Tiago Apóstolo em Estetino. De tijolinhos e com amplas janelas, como são outras igrejas dessa época neste litoral do Mar Báltico.
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Não há muitos enfeites, mas vejam aqui estes querubins numa das capelas laterais com o sol a raiar por detrás.

Eu, que cheguei à cidade em fins de dezembro, fiquei a caças coisas históricas ou lugares mais pitorescos que a urbanidade atual ou recente. A Estetino recente, neste inverno, era uma coisa meio parada, cinzenta, feia e triste, com um ar pós-industrial a evocar a Guerra Fria, que já passou.

Por sorte, era Natal, e portanto possível sentir aquela atmosfera mais luminosa e de calor humano. Na breve feirinha natalina organizada na cidade, viam-se as pessoas — idosos do tempo da Guerra Fria e jovens desta era da União Europeia — a circular com os seus copos de vinho quente e quitutes salgados da região.

No escuro da noite em que cheguei, era possível vislumbrar algo de histórico — e bonito — em meio às ruas sem esplendor.

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Estetino, da minha janela. O sol fazia-se lindo, como é. Já os prédios, retangulares sob o céu de chumbo, faziam pouca beleza junto às árvores secas neste inverno.
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Volta e meia você olha e, na cidade escura, via algo que pertenceu a outros tempos. Este, do século XVIII, é o chamado Portão de Berlim, pois daqui saía a via para a atual capital alemã — à época, a capital prussiana.
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Feirinha de Natal em Estetino, Polônia. É uma tradição por toda a Europa Central.
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Jovens e menos-jovens por entre as barracas, com a árvore de Natal lá ao fundo.

Se você estiver a se perguntar sobre as coisas típicas destas feirinhas de Natal polonesas, recomendo os meus posts recentes de Natal aqui pela Polônia em Gdansk, Breslávia (Parte 2), e Cracóvia (Parte 3), ricos em detalhes e fotos.

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Há vida nas ruas de Estetino, mesmo no inverno.
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Um vinho quente (quentão) para esquentar a alma.

O que vi e o que ver em Estetino

Embora esta seja uma cidade pequena e modesta em atrativos, há o que ver e visitar aqui em Estetino.

Há um centro histórico pequenino que eu nem sei se merece essa alcunha, pois são apenas algumas edificações ocasionais de época em meio a ruas bastante “normais”. 

Afora a catedral que vos mostrei, o que tem ali digno de nota é o Castelo dos Duques da Pomerânia, hoje um prédio público que você basicamente vê pelo exterior. Há um pátio aonde você pode entrar para ver os ornamentos externos do castelo e sua torre do relógio de origem renascentista.

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As avenidas normais de Estetino. A cidade como ela é.
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O simpático edifício da Biblioteca da Pomerânia (Książnica Pomorska). Como vos disse, há edificações bonitas na cidade.
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A Nova Prefeitura de Estetino, também chamada de Prefeitura Vermelha. Foi inaugurada em 1879, obra do arquiteto berlinense Konrad Kruhl em estilo neogótico.

Isso é até chegarmos ao Castelo dos Duques da Pomerânia, que é realmente um prédio digno de ser visto aqui na cidade. 

Esse castelo existe desde pelo menos 1346, mas foi remodelado ao longo dos séculos. Seu estilo atual é o da reforma feita em 1573-1582 em estilo maneirista, que é como a arquitetura renascentista do norte da Europa é frequentemente conhecida. Notam-se os enfeites, floreios e ornamentos.

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O Castelo dos Duques da Pomerânia, com seu estilo renascentista do século XVI. Ele viria a sofrer modificações — e danos — posteriores. Quando restaurado, os poloneses buscaram o aspecto que ele tinha quando foi polonês, antes da conquista germânica.
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A torre do relógio em destaque. Ela é posterior ao século XVI, mas foi mantida.

Uma curiosidade histórica é que Catarina, a Grande (1729-1796), nasceu aqui em Estetino e cresceu neste palácio. Sim, estou falando da famosa czarina russa. 

Não é segredo para muita gente que ela era alemã. Afinal, naquele tempo anterior à ideia de nacionalismo, pouco importava que a monarca viesse de outra terra; importavam a estirpe familiar e a religião. 

Ela nasce aqui, no que era a Prússia germânica, e é batizada com o nome de Sophie Friederike Auguste von Anhalt-Zerbst-Dornburg. Ela só ganha o nome de “Catarina” (Ekaterina) ao se converter ao cristianismo ortodoxo na Rússia, já casada.

Como se sabe, ela viria a ter vários amantes, assim como seu marido — o qual levou anos para consumar o casamento. Ele morreria mais de 30 anos antes dela. Provinda aqui de Estetino, ela reinaria na Rússia até as Guerras Napoleônicas, sendo considerada uma das “déspotas esclarecidas” da época.

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Pátio do Castelo dos Duques da Pomerânia, hoje um prédio público. Note ali a figura do grifo ainda como brasão da bandeira regional.

Daqui, caminhei diretamente rumo ao Terraço de Haken (Hakenterrasse), renomeado em honra ao duque polonês Boleslau, do século XI. Eu gosto do nome original das coisas, mas hoje ele é conhecido como Dique de Boleslau I, o Bravo (Wały Chrobrego). 

Perto da margem do rio Odra, embora você daqui não o veja bem, é um belo conjunto arquitetônico que inclui o Museu Nacional e também um prédio de governo regional, ambos originalmente anteriores ao retorno destas terras à Polônia.

O Museu Nacional em Estetino (Muzeum Narodowe w Szczecinie) fica num impressionante prédio de 1729, do arquiteto germânico Gerhard Cornelius von Wallrave. Ele é o mesmo que desenhou o Portão de Berlim, mostrado acima.

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Prédio prussiano de 1729 que hoje abriga o Museu Nacional em Estetino. Uma das obras impressionantes na área do Terraço de Haken. 
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O conjunto arquitetônico inclui também esta fonte, do princípio do século XX, e lá atrás o prédio do governo regional da Pomerânia. Ele data de 1911, feito pelos alemães num estilo que remonta a renascença do norte europeu.
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Não dá para dizer que Estetino não tem suas belezas…
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Detalhes que me lembram a obra do simbolista austríaco Gustav Klimt.

Pois, veja você, há bastante aqui em Estetino do que foi a obra arquitetônica prussiana do início do século XX, antes da Primeira Guerra Mundial.

De fato, Berlim está a meros 150 Km daqui. (Varsóvia fica a mais de quinhentos.) Natural que haja tamanha influência alemã, também dada a História. 

Estetino talvez não se compare (mais) ao charme de Breslávia. Resóvia ou Lublin, para nem falar no jeito renascentista autêntico de Zamosc, mas tem o seu lugar. (Só não precisa se demorar muito aqui.)

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Prédios que me lembram Amsterdã, Hamburgo, e outras cidades marcadas por esta arquitetura típica do Mar do Norte.
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Aí você contrasta a arquitetura de época com a contemporânea. Isso cinzento ao lado é a Filarmônica de Estetino, cujo prédio inaugurado em 2015 chegou a ganhar prêmios de arquitetura. Eu fico com o padrão antigo, francamente.

Estetino e a Pomerânia vão tentando se reinventar, ainda que a beleza mesmo, a meu ver, esteja no que há de antigo que ainda sobrou na cidade.

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O Portão de Berlim, resquício de outras eras aqui em Estetino.
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O Anjo da Liberdade, escultura de 11m de altura em honra aos trabalhadores aqui mortos em dezembro de 1970, num protesto por melhores condições de trabalho, e reprimidos pelo governo autoritário de então.
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A prefeitura antiga, do século XV, e algumas edificações de época na praceta do que é o centro histórico de Estetino. Outra época, mas que seguem aqui.

Eu, por meu turno, sigo em frente.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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