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Alagoas Brasil

Visitando o Quilombo dos Palmares hoje

União dos Palmares, Alagoas. Eis que ia eu na Estrada do Matadouro, em busca dos vestígios do célebre Quilombo dos Palmares, aqui no seu sítio original.

Muitos sequer sabem, mas há hoje um parque federal gratuito, o Parque Memorial Quilombo dos Palmares, inaugurado em 2007 e que tanto conserva quanto remonta o que se crê ter existido aqui. Ponho certa subjetividade na explanação porque alguns detalhes históricos (ex. a organização social, ou como eram feitas as casas) variam e certas fontes divergem.

Não estamos falando de lugar remoto, porém é praticamente impossível chegar sem carro — a menos que você faça como as mães de santo em época de celebração e caminhe quilômetros a fio Serra da Barriga acima. Um Uber desde União dos Palmares (AL) ou motorista contratado desde Maceió ou Maragogi, no entanto, resolve o seu problema. (Não confundir com o município de Palmares – PE, que é bem mais longe.)

A visita é mais simbólica que qualquer outra coisa, e dura poucas horas, no muito. Venha na hora do almoço e, antes da visita ao Quilombo dos Palmares, certifique-se de parar para almoçar no restaurante Baobá Raízes e Tradições. Ele é coordenado por Mãe Neide Oyá D’Oxum, que você pode cumprimentar pessoalmente se ela estiver aqui. Fiz tudo isso e mais.   

Serra da Barriga - estrada para o antigo Quilombo dos Palmares
A estrada para onde ficou o Quilombo dos Palmares, na Serra da Barriga, Alagoas.

Quilombo dos Palmares – o básico

Regressemos ao século XVI. Buscando ocupar o Brasil, Portugal traz negros d’África para substituir a revoltosa mão-de-obra indígena na cana-de-açúcar. Aqui, Capitania de Pernambuco, tínhamos dos centros econômicos mais prósperos desta colônia, mas não tardou aos negros também fugirem — e, por vezes, irem viver ao lado dos índios nas matas.

A primeira notícia que se tem de Palmares data de 1580. Não se falava em “Quilombo dos Palmares”, mas se fazia uma alusão genérica aos pretos fugitivos que pareciam ter-se organizado de modo autônomo nos palmares a oeste da costa, fazendo medo aos senhores de engenho.

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A Serra da Barriga, onde ao fim do século XVI começaram a se organizar várias comunidades negras autônomas. Interligadas, elas viriam a formar o que ficou conhecido como o Quilombo de Palmares. Hoje Estado de Alagoas, à época aqui ficava a Capitania de Pernambuco.

Sabe-se que as capitanias tinham margens bem definidas a norte e a sul, mas Brasil adentro, cabia ao donatário ou governador consolidar seu domínio (ou não). Quase todos os povoamentos coloniais ficavam perto do mar, e para dentro ficavam “os sertões”.

Quando os holandeses ocupam Recife e Olinda em 1630, desbaratam o negócio português dos engenhos de açúcar, e aí é que mais negros fogem. O Quilombo dos Palmares ia se tornando um lugar semi-lendário de que os escravos ouviam falar e que almejavam alcançar, se fugissem.

Estima-se que 6 mil ou mais negros viviam no quilombo — o qual, mais que uma só comunidade, era toda uma zona autônoma com pelo menos 11 mocambos ou vilarejos. O linguajar aí varia, com alguns usando a palavra “mocambo” para designar casas individuais ou comunidades inteiras. “Quilombo” só se tornaria corriqueira mais tarde. Alguns falam que certos índios e mestiços também viviam por aqui, e até portugueses fugidos da Coroa.

Não se sabe ao certo como o Quilombo dos Palmares começou, mas se sabe que (1) houve um papel importante dos índios em assistir os negros a conviver com o ambiente sul-americano e conhecer as espécies daqui; e (2) houve um papel importante de lideranças femininas africanas desde cedo. Acotirene teria sido uma das primeiras líderes em Palmares, seguida por Aqualtune — avó de Zumbi —,  uma princesa capturada na região do Congo e que veio revoltar-se contra Portugal no lado de cá do oceano.

Antonio Parreiras Zumbi 2
Zumbi, quadro de 1927 do pintor brasileiro Antônio Parreiras. O original se encontra no Museu Antônio Parreiras, em Niterói (RJ).

Aqualtune teria sido capturada na Batalha de Ambuíla (Mbwila), entre a Coroa Portuguesa e o Reino do Congo, em 29 de outubro de 1665.

Os portugueses recuperavam-se após estar em maus lençóis. Após perder sua soberania com a União Ibérica em 1580 (na qual ficaram sob a coroa espanhola), sofriam ataques e a invasão holandesa do Brasil em 1630. Em 1641 — poucos brasileiros sabem disso — os holandeses tomaram também Luanda dos portugueses, a atual capital de Angola.

A Guerra da Restauração (1640-1668) traria Portugal de volta a si — e os Bragança ao trono. Foi tempo de conflitos na África atlântica, da famosa Rainha Nzinga no reino de Ndongo (na atual Angola), e com o rei do Congo a alternar entre portugueses e holandeses. As guerras resultaram na captura de Aqualtune no Congo; e, com o restabelecimento do domínio português, o tráfico negreiro alcançaria proporções nunca dantes vistas.

Num tempo em que o Atlântico Sul era bem mais integrado que hoje, o “brasileiro” Salvador Correia de Sá, bisneto de Mem de Sá nascido no Rio de Janeiro e almirante para a Coroa Portuguesa, tomaria Luanda de volta dos holandeses em 1647. Como se sabe, mais logo em 1654 os compatriotas de Nassau assinariam sua rendição também no lado de cá do Atlântico, deixando o Brasil.

Portugal podia agora se focar em “restituir” Palmares, mas a tarefa não era simples. O Quilombo dos Palmares crescera ao longo das décadas; os negros estavam experimentados na defesa do território; e havia mesmo quem, na região, comercializasse com eles e os protegesse, alertando-os das aproximações portuguesas.

Ademais, como observou à época o governador Fernão Carrilho, comparando o confronto contra os holandeses e aquele contra Palmares,

“Lá se pelejava contra homens, cá contra a fome do sertão, o inacessível dos montes, o impenetrável dos bosques e contra os brutos que o habitam”

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A vista cá do alto da Serra da Barriga, o mar muito longe para ser visto a olho nu, embora apenas 75 Km separem este lugar da capital Maceió.

Pelo menos 18 expedições punitivas buscando tomar controle daquelas terras dos negros foram feitas pelas autoridades coloniais sem sucesso. D. Pedro de Almeida, então governador de Pernambuco entre 1674-1678, explicou as dificuldades por escrito à Coroa. (Dá quase vontade de dizer, no linguajar de hoje, que o governador deixasse de mimimi.)

Ponho aqui alguns trechos do original, no inigualável português da época:

A dificuldade dos caminhos“, a falta d’água levando ao “descômodo dos soldados“, pois eram “montuosas as serras, infecundas as árvores, espessos os matos“; espinhos “infinitos, as ladeiras muito precipitadas“.

Aquelas eram “incapazes de carruagens para os mantimentos“, forçando os soldados a levar nas “costas a arma, a pólvora, balas, capote, farinha, água, peixes, carne e rede com que possa dormir.

Por fim, havia os negros do Quilombo dos Palmares,

“Senhores daqueles matos e experimentados naquelas serras, o uso os tem feito robustos naquele trabalho e fortes naquele exercício. […] Nos costumam fazer muitos danos, sem poderem receber nenhum estrago, porque, encobertos nos matos e defendidos nos troncos, se livram a si e nos maltratam a nós”.

Guerra em Palmares
Ilustração do que teriam sido as batalhas pela defesa do Quilombo dos Palmares.

Aqualtune teria se tornado líder no Quilombo dos Palmares após ter sido traficada a Recife e, de lá, até Porto Calvo (atual Estado de Alagoas) para ser escrava reprodutora. Ouviu falar da zona autônoma dos Palmares e, dizem que grávida, conseguiu escapar para lá.

Embora aí a História se misture às crônicas apócrifas e as datas nem sempre batam direito, costuma-se dizer que ela foi a mãe do primeiro grande líder reconhecido no Quilombo dos Palmares, conhecido pelo nome de Ganga Zumba (“Grande Senhor”), quem os portugueses diziam ser o “rei” de Palmares.

Em 1678, é ele que negocia com o então governador de Pernambuco, o já citado D. Pedro de Almeida, um acordo de paz entre a autoridade colonial e os palmarinos. Os portugueses os deixariam em paz, e reconheceriam a liberdade dos negros que lá nascessem, contanto que parassem de acolher novos escravos fugitivos. Passaria, simbolicamente, o Quilombo dos Palmares a ser um vassalo semi-autônomo da Coroa — ao menos na leitura portuguesa do acordo.

O acordo, porém, não agradou a todos. Ganga Zumba acabaria assassinado dentro de Palmares por um dos seus próprios; dizem que pelo seu “irmão” Ganga Zona, mas este pode ter sido simplesmente um outro chefe, não necessariamente seu irmão no sentido literal da palavra.

É aí que o famoso Zumbi dos Palmares toma o poder.

Monumento Zumbi RJ
Zumbi aparece como líder apenas nas décadas derradeiras do Quilombo dos Palmares. Aqui, o monumento erigido em sua homenagem no Rio de Janeiro, inspirado na nigeriana Cabeça de Ifé, do fim do século XIV ou início do XV, hoje no Museu Britânico em Londres.

É preciso compreender que o Quilombo dos Palmares não era uma utopia libertária, como viria a ser por vezes pintado posteriormente. Estamos falando de um lugar que buscou replicar a sociedade tal como ela era organizada àquele tempo na África — com homens fortes como líderes, poligamia masculina, e o ocasional fratricídio para tomar o poder.

Há toda uma polêmica inconclusa sobre se havia escravidão dentro de Palmares. Certamente não nos moldes racistas portugueses, com escravização e tortura sistemática. Já se havia cativos que não gozavam de plena liberdade, é possível. Estamos falando, no entanto, de uma sociedade em moldes tribais, com auto-organização, direito de existir, e liberdade cultural.

Os portugueses da época observaram, por exemplo, que parecia imperar um sincretismo aqui no Quilombo dos Palmares. Se por um lado havia uma “lagoa encantada” que eu já vou lhes mostrar, encontraram aqui também imagens do Menino Jesus e de Nossa Senhora da Conceição. Vale lembrar que, desde o século XV, Portugal já vinha catequizando os africanos na África, cujos reis a esta época já adotavam “nomes cristãos” como Álvaro ou Antônio.

Gravura Sec XIX familias negras
Esta gravura circula pela internet como sendo representativa de Palmares, mas esse não é o caso. Ela data do século XIX, obra do pintor germânico Johann Moritz Rugendas, que esteve no Brasil entre 1822-1825 e retratou o que viu. As casas do Quilombo dos Palmares eram redondas como ocas e mais simples. (Eu já lhes mostro.)

Zumbi ascende ao poder nos idos de 1680, quando renascem os conflitos entre palmarinos e senhores de engenho interessados nas suas terras. Queriam também acabar de vez com o magnetismo que o Quilombo dos Palmares exercia sobre os escravos nas senzalas, como um oásis que poderiam tentar alcançar se fugissem.

No centro desse mundo negro colonial do Brasil estava o mocambo Cerca Real do Macaco, nome que se dava ao principal assentamento dentro de Palmares, e que sozinho chegou a ter cerca de 1.500 habitações. Havia, como vos disse, pelo menos 11 destes povoamentos dispersos no que chamamos de Quilombo dos Palmares, para que se um fosse conquistado, não se acabasse tudo.

Ganga Zumba, depois de perder dois dos seus filhos em confrontos contra as autoridades coloniais, havia feito o tal acordo de paz, que incluía uma relocação daqui para o Vale do Cucaú, hoje sul do Estado de Pernambuco. Zumbi ficou com aqueles que se recusaram a isso, e tornou-se líder absoluto quando Ganga Zumba morreu, aparentemente envenenado.

Entram então os bandeirantes nesta história, mercenários experientes no arraso de aldeias indígenas e que, junto com as entradas (estas, patrocinadas pela Coroa Portuguesa), buscaram consolidar o controle colonial sobre o Brasil.

Domingos Jorge Velho
Domingos Jorge Velho (1641 – 1705), bandeirante paulista contratado para destruir o Quilombo dos Palmares com uma tropa de índios e mamelucos.

O governador de Pernambuco, D. Pedro de Almeida, contratou Domingos Jorge Velho (1641-1705) para a tarefa de extirpar o Quilombo dos Palmares do mapa colonial. Notório caçador de índios, ele já tinha experiência e fama quando trazido para esta tarefa em 1694.

Curiosamente, entretanto, foi uma tropa de índios, mestiços e portugueses armados que lhe serviria para dar cabo dessa tarefa no “matagal” desta Serra da Barriga. O mote de “dividir para conquistar” existe desde a Antiguidade, afinal.

Em 1694, atacariam o Quilombo dos Palmares com canhões e milhares de homens. Desbaratavam, por fim, a vida em comunidade dos negros livres, para integrar aquele território à autoridade colonial. Prometendo liberdade a um dos palmarinos capturados, conseguiram que lhes dissesse onde estava Zumbi, o qual foi apanhado e executado a 20 de novembro de 1695 — o qual virou o Dia Nacional da Consciência Negra no Brasil.

Zumbi foi decapitado, e sua cabeça ficou exposta no Pátio da Basílica de Nossa Senhora do Carmo em Recife, como símbolo de cristi…digo, para intimidar os outros negros e provar à elite colonial o feito, já que começava a haver rumores de que Zumbi seria imortal.

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O Parque Memorial Quilombo dos Palmares fica hoje onde era o Cerco Real do Macaco, o principal dos mocambos da época. A área total de Palmares estendia-se por quilômetros.
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A entrada, que reconstroi o muro de paliçadas que havia na época do quilombo.

Visitando o Parque Memorial Quilombo dos Palmares hoje

Pouco restou de tangível no sítio do Quilombo dos Palmares; tanto permanece de cultural e imaterial. 

A entrada neste parque inaugurado em 2007 é franca. Ele abre de domingo a domingo das 8h às 17h, e nele você pode ver todo um esforço de se tentar reconstituir o que se crê ter sido a vida naquele tempo. 

As moradas da época eram todas de palha e madeira; portanto, o que temos hoje são imitações das ocas onde viviam milhares de famílias neste e outros dos povoamentos de Palmares. Sim, acredita-se que eles as aprenderam com os índios.

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Nestes mocambos viviam os palmarinos, que chegaram ao número de 1.500 só neste assentamento (Cerca Real do Macaco) e, estima-se, cerca de 6.000 ou mais no total. Os números variam, e há estimativas maiores, de que o Quilombo dos Palmares tivesse mais de 20 mil. (Aquilo na minha mão é um caju que achei.)
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Acredita-se que as moradas da época aqui tinham esta arquitetura, feita com madeira e palha de palmeira.

Em Palmares, perseveraram muitas das tradições africanas que vieram ao Brasil. É o caso da capoeira, da religiosidade, assim como das comidas. Você aqui nota, inclusive, que muito do que se chama “culinária afro” é aqui mais adequadamente descrita como “afro-indígena”.

A mandioca é nativa da América do Sul, e a farinha é um alimento indígena que os negros (e portugueses) adotaram. As pimentas coloridas também são nativas das Américas.

Já o dendezeiro é nativo da África Ocidental, e acredita-se que ele veio já com os primeiros escravos negros ainda no século XVI. Os palmarinos utilizavam desse azeite abundantemente. Produziam alimentos em boa escala, e trocavam farinha de mandioca por armas de fogo nas comunidades próximas.

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Reconstituição do que teria sido uma casa de farinha da época.
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Há poucos vestígios arqueológicos aqui no Quilombo dos Palmares hoje, mas há.
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Rocha onde se amolavam armas.

Havia roçados aqui, tanto de mandioca quanto de ervas medicinais ou de valor religioso. Os banhos de ervas seguem presentes na religiosidade afro-brasileira até hoje.

Outra coisa que se nota são as imponentes árvores — algumas das quais se sugere que estavam já presentes nos tempos do Quilombo dos Palmares. As gameleiras (Ficus gomelleira), em especial, aqui são tidas como árvores sagradas. Na crença, elas representam os ancestrais, e se amarra um pano sagrado (ojá) ao redor. É uma tradição iorubá, feita com árvores irôco (Chlorophora excelsa) na África Ocidental e aqui adaptada para a gameleira.

Desde pelo menos a década de 1980, toda madrugada de 20 de novembro as mães-de-santo e devotos sobem até aqui para prestar suas honras.

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Com uma das antigas gameleiras do Quilombo dos Palmares. Árvore tida como sagrada nesta tradição religiosa afro-brasileira, acredita-se que ela já estava aqui nos tempos de Zumbi.
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Vi também jaqueira com o pano branco sagrado ao redor, o ojá. A reverência às antigas árvores aqui as faz de símbolos da ancestralidade.
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A Lagoa Encantada dos Negros, hoje precisando de uns cuidados, era de onde se apanhava água para o dia-dia e onde se faziam rituais sagrados no Quilombo dos Palmares.

Por vários lugares onde você anda aqui no parque, há botões que você aperta para escutar uma explicação sobre algum aspecto da vida no Quilombo dos Palmares na voz de alguma personalidade brasileira negra, tais como Tony Tornado, Djavan e outros.

Você perceberá, sem muita demora, que o parque é tanto arqueológico quanto de simbologia histórica para o movimento social negro hoje em dia.

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Na cabana principal, refeita à imagem de como se imagina ter sido a morada dos líderes (a quem os portugueses da época por vezes se referiam como “reis”), personalidades negras da História do Brasil. Vê-se aqui, por exemplo, a escritora Carolina de Jesus (1914-1977).
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Uma curiosidade é que você encontra gente morando aqui até hoje. É um certo quiprocó, pois eles já se encontravam aqui quando o Governo Federal decidiu estabelecer um parque memorial em Palmares. A pobreza é perceptível.

Há algumas vendinhas, tanto de lanches quanto de souvenires simples cá no interior do Parque Memorial, mas nada demais. Inclusive, quase não vi outros visitantes. Entre vários funcionários que, pacatos, varriam folhas no chão naquela tarde, fiquei com a impressão de que este é daqueles lugares que a maioria dos brasileiros nem sabe que existe. (Se fosse empreendimento privado, já teria fechado as portas. Por sorte, não é.)

Ao meu lado eu tinha a guia local que atende pelo apelido da Dandara, nome de quem se crê ter sido a mulher de Zumbi nos tempos do Quilombo dos Palmares. A bem da verdade, sua existência histórica segue disputada; ainda que em 2019 ela tenha entrado para o Panteão de Heróis do Brasil e sido até tema de samba-enredo da Mangueira naquele ano, é óbvio ser o tipo de coisa que evoca muito mais sentimentos de representação social hoje que de preocupação com a acuidade histórica sobre o ontem.

Há também uma história apócrifa — e provavelmente espúria — sobre Zumbi ter sido criado por um padre alagoano que o batizou de Francisco, antes de ele fugir para “retornar aos seus” em Palmares. Há quase tantas versões alternativas sobre a vida de Zumbi quanto sobre Jesus.

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Thaís, que atende pelo apelido de Dandara, é guia profissional aqui no Parque Memorial Quilombo dos Palmares. Você pode programar uma visita com ela através da conta de Instagram @visitaquilombopalmaresal

Baobá – Raízes e Tradições

Você vem ao Parque Memorial Quilombo dos Palmares nem tanto para ver, mas para se saber aqui, sentir-se aqui, e para aprender. Agora, o que você não pode deixar de fazer é vir também para comer no Restaurante Baobá – Raízes e Tradições, onde as tradições afro-indígenas daqui seguem vivíssimas.

Aliás, o legado afro-indígena está, primeiro de tudo, na cara das próprias pessoas (a guia Dandara, por exemplo, não nega suas raízes da ancestral distante Iracema, que José de Alencar conheceu).  

Mas se quiser também experimentar da gastronomia afro-indígena, evite os domingos ou segundas, quando o restaurante com o nome da árvore africana está fechado. Para ficar bem certo, contate-os na conta @vemprobaoba. Eles também têm eventos especiais com música ocasionalmente, sobre os quais você pode se informar com eles.

Foi aqui que comi a melhor moqueca d’ovos da minha vida, e onde conheci Mãe Neide, que é patrimônio cultural vivo do Estado de Alagoas.

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O ambiente do Restaurante Baobá – Raízes e Tradições, extremamente aconchegante e repleto de coisas típicas.
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Uma deliciosa moqueca d’ovos, devidamente carregada de dendê, e acompanhada de arroz e farofa.
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Licores caseiros dos mais variados tipos. Vale vir experimentá-los, quando vier conhecer o Parque Memorial Quilombo dos Palmares.
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Eu com Mãe Neide, que é reconhecida como patrimônio vivo do Estado de Alagoas por todo o seu papel para a manutenção da cultura afro-indígena de raiz daqui.

Mãe Neide é uma simpatia, uma dessas senhoras sociáveis e argutas. Ao que eu aguardava minha moqueca, ouvia ela conversar com uns visitantes sobre quando se recusou a apertar a mão de Michel Temer. “O senhor não me representa“, reconstituía ela a cena.

Em 2021, ela ganhou o Dólmã (prêmio máximo da gastronomia brasileira) na categoria nacional, como melhor chef do país. Então, pense o que pensar das tradições, leve a sério o que estou dizendo sobre a comida aqui no Baobá.

Notas finais

Eu encerrei o post anterior em Maragogi, no litoral “das” Alagoas, com uma visão para o seu interior — um palmeiral que se estendia pelas colinas semi-nuas, já há tempos desnudas para o plantio de cana. Veem-se ainda hoje os caminhões carregados de cana a segurar o trânsito na rodovia, símbolos de uma economia antiga que concentrou renda e poder nas mãos de tão poucos. A coisa não mudou muito de lá para cá.

Não é só aqui. A saber, há quase 6 mil quilombos reconhecidos hoje no Brasil. Não são uma coisa do passado: as comunidades afro-descendentes seguem existindo país adentro e afora, acossadas talvez nem tanto mais pelo Estado quanto pelos interesses privados em suas terras. 

Zumbi, assim, passou a ser resgatado como símbolo de identidade e resistência — ainda que a publicidade se dê muito mais sobre os negros ou pretos do meio urbano que aqueles do ambiente rural. 

Um pensador certa vez disse que nossas vidas não se resumem ao tempo em que vivemos; incluem também toda a influência que seguimos tendo depois. Se é assim, então talvez as pessoas do século XVII tivessem razão e Zumbi seja mesmo, afinal de contas, imortal.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

One Reply to “Visitando o Quilombo dos Palmares hoje

  1. Uau!…Que maravilha. Que primoroso resgate histórico, com a beleza de estar in loco, meu jovem amigo viajante. Um tesouro histórico esse sítio.
    Maravilha essa visita a tão importante reduto de resistência, nessa que foi uma das páginas difíceis do que se constitui a historiografia negro-indígena brasileira, após a chegada dos colonizadores, e que se arrasta até hoje.
    Bela e notável região!… Histórica.
    Grande o esforço de não deixar morrer o que sobrou e o que foi reconstruído. A prova de que a Liberdade sempre esteve na cabeça e no coração dos que foram arrancados de suas terras e vidas, para servirem de escravos em terras alheias. Tristes passagens da História desse país, tão rico e tão devastado pela ganancia dos que aqui chegaram e chegam.
    E não me fale desses tais bandeirantes que cometeram barbaridades com essas populações e ainda hoje são cantados em prosa e verso pelos incautos e pouco conhecedores das suas ações. Uma iniquidade.
    Há se se fazer uma revisão histórica dessas figuras e do que fizeram.
    As técnicas mudaram, se sofisticaram, mudaram os invasores, mas a ganância é a mesma dos dias atuais. Negros e indígenas continuam sofrendo nesse pais moreno e miscigenado, bonito por natureza.
    Mas que bom ver que ainda se preservam muitas das raizes históricas das lutas pela liberdade e que o senhor nos mostra através dessa bela visita.
    Adoro comida com dendê e leite de coco. Essas ai parecem estar supimpas.
    Muito bonito o lugar.
    Gostei.
    Valeu viajante brasileiro. que venham mais belezas e História.

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