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Jalisco México

Conhecendo Guadalajara, Jalisco, México

(Este será um post longo.)

Guadalajara, Estado de Jalisco, México. Bem-vindos à terceira maior metrópole mexicana, depois da Cidade do México e de Monterrey (Nuevo León).

Guadalajara, de que se ouve falar no esporte, nas músicas, ou até não se sabe bem onde, é um importante ícone cultural mexicano. Capital do estado “noroestino” de Jalisco [lê-se “Ralisco”], é desta região que vêm os mariachis e muito da música ranchera mexicana, assim como também a famosa tequila.

Há toda uma cultura própria aqui, da mesma maneira que há nas fortes identidades regionais brasileiras em estados como Bahia, Minas Gerais ou Rio Grande do Sul. Como muitas dessas tradições vieram a ser associadas ao país como um todo, chega-se por vezes a dizer que “Jalisco es México“.

Estamos, portanto, num lugar de raiz.

Mariachis no
Os mariachis são aqueles famosos mexicanos de sombrero que, sozinhos ou em grupo, cantam seus infortúnios amorosos ao violão. Fazem parte de uma longa tradição ibero-americana de violas e canções populares sobre amores não-correspondidos, onde se insere também muito da música brasileira.
Tequila shots
A tequila, destilada exclusivamente do néctar do agave-azul (planta xerófita do mesmo gênero do sisal), é emblematicamente mexicana, mas típica essencialmente aqui deste Estado de Jalisco. Embora conhecida internacionalmente por suas doses acompanhadas de sal e limão, os mexicanos fazem mil coisas com ela.

Permitam-me falar melhor da tequila num dos próximos posts. Aguardem meu relato da visita à cidadezinha aqui em Jalisco chamada Tequila. Sim, há uma cidade com o nome da bebida — ou deveria eu dizer que a a bebida é que leva o nome da cidade? Darei os detalhes lá. Ele é um dos ditos pueblos mágicos de México por seu valor de conservação cultural.

Esta postagem é apenas a primeira de uma trilogia aqui em Jalisco.

Inicialmente, eu quero vos apresentar Guadalajara, sua capital, e alguns lugares interessantes daqui. Isso inclui muitas obras do tempo colonial, o magnífico Hospício Cabañas, (tombado pela UNESCO como Patrimônio Cultural da Humanidade — já explico por que), e outros lugares culturalmente importantes de Jalisco.

Como estamos no México, há sempre algo de típico a provar com a boca também. Nem só de tequila vivem os jalisciences.

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Sentindo-me praticamente Don El Rey, no trono diante do Instituto Cultural Cabañas em Guadalajara, México. Ele é mais conhecido como Hospício Cabañas, pois funcionou como tal.
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Uma palhinha para vocês da impressionante obra do muralista mexicano José Clemente Orozco no interior. Todo este lugar é reconhecido pela UNESCO como Patrimônio Mundial da Humanidade. Mais sobre ele, daqui a pouco.

Chegando a Guadalajara

Señoras y señores, damas y caballeros, eu cheguei até Guadalajara vindo de ônibus desde Guanajuato, outra joia de cidade histórica mexicana que, se você ainda não viu, eu recomendo ver. 

Há um aeroporto em Guadalajara, mas o mais habitual é visitá-la como parte de um itinerário mexicano que inclua várias cidades desta zona central do México. Aqui, eles se intitulam como “oeste” ou “noroeste” do país, mas a verdade é que apenas algumas horinhas de estrada o separam daqueles lugares de interesse que mostrei anteriormente no centro do país — Guanajuato, Querétaro, Bernal, San Miguel de Allende e outros.

De qualquer uma delas, assim como da Cidade do México e outras, você facilmente consegue um ônibus confortável até aqui na PrimeraPlus, ETN, ou alguma das outras empresas que fazem trajetos cá ao norte do país.

Guadalajara tem uma rodoviária com terminais diversos, para as diversas companhias, e quase parece um aeroporto. Inclusive, já estive em aeroportos menores que a rodoviária de Guadalajara.

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Os próprios ônibus mexicanos mais parecem aviões, com tela individual de entretenimento (filmes etc.) e bastante espaços para as pernas. O México tem possivelmente o transporte rodoviário mais confortável que há no mundo.
Jalisco em vermelho no mapa de estados mexicanos
Eis onde estamos. Jalisco é um dos 31 estados mexicanos (mais o Distrito Federal, onde fica a Cidade do México).
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Desembarcando em Guadalajara. Nas rodoviárias mexicanas, é comum que haja carregadores oferecendo serviço (pago). Aqui no México, a pessoa que tira as bagagens do porão do ônibus também às vezes pede gorjeta (influências gringas), mas aí fica a seu critério.
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O interior de um dos vários terminais na rodoviária de Guadalajara. Bastante confortável e limpa.

Quem me acompanha sabe que eu tenho ojeriza de táxi. (Não sou somente eu; um dos maiores portais internacionais com informações sobre transporte se é www.ihatetaxis.com por boa razão.) Hoje, claro, há aí os aplicativos vários para facilitar sua vida, e eles funcionam bem aqui no México. Cabify aqui é o mais comum. Porém, aos fãs de transporte público como eu, Guadalajara oferece a opção mais barata. 

Você pode caminhar por uma calçada entre os vários terminais da rodoviária, mas há também um ônibus branco gratuito que fica circulando e levando as pessoas. Ele é quem o leva à estação de metrô, bem pertinho.

Central de Autobuses é a estação deste lado do fim da Linha 3. Você compra um cartão de transporte por 30 pesos (aprox. R$ 8), e paga meros 10 pesos por cada passagem aqui em Guadalajara (R$ 2,50, mais barato até que a passagem de ônibus em Feira de Santana). “Diez pesitos“, como me instruiu o guarda recomendando-me o metrô para chegar ao centro.

O metrô é bom, novo, e neste ponto não vai muito cheio.

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O ônibus branco de serviço gratuito que o leva entre os terminais da rodoviária de Guadalajara e também à estação de metrô, chamada Central de Autobuses. Dali, basta atravessar a rua.
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A estação de metrô Central de Autobuses em Guadalajara. Funciona muito bem, só fique atento para subir na plataforma certa do sentido que você deseja; se subir na errada, terá que pagar outra passagem para sair e entrar pela outra. Aqui, como é fim de linha, não tem isso, mas fique atento nas demais estações.

Pelo centro de Guadalajara

Guadalajara é uma cidade extensa, ainda que não seja aquela —maravilhosa — loucura cosmopolita imensa que é a Cidade do México. Guadalajara tem um ambiente ligeiramente mais sossegado, como que de cidade grande do interior, se é que você me entende. 

Usando o metrô, você logo terá na cabeça em caráter permanente a frase gravada Mi tren – cuidalo! que o torniquete diz na velocidade da luz a cada vez que você passa com o cartão de transporte. (Há inclusive uma página de memes, pelo visto mantida pelo próprio governo, só sobre isso.)

Eu me dirigia até Olga Querida, o nome do singelo hostel onde eu me abrigaria. (Como não amar esses mexicanos?). Desembarquei do metrô numa verde avenida, prossegui por ruas retas que se cruzam. Eram relativamente estreitas, o plano da cidade na forma de grade com cruzamentos perpendiculares como é típico das cidades mexicanas.

Eu não demoraria a ter com Lucy, a senhora mexicana de meia idade que era senhora de tudo na pensão — mãe das outras funcionárias, e daquelas pessoas que parecem que nunca desligam. “Estoy aqui veinte y cuatro horas. Cualquier cosa que necesites, mismo en la noche, puede llamarme via WhatsApp“, dizia ela séria movendo as mãos. Tive a impressão de que Lucy nunca dorme.

Rua em Guadalajara com árvore e o céu do fim de tarde
Tardinha pacata na área semi-residencial onde me hospedei em Guadalajara. Há um comerciozinho aqui e ali, um tanto como nas cidades brasileiras.
Praça verde com igreja colonial em Guadalajara
Praça em Guadalajara chamada Jardín de San Francisco pela igreja colonial de 1692 ali.

Eu recomendo pelo menos 1 dia inteiro para percorrer os lugares de interesse aqui em Guadalajara, mas 2-3 dias deixam você mais à vontade, sobretudo se quiser ver as coisas num passo mais tranquilo. Há bastante, embora inicialmente não pareça.

Já no dia em que cheguei, que foi quase noite, eu ao escurecer fui visitar aquela que possivelmente é mais bela igreja da cidade, o Templo Expiatorio del Santíssimo Sacramento. (Os mexicanos amam estes nomes intensos e dramáticos.)

Ali, numa praça ampla diante da movimentada igreja, as pessoas se reuniam nos bancos à noitinha tal como em tanto da América Latina. Vendedores de comida de rua erguiam suas barracas, e senhoras (e senhores) de casas próximas iniciavam suas vendas de comidas caseiras. “Ali naquela casa tem uma senhora que vende tamales“, me indicava um. E, de fato, com dizeres simples, todos sabiam e formavam fila. 

Eu, francamente, adoro esta sociabilidade urbana meio “das antigas” aqui no México — um tanto como era no Brasil antes de quase todo mundo se mudar para condomínio fechado ou apartamento. Veja você, que ironia, que o tão mal-falado México ofereça a segurança que o Brasil não dá para você estar assim às praças do centro á noite.

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O Templo Expiatorio del Santíssimo Sacramento, ao entardecer em Guadalajara.
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Este templo é das maiores obras neogóticas que há no México. Iniciado em 1897, ele só foi terminado em 1972. Sua praça, à noite, fica assim plena de vendedores e moradores a circular.

Afora os vendedores de comidas, havia também migrantes pobres vindos de Chiapas ou outras partes do sul do México, no seu parlar indígena, a vender tecidos e outras coisas manuais.

Havia vendedores de rochas mágicas também, estes gente aqui de Guadalajara mesmo. Na Europa ou mesmo na Ásia, seria simplesmente pela raridade geológica ou beleza estética da pedra, mas como estamos na América Latina, as pessoas falam abertamente que esta é boa para o estômago, aquela contra o mau-olhado, etc. Eu mesmo comprei uma bela obsidiana.

Você pode sentar praça ali um tempo e se distrair umas boas horas, sobretudo nas noites de fim de semana. 

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A praça, que leva o curioso nome de Parque Expiatorio, durante o dia. Note você ali a “pinha”, como eles chamam, da planta com que se faz a tequila (o agave-azul). Ela é um símbolo cultural importante aqui.
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O interior da igreja neogótica à noite…
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… e ela durante o dia, com tudo iluminado. Não fica devendo às europeias.
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A luz do sol através dos vitrais coloridos.

Eu, no dia seguinte, seguiria rumo ao meio do centro histórico propriamente dito.

Guadalajara tem pouca cara de “cidadezinha histórica” à là época colonial. Ela é mais uma cidade moderna, mas que conserva edificações de época.

Segui por ruas onde pequenos arbustos de laranjeiras — ou alguma parente amarga — deixavam seus frutos pelo chão. Criavam uma certa ambiência. Ao que o calor da manhã já começava a subir junto com o sol, detive-me no caminho para comer o que se revelou um pastel mega-engordurado (que não se dignou a ser fotografado), que ajudei a descer com uma coca-cola, à maneira mexicana. O México é o país que mais bebe coca-cola no mundo — mais do que os EUA. 

Sentindo-me culpado por tão má alimentação esta manhã, fui buscar penitência com São Francisco naquela praça que vos mostrei acima — quase jurando abstinência desses males do consumo. Você não vai ficar chocado de saber que, como noutras partes do mundo ocidental, algumas das edificações antigas mais impressionantes são igrejas.

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As calçadas das ruas em Guadalajara assim são assim, exíguas, mas podem contar com cítricos por aí.
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A bela praça com a Igreja de São Francisco, de 1692.
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Esta igreja colonial começou a ser construída pelos franciscanos aqui em 1668, levando quase vinte e cinco anos para se completar. Note também as flores, onipresentes cá no México.
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Ao lado, na mesma praça, o chamado Templo de Nuestra Señora de Aranzazú, construído entre 1749 e 1752.
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Seu interior barroco.

Circular pelo México é, quase sempre, tomar um banho de História colonial latino-americana — com todos os seus sangues, feitos, e heranças.

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A Igreja de São Francisco em Guadalajara.

Daqui, eu em menos de 10 minutos cheguei ao centro do centro, passando por avenidas e calçadões que me lembraram os centros de algumas cidades do Brasil. O calor era semelhante, assim como o movimento de pessoas e os anúncios de venda.

Guadalajara tem, não uma, mas quatro praças principais, uma em cada lado da catedral. É impressionante, e todas elas são bonitas e bem mantidas. 

A área possui todo um complexo ao redor que inclui a Prefeitura de Guadalajara, o Palácio de Governo do Estado de Jalisco, e o Museu Regional de Guadalajara. Tudo na arquitetura colonial em pedra.

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Esta é a Plaza de Armas, uma das quatro que guarnecem a catedral, numa manhã de sol em Guadalajara.
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Note as demais edificações em estilo colonial. Aquela ali é a Prefeitura de Guadalajara, aqui chamada de Palácio Municipal.
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Olhem as arcadas, que simpatia.
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Uma bela cidade esta é.

Se quiser, você pode passar um tempo só aqui inspecionando em detalhes estas quatro praças, assim como a própria catedral — formalmente conhecida como Catedral da Assunção de Nossa Senhora. Sua construção na presente forma foi iniciada ainda em 1561 e terminada em 1618. Note que é mais antiga que a maioria das igrejas brasileiras.  

Fachada da Catedral de Guadalajara numa manhã de sol
A Catedral de Guadalajara, completada em 1618. Formalmente, chama-se Catedral da Assunção de Nossa Senhora.
Interior da catedral de Guadalajara
Seu interior.

Um pouco sobre o passado de Guadalajara

O início da construção desta catedral na década de 1560 coincide com o estabelecimento de Guadalajara nesta localidade como capital de província.

Vocês talvez saibam que não foi raro aos espanhóis, durante o período colonial nas Américas, tentar estabelecer tal cidade, depois mudar para ali porque se viu que a água não era boa, depois mudar outra vez por causa de um terremoto, e assim vai. Foi assim com Guatemala Antigua, por exemplo, e assim com Guadalajara, que só terminou sendo ficando com sua quarta fundação.

Para dividir as terras do que ficou conhecido como Nova Espanha nesta Mesoamérica (não incluía as posses espanholas na América do Sul), o que é hoje o México, a América Central, e parte do atual Estados Unidos foi dividido entre províncias ou “reinos”. (A coroa era uma só, mas lembre que, administrativamente, a própria Espanha seguiu dividida, por exemplo com o Reino de Castela e o Reino de Aragão continuando administrativamente distintos, por vezes com leis distintas, ainda que governados pelo mesmo monarca.)

Este lugar aqui ficou chamado Nova Galícia, em referência àquela região no extremo oeste da Espanha, com Guadalajara a sua capital.

Mapa antigo de Nueva Galicia Guadalajara
Olhe o quiprocó do que era a invasão espanhola tentando colonizar o território de vários grupos indígenas. Guadalajara está ali no meio da figura. No canto inferior esquerdo, você vê também a localização de Nova Galícia dentro do todo da Nova Espanha (que, a bem da verdade, ia bem mais ao norte que a atual fronteira mexicana, ao contrário do que o desenhista pôs).

Este território já era habitado há pelo menos 15 mil anos, e desde 7.000 a.C. já se praticava agricultura aqui. Em torno de 1325 no calendário cristão, esta região passou a ser dominada pelo Purépecha — mas os grupos eram e são realmente muitos e diversos, alguns dos quais tradicionalmente nômades, como os Chichimeca de que lhes falei em Querétaro.

Os espanhóis queriam, basicamente, expandir seu controle após conquistar o império asteca com a tomada de Tenochtitlán (atual Cidade do México) em 1521. 

Quem ficou a cargo foi o trucidador Nuño de Guzmán, nascido a 1490 na cidade de Guadalajara (Espanha). Sim, há uma Guadalajara na Espanha, embora poucos já tenham ouvido falar dela. Nuño era rival do famoso Hernan Cortés. Nem sempre dos damos conta, mas os índios sobravam no que era também uma disputa de egos e conquistas entre os comandantes espanhóis. Eu ponho aqui no original a descrição oferecida de Nuño pelo seu biógrafo,

“Crueldad en gran medida, ambición sin límites, refinada hipocresía, gran inmoralidad, ingratitud sin igual, y un odio fiero hacia Cortés.”

A fina flor da moralidade ibérica veio para cá, portanto. De tanto maltratar os índios e roubar os próprios outros espanhóis, Nuño foi preso pelo vice-rei e mandado algemado de volta à Espanha, onde morreria pobre anos depois.

Cristóbal de Oñate (1504-1567), que o acompanhou e viria a ser governador de Nova Galícia, todavia fundou esta cidade e a batizou de Guadalajara em sua homenagem. O curioso é que o nome originalmente não é propriamente espanhol, mas árabe: wādī al-ḥajārah, que quer dizer “vale de pedra”. Mostra o quanto os ibéricos, em verdade, intermediaram uma vinda de imputes árabes à América Latina.   

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Eu com o letreiro e a Catedral de Guadalajara ao fundo.

Em várias partes da cidade, você verá o brasão de armas de Guadalajara com dois leões e uma árvore no meio. O símbolo teria sido outorgado à cidade ainda em 1539 (após uma das suas primeiras fundações, que não vingaram) pela própria Sua Majestade, o rei Carlos V. 

Segundo ouvi da boca de uma guia local, a árvore significa fortaleza, enquanto que os dois leões simbolizam a perseverança e a honradez que, supostamente, acompanhavam a presença espanhola nestas terras. Perseverança, sem dúvida. Honradez, muito pouca ou quase nenhuma, observou-me a guia.

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Monumento com o brasão de armas de Guadalajara no calçadão chamado de Paseo del Hospicio, no centro da cidade.

Rumo ao Hospício

É hora de finalmente irmos ao hospício, este que a UNESCO reconhece como Patrimônio Mundial da Humanidade. Vocês entenderão.

Da catedral, o Paseo del Hospicio é o agradável calçadão que o leva até o Instituto Cultural Cabañas, mais conhecido aqui como Hospício Cabañas. 

O caminho até lá é agradabilíssimo e um dos pontos-altos do passeio aqui por Guadalajara. 

Eu terminei de dar a volta nas quatro praças que rodeiam a catedral, e tomei meu caminho rumo a ele.

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Uma das quatro praças em redor da catedral é esta a Plaza de la Liberación, com a forçosa figura de Miguel Hidalgo (1753-1811), um dos grandes líderes do movimento independentista mexicano em 1810. Falei mais sobre ele na visita a Guanajuato.
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Uma das outras praças é esta com a Rotunda dos Jalisciences Ilustres. Em toda a sua volta, figuras de homens e mulheres importantes deste estado.
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Dentre vários outros, uma estátua a José Clemente Orozco, artista cuja obra veremos daqui a pouco.
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O Paseo del Hospicio.

O Hospício Cabañas, ao qual eu me dirigia, data dos fins do século XVIII. A 1791, teve-se a ideia de se construir aqui uma santa casa de misericórdia — como tantas no Brasil — dedicada aos pobres, doentes, órfãos ou idosos desamparados. O nome provém do bispo José Cruz Ruiz Cabañas y Crespo, enviado desde a Espanha cá a Nova Galícia em 1796, e que veria sua inauguração nos princípios do século XIX.

O complexo acabou sendo um amplo palacete, todo térreo e com amplas vias para facilitar a circulação dos desamparados, com jardins, e onde também se instalou das primeiras oficinas de imprensa da Nova Espanha.

A cereja no bolo viria a ser obra do mestre muralista mexicano José Clemente Orozco, que nos anos 1930 pintou magníficas obras dentro da capela. É uma esplendorosa fusão de elementos culturais ameríndios e espanhóis, reconhece a UNESCO.

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Jardins no interior do Hospício Cabañas, que funcionou como tal até 1980. Hoje, formalmente ele é o Instituto Cultural Cabañas, um museu.
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No interior do belo conjunto arquitetônico que é o antigo Hospício Cabañas. Você circula por bastantes pátios, e há algumas salas de exibição de quadros mexicanos também.
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O chamariz principal é a capela do hospício, pintada por José Clemente Orozco nos anos 1930.

José Clemente Orozco (1883-1949) foi um muralista mexicano da mesma geração de Diego Rivera, mas algo distinto. Enquanto que Rivera compôs críticas sociais de cunho mais realista (suas obras principais você vê aqui), Orozco teve um estilo mais abstrato, seguindo um tanto a tradição de pintura ameríndia, com seus temas algo oníricos e significados nem sempre óbvios.

Quem gosta de arte será capaz de passar um bom tempo aqui nesta capela.

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O teto da capela do Hospício Cabañas, com sua obra mais famosa sob a abóbada: O Homem de Fogo ou O Homem em Chamas.

Orozco pintou sobre superfícies curvas, e utilizou da chamada perspectiva poliangular. Isso significa que produz efeitos que seriam impossíveis de realizar sobre uma superfície plana, e você tem a impressão de a coisa mudar um pouco a depender de onde você olhe. 

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O Homem de Fogo (ou Homem em Chamas), sob a abóbada da capela, tem várias interpretações. Uma delas é que, na ignorância, maus atos e injustiças do dia dia, o ser humano consome a si mesmo.
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Uma outra pintura crítica mostra a roda, o mecânico, triunfando ao enterrar o humano sob si. No triunfar do industrial, o cultural padece.
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Não é fácil interpretar Orozco, que muitas vezes viaja com seus símbolos e abstrações, mas é fascinante.

Terminando em Zapopan

Se você não saiu doido do Hospício Cabañas, eu espero que tenha saído maravilhado. A criatividade e a expressão artística impressionam.

Em verdade, toda a área ao redor desse atual museu é bonita. Só me preveniram que eu tomasse cuidado na região de San Juan de Dios, onde fica o Mercado Libertad aqui no centro, e que me disseram não ser lá muito segura. 

De fato, no longo e belo Paseo del Hospicio, passando pelas belas edificações e obras, você é a todo momento interpelado por pedintes mostrando a pobreza e desigualdade que ainda há aqui — mazelas latino-americanas de origem.

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Fonte diante do neoclássico Teatro Degollado. (O nome advém do governador da época, José Santos Degollado, que pôs a primeira pedra em 1855.)
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Prédio da Universidade de Guadalajara no centro.

Deixando esta singela área entre o Hospício Cabañas e a Catedral de Guadalajara, eu agora me dirigia a um dos lugares mais sacros e bem quistos desta cidade: à Basílica de Nossa Senhora de Zapopan, um santuário franciscano quase ao fim de uma das linhas de metrô. 

Esse lugar tem sua origem já em 1541 com os missionários franciscanos que aqui vieram na esteira das conquistas. Esses freis foram dos primeiros críticos ao tratamento cruel que os nativos recebiam, embora por vezes também participassem da destruição de sua cultura.

O que antes era um sítio fora da cidade você hoje alcança com a Linha 3 do metrô indo na direção norte até uma parada chamada Zapopan (note que os mexicanos pronunciam “Zapópan” e não “Zapopã”). Você desembarca, e logo percebe que é um lugar de romaria, com um calçadão enfeitado circundado de restaurantes desde a estação de metrô até a basílica.

Foi onde eu, além de ver a basílica histórica, provei do tejuíno.

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A bela estação em Zapopan. (Reflita comigo de novo: a passagem neste metrô custa o equivalente R$ 2,50.)
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Os belos arcos de entrada, com mais de 20m de altura, abrem alas para o passeio até a basílica.
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O trecho enfeitado que vai desde a estação de metrô à Basílica de Zapopan. (E, você vê ali, Tejuino com nieve de limón, el original de Zapopan.)

Zapopan é praticamente outra cidade, um povoado colonial que de fato virou um município administrativamente separado, ainda que parte física de Guadalajara — e que eu preferi incluir já nesta mesma postagem. 

Afora provar do típico tejuino, a bela basílica colonial realmente é o grande atrativo aqui.

Tejuino é uma bebida pré-hispânica feita com milho ligeiramente fermentado, açúcar mascavo, limão, e uma pitada de sal. (Como você vê, esta coisa de adicionar sal e limão a tudo está longe de ser exclusividade da tequila — é hábito mexicano.) Se você deixar, eles também adicionarão pimenta moída à bebida.

O gosto? Tem sabor de suco de tamarindo, só que ligeiramente mais grossinho — acho que pela farinha de milho que põem. Não dá pra sentir álcool absolutamente nenhum da fermentação. É, praticamente, um suco refrescante, que eles aqui servem à rua e, geralmente, com uma bola de sorvete de limão dentro. (É claro que fica bom.)

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Mais novo fã do tejuino, típico aqui de Jalisco.
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Quem não sabe desta verdade? Coisas que a gente encontra aqui em Zapopan.
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A Basílica de Nossa Senhora de Zapopan, edificada assim a partir de 1689.
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O interior da linda basílica franciscana.
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Minhas voltas por Zapopan.

Guadalajara tem assim muitos recantos. Mostrei alguns, e na postagem seguinte estas andanças por Jalisco continuam.     

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

One Reply to “Conhecendo Guadalajara, Jalisco, México

  1. Oh, como é grande organizada e bonita, Guadalajara!… a histórica e sugestiva cidade desse também mui conhecido entre nós, brasileiros, o estado de Jalisco.
    Que beleza!… Ampla, cheia de belas e arborizadas praças, bem arrumada, limpa, com lindo acervo histórico em meio à modernidade. Com lugares gostosos de sentar e apreciar o movimento. Bela cidade.
    Belissimas essas arborizadas e amplas praças, bem cuidadas, com sua arquitetura fantástica de época, belos templos, prédios históricos, ricos em traços das vidas há muito vividas e dos seus legados. Fantástica a cidade. Muito bem conservada na sua parte histórico cultural.
    Que charme esse metrô. Moderno. E que belas ruas e ruelas.
    Amei esses templos. Belissimos interiores e rica arquitetura. Lindos.
    Seja no futebol, seja nas músicas e músicos populares, os brasileiros estão muito familiarizados tanto com Jalisco como com sua capital, Guadalajara.
    Antes do golpe militar de 1964 a juventude brasileira era muito achegada aos latinos americanos, seus vizinhos.
    Para aqui chegavam as músicas mexicanas, cubanas, argentinas e outras, muito apreciadas pela juventude dos anos de ouro do Brasil, final da década de 1950 e toda a década de 1960.
    Eram cantados e dançados os tangos argentinos, a rumba cubana, os samba-canções e canções tradicionais mexicanas, como as de Los Mariachis.
    Vivia-se intensamente essas culturas às quais se misturava a cultura musical brasileira da MPB, dos sambas, da bossa nova e o nascente rock n Roll, tanto dos Eua quanto da Inglaterra.
    Com o golpe militar de 1964 , houve uma invasão da cultura estadunidense, enquanto a cultura latino-americana foi alijada. O Brasil afastou-se culturalmente dos seus irmãos latinos o que foi uma grande perda para a interaçao latino-americana.
    Pouco hoje se sabe das belezas e riquezas dessa bela Latino-américa.
    Daí, meu jovem amigo viajante brasileiro, a importância imensa dessas publicações tão belas que o senhor faz, e posta, no sentido de resgatar essas riquezas culturais , muitas centenárias, históricas, artísticas, dessa belíssima civilização de que se compõe a América Latina. Joia , patrimônio imorredouro dos povos da Terra.
    E que interessante e mimosa esse cidadezinha. Fofa. Parece que ficou nos séculos atrás. muito bonitinha. E bem movimentada.
    Linda postagem. EitaMéxico bonito. Viva a cultura de latino-america.

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