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Jalisco México

Tlaquepaque, bairro colonial e histórico em Guadalajara

Bem-vindos a este povoamento que já se chamou Tlaquepaque, depois virou San Pedro, daí retornou a ser Tlaquepaque, e hoje oficialmente é San Pedro Tlaquepaque. Nada como a conciliação.

Trata-se de uma antiga cidade deste estado mexicano de Jalisco (Nova Galícia nos tempos de colônia) que com o tempo acabou sendo absorvida pela capital estadual, e hoje é praticamente um bairro de Guadalajara. Do ponto de vista turístico, Tlaquepaque está para Guadalajara um tanto como Coyoacán está para a Cidade do México — um lugar com ar gostoso de cidadezinha do interior, praça principal e igrejinha, mas que se acontece de alcançar com o metrô.

Literalmente, Tlaquepaque significa “lugar sobre colinas de terra barrenta“, mas muito se passou por aqui desde que os autóctones lhe deram esse nome.

Tome o metrô Linha 3 comigo, e vamos conhecer um pouco deste recanto histórico de Guadalajara.

San Pedro Tlaquepaque ao entardecer
O belo Santuario de La Soledad ao entardecer em Tlaquepaque. (Eu falei em “igrejinhas”, mas elas são bem grandes.)

Breve origem de San Pedro Tlaquepaque – com ilustrações artísticas

A origem destas terras está no reino de uma histórica ou lendária mulher: Cihualpilli Tzapotzinco, que dizem ter governado aqui, antes da chegada dos espanhóis, um grupo de povoamentos a sul do centro da atual Guadalajara. Incluía Tlaquepaque, com seus casebres nas tais colinas de terra barrenta, assim como também Tonalá, outro destes povoados históricos tornados bairros hoje em dia.

Em verdade, ainda antes da chegada espanhola, os índios daqui estavam em pé de guerra. (Nada se compara ao nível de extermínio e destruição cultural trazidos pelos europeus, mas tampouco imaginem as Américas como um Éden pré-colombino).

Deu-se nestas terras, de 1480 a 1510, a chamada Guerra do Salitre, quando o imperador dos Purépecha — mais a sul — tomando conhecimento das minas de sal descobertas aqui, decidiu invadir esta região. 

Plaza Cihuapilli Tonala 02
Estátua em honra a Cihualpilli Tzapotzinco, mulher que teria governado estas terras antes da chegada dos espanhóis. (Foto de Alejandro Linares Garcia, na praça de Tonalá.)

Os distintos povos daqui se uniram e rechaçaram os Purépecha, criando todavia um estigma de inimizade para com eles que os espanhóis saberiam explorar muito bem.

Em verdade, eu fico a imaginar que, por muito tempo, os indígenas não tinham dimensão da ameaça europeia, e quiçá os viam como instrumentos úteis para os livrar desses impérios ameaçadores como os Purépecha e, mais a sul no México, os astecas.

Viria nos anos 1530 o fulano chamado Nuño de Guzmán, de quem lhes falei no post anterior, o principal conquistador espanhol destas terras.

Com a chegada subsequente dos franciscanos, já a 1548 se fez aqui uma igreja e se batizou o povoado de San Pedro. A Igreja de São Pedro segue aqui, a atual edificação edificada entre 1670 e 1813 em substituição à primeira.

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A colonial e franciscana Igreja de São Pedro (Templo de San Pedro), iluminada à noite.

Daí temos a típica mesclagem da História mexicana, entre espanhóis e indígenas vários. Tlaquepaque não seria distinta, e criou-se aqui esta mescla cultural com muitos aspectos latino-americanos gerais e alguns particularmente mexicanos (pois, afinal, as culturas indígenas não eram todas iguais pelas Américas afora).

Um lugar ilustrativo para ver isso aqui em Tlaquepaque é o Centro Cultural El Refugio e, anexo a ele, o Museu Pantaleon Panduro do Prêmio Nacional de Cerâmica. Entrada franca, e satisfação garantida. Ilustra muito das origens e raízes de Tlaquepaque e do México em geral. 

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Trabalho em cerâmica do que seria uma procissão rumo à igreja — o Santuário La Soledad, o maior aqui de Tlaquepaque.
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Presépio em cerâmica.
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Note esta versão mexicana campesina da natividade, com direito a tortilhas de milho e tudo o mais. “Nuestras raíces.”

Há estes e há artes mais elaboradas também, refletindo o misto ibérico e indígena deste lugar. (O site oficial é este, caso queira informações sobre horários etc.)

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A figura típica da Caveira Catrina aqui numa cerâmica impressionante. (Eu tratei mais do Dia dos Mortos e suas figuras típicas no México neste post.)
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Um dos impressionantes e abstratos murais mexicanos. A interpretação é livre — e sempre parte do exercício.
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Festa de São Pedro em Tlaquepaque. Coisa em comum de tradição por toda a América Latina — embora os mexicanos a preservem melhor que nós brasileiros. Note os vendedores de comidas típicas e toda a festa popular no coreto da praça.

São Pedro, como você há de deduzir, segue sendo bastante celebrado aqui — como parte da temporada de festas juninas tradicional por todo o mundo português e espanhol.

Quanto à mudança de nome, o que houve foi, no princípio do século XX, um esforço de resgate das identidades indígenas que — sem sucesso — a Igreja e a sociedade colonial espanhola tentaram apagar. Revoltado e na esteira da Revolução Mexicana (1910-1920), o então governador de Jalisco baixou um decreto em 1917 readotando o nome Tlaquepaque e, de quebra, proibindo no estado inteiro que se dessem às praças, ruas etc. nomes de santos ou de “personas vivientes, de animales u otras designaciones frívolas“. 

Foi somente em 2010 que, em honra ao seu percurso histórico e mais de 300 anos como San Pedro, o nome passou de Tlaquepaque para San Pedro Tlaquepaque. Venhamos a ela.

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Praça em Tlaquepaque, com sua arquitetura colonial.

Passando a tardinha em Tlaquepaque

Eu recomendo a você que venha a Tlaquepaque no começo ou meado da tarde, e termine o dia ali — curtindo assim todo o belo entardecer e, não menos agradável, todo o ambiente de “tardinha” que as praças mexicanas oferecem.

Eu costumo dizer (e já confirmei isso com pessoas que viveram a época) que as praças mexicanas são ainda um tanto como eram muitas praças brasileiras de 1960. As famílias a passear tranquilas, os vendedores de quitutes típicos… Um ambiente social público e pacato, acessível e aconchegante, de antes de as praças brasileiras virarem ponto de tráfico, ponto de ônibus, e de as pessoas ficarem presas em casa nesse horário assistindo novela ou em algum shopping.

Tomei a Linha 3 do metrô de Guadalajara até a estação Revolución, de onde você ainda precisa caminhar uns 15-20 minutos por uma zona residencial (sem muito sal) até chegar propriamente ao que é o centro simpático da Tlaquepaque histórica.

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A área residencial de bairro por onde você passa entre o metrô Revolución e Tlaquepaque é simples assim. Em 15-20 minutos você caminha da estação até o centrinho histórico do que era o povoado independente, hoje agregado a Guadalajara.
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As coisas ganham ar mais pitoresco quando adentra Tlaquepaque propriamente dita. Há harmônicas praças e calçadas.

Tlaquepaque se organiza em torno de duas igrejas principais (a de São Pedro, que vos mostrei acima, e a La Soledad, que vos mostrarei abaixo), além de duas praças que se conectam nas quinas: o agradável Jardín Hidalgo, com canteiros e assentos, e a Plaza Parián, com a prefeitura. 

Tudo faz sentir-se como se estivesse numa cidadezinha do interior de antigamente, embora hoje isto seja — física ainda que não administrativamente — parte de Guadalajara.

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Miguel Hidalgo (1753-1811), o homenageado nesta praça, foi o primeiro dos grandes líderes independentistas mexicanos — aqui retratado no seu grito de protesto contra a submissão à Espanha e a escravidão (amplamente dos índios como mão-de-obra). Era sacerdote, foi excomungado por isso, e decapitado pelas autoridades coloniais em 1811. O México obteria sua independência a 1821, com outros líderes.
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O ambiente de cidadezinha do interior.
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O simpático Jardín Hidalgo, em Tlaquepaque.
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Reencontrando-me com coisas da minha infância aqui no México: o vendedor de balões e até algodão-doce (!).

Eu lhes falei que mostraria a outra igreja, o Santuário de Nossa Senhora de la Soledad. Ele foi iniciado no século XVIII e completado no século XIX; é, portanto,  mais recente que a Igreja de São Pedro fundada aqui pelos franciscanos, mas ainda assim um marco importante — onde as pessoas vêm se casar em Tlaquepaque.

Santuário de Nossa Senhora de la Soledad em Tlaquepaque
O Santuário de Nossa Senhora de la Soledad em Tlaquepaque, cênico com o entardecer e as palmeiras.
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A fronte do belo santuário colonial e a nuvem dourada por detrás. (As tardinhas aqui são agradabilíssimas.)

Eu por ali circulei, sentei-me para comer um milho-verde comprado na rua (que eles acharam estranho eu comer puro, sem pó de pimenta nem nada assim por cima), e vi as dezenas de barracas, entre comidas, artesanias, e produtos gerais. Embora seja um lugar turisticamente atraente, acho que mais de 90% das pessoas me pareceram mexicanas — sobretudo aqui da própria Tlaquepaque, vindo passear com as crianças ao fim do dia.

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É servido alguma coisa na praça?

Do Jardim Hidalgo para a Praça Parián, você logo se depara com um centro comercial que fica bem no meio desta última. Em arquitetura colonial (de 1878), ele é um conjunto de lanchonetes e restaurantes, com barraquinhas em redor. 

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El Parián é esse belo centro comercial no meio da praça de mesmo nome, com múltiplos restaurantes e lanchonetes de comida mexicana aqui em Tlaquepaque.
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Com o cair da noite, a colonial Prefeitura de Tlaquepaque iluminada na Plaza Parián. Este segue sendo um município administrativamente separado de Guadalajara, embora engolido na megalópole que esta última se tornou.

Ao que eu me sentei para chupar um picolé — pois as paletas mexicanas estão por toda parte, e sempre precisam ser provadas —, uma curiosidade foi ver que um casamento havia se iniciado na Igreja La Soledad, e bem-vestidos convidados que chegaram atrasados estavam sendo impedidos de entrar.

Imagina se essa moda pega no Brasil? Lá estavam as moças, com seus longos vestidos, e também rapazes em traje de gala, alguns ainda desembarcando de carros estilo limusine (provavelmente alugado), e “barrados no baile” a portões fechados, com o segurança lá dentro a mexer a cabecinha como que a dizer “o patrão mandou que ninguém entrasse depois de começar”.

Depois estariam, comicamente, alguns deles ultra-vestidos a comprar espetinho na praça no meio do povo.

Adooooro esses surrealismos mexicanos.

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Barrados no baile. Os convidados, vestidos a caráter, porém impedidos de entrar na igreja porque chegaram atrasados para o casamento.

Eu chupava meu picolé sentando no banco ali defronte enquanto assistia ao “causo”. Perdoem a minha pouca empatia com quem chega atrasado. 

Logo eu retornaria ao centro de Guadalajara, a me preparar para, afinal, visitar a cidade chamada Tequila no interior deste estado de Jalisco no dia seguinte.

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Vida social alegre, em espaços públicos dignos. Amo.
Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

One Reply to “Tlaquepaque, bairro colonial e histórico em Guadalajara

  1. Ohh que linda a cidadezinha. Parece mesmo uma cidadezinha interiorana.
    Simples, bonita e singela a igrejinha dos franciscanos.
    Belissimo e portentoso o o templo principal, onde se realizava o casamento.
    Espetacular a foto do belo templo ao entardecer com a nuvem dourada pelos raios do sol poente.
    Linda, limpa , arborizada e arrumadinha a pracinha com banquinhos, jardim, o belo coreto, o povo a passear com suas famílias e crianças. E pensar que se diz ser o México perigoso.
    Verdade, meu jovem amigo viajante; já houve tempo em que aqui no Brasil, pelo menos no NE, “as praças eram do povo, como o céu é do condor”, como dizia o sempre lembrado vate baiano, Antonio Frederico de Castro Alves.
    Hoje o que se vê infelizmente é isso que o senhor disse. Veja ai o que aconteceu com o congolês em um kiosk na orla do Rio de Janeiro. Muito triste.
    Achei muito engraçado o caso dos “barrados no casamento” e depois encontrados nas barracas haha ô coitados haha. Desculpe-me, mas também tenho pouca paciência para atrasados. Conheço uma figura que bateu um recorde: chegou atrasada quase 3 h para o próprio casamento. hahah pode? se vigorasse esse regime ai , nem casar ela iria.
    Amei essa cidadezinha. Achei fofa, bem organizada e me encantei com aquele museu de cerâmica. Belíssimo.
    Lindas, a postagem e a cidadezinha
    Valeu. adorei.

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