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Sri Lanka

Conhecendo Colombo, a maior cidade do Sri Lanka

(Este será um post longo.)

Colombo, cidade de 750 mil ou 5,6 milhões de pessoas, a depender do que você considerar. É uma megalópole, como as principais cidades do Brasil. Não é exatamente a capital do Sri Lanka, mas é a sua capital econômica e a principal cidade em termos históricos. É também por onde quase todos os estrangeiros entram no país.

No post anterior, eu já narrei como obtive o visto para entrar no Sri Lanka (super simples) e os detalhes da chegada. Agora, é hora de começar aquele gostoso bate-perna para descobrir o que este país realmente tem.

Muitos turistas evitam Colombo: o Aeroporto Internacional Bandaranaike (CMB), o principal do país, fica a 35 Km de estrada do centro da cidade, e é perfeitamente possível arranjar traslado direto dele para zonas mais interiores do país, como Kandy ou Negombo. No entanto, eu achei conveniente iniciar por esta metrópole — e não me arrependi.

Colombo pode não ser uma cidade de grande vocação turística (não é), mas tem os seus pontos de interesse, e não deixa de ser uma forma cosmopolita de você começar a se inteirar da cultura deste país. Foi aqui que eu comecei a descobrir das suas comidas, da sua religião predominantemente budista (mas não apenas), e do jeito de ser das pessoas. E da muvuca também.

Aceitam o convite?

Vista sobre Colombo, Sri Lanka
Colombo é o centro econômico do Sri Lanka. A cidade propriamente dita tem 750 mil pessoas, mas sua zona metropolitana abriga 5,6 milhões dos 22 milhões de habitantes do país.

A capital do Sri Lanka é uma das cidades-satélite de Colombo: Sri Jayawardenepura Kotte. É um pouco como se a capital do Brasil fosse Guarulhos.

Entretanto, o calor úmido lembra dá a sensação de Nordeste do Brasil. Eu às vezes olhava para aqueles prédios na foto acima, com o mar azul ao fundo, e achava que estava em Salvador. O clima tropical é muito parecido, e em certa medida algumas áreas da cidade também.

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Um outdoor, no caminho para o meu hotel, pregando união e harmonia entre srilanqueses das mais variadas fés: cristã, hindu, budista ou muçulmana.

Meu primeiro dia: Contatos imediatos de 3º grau

Eu vim do aeroporto pela manhã com um motorista do hotel. Achei conveniente. Os preços aqui são relativamente em conta, e se você quiser pode até esbanjar um pouco.

Por USD 45 por pessoa, você reserva quarto em hotel 4 estrelas aqui em Colombo e se sente o rei da cocada preta por uns dias. O melhor é hospedar-se perto da orla na zona de Kollupitiya, aonde eu me dirigia. Você ali tem boas opções, e encontrará avenidas comerciais (com alguns shoppings com praça de alimentação etc.) de aspecto bastante familiar a um brasileiro. 

Embora fosse cerca de 8h da manhã e minha noite tivesse sido no avião, eu não sou do tipo que dorme durante o dia: prefiro já começar começando, e deixo para dormir quando o gás acaba. Fazia sol neste dia na tropical Colombo, e amanhecia algo fresquinho como nas cidades brasileiras.

O tempo no lado de fora do carro ia acalorando-se e me lembrava o Brasil — sobretudo o Brasil costeiro do Rio de Janeiro para cima. A cidade de Colombo fica numa latitude (7°N) equivalente a João Pessoa, na Paraíba (7°S). Hemisférios opostos, mas o mesmo calor tropical úmido, e o mar logo ali a de vez em quando soprar sua brisa.

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Rua nas vizinhanças da orla de Colombo, com o mar lá no fim, depois da Pizza Hut. Parece o Brasil.
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Colombo é uma cidade aprazível.

As longas distâncias dentro da cidade limitam sua caminhada a certos bairros, como os da orla, mas veja que — embora haja muvuca, e eu vou mostrar — Colombo é uma cidade com seu lado mais arrumado também.

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Numa destas praças de alimentação de shopping aqui em Colombo, com o meu chapa Wasantha. Mais sobre ele depois (não era o motorista que me acompanhava neste primeiro dia).
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O Sri Lanka é barato. Rs 200 (rúpias) são aproximadamente 1 dólar, então veja que você almoça comida de verdade por dois dólares. Mais detalhes sobre a comida do Sri Lanka num post próximo.
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A Lotus Tower, um dos ícones aqui de Colombo, que eu vi assim que entramos na cidade vindos do aeroporto.

O Sri Lanka tem uma cultura em que os homens são mais conversadores que as mulheres — tomem nota. Apenas o inglês é o limite, o seu ou o dele. Como sempre, começam aqui com o “Where from??“. Meu motorista, no caminho, perguntou de onde eu era, e na reação, ficou óbvio que ele não sabia onde era o Brasil — ou o que era Brasil, se uma cidade, um país, ou uma montanha de onde eu venho.

Em todas as minhas viagens, este Sul da Ásia (mais especificamente a Índia e, agora, o Sri Lanka) é a única região do mundo onde digo ser do Brasil e as pessoas não sabem do que eu estou falando. (Ainda me lembro do indiano que ficou contrariado — e incrédulo — quando eu lhe disse que, de quebra, esse tal de Brasil acontecia até de ser maior que a própria Índia. Ele não creu.)

Chegamos ao hotel, e era um daqueles prédios enormes de mais de 15 andares, com elevadores rápidos que fazem você se preocupar se aquilo não afeta a circulação do sangue.

Moças cingalesas de um moreno-claro, voz mansa e cabelos compridos belamente amarrados atenderam-nos convidando-nos a que tomássemos do café da manhã do hotel, embora a nossa diária só começasse mais tarde. Pelo equivalente a 6 dólares, tínhamos um buffet abundante. Longa vida a estes cafés da manhã de hotel do Sul e Sudeste da Ásia!

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Os cafés da manhã nos lugares mais chiques aqui do Sul e Sudeste da Ásia são assim. Buffet no Sri Lanka.
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Frutinha nova e prato cheio no meu primeiro café da manhã de hotel aqui. Eu depois mostrarei em detalhes as comidas do Sri Lanka.
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Dá para se hospedar bem aqui sem pagar um rim. Note Colombo lá à noite, embora eu vos advirta que Colombo não é exatamente uma cidade de grande vida noturna: esta se dá muito nos hotéis, e a ação nas ruas é durante o dia.
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As pessoas aqui têm este biotipo, tons de pele que vão do moreno-claro ao praticamente negro e cabelos que podem ser mais lisos ou mais cacheados.

Há dois grupos étnicos principais aqui, cada qual com a sua língua, alfabeto distinto, e religião predominante: os cingaleses (budistas) e os tâmil (hindus). Comunicam-se uns com os outros em inglês. Os tâmil tendem a ser mais escuros. Há minorias cristãs ou muçulmanas em ambos os grupos também. É um país de rica e variada História cultural.

Como brasileiro, eu era quase um alienígena neste universo.   

No hotel, ao bater um breve papo com a gordinha srilanquesa cor de jambo e uniformizada que me fez o primeiro egg hopper da vida (mais sobre eles em breve), ela quietamente, num inglês meio tímido, me perguntou de onde eu era. “Brasil”, e a mesma reação facial de “não sei nem o que é isso”. E olha que eu tento ajustar a pronúncia para facilitar a vida de quem me ouve.

Desta vez, abri um aplicativo de mapas no celular, identifiquei o Sri Lanka — ao que ela respondeu “yes” — e apontei então o Brasil, lá na PQP do outro lado do planeta. Ela arregalou os olhos e não disse nada, como se aquilo lá do outro lado do mapa fosse uma terra incognita à là Planeta dos Macacos de onde nada se sabe, nem sequer se há vida inteligente ali.

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Eu fico impressionado como lugares tão semelhantes — e inclusive com Histórias compartilhadas — conhecem-se tão pouco. Não tenho dúvida de que o reverso é quase igual: se eu perguntar no Brasil à pessoa que faz omelete ou tapioca no hotel, provavelmente não saberá exatamente o que é “Sri Lanka”, e poucos na rua saberiam apontá-lo no mapa.

Nem parece que ambos somos países tropicais, abençoados por Deus e bonitos por natureza, que integravam a mesma rede de colônias portuguesas ao longo de séculos.

O filme Contatos Imediatos de Terceiro Grau (1977), de Spielberg, popularizou a classificação do ufólogo Joseph Hynek para contatos com alienígenas. O primeiro contato são os discos voadores; o segundo, efeitos práticos, como aqueles misteriosos círculos nas plantações; e o terceiro grau é exatamente o contato direto — o que eu obtinha aqui agora, para descobrir que os srilanqueses estão muito longe de serem tão estranhos a nós.

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Há o lado que lembra o Brasil pobre também.

A nossa História compartilhada com o Sri Lanka

Permitam-me um breve pano de fundo para situar tudo isto. O Sri Lanka tem uma História milenar, da qual eu contarei em diversas paragens. Por ora, gostaria apenas pontuar os desdobramentos de 1505, quando os primeiros portugueses chegam aqui. Não posso dizer que tenham sido os primeiros europeus, pois supostamente Marco Polo veio cá no século XIII.

Colombo, acredita-se, vem do nome kolamba, que na dominante língua cingalesa aqui significa “porto”. (Há outras versões, mas esta talvez seja a mais parcimoniosa.) Há um porto natural nesta desembocadura do rio Kelani Ganga. Ouvindo kolamba, a tripulação de Dom Lourenço de Almeida que por aqui passava em 1505 achou parecido com “Colombo”, do já famoso navegador Cristóvão Colombo, e o nome pegou.

Quem diz isso não sou eu, mas o britânico Robert Knox, que ficou preso aqui 19 anos no século XVII e, ao fugir, escreveu um livro. Publicou, em 1681, Uma Relação Histórica da Ilha Ceilão junto Com algo Relativo a Muitas Passagens Notáveis da minha vida que Aconteceram desde a minha Soltura do Cativeiro. (Os livros naquele tempo tinham assim títulos grandes.)

Por quase 150 anos, enquanto também governava o Brasil, Portugal foi a potência europeia suprema nestas partes da Ásia. Nunca tomou a ilha do Sri Lanka inteira, mas dominou seu litoral ocidental com entrepostos comerciais e fortes, da mesma maneira como fazia à época na Índia e pela costa da África.

Mapa Sri Lanka na asia
Ali estamos, a quem porventura tenha se perdido.
739px De jure political map of Sri Lanka early 17th century
Na altura do início do século XVII, toda esta região vermelha na costa ocidental era controlada pelos portugueses. Notem Colombo ali. O miolo do Sri Lanka tem elevações de mais de 1.000m; lá era mais difícil de conquistar, e os portugueses — focados na navegação e no comércio — se interessavam menos em adentrar.
Portugueses no Sri Lanka
Ilustração do que teria sido o (violento) estabelecimento dos portugueses no Sri Lanka, no século XVI.

Canela, canela, canela

Esta ilha que os portugueses chamaram de Ceilão era apenas mais um entreposto na sua vasta rede e no seu comércio global de especiarias, mas não era um entreposto qualquer.

Daqui vem o tipo mais fino de canela. Há mais de cinco espécies de canela (Cinnamomum spp.) no mundo, com breves diferenças de sabor, e a mais bem-quista de todas é a nativa aqui do Sri Lanka. Ela por isso recebe o nome de Cinnamomum verum — a “verdadeira” canela. (Chama-se popularmente de “canela-da-china” porque o maior volume comercializado é da espécie de lá, a Cinnamomum cassia. As demais espécies são todas aqui da Ásia.)

Cinnamomum Verum vs Cinnamomum Burmannii
Cinnamomum verum (a da esquerda), considerada a verdadeira canela, é nativa aqui do Sri Lanka.

Os srilanqueses têm um orgulho danado disso, então não se surpreenda se vir muitas coisas com o nome cinnamon (“canela” em inglês) país afora.

Foi em grande parte a canela do Sri Lanka que fixou os portugueses aqui um tempo.

Ela já era conhecida na Europa desde a Antiguidade — os romanos antigos tinham lendas a seu respeito, sobre como chegava do oriente à Península Arábica em embarcações sem remo, movidas apenas pelo vento. O fluxo na Idade Média foi pelos árabes que a levavam à África (leia meu post sobre Zanzibar se o tema lhe interessa), e de Alexandria, no Egito, os venezianos enriqueciam levando-a à Europa. Os portugueses é que resolveram dar um baile nos venezianos e vir buscar tais especiarias sem intermediários.

Criaram a chamada “carreira da Índia“, a rota de navegação na qual o Brasil era uma mera paragem — onde se extraía madeira e plantava açúcar, mas sem nem de longe receber tanta atenção de Portugal nos idos de 1500-1650 quanto as Índias.

Map of Portuguese Carreira da India
Olhem como funcionavam as navegações globais portuguesas, com os sistemas de ventos, na rota entre Portugal e o Oriente — passando pelo Brasil — que ficou conhecida como Carreira da Índia.

Hoje, a gente no Brasil se interpreta como mal tendo quaisquer relações com o Sul da Ásia, mas nem sempre foi assim.

Cabral, depois de “descobrir o Brasil”, não voltou a Portugal: seguiu para o Oriente. Partiu já a 2 ou 3 de maio, nem duas semanas após o 22 de abril, e veio meter-se cá nas Índias ainda em 1500. Mais tarde, capitães-donatários como Duarte Coelho (fundador de Olinda, Capitania de Pernambuco) instalaram-se no Brasil após anos de experiência aqui no Sul da Ásia. Havia um intercâmbio muito maior do que há hoje.

Eu deixarei para falar mais dessa parte histórica quando visitar Galle, a cidade colonial erigida pelos portugueses (e depois tomada pelos holandeses) aqui.

Por ora, relembro apenas o mote Divide et impera dos antigos romanos. Ele segue aplicável hoje. Os poderes imperiais europeus faziam a ponte entre suas terras conquistadas, e os países ricos hoje continuam a surfar na nossa ignorância uns sobre os outros. É talvez por isso que eu goste tanto de vir ver e conhecer de perto estes outros recantos do Terceiro Mundo, com quem já tivemos uma História compartilhada e com quem temos, eu descobriria, coisas em comum. Outras são diferentes, mas diversidade é beleza.

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Elefante de metal em Colombo, Sri Lanka. Numa rua que bem que poderia ser no Brasil.
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O antigo edifício do Parlamento, completado em 1930, ainda antes da Independência.

Atrações em Colombo: umas voltas

Os últimos europeus a colonizar o Sri Lanka foram os britânicos, de quem os srilanqueses obtiveram a independência em 1948, um ano após a Índia de Gandhi.

Solomon Dias Bandaranaike — do nome do aeroporto — foi um dos líderes desse movimento. (Sim, você encontra muitos sobrenomes portugueses ainda por aqui, ainda que ninguém mais fale a língua.) Sua viúva Sirima Bandaranaike se tornaria, depois que ele foi assassinado em 1959, a primeira primeira-ministra do mundo em 1960.

O Sri Lanka, contudo, permanecia sendo apenas um domínio semi-soberano súdito da Coroa britânica, o que foi finalmente rasgado somente em 1972, fundação da atual república.

Sendo assim, você vê muitas obras do tempo britânico em Colombo, como esse belo prédio antigo do Parlamento (que, subjugado aos ingleses, já existia da Independência). A maior parte do que há de histórico para ver em Colombo data do século XIX ou primeira metade do XX.

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Este bem-conservado edifício neoclássico foi desativado como parlamento em 1982, quando se inaugurou o atual em Sri Jayawardenepura Kotte, a atual capital do Sri Lanka. Ela fica aqui na zona metropolitana de Colombo, então a conurbação é a mesma.
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Uma parte do Lago da Beira (hoje Beira Lake), construído pelos portugueses no século XVI. Feito no lado oposto à beira-mar, os portugueses meio que ilhavam-se para se proteger de ataques vindos do interior. Hoje, é um lago pitoresco no centro do que se tornou Colombo.

Vocês, que estão admirando o lago, viram também o céu ficando escuro?

As nuvens aqui se formam e despencam água tal qual nos nossos trópicos — aquelas típicas trovoadas de meio da tarde — e hoje aconteceu de ser desses dias. Eu achei que não fosse estação chuvosa, mas a realidade se impõe.

Este meu primeiro dia, ainda recém-chegado do aeroporto, acabaria algo curto pelo sono e pela trovoada. Deu-me tempo de apenas dar umas voltas a pé por perto do meu hotel, ver um templo budista que vos mostrarei depois em detalhes, e entrar num shopping para tomar um orgásmico suco de manga — fruta que é nativa aqui desta região da Ásia, e que os portugueses levaram ao Brasil.

Eu despencaria às 17h na cama, junto com a chuva lá fora, para acordar só no dia seguinte; e aí sim, tomar tuk-tuks para rodar Colombo como se ela fosse minha.

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Este meu suco de manga estava um gozo.
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Visitando um dos templos budistas na área de Colombo.
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Cerca de 70% das pessoas no Sri Lanka são budistas. Eu depois mostrarei estes templos em detalhes.
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Diante de uma centena de Budas no templo Gangaramaya em Colombo, um dos mais visitados da cidade.

A hora do tuk-tuk: Rumo ao povo

Tuk-tuks — aqueles pequenos veículos de três rodas — abundam aqui no Sri Lanka, tal qual na Índia e noutras partes da Ásia. Eles, aliás, são um dos fenômenos que fazem você se dar conta de que definitivamente não está no Brasil. 

Vejo muitos turistas estrangeiros sugerirem que o Sri Lanka é uma versão ligeiramente light da Índia, mas não é nada mooooooito distinto. Lembra, sem dúvida, bem mais o sul da Índia que o norte — então não vale comparar com Délhi, vale comparar com Bangalore e outras cá do sul.

Os tuk-tukeiros fazendo das exatas mesmas coisas que seus pares indianos: chamam-lhe para oferecer isso e aquilo, querem esperar você na saída da atração X para daí levar na Y, etc. Nada do outro mundo, mas é basicamente a mesma matriz cultural e estrutura de hábitos em geral. Hoje, se você deixar, serão seus companheiros de WhatsApp também — o que tem seus prós e contras.

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Andar de tuk-tuk na Ásia é fundamental. Conversar o preço antes da corrida — e barganhar — também.
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Tuk-tuks no Sri Lanka, a quem ainda não conhece a sua elegância.

Se você achou, porém, que Colombo toda tem essa cara de cidade de classe média, cuidado para não tirar conclusões precipitadas. Embora menos desigual que o Brasil, o Sri Lanka tem as suas disparidades sociais também.

De tuk-tuk, eu chegaria ao centrão da cidade, que embora histórico é mais notável por seu bafafá. É onde você vê que há também pobreza nestas paragens. Não vou omiti-la.

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O centrão de Colombo, com os tuk-tuks e motos a circular. Você mal tem calçada.
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Muitas áreas do centro de Colombo são assim, caso você goste de uma coisa mais “povo”.
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Ponto de ônibus.
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Pessoas vulneráveis que você encontra pela rua. A miséria humana requer fraternidade mundial; não dá para ficarmos só no nosso umbigo.

Aquela senhora na banquinha vendia guirlandas de flores a serem levadas à Igreja de Santo Antônio ou a algum outro templo. Há um colorido religioso aqui, visto muito lado-a-lado neste centro de Colombo — caso você tivesse se perguntado o que eu vim ver aqui.

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Templo hindu no característico estilo do sul da Índia. Aqui, os hindus são sobretudo os tâmil, etnia e grupo linguístico que existe tanto aqui no Sri Lanka quanto no sudeste da Índia.
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A Igreja de Santo Antônio edificada em 1806 no centro de Colombo, mas de origens no tempo dos holandeses. Foi onde se deu o ataque terrorista na Páscoa de 2019.

Terrorismo? A Igreja de Santo Antônio em Kochchikade

Alguns devem se lembrar das notícias de uma explosão nesta igreja durante a Páscoa de 2019, atentado terrorista creditado a extremistas islâmicos (embora haja controvérsias).

Seja como for, a igreja foi reconstruída, e hoje não senti qualquer atmosfera de temor entre as pessoas. Há detectores de metais e vigilância reforçada, mas como ocidental você praticamente tem passe-livre. 

Kochchikade é o nome do bairro adjacente ao centro onde estamos, lugar curioso caso você se interesse em ver de perto este marco da cidade ou o cristianismo como ele é praticado aqui.

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A entrada da Igreja de Santo Antônio em Kochchikade, Colombo. Estava cheia.
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Ao lado, uma marquise com a figura do português Santo Antônio distribuindo pão entre pessoas de vestuário tradicional da região — repare.

Se você vê esta dedicação à figura de Antônio de Lisboa aqui, é porque neste sítio o catolicismo introduzido pelos portugueses no século XVI manteve-se “às escondidas” quando os holandeses (protestantes) tomaram a ilha e o proibiram. No fim das contas, os holandeses aquiesceram e permitiram que se fundasse uma igreja, esta, feita então em 1806.

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A igreja alvo de atentado terrorista na Páscoa de 2019, já restaurada — e cheia.
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Ao fundo, você vê o desenho com a figura de Deus pai, Jesus e Maria. Cá embaixo, vê-se a figura de Santo Antônio com os peixes.

Aí você tem umas curiosidades — a mim ligeiramente pitorescas — de como a religião é algo moldável ao contexto social e às práticas de cada povo.

Como os srilanqueses (como os indianos) têm o hábito milenar de tirar os sapatos antes de entrar nos espaços sacros, hábito já trazido de religiões mais ancestrais aqui como o budismo e o hinduísmo, não repare se vir pessoas descalças no interior também da igreja. Há, inclusive, espaços onde há indicação da própria igreja para que só se entre descalços.

O mais curioso, no entanto, foi ver as pessoas engatinharem por debaixo do lugar onde estava o Menino Jesus de Praga — da mesma forma que eu já havia visto tailandeses fazerem em altares budistas na Tailândia. Surreal. 

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Igreja cheia no que era uma terça-feira em Colombo, com a figura do Menino Jesus de Praga ali.
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As pessoas descalças a orar.
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Engatinhando por debaixo de onde estava a figura do Menino Jesus de Praga. Não me perguntem se é por bênção, promessa, ou boa sorte. Eram várias as pessoas fazendo-o, de várias idades.

A mesquita de doce: Jami Ul-Alfar

Por apreço estético, ou se você quiser seguir o meu ecumenismo, pode caminhar da própria igreja de Santo Antônio até a linda mesquita Jami Ul-Alfar, uma das mais antigas de Colombo.

Ela é apelidada de a “mesquita de doce” (candy) pela sua estética islâmica característica aqui do Sul da Ásia, com as suas listras de branco e vermelho que evocam aquelas coisas açucaradas de mercearia. É a da foto de abertura desta postagem, e que você revê abaixo.

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Jami Ul-Alfar, apelidada de a “mesquita de doce” pela sua estética característica.
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A mesquita data de 1909, e é das mais antigas que há aqui em Colombo.

O meu caminho desde a igreja até aqui foi por entre as vias finas, estreitas e movimentadas do centro de Colombo. O cheirão de frutas às vezes se misturava a um inesperado cheiro de peixe, pegado aqui perto, pois o mar está logo ao lado.

No caminho, achei um vendedor de jaca — e não me contive. (Eu dificilmente me contenho quando vejo jaca.) Ela, a propósito, também é nativa aqui da Ásia tropical, e foi levada pelos portugueses ao Brasil daqui junto com a manga e outras. (Se você estiver a se perguntar se nada fez o caminho inverno, muito o fez: abacaxi, maracujá, goiaba e várias outras frutas encontradas hoje aqui são nativas da América.)

A minha surpresa foi só ver que eles vendiam os bagos de jaca com pimenta em pó em cima (!). Lembrou-me do México. Conversei com o tio para que ele me providenciasse uns bagos sem pimenta, e não houve problema. Dilícia.

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Jaca vendida aqui em Colombo com pimenta vermelha moída por cima (!).
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Meus bagos de jaca limpinhos. Acho que paguei o equivalente a R$ 2,50 por cada pratinho destes (sim, eu comprei mais de um, pra levar).
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A fuzarca.
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A linda mesquita de doce, no centro de Colombo. (A visitação dela por dentro é restrita, mas o bonito é mesmo por fora.)

Eu depois mostrarei minhas visitas aos templos budistas Gangaramaya e Kelaniya aqui em Colombo, mas estes requerem mais detalhes. Já que os srilanqueses são predominantemente budistas, foi onde eu encontrei mais gente. Mais detalhes por vir.

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Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

One Reply to “Conhecendo Colombo, a maior cidade do Sri Lanka

  1. Uau.. que maravilha de Mesquita. Belissima foto de abertura. Não sabia que Colombo tinha tao bela mesquita. Parece de chocolate com creme haha. Amo esse estilo. Adorei o título. Muito bem posto. A Mesquita de doce. Magnífica.
    Nossa, que linda essa torre em forma de lotus. Bella, e contrastando com o belo céu azul e a cidade aos seus pés. Muito bonita. Que charme!…
    Bonito shopping. Com ótimos espaços para alimentação, com ambiente agradável e com preço acessível Que beleza. Muito bom.
    Cara boa da comilança e do ambiente. Pelo visto tudo bonito, bom e barato.
    O suco de manga parece supimpa hahaha, mas a jaca com pimenta? hahah ”tô fora” hahah como se diz por aqui.
    Essa ”prataria”do buffet é linda. Uau. Que chique. Imagino o próprio buffet.
    Belíssima essa foto noturna da cidade, com sua linda iluminação. Muito bonita. Parece uma metrópole. Grande e cheia de edifícios de porte. Surpresa. Não imaginava de tamanho porte.
    Oh!… que agradável esse ambiente dos templos. Adoro esse clima . Transmite muita paz e leveza. Aprecio muito as religiões orientais em particular o budismo e o induismo. Impressionante os 100 Budas.
    Adorei as esculturas na rua. O elefante de metal é lindo.
    Há lugares bastante aprazíveis como o lago e seu cinturão verde, o belíssimo e estiloso edifício do Parlamento com seus bem cuidados jardins floridos, calçadão e as avenidas d’onde se avista o mar azul. A cidade parece bem arrumadinha e bonita. Gostei. Passaria por qualquer das capitais do NE brasileiro.
    Entretanto se pode notar a pobreza, a desigualdade , a vulnerabilidade da população ao se adentrar o centro da cidade, agitado, desorganizado, tumultuado, confuso, e densamente preenchido pela economia informal e pelo pequeno comércio, muito semelhante a outros rincões do mundo, inclusive por aqui pelo Brasil. Sinais da fragilidade financeira, social, econômica e desigualdade reinantes .
    De pleno acordo, meu jovem amigo sobre a necessidade de perceber e tentar reverter a pobreza , através da fraternidade, ações coletivas de inclusão social e econômica. O mundo de hoje, ao meu ver, precisa de politicas públicas e ações individuais e coletivas que atuem nesse sentido.
    Amei a Igrejinha de Santo Antônio. Linda e uma graça por dentro. Simples e bonita. Outra surpresa, encontrar tantos cristãos na Ásia. Achei charmosa a decoração.
    Curiosas as rotas, as ligações portuguesas e com o Brasil.
    Também não sabia sobre a canela e suas origens no Sri Lanka. Pensava ser da China como se vende no Brasil.
    Muito bem. bela postagem. Fiquei surpresa com Colombo.
    Gostei.
    Espero ver mais sobre a Asia.
    Obrigada pela passeio. Muito bom hahaha
    Valeu.

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