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Sri Lanka

Galle: Cidade histórica de legado português e holandês no Sri Lanka

Você estaria perdoado por achar que está no Nordeste brasileiro. Mas não: está no Sul da Ásia, em Galle, Sri Lanka, onde os portugueses (e, mais tarde, também os holandeses) andaram ainda antes de levarem a sério o Brasil. Aqui, eles edificariam esta mimosa cidade histórica que hoje é Patrimônio Mundial da Humanidade reconhecido pela UNESCO.

Digo “levar a sério o Brasil” porque os portugueses aportam pela primeira vez no Sri Lanka em 1505, após Cabral já ter feito o seu histórico desembarque em Porto Seguro. Entretanto, o Brasil inicialmente era, no muito, uma terra tida como selvagem e de onde os portugueses extraíam madeira (pau-brasil); a ideia de plantar cana e de fato ocupar o Brasil só veio bem depois. O cerne do interesse português no mundo à época era o Sul e Sudeste da Ásia, terras — e mares — de especiarias, comércio e riquezas.

Galle já existia antes dos europeus: no século XIII, o viajante árabe Ibn Battuta (que escreveu um diário de viagem depois publicado como livro) nos relata Qali, o porto aonde vinham os carros de boi trazendo mercadorias do interior da ilha. Sri Lanka virou Ceilão para os portugueses, e Qali virou Galle — que, curiosamente, os srilanqueses hoje pronunciam como se fosse uma palavra em inglês, n’algo que soa como Gôll (fazendo um L com a língua no fim).

É a principal cidade histórica do Sri Lanka. Isto é, há cidades com ruínas mais antigas noutras partes do país, e que visitaremos, mas aquelas viraram cidades modernas com parque arqueológico adjacente (feito as gregas ou romanas). Galle preservou-se, até por ser mais recente, toda com seus ares dos séculos XVI-XVIII. (Dica: hospedar-se dentro da parte histórica.)

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Ruelas no centro histórico de Galle, cidade colonial no Sri Lanka.

Os portugueses em Galle: Casas caiadas

Hoje, “casa caiada” é mais provável aludir a algum restaurante ou negócio que ao significado original do termo — ao menos no Brasil. Casa caiada é uma casa coberta de cal, após feita a caiação. É um costume pelo menos medieval no Mediterrâneo, que eu não sei muito bem quem começou, mas que os árabes levaram à Península Ibérica. Vide as casas de Córdoba (Espanha), por exemplo.

Casablanca (Marrocos) — que está definitivamente precisando de uma nova caiação para continuar a honrar o nome — era antes Casa Branca, em português, e tem esse nome pelas casas que os portugueses ali construíram quando fizeram dali seu entreposto comercial nos idos de 1515.

E todo carioca conhece as versões sobre a origem do nome, sobre o qual não há consenso, mas que se sabe vir do tupi (cari oca) e ter sido dado pelos indígenas que viam o assentamento português no litoral do Rio de Janeiro. Costuma se interpretar como “casa de branco”, mas há quem diga que os índios não chamavam os europeus assim. Se teria sido pelas casas — o povo de casa branca — não sei.

Faz tempo que os portugueses deixaram Galle, mas seu estilo de casas caiadas permanece vivo aqui.

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Paredes bem caiadas na área histórica de Galle, o que é conhecido como Forte de Galle (Galle Fort), pois começou como uma cidadela.
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Galle, Sri Lanka. A mesma cara de Goa, na Índia, e a mesma cara do Brasil.

Os antigos gregos já sabiam do Sri Lanka, mas são os portugueses que, a partir de 1505, retornam a atenção Ocidental para cá.

A saber, o primeiro Ocidental a falar sobre o Sri Lanka — que entre os gregos da Antiguidade era chamado Taprobana — foi um viajante chamado Megástenes (c. 350-290 a.C.). Ele escreveu um livro chamado Indica, hoje perdido e só recomposto em fragmentos pelo que outros citaram dele. Ali, o grego conta da sua experiência como embaixador nas cortes persa e indiana da época. Cogita-se que ele possa ter vindo com a campanha de Alexandre, mas não se sabe.

O viajante Marco Polo relata depois ter vindo aqui, nos idos de 1290, com as embaixadas que o grande Kubilai Khan enviava a estas partes da Ásia em busca de tributos e bens. Dizia-se, naquele tempo, que os rubis só surgiam aqui no Sri Lanka, que os soberanos destas bandas tinham uns enormes, do tamanho da palma da mão, e Marco Polo pretendia obtê-los.

Eles têm um rei que eles chamam de Sendemain, e são tributários de ninguém.As pessoas são idólatras, e andam bem nus, cobrindo apenas o meio. Eles não têm trigo, mas têm arroz, e gergelim com que fazem seu óleo. – Marco Polo, ca. 1290  

A “idolatria” a que Marco Polo se refere é, obviamente, o budismo, sobre o qual ele depois se estende um tanto. Há toda uma outra história que ele relata sobre o Grande Khan ter enviado gente até aqui para buscar e levar para ele as relíquias do dente da tigela que Buda usava para mendigar donativos, mas eu deixarei para contar isso depois, numa paragem mais apropriada. 

Voltemos aos portugueses, que quando chegam cá no século XVI já têm, portanto, uma certa noção deste lugar. É em 1570 que eles estabelecem um forte aqui em Galle.

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As muralhas portuguesas são o que de mais antigo há aqui em Galle, hoje sítio turístico diante destas águas do Oceano Índico.

A maior parte da ilha que é o Sri Lanka, à época, era governada por monarcas cingaleses, esta etnia de gente predominantemente budista e com origens no norte da Índia. (Mais sobre eles no devido tempo.)

Os portugueses exploram as rivalidades locais (claro), e estabelecem-se como o poder em ascensão que controla as costas do país durante todo o século XVI. 

Resta pouco do que os portugueses propriamente fizeram em Galle, pois em 1638 a Companhia das Índias Orientais holandesa interveio em favor dos cingaleses e contra Portugal. Vale lembrar que Portugal, à época, estava sob domínio espanhol, vendo seu poder diminuir e sofrendo a Invasão Holandesa também no Recife.

Os holandeses depois se voltam também contra os cingaleses e assumem tudo. Se Portugal conseguiu expulsar os holandeses do Brasil e lá começar a consolidar melhor seu poder, tomando lugares como o Quilombo dos Palmares para poder, de fato, começar a ocupar o Brasil, aqui no Sri Lanka seria o contrário: os portugueses é que foram expulsos. Galle seria holandesa.

Mapa disputas coloniais portugueses e holandeses
Mapa de posses portuguesas (verde), holandesas (laranja), e as suas disputas mundo afora no século XVII.
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O Farol de Galle entre as palmeiras. Embora este seja moderno, os holandeses já falam do farol daqui na década de 1650.

Galle holandesa

Os holandeses tomam Galle e, à época, tinham uma pegada bastante anti-católica. Afinal, haviam sido suprimidos enquanto protestantes pela Coroa de Espanha. (Você pode ler mais sobre isso no meu post em Antuérpia, atual Bélgica.) Os europeus naquele tempo operavam com base no mote Cuius regio, eius religio (Cujo rei, sua religião [para todos]), então não havia liberdade de culto.

O templo da Igreja Reformada Holandesa, de fins do século XVII, de fato é das edificações mais antigas ainda de pé na cidade.

Os holandeses, também mais interessados em comerciar que em povoar, mantiveram então o mesmo esquema português de cidadela fortificada numa área estratégica de porto.

Galle no mapa do Sri Lanka
Ali está Galle, no Sri Lanka.
Mapa de Galle Sri Lanka
E assim é o seu desenho: a área histórica chamada o Forte de Galle, guardando aquela área de baía que hoje é uma muvuca uma estrada com muitas vendas e turistas.
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Templo da Igreja Reformada Holandesa, erigida nos fins do século XVII aqui em Galle.
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A entrada da igreja holandesa — toda caiada — no centro histórico de Galle.

Os holandeses viriam a controlar 100% da costa do Sri Lanka, que basicamente tornou-se um protetorado seu. Nas colinas do interior da ilha (que pouco interessava àqueles mercadores controlar diretamente), seguia soberano o Reino de Kandy — cujo nome vem dessa cidade, que era então a capital, e que depois nós visitaremos.   

O que mais se vê de histórico aqui em Galle data desse tempo holandês, dos séculos XVII e XVIII. É o caso do antigo hospital holandês, hoje uma série de lojas modernas sob arcadas brancas; das antigas fortificações de entrada, com o portão velho da cidade; e também dos bastiões da muralha em frente ao mar.  

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O antigo Hospital Holandês (à esq.), hoje renovado e com lojas caras, bancos, etc.
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Esta edificação à esquerda em amarelo ficava na entrada da cidade, onde ficavam os portões. Hoje, é o chamado portão velho (old gate) e um museu.
Aberto o antigo portão de Galle
O portão velho (old gate) de Galle, com a vista para o lado de fora.
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O portão velho com o brasão holandês datado de 1669. No centro, se reparar bem, você verá um grande V, com um O e um C menores nos braços do V. É a Companhia das Índias Orientais holandesa (Vereenigde Oostindische Compagnie – VOC).
Prédio colonial de 1656, hoje o Museu Nacional de Galle
Este é a mais antiga edificação holandesa aqui, de 1656, hoje o Museu National de Galle (site oficial).

Os holandeses governariam o Sri Lanka até 1796, quando em plena Guerra Napoleônica esta posse lhes seria tomada pelos ingleses. Napoleão havia invadido e conquistado a Holanda no ano anterior e instalado lá uma republiqueta subalterna à França.

A liderança holandesa fugiu à Grã-Bretanha, e pediu assistência aos ingleses para defender as suas posses ultramarinas. Os ingleses concordaram, inclusive em devolver o Sri Lanka à Holanda quando Napoleão fosse vencido, mas nunca o fez.

O Sri Lanka ficaria sob domínio britânico até a sua independência em 1948.

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Desenho de 1603 do encontro, no ano anterior, entre o almirante holandês Joris van Spilbergen e o monarca do Reino de Kandy, Vimaladharmasurya I. O rei empolgou-se com a perspectiva de os holandeses o ajudarem a repelir os portugueses. Dizem que chegou a falar, em holandês, como gesto de amizade, “Kandy agora é Flandres“. Deu no que deu.
Pointe de Galle sud de Ceylan en 1754
Ilustração de 1754 de Galle durante o seu período holandês.

Chegando a Galle hoje e dando umas voltas

Foi com Vijitha que eu vim de carro desde Colombo até Galle. (Qualquer semelhança com Vegeta, o personagem de Dragon Ball Z, é mera coincidência, até porque este motorista era mais velho que o desenho. Mas não deixava de ser curioso chamar alguém por “Vijitha” e ele olhar.)

Você pode vir de trem, o mais clássico embora ligeiramente muvucado; vir de ônibus, o mais lento, porém dizem que também a rota mais cênica, por vir margeando a costa; ou pode vir de carro, o mais rápido e confortável. Às vezes eu escolho a muvuca, às vezes eu opto pelo conforto.

Neste caso, eu tinha pela frente uma estadia relativamente curta em Galle (somente 1 noite) e queria aproveitar o dia, chegando lá ainda de manhã. Pela via rápida com pedágio — que os ônibus não tomam mas os carros, sim, se você pedir — leva-se cerca de 2h para chegar. O que mais demora é sair de Colombo e entrar em Galle.

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A zona peri-urbana de Galle é assim. Uma muvuquinha básica para animar.
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As rulas da cidade histórica, no interior do que era o Forte de Galle (Galle Fort), são deste jeito. Carros entram em algumas vias, mas não em outras.

O delicioso do Sri Lanka é que tem um certo espírito de “tudo pode” n’alguns quesitos.

Vijitha custou um pouco para achar o caminho até este miolo do centro histórico; perguntou a um e outro na beira da pista, até que adentramos o Forte de carro e tudo. É plenamente permitido, o problema é que as ruelas são bastante estreitas, e quando vimos estávamos embriocados lá dentro e na contramão. Na contramão seguimos um bom tempo cidadela adentro até chegarmos ao meu hotel. Vijitha, afinal, topava qualquer coisa.


Dica: Eles aqui não chamam isso de transfer, mas de táxi, ou simplesmente falam em to go with the car. De Colombo a Galle, 8.000 rúpias (USD 31) seria o preço com um Uber, possivelmente mais o pedágio (400 rúpias em 2022) para usar a autovia (highway), sem congestionamento e por isso bem mais rápida. Pode-se usar o aplicativo ou negociar informalmente. Não pague mais de 10.000 ao todo, já o pedágio incluso. (Se você quiser o WhatsApp de Vijitha, é só me mandar uma mensagem pelo Mairon pelo Mundo no Instagram ou Facebook.)


Galle, na sua parte histórica, é bem quieta. Lembrou-me algo de Stone Town em Zanzibar, Tanzânia. Ou mesmo Ubud em Bali, Indonésia, mas consideravelmente mais pacata. 

Tudo é muito simples — ou, como se diria em inglês, low-key. Não imagine nada badalado. É coisa assim de você ver tudo num dia, fazer um bom almoço, e pronto. A depender de quanto tempo você dispuser durante o dia, 1 noite pode ser o bastante. Duas noites se você for do tipo de gosta de ficar um tempo lendo na varanda da pousada. 

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Varanda com direito até a cadeira de balanço do vovô — onde o neto subiu e furou o trançado.
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Casario que me lembra o Nordeste do Brasil.

Galle lembra o Nordeste e não é só na sua arquitetura: faz um calor de respeito aqui também.

Era uma manhã daquelas quentes e úmidas, do tipo que às 11h você está procurando um lugar para se sentar à sombra. 

Não há muitas sombras aqui em Galle, sobretudo se você quiser caminhar por sobre a muralha antiga e seus bastiões diante do mar, mas para a minha sorte — ou a do meu couro — estava nublado. Era um dia daqueles abafados que prenunciam tempestade — mas não houve tempestade.

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Bom dia.
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As muralhas de Galle se estendem assim, e você pode caminhar por sobre elas um longo tempo. Elas quase que ainda dão a volta inteira nesta área histórica.
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Servem a outras funções também. Ali, um casal namorando sob o guarda-sol.
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Estes bastiões (nodos de fortificação ligados à muralha) foram construídos pelos holandeses. Lá, vê-se o farol depois das águas.
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Aquilo branco que você viu lá perto do farol não é uma igreja, mas esta Mesquita Meeran Jumma (no alfabeto cingalês: ගාලු කොටුව මීරාන් ජුම්මා මස්ජිදය). Ela foi feita pela minoria muçulmana daqui em 1904.

Tudo aqui é bem caiado, sejam as mesquitas, as igrejas, ou os templos budistas. Diante da minha acomodação, havia bem um onde entoavam mantras ao entardecer.

O dia passa, corre, e cai tranquilo aqui em Galle. Você se sente num mundo pacato, interiorano e algo paralelo, distante até do fuzuê das partes mais modernas do Sri Lanka. Se deixar, dá para ouvir o mar e o vento nas palmeiras como se estivesse em Pernambuco. 

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A extensão da muralha iniciada pelos portugueses e complementada pelos holandeses no Forte de Galle, Sri Lanka.
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As claras águas do Oceano Índico nestes trópicos.
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Não há muito aqui em termos de praia propriamente, a menos que você considere isto como praia.

As praias, de fato, são bastante belas aqui pelo litoral sul do Sri Lanka, mas não exatamente em Galle. 

Você tem dois grandes grupos de destino turístico neste país: (1) as áreas de colina no interior, com natureza e muita herança budista; e (2) este sul do país, com algo de legado colonial aqui em Galle e muitas praias mais a leste desta cidade.

Nesta ocasião da minha vinda aqui, estávamos algumas semanas antes de a Rússia invadir a Ucrânia, e havia grande quantidade de turistas russos — eu diria até que metade de todos os turistas que vi em Galle eram russos. Que bom que aproveitaram, pois agora lhes será mais difícil viajar ao estrangeiro com a moeda desvalorizada.

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É belo este litoral sul do Sri Lanka. É aonde vêm os turistas que procuram praia.
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Lindos mares.
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Este litoral mais próximo de Galle é assim, com praias simples de pescadores onde você vê um mochileiro ou outro, mas neste estilo de caminhar na beira da pista e sem muita infraestrutura. A maioria vai a Mirissa Beach, cerca de 40 Km a leste de Galle.
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Da muralha, eu olhava alguns turistas pouco experientes com os trópicos que pararam para ver e tirar foto de um calango.

Há um quê de Brasil por aqui, mas mais precário.

As muralhas iniciadas pelos portugueses e seguidas pelos holandeses são simpáticas. Nada se paga para entrar. Lá em cima, porém, se via o chão bastante sujo de lixo aparentemente acumulado de muitos dias (ou semanas). As ruelas deste centro histórico também são pitorescas, mas você tem um esgotinho ali correndo a céu aberto.

Eu por ali circulei em busca de um almoço até encontrar.

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As ruelas no centrinho histórico de Galle são bonitas, mas rola um esgotinho a céu aberto ali nos cantos da rua. O Sri Lanka, afinal, é um país pobre.
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Um dos restaurantes mais recomendados aqui (e que eu aprovo!) é este, o Lucky Fort. (Ganharam meu coração com aquela separação de sílabas com o T sozinho no final. Como eu sugeri antes, aqui há um certo elemento de “tudo pode” — até com a ortografia.)
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Olhem a riqueza de comidas.

Galle tem, praticamente, um público só de turistas, então espero um outro padrão de preços se comparado a Colombo. Se lá, em lugares não-turísticos, um almoço lhe custa coisa de 350-700 rúpias [USD 2-4], aqui vai custar o dobro, como nos shoppings de Colombo.

O Lucky Fort tem um esquema de almoço com preço fixo em 2.450 rúpias [USD 10] para duas pessoas. Às vezes, cobra-se por cima os 10% de taxa de serviço, como no Brasil. Não se espante — e, portanto, não é necessário adicionar gorjeta. É irreal para os padrões srilanqueses, mas perfeitamente pagável pelos turistas ocidentais. A comida é excelente.

Fomos atendidos por um srilanquês de seus 30 anos que faz o estilo “animadão”, que sorri enquanto fala e parece sempre feliz. Eles aqui também tem o hábito de gesticular enquanto explicam coisas e de mexer a cabeça igual aos indianos.

Muito simpático, todo o pessoal; e a comida foi tanta que chega deu aquela leseira na maresia daquela tarde quente.

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Mesa maravilhosa com grande diversidade de curries bem temperados. Eu comentei melhor os detalhes das comidas aqui do Sri Lanka no post anterior.
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Eis a lista, aos interessados. Os molhos (curries) com jaca e manga são fenomenais. (E, como vos disse no post sobre as comidas, estes lugares turísticos mercadejam pratos menos apimentados que o habitual daqui.)

Você pode ir até o farol e, do outro lado, há uns canhões ainda dos tempos em que este forte era controlado por europeus. Há, ali, um cheiro de Ásia onde enormes e vetustas árvores encontram-se com prédios coloniais algo decadentes.

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O prédio que vos mostrei antes, do tempo dos holandeses.
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Esta é uma banyan, uma das mais emblemáticas árvores da Ásia. Podem ficar bastante largas.
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O ambiente a caminho do farol.
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Você já conhecia tuk-tuk sorveteiro?

Senti falta de um lugar digno de sorvete por aqui. O picolé tipo Kibon com preço povão ali sai a 60 rúpias (R$ 1,50), já a bola de sorvete para turista sai a 350 rúpias (R$ 10). Não sei porque eu às vezes me incomodo com essas discrepâncias. Talvez porque eu tenha pago, afinal, por ambos e a qualidade tenha sido semelhante. Se você achar uma sorveteria boa aqui, me diga. (Eu des-recomendo a Pedlar’s Inn Gelato.)

Havia, no calor da tarde e dos russos, srilanqueses ambulantes a nos abordar com traquitanas a vender também. O ocasional tuk-tukeiro a oferecer corrida — ou simplesmente perguntar de onde eu era —, e ambulantes com conchas ou moedas velhas dos tempos dos holandeses.

— “Where from?“, perguntou-me tipicamente um deles, assim sem verbo. 

— “Brasil“, pronunciei eu com bastante ênfase no L final, que é para ficar claro.

— “Ah! Ra-sia“, repetia ele.

Nunca antes me havia ocorrido que “Brasil” pudesse soar como “Rússia”, mas cada um ouve o que quer. Da próxima vez, eu vou dizer “Feira de Santana” e ver o que é que ele entenderá.

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Há um tuk-tukeiro em cada esquina por aqui. Normalmente, vários batendo papo.
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O farol e os coqueiros.
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Do outro lado do forte, a coisa é mais pacata, e um pessoal comia sob o olhar de aves e cães.
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Canhões também, o mar logo ali ao lado.

Como você vê, há um quê de paradez tropical tranquila aqui em Galle. À noite, a coisa se anima um pouco mais, pero no mucho. Talvez tenha sido ainda o restante da pandemia, e nas temporadas seguintes venha mais gente.  

No centro do centro, as pessoas circulavam na Pedlar Street e na Church Street, o cruzamento equivalente ao da Ipiranga com a Avenida São João em Galle.

Você verá algo sobre Stick No Bills [Grudar nenhum cartaz], algo que me parece dos tempos ingleses e que se preservou nas paredes e hoje é até marca de roupa — patenteada por estrangeiros. Assim caminha a humanidade.

O maior prédio a lhe chamar os olhos provavelmente será o da Igreja Anglicana, de Todos os Santos, consagrada em 1871. É uma edificação bonita, toda caiada por dentro.

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O circular de turistas numa tarde em Galle.
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A anglicana Igreja de Todos os Santos, consagrada no tempo dos ingleses, em 1871.
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O caiado interior da igreja anglicana.
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Um claro templo budista sob o sol. Tudo parece ter mantido a estética branca cá trazida pelos portugueses.

Quando a noite cai, tudo fica ainda mais tranquilo. Um cão ou outro a latir pela rua; e, passando correndo por mim numa ruela escura, quatro jovens que pareciam correr pela própria vida — mas desses que não sabem correr muito bem e se cansam logo, tipo eu e possivelmente você. Atrás deles, logo viriam dois policiais de moto, n’algum “causo” que quebrava momentaneamente a inquebrantável serenidade interiorana de Galle.  

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As ruas de Galle à noite.
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Alguns becos bastante escuros, onde você precisa apelar à lanterna do celular para poder prosseguir.
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Outra, não. Com um tuk-tuk sempre à sua espera. Eu sairia daqui com a impressão de que virar motorista de tuk-tuk é a principal atividade para combater o desemprego entre os homens srilanqueses. Depois de três colonizações europeias seguidas, eles seguem sendo humildes.
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Galle, Sri Lanka. Boa noite.
Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

2 Replies to “Galle: Cidade histórica de legado português e holandês no Sri Lanka

  1. Lindinha essa pequena, histórica e bela cidadezinha. Mimosa, mesmo.
    Adoro essas cidades pequenas e bem arrumadinhas.
    Parece mesmo uma cidadezinha praieira do NE do Brasil.
    Belo farol, lindo e verde mar, de águas claras . Muito bonito. A orla é muito bonita e muito mais natural que na maioria das cidades costeiras do Brasil.
    Os restos das muralhas e as ruínas da fortificação seguem bonitas e firmes. As muralhas parecem ter sido muito bem construídas a tirar pelas suas fortes bases.
    Hahahah adorei o povo tirando fotos do calango… hahahah… inusitado hahah
    Os tuks-tuks são divertidíssimos. Desde tuks-tuks policiais, com direito a símbolos da polícia, até esse sorveteiro que o senhor nos mostra… Meu amigo, hahaha uma ”onda” , hahaha como se dizia há um tempo atrás . Curiosos e muito práticos hahah.
    Acho lindas essas construções caiadas. Ficam muito bonitinhas com as flores, assim como as ruelinhas. Uma fofura. Essas casas caiadas são um atrativo em todo o Mediterraneo. Lindas.
    Coitada de Casablanca. Precisaria mesmo de um banho de cal. Hoje é casanublada, ou cinzenta. Os 50 tons de cinza de Casablanca. Tão famosa e tão pouco limpa.
    Interessantes essas ligações entre Brasil e Ásia. Muito pouco exploradas e analisadas nas escolas.
    Com certeza, meu jovem amigo viajante, os portugueses pouco ligaram para o Brasil, até a descoberta de ouro. No muito o defenderam dos ataques franceses e holandeses.
    Apesar de tudo o que aprontaram aqui e acolá, importante lembrar o alcance e o tamanho das possessões portuguesas e das suas viagens, naquela oportunidade. Um enorme alcance, seja na costa da África, nas costas da Ásia e no Brasil.
    Ainda se há de rever e valorizar mais esse interessante período da história dos portugueses, e sua participação na integração mundial.
    Quanto ao termo Taprobana, essa região é citada nos Lusíadas de Camões creio que ja na primeira estrofe.
    Falava-se mesmo muito das tesouros do Oriente.
    Hahaha adorei a semelhança entre o cruzamento das ruazinhas de Galle com aquele do Ipiranga e a Av. Sao João, hahah essa foi ótima.. data venia, creio que alguma coisa aconteceu com o coração do viajante em Galle, pelo visto hahaha.
    Achei lindinha Galle à noite. Ficou mais bonitinha ainda iluminada. Charmosa.
    Valeu, jovem viajante.
    Adoro viajar nessas postagens.
    O senhor deveria escrever um livro hahah.
    Grande abraço.

  2. Eis-me aqui novamente a apreciar a graciosa e histórica cidadezinha de Galle. Encantada com o seu bucolismo, com sua orla simples, natural e bela, com seu lindo mar, com o verde dos coqueirais e outras espécies, com as flores nos passeios das casinhas simples, com sua linda arquitetura de época. Casas com alpendres, com belos arcos e portões antigos. Que beleza!… Um verdadeiro encanto a cidadezinha.
    E que árvore secular de enorme raizes …Uau..
    E tudo isso diante de um belíssimo céu azul ou de claras noites enluaradas.
    Amei.

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