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Sri Lanka

A viagem de trem Ella-Kandy pelas plantações de chá no Sri Lanka

As plantações de chá no Sri Lanka são do que há de mais pitoresco no país, assim como esta quase-obrigatória viagem de trem.

O roteiro de trem entre as cidades de Ella e Kandy (seja num sentido ou no outro) tornaram-se, desde que o país se reabriu ao turismo após 2009, a atividade mais fotogênica de quem visita o Sri Lanka.

As razões são muitas: primeiro, a paisagem bela das colinas do interior do país, o que lhes apresentei no post anterior como Sri Lanka’s hill country. Segundo, o fato de que este é um trem vagaroso à moda antiga. Ou seja, é quase um slow food. Você vai devagar degustando a paisagem, apreciando aquele ambiente interiorano, e se quiser pode pôr até o corpo inteiro para fora (por sua própria conta e risco).

Beijo trem Ella Kandy
Fotos como esta passaram a abundar na internet, na era do Instagram, mostrando gente fazendo de (quase) tudo às portas abertas do trem pelas plantações de chá no Sri Lanka entre Ella e Kandy.

As autoridades srilanquesas, a saber, odeiam que os turistas façam isso, e um jornal do país recentemente fez críticas públicas a um casal português que o fez. As razões são óbvias: o risco, ainda que o trem vá a 40 Km/h, e a má reputação ao país caso um estrangeiro caia e morra.

Por que eles então não viajam com as portas fechadas? Não sei. A maioria das portas hoje em dia vai fechada, mas há sempre pelo menos uma aberta — e elas acabam sendo espaços bastante disputados, se não por instagrameiros, por gente que quer simplesmente tomar uma fresca no rosto e ter a sensação liberta.

Seja como for, não é só dessa breve adrenalina que vivem os trens no Sri Lanka. Eles, instalados no tempo dos ingleses no começo do século XX, têm uma pegada meio vintage, meio moda-antiga que fazem deste um passeio super pitoresco. Há paisagens deslumbrantes; e o trem, afinal, serve como transporte entre duas paragens interessantes no país: Ella e Kandy.

Vamos a como reservar esta viagem e à minha experiência neste trem.

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Venham a bordo. Vale a pena.

Trem pelas plantações de chá no Sri Lanka: O roteiro e como reservar

Primeiro: este não é um trem meramente turístico, ele é um trem convencional srilanquês que acontece de passar por uma área pitoresca do país, e que caiu nas graças dos turistas estrangeiros.

Mapa trem Ella Kandy Sri Lanka
Rota do trem entre Kandy e Ella, um pedaço da jornada total entre Colombo e Badulla, no Sri Lanka.

No mapa ao lado, você tem a rota que ele percorre. Ele faz uma viagem de um dia inteiro entre as cidades de Badulla e Colombo, e você pode tomá-lo em qualquer um dos dois sentidos. No inteiro, o miolo é que interessa, o segmento pitoresco que vai de Ella até Kandy, ou vice-versa. Isso pela beleza da paisagem.

Apenas 157 Km de ferrovia separam Kandy e Ella, mas a lenta viagem dura cerca de 6-7h. Não importa que o papel ou fonte oficial diga que dura menos; eles mesmos são os primeiros a dizer que não se responsabilizam pela exatidão dos horários.

Mas tampouco se preocupe: pressa aqui não é o quesito chave. Afinal, não é uma viagem que você faça pela eficiência do chegar rápido. Estes trens, além disso, são relativamente confortáveis — bem mais do que eu imaginava.

Vamos às classes disponíveis e a como adquirir passagens. 

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Viajando de trem pelo interior do Sri Lanka, algo quase obrigatório aqui pelos roteiros aqui.

♦ Adquirindo as passagens

A Companhia Ferroviária do Sri Lanka não vende passagens online. Isso o deixa com duas alternativas: (a) ser bastante “raiz” e comprar a passagem pessoalmente na estação, até 30 dias antes da data; ou (b) utilizar uma agência online que o faça por você, com um custo adicional.  

Eu escolhi a segunda opção, e não me arrependo. Recomendo a 12Go.asia, talvez a melhor empresa para reservas de trem pelo Sul e Sudeste da Ásia. Eu já a havia utilizado na Tailândia, e repeti aqui com muita tranquilidade.

Estamos falando em passagens super baratas: se você for comprar na estação, uma jornada destas de 6-7 lhe custará a bagatela de 600 rúpias ou três dólares por pessoa (!). Com a empresa, a passagem sairá pelo quádruplo, USD 12, mas vamos e venhamos: sai ainda assim mais barato que quase em qualquer outro lugar do planeta.

Paguei os USD 9 de diferença de muito bom grado para não ter que gastar tempo nem esforço atrás de passagens pessoalmente em Colombo. Além disso, as passagens com assento reservado se esgotam, e reservar com antecedência (30 dias ou mais) pela agência vem muito a calhar. Só recomendo comprar pessoalmente na estação a quem for morar no Sri Lanka por um tempo e tiver tempo de sobra.  

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Assim é uma passagem de trem no Sri Lanka. Não há e-ticket nem nada que você imprima: o que é vale é esse papel à moda antiga, que você obtem diretamente na estação ferroviária ou com uma agência de viagens.

Removi algumas informações pessoais da imagem, mas a passagem normalmente vem com o seu número de passaporte (nome, não). É assim, para vocês terem uma ideia.

Se só vale esse papel, e não há nada de e-ticket nem que você próprio imprima (muito menos que mostre no celular), isto significa que a 12go.asia precisará entregá-lo fisicamente as suas passagens.  

Você pode ir buscar suas passagens no escritório da agência em Colombo ou, se quiser certa conveniência, reserve um bom hotel e peça a eles que entreguem as suas passagens na recepção. Eles dão esta opção na hora da compra, e comigo funcionou perfeitamente. Você chegará ao Sri Lanka e estará tudo já aguardando por você, sem ir precisar retirar passagem em agência, nem nenhum afazer adicional que lhe dê trabalho.

No meu caso, eu fiz o trajeto Ella ⇒ Kandy, mas note que a informação na passagem vem com o nome do seu ponto de partida, Badulla. É normal. O horário de partida que vem impresso, inclusive, é o que ele sai de Badulla, não aquele em que passará em Ella. Sua saída de ela era somente às 09:20 da manhã, e isso lhe será indicado na hora da compra, mas não virá impresso na passagem. 

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Pela manhã em Ella, Sri Lanka, aguardando o trem chegar.
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Quando o trem chega, é um pequenino pega-pra-capar para todo mundo entrar.

♦ Como são os trens? Quais as classes disponíveis?

cinco tipos de passagem que você pode comprar, como segue abaixo. As diferenças de preço são coisa boba, de uns poucos dólares para mais ou para menos. Escolha com base no tipo de experiência que quer ter.

    • Air-Conditioned 1st Class (AFC). Primeira classe com ar condicionado. Uma má opção porque (obviamente) as janelas são todas fechadas, o que tira a graça deste trem.
    • 2nd Class Reserved (SCR). Segunda classe com assento reservado. É a classe preferida, sem ar condicionado e com ótimas janelas abertas (uma ou duas portas abertas também). Como na primeira classe, são fileiras de assentos 2 x 2, como na maioria dos trens mundo afora. De quebra, os assentos têm mesinhas no fundo do assento da frente, tipo as de avião.
    • 3rd Class Reserved (TCR). Assentos para várias pessoas em vez de poltronas. Vai, portanto, com mais gente que a segunda classe. Mais povão, e por vezes não respeitam o seu assento marcado; você precisa chamar o guarda, que vira mediador diplomático e às vezes convida você a não se importar em ir um pouco mais apertadinho. O assento era para três, mas cabem quatro, para aquela senhora não ir em pé.
    • 2nd Class Unreserved (SCU). Como na segunda classe com reserva de assento, mas agora na base do quem chegar primeiro. Aqui, você verá gente indo de pé também.
    • 3rd Class Unreserved (TCU). Muvuca máxima, tipo ônibus suburbano na sua cidade. Sente-se quem puder, e a maioria vai de pé. É para quem gosta de suor humano e cheiro de gente.

As passagens jamais se esgotam nas classes sem reserva de assento, então por aí você imagine. Estas acabam sendo a única opção para quem não adquiriu passagem a tempo numa das demais classes.

Eu viajei na segunda classe com assento reservado, e recomendo. Sugiro reservar com mais de 1 mês de antecedência, se você já tiver um roteiro específico planejado e pouca flexibilidade nas datas. Assim que você obtiver as suas passagens aéreas para o Sri Lanka, não há por que esperar para reservar também este trem. 

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A primeira classe é assim: com ar condicionado, janelas fechadas, e tudo muito arrumado.
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A segunda classe com assento reservado é assim. Digo isso porque a mesma segunda classe, sem reserva de assento, fica em vagões diferentes. As pessoas, naturalmente, levantam-se e se sentam à vontade. Mais simples que a primeira, mas também com espaço para dispor as bagagens e, o mais importante: janelas abertas.
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Lá para o fundo, a coisa fica mais animada.
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… até chegar na terceira classe, que vai assim.

♦ Amenidades a bordo

Vamos às respostas àquelas perguntas mais críticas, começando pelas necessidades mais fundamentais, seguindo a famosa pirâmide de Maslow.

Tem banheiro? Dá pra ir?

Dá. Eles são, na verdade, bem melhores do que eu imaginava. Eu havia imaginado banheiros dos trens da década de 1930, mas estes aqui têm até luzinha vermelha ou verde no corredor indicando se o banheiro está ocupado ou não. Coisa chique.

Os banheiros são perfeitamente utilizáveis na segunda classe. Só traga o seu próprio papel higiênico.

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Os banheiros na segunda classe deste trem são assim. Desnecessário dizer que eles estarão mais limpos no começo que após horas de viagem.

Tem vagão-restaurante? Passa gente vendendo comida?

Sim e sim, mas há algumas considerações. 

A primeira é que, como forma de aparth…, digo, de impedir que as pessoas na terceira classe simplesmente caminhem e se assentem — ou pelo menos fiquem de pé com maior espaço — nas classes superiores, os funcionários trancam algumas portas. Se você viaja na primeira ou segunda classe, a infelicidade é que o vagão-restaurante, onde há uma pequena lanchonete, fica lá com o povão. 

A segunda coisa a dizer é que, se você viajar na primeira ou segunda classe, haverá um ou dois tios vendendo lanches e bebidas não-alcoólicas dentro do trem. Não são verdadeiros ambulantes entrando e saindo, como experimentei na Índia ou na Indonésia; é mais alguém que vem circular com aquilo de que a lanchonete dispõe, já que você não pode ir lá.

Eles vendem água, refrigerante ou sucos a temperatura ambiente, chá quente com leite da garrafa térmica, bobagens de mercearia, e frituras caseiras da região (os equivalentes a coxinha no Brasil). Os preços praticados são algo turísticos, mas vá lá. Um salgado sai por 100 rúpias (R$ 2,50), o que na cidade sairia pela metade. O melhor é trazer sua própria bebida e os seus próprios lanches para não ficar só à base dessas poucas coisas disponíveis aqui.

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Aquele tio de vermelho passava de hora em hora vendendo salgados e bobagens, além de água e bebidas fora da geladeira.
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O chazinho preto com leite é de lei aqui pelo Sul da Ásia. (Nada também como um belo pé.)

Tem espaço suficiente para guardar a bagagem?

Sim. Há aqueles espaços acima dos assentos, como em tantos trens mundo afora; e se você estiver trazendo chumbo grosso, há ainda uns nichos onde enfiar volumes no fim de cada vagão.

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Lugar onde guardar volumes mais pesados.

Tem wi-fi?

Lamento dizer que não, mas há sinal de celular na maior parte do trajeto — para quem tiver obtido chip daqui (ou se disponha a pagar deslocamento).

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Melhor deixar o celular de lado e se divertir com as vistas. As paisagens da natureza e das plantações de chá no Sri Lanka são belas.

♦ Por fim: Qual sentido é melhor, e qual lado é mais bonito?

De ambos os lados você vê belezas, mas a recomendação geral — que eu aprovo — é a seguinte. O lado, obviamente, dependerá do sentido em que você faz a viagem, se Kandy ⇒ Ella ou Ella ⇒ Kandy.

Kandy ⇒ Ella. O lado direito do trem garante vistas mais bonitas até a parada chamada Nanu Oya, descida para a famosa cidadezinha de Nuwara Eliya (onde metade dos passageiros descerão). Dali até Ella, o lado esquerdo será o mais bonito — mas este já é um trecho ligeiramente menor.

Ella ⇒ Kandy. O lado esquerdo do trem oferece vistas mais belas no geral. Até Nuwara Eliya, o lado direito será melhor, mas depois a coisa se reverte. Eu fiz este trajeto sentado do lado esquerdo e confirmo.

A saber, o sentido Kandy ⇒ Ella costuma ser mais cotado e, portanto, esgotar mais rapidamente e ir com mais gente. 

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Dividir a jornada em duas partes? Pernoitar em Nuwara Eliya?

Há quem divida esta viagem em duas partes, fazendo uma pausa de 1-2 noites para conhecer Nuwara Eliya, cidadezinha colonial do tempo britânico. Depende de quanto tempo você dispõe.

Dizem valer a pena se você gostar de passear por plantações de chá, etc. Como eu já tinha feito disso no norte da Tailândia, tinha menos “efeito novidade” para mim, e acabei não conseguindo encaixar, mas quem sabe numa próxima. (Se você for, me conte abaixo nos comentários.)

Se você acabar dividindo esta jornada em duas, já sabe de que lado se sentar em cada trecho da viagem. Isto é, se não tiver lugar marcado. Se for marcado, aí é loteria. May the odds be ever in your favor [Que as chances estejam sempre a seu favor].

Plantações de chá no Sri Lanka
As verdes plantações de chá no Sri Lanka, à margem da ferrovia entre Ella e Kandy.

A minha experiência da jornada

Cheguei logo de manhã ao que era a simpática e pequena estação ferroviária de Ella, toda bem-acabada com o que deve ser o dinheiro do turismo entrando. Ela é fofa e quase um mimo; pequena, verde, e arrumadinha. Há apenas uma plataforma.

Café da manhã reforçado na pousada em Ella, e o dono se voluntariou a dar uma carona. Se você não tiver carona, vale a pena se acomodar perto da estação. Ella é um tanto espalhada, como vos mostrei no post anterior, e também ondulosa. A estação ferroviária requer uma subida breve que pode cansar, mas nada demais.

Era uma manhã de sol, e eu encontrei já um burburinho de turistas e de srilanqueses à estação. Estávamos por volta das 9h da manhã. Os trens aqui saem no horário — atenção. 

Há um guardinha a postos verificando as passagens de trem para deixar passar; lá do outro lado, há banheiros limpos e gratuitos, mas não há muitas outras amenidades na estação. Eu trouxe já lanches comprados em Ella na noite anterior, água suficiente, e compraria mais umas bobagens a bordo.

Todos esperávamos o trem.

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A estação ferroviária de Ella é essa casa colonial aí.
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A postos com as mochilas, naquela manhã tropical amena no Sri Lanka.
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As pessoas à plataforma esperando. Havia uns 70% de turistas e 30% de srilanqueses. Isto porque ainda havia restrições da pandemia; sem pandemia, há mais gente.
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A estação é tranquila. A maior parte dos turistas são jovens, gente abaixo dos 40. O guardinha indica mais ou menos em que altura da plataforma você deve ficar para sua classe correspondente, mas a indicação não é muito precisa.

Houve um (esperado) pega-pra-capar modesto na hora do embarque. Quando o trem se aproxima, todo mundo se mobiliza. Ele não chega com antecedência, nem se detém muito tempo na plataforma, então é preciso ficar esperto.

Nem todas as portas se abrem, e houve aquele movimento de gentes e mochilas e malas para um lado e outro. Quem não tem assento marcado precisa ser ágil se quiser sentar ou ficar perto da porta — pois as portas abertas também são muito cobiçadas, alguns já se põem ali e acabam dificultando a entrada dos outros. Não se preocupe demais, pois a viagem é longa e dá sempre para usar o espaço por um tempo, ou pedir licença e tirar suas fotos.

A porta da minha classe (segunda classe com reserva de assento) não abriu; tive de buscar outra porta, com mochila e cuia. Há assentos numerados, mas o afã da partida do trem é grande. Um guarda, vento-me estrangeiro e tendo lido errado a minha passagem, achou que eu estava na segunda classe sem reserva de assento e me escoltou até a terceira classe, onde havia assento. Umas famílias srilanquesas me olhavam, e o guarda lhes pediu em cingalês que remanejassem lugares a fazer espaço.

Depois foi que ele finalmente me deu atenção suficiente para ver que eu, sim, tinha reserva de assento, o que levou a outro traslado de mochilas pelo corredor do trem. (Dica vital em qualquer lugar: não saia do trem para ficar procurando lá por fora, ou ele pode partir sem você.)

Assentado, o meu vagão se revelou uma paz. Abrir as janelas para sentir o vento, fazer-me confortável na espaçosa poltrona com bem vão para as pernas, e admirar as paisagens por vir.

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O trem saíra com meros 10 minutos de atraso, por volta das 9:35, e em meia hora já estávamos com estas vistas das plantações de chá nas colinas do Sri Lanka.
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Estamos aqui a mais de 1.000m de altitude, e os mais sensíveis sentiam até um friozinho. Perto de Kandy, a altitude é menor e o calor sobe um tanto.
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Vistas com matas.
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As plantações de chá se desenhando belas na paisagem.

O chá não é nativo aqui do Sri Lanka nem da Índia; ele foi trazido da China pelos britânicos e cultivado aqui a partir de 1824 como forma de ganhar dinheiro (de os ingleses ganharem dinheiro, não os srilanqueses). A Europa estava tomada pelo hábito das casas de chá e das casas de café. Como as casas de café tipicamente eram exclusivas aos homens, as mulheres abraçaram o chá e daí surgiu toda aquela cultura vitoriana do chá das cinco e de os ingleses tomarem chá em casa.

Estamos falando, claro, do chá propriamente digo, a planta Camellia sinensis, com que se produz o chá verde, o chá preto, e o chá branco (este último feito a partir dos brotos de folhas da planta). Aqui no Sri Lanka eles têm inúmeros sub-tipos vendidos sob o poderoso nome-de-guerra de Ceylon tea. No chá, mantiveram a alcunha inglesa antiga do país, por tradição e preservação do interesse comercial.

Verdade seja dita, estas plantações têm um lado humano pouco invejável: afora a História, é um trabalho inglório ficar ali com as costas quebradas, encurvado cuidando das plantações ou colhendo chá, às vezes também expostos também a agrotóxicos. Há um realismo por detrás deste romantismo.

Porém, que as paisagens são pitorescas, são, e a bem ou mal a exportação de chá é ainda dos principais setores econômicos do país. O Sri Lanka é o segundo maior exportador de chá do planeta, depois da China.

Campos e trabalhadores nas plantações de chá no Sri Lanka.
Trabalhadores manuais nas plantações de chá no Sri Lanka.
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O chá é cultivado nestas altitudes pelas condições climáticas, e nestes declives porque as colinas permitem que a chuva irrigue o cultivo e a gravidade drene a água. A planta do chá não gosta de água acumulada.

Eu ali fiquei numa boa, apreciando as horas se passarem, as paisagens serem intercaladas por zonas rurais ou peri-urbanas nas muitas estações onde paramos, e o trem gradualmente fazer o seu caminho a Kandy. Eu me perguntava quanto de atraso teríamos.

Comi um lanche, e depois fui para a porta aberta que havia na minha área do trem. Tínhamos um grande grupo de russos que monopolizavam o espaço alternando-se para tirar fotos, seus amigos postos algumas janelas antes para fotografar quem estava à porta. Aquela coisa.

Você não me verá dependurado, mas vale a pena no mínimo chegar um tempo perto da porta aberta para sentir o vento no rosto. 

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À porta no trem entre Ella e Kandy, Sri Lanka.

Um trajeto obrigatório aqui no país. Ao que algumas horas já haviam se passado com música indiano-srilanquesa (quase sempre um dueto entre homem viril e mulher cantando em falsete, tipo assim) tocando relativamente alto dentro do trem para a ambiência, estávamos por chegar, e o calor a subir nas proximidades de Kandy.

Às 16h, portanto após cerca de 6h30 de viagem, nós chegamos.

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Chegamos a Kandy.
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O povo o saúda.
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Desembarcados, era hora de conhecermos mais esta cidade, a capital cultural do Sri Lanka. Vem aí no post seguinte.
Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

One Reply to “A viagem de trem Ella-Kandy pelas plantações de chá no Sri Lanka

  1. Linda viagem, num simpático e agradável trem, entre belos e vistosos campos de chá, elegantes colinas, e diante de uma natureza prodigiosa, nos seus 50 tons de verde. Majestosa. Muito bonita a viagem. Vale a pena . Paisagens encantadoras.
    Achei lindinha a estação ferroviária. Florida, bem arrumada cercada de natureza e clara. Alegre. assim como a plataforma.
    O trem me parece bem interessante com seu ritmo lento permitindo a apreciação das belas paisagens. Relativamente confortável. Curiosos os vendedores ambulantes.
    Imprudentes esses turistas que se arriscam, e cheios de razão os que temem não só um acidente, como seus transtornos e os efeitos sobre o turismo. Ainda bem que o senhor tem juízo hahaha.
    Apreciei muito a estação de Kandy. Bem bonitinha.
    Impressionada como um país tão pequeno e pobre tem tanta coisa arrumadinha e bonita, sobretudo essas estações. Superior a muitas estações brasileiras situadas no interior.
    Muito bem. Curiosa em conhecer Kandy.
    Linda postagem.

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