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França Île-de-France

Uma visita completa pelo Palácio de Versalhes na França

(Este será um post longo.)

Versalhes costuma ser um dos principais destinos dos brasileiros que vêm à Europa a turismo. Como não? O famoso palácio do rei Luís XIV — o rei sol, aquele que dizia ser o próprio Estado — é um deslumbre de luxos e pompa de época.

Versalhes (ou Versailles no original em francês) fica pertíssimo de Paris, de modo que é possível chegar lá no próprio transporte público metropolitano. Abaixo, eu darei as coordenadas. Faremos um passeio detalhado, em que narrarei as etapas da visita a Versalhes — suas partes, seus salões, os elementos fora do palácio principal — e darei as informações. Tudo isso regado às fotos dos lugares.

Vista da fonte com sua arte no exterior de Versalhes
Esculturas neoclássicas às fontes do Palácio de Versalhes, na França.

Era de manhã cedo em Paris. Sete horas; mas embora algumas linhas de metrô já estivessem cheias de trabalhadores vindo dos subúrbios, as ruas de Paris demoram a despertar. A essa hora, nem o supermercado abriu ainda. Só as padarias, e olhe lá.

Como que a recordar a debaucherie dos franceses da corte de outrora, eu via os sinais da debocharia da noite anterior. Embora muito limpem, garrafas vazias e embalagens plásticas — afora outras formas de lixo — faziam-se presentes naquela avenida parisiense. Não é coisa rara. Era quinta-feira.

Eu agora iria ver o palco da galanteria de outra época: Versalhes, o principal palco da corte dos absolutistas reis de França.

Eu tinha ingresso comprado para entrar no palácio às 9h — pois hoje em dia eles precisam ser agendados previamente pela internet com hora marcada. Os jardins se abrem já às 8.

Senti que seria cedo — tive que pôr o despertador, embora acabasse não precisando dele —, mas pelo menos esperava visitar o palácio antes de a maioria dos turistas chegarem.

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Bom dia, Paris. As manhãs aqui começam devagar.

 

Algumas informações-chave

Algumas informações básicas de orientação geral antes de eu seguir com a narrativa.

♣ Versalhes fecha às segundas, e se recomenda evitar as terças, quando o Museu do Louvre fecha e portanto mais turistas vêm para cá.

♣ É obrigatório adquirir as entradas para o palácio de antemão pela internet. Vários sites vendem, mas dê preferência ao site oficial para evitar pagar comissão. Se você puser no Google, encontrará uma miríade de páginas diversas oferecendo ingressos ao palácio — todos eles invariavelmente mais caros que o preço oficial. O site oficial é este e somente este: https://en.chateauversailles.fr

♣ Compre a entrada com antecedência. Mesmo durante a pandemia, eu chequei no site que de uma semana para outra já não havia mais. Imagine em tempos normais. Se você sabe que vem à França, deixe agendado tão logo quanto possível. Geralmente, dá para agendar até cerca de 3 meses antes. Isto é menos importante durante a baixa estação (novembro-março), mas pode ser fundamental nos meses quentes do ano, de alta estação turística na França (abril-outubro).

♣ Há muitos tipos de ingresso (como você verá nesta parte do site), mas são apenas dois os principais. Um Palace Ticket, com acesso apenas ao palácio principal, custa € 18. Passport é o ingresso completo para tudo que já em Versalhes (o palácio principal, os jardins, e os chamados palácios Trianon de Maria Antonieta), por € 27.

Estaremos aqui numa visita completa pelo palácio com o bilhete mais caro, o passport.

Todos os ingressos incluem direito ao audioguia em um milhão de línguas (português aí incluso), mas há tours guiados oferecidos pelo próprio palácio caso você os queira. Aí são custos especiais que você encontrará na página de ingressos. Há muitas opções em francês e algumas também em inglês ou em espanhol. Costuma ser necessário reservar com algumas semanas de antecedência.

Para vir a Versalhes por contra própria, você toma o RER-C. O RER é o trem suburbano de Paris, que tem várias linhas (A, B, C). Você portanto não se envolve com a SNCF, a companhia ferroviária. Tudo é com a rede urbana de transporte de Paris. 

Custa a bagatela de € 3,65 na máquina ou na bilheteria. Note que não é o bilhete comum de € 1,90 usado dentro de Paris. A máquina pode dar certo trabalho para encontrar o bilhete certo se você não tiver hábito, então apele à bilheteria nesse caso. Se quiser comprar ida e volta, diga-lhe aller-retour [alê-retur].

 

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Quanto custa vir até Versalhes. Meros 3,65 euros vindo desde Paris. Compra-se um bilhete para Versailles Rive-Gauche, também chamada Versailles Château. (Há outras estações de trem em Versalhes, mas essa é a mais próxima do castelo, a uma curta caminhada de lá.)
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O trem é mostrado assim, e costuma passar a cada 15 minutos. Não é preciso reservar nada aqui; é um metrô normal; só se certifique de ter o bilhete de €3,65 e não o comum de €1,90 que se usa dentro da cidade.

Havia poucos turistas a bordo quando eu entrei. Afora franceses parecendo que não iam a Versalhes, eu basicamente ouvia um quarteto, com dois casais de coroas norte-americanos praticando frases básicas de francês naquele sotaque ianque carregadíssimo.

Uma olhadela na Torre Eiffel no caminho pelo metrô e, sim, ela continua igual. Estávamos ainda no começo da manhã, por volta das 8:00-8:30.

Versalhes é hoje uma cidadezinha. Não há bons lugares onde comer na área do palácio — apenas um restaurante caro e algumas lanchonetes bem básicas. Então o ideal é vir logo bem cedo para visitar tudo até um almoço tardio em algum lugar da cidade, fora do palácio. 

Eu reservei meu ingresso para as 9:00h, o primeiro horário. Há 30 minutos de tolerância. Às 9:05, eu já estava à fila para a checagem do bilhete. Após passar pelo detector de metais, comecei já às 9:15 a circular pelo palácio antes da maioria dos turistas. Vamos nessa.

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Todos desembarcando em Versailles Rive-Gauche.
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Lá está o palácio, a meros 10 min de caminhada desde a estação. Basta seguir as pessoas.
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Estátua equestre de Luís XIV.

O “rei sol” Luís XIV é o grande personagem aqui de Versalhes, mas não o único, como veremos. Do início da sua construção em 1661 até a Revolução Francesa em 1789, este seria o centro do poder político e da alta sociedade francesa.

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Vamos entrando — o rei disse que pode. Aquela fileta que você vê ali à esquerda mais adiante é de quem já tem ingresso, passando pelo controle. Entra-se por ali.
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Os portões com a cor do metal mais cobiçado do mundo.
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O exterior da fronte do palácio. “A toutes les gloires de la France”.
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Passados pela checagem dos ingressos, chega-se a este pátio interno inicial.
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O sol matinal a brilhar lá fora…
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…e os detalhes da moderna edificação de Versalhes, erigido entre os séculos XVII e XVIII.

Versalhes: uma apresentação breve

Não faz tanto sentido vir a Versalhes sem buscar compreender pelo menos um pouco do lugar. Há belezas que o são pura e simplesmente, mas a sua visita será mais significativa se você entender um pouco as razões de ser deste palácio.

O Palácio de Versalhes foi construído a partir de 1661 a mando do rei Luís XIV, mas não foi ele o início do absolutismo na França. Já desde a Guerra dos Cem Anos (1337-1453) a nobreza francesa começou a ficar sob a alçada do rei, o único líder que podia unir a todos para expulsar os ingleses. É quando se consolida a cobrança de impostos, por exemplo — em princípio para ajudar nos esforços de guerra, mas a guerra não acabava nunca, então a cobrança de impostos se normalizou. O que antes era um acinte, uma extorsão, consolidou-se como forma de viabilizar um governo central para cuidar do bem geral.

O monarca passou a se enriquecer à revelia dos senhores feudais. Com o crescimento das cidades e das transações comerciais na Renascença, esses impostos em dinheiro valiam mais que os tributos em mercadoria que os senhores feudais extraíam de seus campesinos. À altura do reinado de François I (r. 1515-1547), o rei da França renascentista por excelência, a monarquia já concentrava bastante poder.

Vale notar que a Renascença na França se dá sobretudo durante o século XVI, portanto cem anos antes de Luís XIV iniciar seu reinado.

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François I (1494-1547), rei da França renascentista, e para muitos o começo do absolutismo no país.

Foi François I o primeiro rei francês a ser tratado por “Sua Majestade”, por exemplo, algo até então reservado ao sacro-imperador romano. Eu contarei mais sobre esse rei e a Renascença francesa em visita ao Château du Clos Lucé, onde ele abrigou seu contemporâneo Leonardo da Vinci.

Adiantemos a fita para um século depois, quando nos idos de 1650 Luís XIV era um rei adolescente ainda sem as rédeas da França. Estamos no período dito moderno, e governava a sua regente mãe, Ana da Áustria (que era espanhola apesar da alcunha), juntamente com o afamado Cardeal Mazarin.

Versalhes nada mais era do que um simples alojamento de campo do finado Luís XIII, usado para os seus passeios de caça. Em tempo, Luís XIV adolescente começaria a usá-lo como alcova para as suas aventuras sexuais, como com a nobre manceba Louise de La Vallière, dama de companhia da princesa Henrietta da Inglaterra, com quem Luís XIV também tinha um caso. Ela acontecia de ser sua cunhada, a esposa do seu irmão mais novo Philippe I, Duque de Orleans.

Você já vê como era o ambiente — antes de falar que hoje em dia é que o mundo está fora do trilho.

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Luís XIV (1638-1715), rei de França. É ainda o monarca que por mais tempo reinou na História mundial: 72 anos e 110 dias, recorde que talvez venha a ser superado pela Rainha Elizabeth II se ela seguir reinando até 27 de maio de 2024.

De toda sorte, o importante aqui é que a família real vivia de palácio em palácio: Fontainebleu, Amboise e muitos outros, dentre eles o Louvre, que séculos depois viraria o museu.

Entretanto, isso era perigoso. Mais de uma vez, Luís XIV e sua mãe foram acossados pela população motivada pela aristocracia em revolta contra um aumento de impostos ou algo que o monarca havia feito. Estar em Paris os tornava vulneráveis.

A ideia de um Versailles luxuoso que lhe servisse de morada fora de Paris surgiu após um suntuoso jantar no palácio particular do superintendente de finanças Nicolas Fouquet. Eu já falei em detalhes sobre esse jantar fatídico na postagem sobre o Castelo de Chantilly, e como o rei se sentiu humilhado por aquela pompa.

O rei mandou prender Fouquet, e trouxe para trabalhar para ele os homens por detrás do estonteante palácio do superintendente: André Le Nôtre, jardineiro real; Louis Le Vau, o arquiteto; e Charles Le Brun, pintor.

O resultado é muito do Versalhes que se visita hoje, um palácio que à época estava em constante expansão. Luís XIV levou décadas co-planejando os jardins, as fontes, os canais que ali queria, e o seu requintado Salão dos Espelhos, além de muitas outras salas que vocês verão.

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O interior do Palácio de Versalhes, com a figura equestre de Luís XIV ali mais uma vez.

Navegando o interior de Versalhes

Você, no interior do palácio, está quase sempre rodeado de gente. As pessoas estão paradas com os olhos fixados em algo — e o audioguia  à orelha feito telefone — ou estão a caminhar lá e cá, deslocando-se em bando vagarosamente como um rebanho. Fotografar é permitido, e você verá muitos com seus smartphones a fazê-lo a todo momento.

Você pode ver tudo no seu próprio ritmo. É possível ir e voltar a gosto, sem necessariamente seguir uma rota fixa.

Há uma área de museu com pinturas de época e os aposentos e salões principais do palácio. 

A Capela Real, que você encontra logo perto da entrada, trata de deixá-lo já com o queixo em queda já desde o começo.

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A vista para o interior da Capela Real desde uma sacada no segundo andar.
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A neoclássica Capela Real do Palácio de Versalhes.
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O altar.
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O teto pintado. Completada em 1710, esta Capela Real foi a última grande obra sob o comando do rei Luís XIV em Versalhes.

Os temas e o estilo neoclássico aqui reinam em Versalhes. Não faltam referências aos deuses greco-romanos.

Vai aqui, inclusive, uma curiosidade acerca da alcunha de Rei Sol de Luís XIV. Eu já vi muita gente sugerir que o apelido era porque, como bom absolutista, tudo girava em torno dele. Esquecem contudo que àquela época o heliocentrismo de Galileu e Copérnico era visto como teoria da conspiração (contra a Igreja), não como realidade.

O motivo do apelido era outro. A tônica era que ninguém questionava os movimentos do sol, e assim tampouco deveriam questionar as decisões dele. Luís XIV ademais gostava de ser associado a Apolo, o deus greco-romano que tinha o sol como um dos seus símbolos, e associado também a aspectos de virilidade e perfeição masculina.

Perfeição física não era bem o caso de Luís XIV, que começou a perder cabelo já aos 17 anos e, portanto, adotou — ou melhor, praticamente criou — a moda das longas perucas entre a aristocracia europeia. Ele também sofria um problema sério de cáries, mas ainda assim fazia uma imagem grandiosa de si. Os coaches de hoje em dia aprovariam a sua atitude positiva — e, admitamos, fica mais fácil quando se é o rei de França. 

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Figurões de peruca quando a moda se espalhou pela aristocracia europeia a partir da década de 1660. O rei inaugurava novas modas, novos hábitos, e era preciso que os nobres o seguissem, ou cairiam no seu desfavor.
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Diorama e quadros do terreno do Palácio de Versalhes, na área de museu dentro do palácio.

Tudo o que Luís XIV começava a fazer aqui em Versalhes virava moda não apenas na França, mas Europa afora. A França então era o reino mais poderoso do continente. Em 1660, com a restauração da monarquia inglesa após o breve período republicano de Oliver Cromwell, aquela realeza — que estava exilada aqui na corte de Versalhes — levaram estes hábitos também para a Inglaterra.

As modas não incluíam apenas o hábito de usar peruca para esconder a calvície —  ou evitar piolhos em cabelo de verdade, já que os hábitos de higiene eram parcos. A principal difusão não foi estética, mas política. Difundiu-se o modelo da corte absolutista, algo que praticamente todas as monarquias europeias procurariam abraçar nas décadas e séculos seguinte, na medida em que a aristocracia e a burguesia permitissem.

Os nobres disputavam o privilégio de estar presente no despertar do rei de manhã (le lever du roi), de pôr o rei pra dormir (le coucher du roi)…

Luís XIV conseguia isso com maestria jogando sempre um grupo contra o outro, e fazendo quase tudo depender dos favores dele. Toda a grande nobreza passou a ser praticamente obrigada a vir morar aqui em Versalhes com o rei, e se recusar era um insulto. O nobre não residente vinha pedir um favor, e o rei respondia dizendo que nem sabia quem ele era. (A origem real do “Quem é você na fila do pão?”)

Os nobres disputavam, por exemplo, o privilégio de estar presente no despertar do rei de manhã (le lever du roi), de pôr o rei pra dormir (le coucher du roi), de ir caçar com ele, de sentar-se à mesa com ele às refeições, e até mesmo de vê-lo defecar. Não estou exagerando. Só o sexo do rei era privativo, todos os demais momentos eram oportunidades de acesso ao rei que permitiam aos nobres intimidade, proximidade, e favores.

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Gravura de época desta vida da aristocracia francesa.

Outra curiosidade é que os perfumes se difundiram nesta época em grande parte como forma de encobrir o mau odor, já que banho era visto como algo nocivo à saúde (o que era verdade em parte, devido à má qualidade da água).

Todo o comportamento europeu se transformava. A Europa de guerreiros medievais e reis combatentes passava cada vez mais a ser uma sociedade mais complexa, de relações ambíguas onde seu aliado era também seu competidor, e assim ganhou corpo toda a etiqueta da corte que até hoje dita os modos franceses. (Durante os séculos XIX e XX, aqueles maneirismos de bonjour, s’il vous plaît, e excusez-moi seriam abraçados pela inteireza da classe média urbana.)

O que se passou a chamar de cortesia (courtoisie) nada mais é do que esse comportamento refinado dos cortesãos. Era preciso estar antenado aos joguetes políticos ao mesmo tempo em que se acompanhava a forma “certa” de estar à mesa, vestir esta ou aquela peça de roupa, e até de como pronunciar certas palavras — pois certas pronúncias denunciariam que você está por fora do círculo de privilégios. Ali estão as raízes de muitos dos comportamentos ocidentais da atualidade.

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Vamos agora pelos salões principais de Versalhes, cada qual dedicado a uma figura da mitologia grega, até chegarmos ao magnífico Salão dos Espelhos (Salon des Glaces, que curiosamente em francês poderia ser lido também como “salão dos sorvetes” — sempre uma diversão entre as crianças).

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O Salão de Hércules, com pinturas de Paolo Veronese, e que sob o reinado de Luís XV seria transformado em salão de dança.
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À parede, o quadro que foi um presente da República de Veneza ao Rei Luís XIV. O Banquete na Casa de Simão, o Fariseu (1570), do mestre Paolo Veronese.

O seguinte é o Salão de Vênus, o principal acesso aos apartamentos do rei, e onde eram servidas as entradas de frutas frescas ou cristalizadas nas festas da corte. 

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Olhem este teto, senhoras e senhores.
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O Salão de Vênus com a figura do rei Luís XIV ali.
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Note-se a figura do rei em pose de combatente grego, com o bastão de comandante numa mão e o escudo com a face da medusa sob a outra. Ele gostava de ser retratado com estes ares apolíneos.

Na sala seguinte, no Salão de Diana (Artemis), tem-se um busto de Luís XIV aos 27 anos feito por ninguém outro que o grande Gianlorenzo Bernini. E assim você vai vendo como, por séculos, a arte italiana foi absorvida e levada adiante pela França quando esta tomou a batuta de principal centro econômico de cultura latina.

Neste Salão de Diana ficava uma mesa de bilhar (sinuca), e a etiqueta ditava que se devia deixar o rei ganhar, pois era de mau tom humilhá-lo com uma derrota em público. Mas também seria um insulto perder de forma muito óbvia.   

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O Salão de Diana com busto de Luís XIV aos 27 anos, esculpido pelo mestre italiano Gianlorenzo Bernini.
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O teto magnífico do Salão de Diana no Palácio de Versalhes.
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O Salão de Marte, deus da guerra, onde ficava a guarda do palácio.
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O Salão de Mercúrio, onde se dava a cerimônia de fim do dia do rei Luís XIV.
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Aqui, os nobres disputavam quem teria a honra de preparar o rei para o seu recolhimento ao fim do dia — embora ele não dormisse aqui, preferindo fazê-lo nos seus aposentos noutra parte do palácio.
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A figura de Hermes ou Mercúrio, o célere deus do comércio.
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O Salão de Apolo, onde ficava o trono.

Percorrem-se estes vários salões, cada um dedicado a uma figura greco-romana, até que finalmente se chega ao amplo e nobre Salão dos Espelhos. Este foi originalmente concebido para ser uma varanda com terraço aberto, mas o mau tempo levou o rei a determinar que o arquiteto fechasse aquilo.

São 73m de extensão, um hall que dá para a Sala da Guerra de um lado e para a Sala da Paz do outro. Ali, espelhos enormes — sobretudo para o que se conhecia no século XVII — e que exibiam a pujança econômica e tecnológica da França de então. O rei aqui desfilava, os cortesãos se encontravam. 

Francamente, os outros palácios da Europa — tantos deles feitos à imagem e semelhança de Versalhes — ainda que mais novos empalidecem em comparação com este original, e olhe que eu já vi muitos.

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A Salão da Guerra, que dá para o Salão dos Espelhos.
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O Salão dos Espelhos, completado em 1684. Ter espelhos deste tamanho àquela época custava uma fortuna.
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O Salão dos Espalhos com seus 73m de extensão. Em 1919, aqui se assinou o fatídico Tratado de Versalhes à conclusão da Primeira Guerra Mundial.

O Salão dos Espelhos é o cume desta visita pelo interior do Palácio de Versalhes, mas não é o seu término. Você ainda passa pelos aposentos do rei e da rainha — que eram separados, como era o costume à época — e pela Sala do Conselho, onde o rei fazia as suas audiências e decidia declarar guerras.

Daqui, o rei Luís XVI em 1776 deliberou por ajudar os Estados Unidos a se tornarem independentes da rival Inglaterra. 

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A Sala do Conselho, um dos raros lugares onde os outros podiam se sentar à mesa com o rei.
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O quarto do rei, onde ele de fato dormia. Aqui, o Rei Luís XIV faleceu a 1º de setembro de 1715, de uma gangrena na perna.
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E o quarto da rainha, onde ela tinha as suas damas de companhia — e onde dava a luz em público.

O rei e a rainha tinham quartos separados porque esta coisa de casal dormir no mesmo quarto era para quem não tinha dinheiro para ter dois quartos diferentes. O romantismo de casal como o conhecemos hoje é algo do século XIX.

Se quisessem alguma coisa, bastava um ir ao quarto do outro.

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Um enorme quadro estonteante com Napoleão a coroar a sua esposa, já após a Revolução. Versalhes foi invadido e pilhado pelos revolucionários, e depois restaurado pela monarquia até se tornar, hoje, patrimônio de estado.
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A enorme Galeria das Batalhas, com 128m de extensão e mostrando as batalhas definidoras da História da França, desde a vitória de Clóvis em Tolbiac unindo os francos em 496, passando por Poitiers contra os mouros em 732, até o século XX.

Há ainda mais aposentos internos que você só visita num tour com guia, como a biblioteca, a sala de chá, etc. Este percurso que se faz por conta própria eu completei em cerca de 1h30, ouvindo as coisas do audioguia. Dei uma olhada na lojinha, e às 11h da manhã eu estava já prestes a adentrar os jardins.

Os Jardins de Versailles

Eu vou entender perfeitamente quem não tiver gás para ver também os jardins, após percorrer o palácio. De fato, o ingresso mais básico (de €18) não inclui o acesso aos jardins, onde há nova checagem de bilhete — mas eu fui no completo (de €27), que inclui tanto o jardim quanto o Grande Trianon e o Pequeno Trianon a uma caminhada dali, os aposentos de Maria Antonieta. Então vamos.

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Os impressionantes (e enormes) jardins do Palácio de Versalhes, da época do racionalismo francês de Descartes e outros — quando a norma era imprimir a vontade humana sobre a natureza, daí esta geometria.
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As flores nos Jardins de Versailles. Eles requerem um outro acesso, que você obtem com o ingresso completo. Vamos entrar.

Fazia um lindo dia de sol, e música barroca ecoava por entre os jardins. As fontes não estavam ligadas, mas mesmo assim se via aquela amplidão esplendorosa que talvez nenhum outro palácio no planeta — mesmo 300 anos depois — tenha ainda conseguido imitar.

Tem banheiro e pelo menos uma lanchonete nos jardins, em vários quiosques. Não é barato, mas também não é nenhum absurdo: 6-7 euros num sanduíche comprido, ou 5 euros por duas bolas de sorvete. São uns engana-estômago aos quais eu dei boas-vindas.

Há belas flores entre a primavera e o verão, mas é mais realmente uma grande área verde — com bosques recortados e água — que propriamente um jardim no sentido florido da coisa.

Lá adiante você vê o Grande Canal, feito à imitação do já famoso em Veneza. Ali, Luís XIV tinha uma pequena marinha estacionada, e se simulavam batalhas navais. Havia todo um avançado sistema hidráulico no qual a água se renovava para evitar mau cheiro, e as fontes eram ativadas para jorrar quando ele passava — e apenas quando ele passava.

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As flores nos Jardins de Versailles. Eles ficam detrás do palácio.
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A impressionante fonte com o Grande Canal lá adiante. Vejam como são vastos estes jardins.
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Bom dia direto dos Jardins de Versailles, na França.
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Os caminhos que há aqui. Eles são de uma tranquilidade surpreendente.
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Você precisa tomar este caminho algo longo para chegar até os Trianon, refúgios da realeza no fundo da propriedade de Versalhes. Vamos para lá.

O Grande Trianon e o Pequeno Trianon

Eu parei para comer um sanduíche, tomei sorvete, tirei fotos à vontade, e às 12:15 estava no Grande Trianon. Estes Trianon só abrem após o meio dia. São acessíveis exclusivamente a quem tiver o ingresso completo, o chamado passport

Você já foi alguma vez a alguma mansão que possui no fundo uma casinha mais recolhida? Pois foi assim que eu me senti em Trianon. Claro, tudo às enormes proporções de Versalhes, então mesmo a “casinha” é bela e relativamente grande. São, no entanto, lugares relativamente quietos, recebendo bem menos visitantes que o Palácio de Versailles. 

Estes dois Trianon são palacetes construídos pelos Luíses como refúgios nos fundos de Versalhes — antes do Tratado de Trianon (1920) ou da estação de metrô em São Paulo. A ideia era ter lugares mais reservados, aconchegantes, onde se pudesse passar umas horas ou uns dias mais em paz, longe dos agitos da corte. Afastadas também da cidade e cercadas de natureza, estas residências possuem um ar quase rural.

O Grande Trianon (Grand Trianon) foi erigido ainda nos tempos de Luís XIV para ele próprio e a sua amante-chefe ou maîtresse-en-titre (sim, existia tal função). Já o Pequeno Trianon (Petit Trianon) foi feito sob Luís XV, em 1768, e em tempo se tornaria a morada da sua afamada nora Maria Antonieta. O que ali se passava era o tema favorito das más línguas de Paris.

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O Grande Trianon, palacete construído por Luís XIV nos fundos de Versailles como um lugar onde ficar em paz com sua amante-chefe.
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O passadiço por entre as colunatas de mármore rosa no Grande Trianon.
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O Grande Trianon, naturalmente, não se compara ao Palácio de Versalhes propriamente dito — comparar-se a ele nunca foi o objetivo. Entretanto, este mármore rosa realmente encanta.
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Noivos tirando fotos de casamento aqui no Grande Trianon.

Um jovem casal norte-americano fazia fotos de casamento sob o peristilo de colunas em mármore rosa. Era possível ouvir o vento aqui nesta paragem quase rural.

Os jardins ali adiante, sob o sol do meio dia, tinham leve ar de descuido, como se já há alguns meses não recebessem muita atenção.

Com os seus ares de casa de veraneio no interior, o Grande Trianon reserva belezas interiores também. 

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Os interiores charmosos do Grande Trianon, nos fundos de Versalhes.
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Galerias extensas, mesmo aqui.
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Note como há uns ares de casa de veraneio (e bem menos gente que no palácio).

O Grande Trianon — como o Pequeno — tem bem mais jeito de morada de gente de verdade que aquela pujança do Palácio de Versalhes. Aqui, em coisa de meia hora você circula pelo que há para ver.

De alguma maneira, enquanto que Versalhes segue exibindo uma aura imponente, de algo quase vivo ainda atualmente, estes Trianon parecem ter parado no tempo — o que lhes confere certo charme, mas um charme distinto daquele do palácio.

Tudo caiu em destruição e abandono com a Revolução Francesa em 1789, e sobretudo com a extinção da monarquia em 1792. Voltou depois da restauração do Antigo Regime no século XIX, mas já sem o mesmo vigor de antes.

Depois dos revolucionários, parece que o palácio aqui foi atacado por uma turba de pombos. Havia uma certa cagança e penas partout [para todo lado] nas escadarias de Maria Antonieta.

Fui-me daqui do grande para o Pequeno Trianon, onde a austríaca rainha da França vivia. 

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O Pequeno Trianon, terminado a mando de Luís XV, o Bem-Amado, em 1768. (Esse epíteto do rei Luís naturalmente precede a obra homônima do inspiradíssimo Dias Gomes. Se ele quiser abrasileirar a relação de Luís XV com o povo de França no seu Odorico Paraguaçu, eu não sei.)
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Em 1774, com a morte de Luís XV, seu neto ascende ao trono como Luís XVI. Este em poucos meses cede esta retirada residência à sua austríaca rainha, Maria Antonieta.

Maria Antonieta & o Petit Trianon

Coitada de Maria Antonieta. Ou coitada da França com Maria Antonieta. Não sei. 

Batizada de Maria Antonia, ela era filha da poderosa Maria Theresa, imperatriz da Áustria. Foi casada (assim na voz passiva) ao príncipe herdeiro da França com a missão de alinhar as duas monarquias. Uma vez aqui, Maria Antonia passou a atender por Marie-Antoinette (ou Maria Antonieta, como é conhecida em português), e aos poucos a dominar o francês.

Não dominava, porém, os franceses. Os excessos de etiqueta da corte francesa lhe eram um contraste grande com Viena e, francamente, um fardo. Tampouco faltavam fofocas nem libelos contra ela (os libelos eram o que hoje se chamaria de fake news, só que mais perniciosos, com casos — verdadeiros ou falsos ou aumentados — que saíam nos jornais e nos teatros visando depreciar a imagem pública de alguém.)

Ela ficou famosa por ser uma gastadeira de marca maior. Enquanto o Reino de França padecia em dívidas, ela gastava em luxos sem comedimento, a ponto de a sua mãe Maria Theresa escrever-lhe chamando à atenção.

Digamos que ela e o rei tampouco se ajudavam — nem imaginavam que dali a alguns anos perderiam as cabeças na guilhotina. Levaram sete anos para consumar o casamento (o que o povo, naturalmente, sabia), e ela era conhecida por amar as artes e também os artistas, chamando esse ou aquele ocasionalmente para esta sua alcova no Pequeno Trianon. Dizem que até o rei precisava lhe pedir permissão para vir aqui, e ele não vinha muito.

Maria Antonieta acabaria virando a cabra expiatória de uma população cada vez mais descontente com a monarquia.

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As quietas instalações no Petit Trianon, onde a rainha Maria Antonieta passava a maior parte do tempo.
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Onde andava Maria Antonieta, retirada do fardo da corte em Versalhes.
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Os ares do Petit Trianon, a residência privada da rainha nos fundos do Palácio de Versalhes.
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O lugar caiu em abandono com a Revolução Francesa, e foi posteriormente restaurado por Napoleão, que o deu de presente à sua irmã Pauline.

Em coisa de 10-15 minutos você visita o Pequeno Trianon. Há ainda hoje árvores daquele tempo — como um vistoso cedro do Líbano — e bosques muito tranquilos ao redor deste palacete rural, onde você só escuta o vento nas árvores. É diferente do burburinho de Versalhes propriamente dito.

As placas aqui falam apenas da saudade de Maria Antonia pela natureza a que tinha fácil acesso na Áustria e a sua mal-adaptação à corte francesa. A parte, digamos, menos digna (dos casos e da gastança da rainha) você não verá descrita aqui nos painéis de informação. Difamada ela foi, porém pesquisadores recentemente descobriram cartas confirmando alguns dos seus casos. Os reis também os tinham, mas sabemos como a sociedade patriarcal julga sempre mais as mulheres.

Às 13:00, eu estava pronto para começar a marchar de volta para a estação de trem. De repente, dei-me conta de que tinha aproximadamente 4 Km pela frente. Eu vi um trenzinho como alternativa (provavelmente paga), mas o ignorei. Fui a pé por entre aqueles jardins e bosques que tanto viram e não viram, e tomei o trem das 14:25 rumo a Chartres.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

2 Replies to “Uma visita completa pelo Palácio de Versalhes na França

  1. Uuuuuuu!…. Que é que é isso!… que espetáaaaaculo, meu amigo. Que maravilha é essa!… Uauu. Notre Dame de Paris!…irreal de tão belo. Parece que entramos em um castelo dos contos de Fadas!…
    Quanta beleza, que lindos espelhos, que magníficos lustres… Quanta riqueza!…, que efeito que causam diante das luzes, das belíssimas pinturas nas paredes e nos tetos. Une richesse!…
    Cada salon mais bonito que o outro.
    Magnificas essas pinturas nos tetos e paredes. Quantas histórias belamente representadas!…Que belas tapeçarias. E o mobiliário de época é deslumbrante. Um esplendor!…
    Uma representação impressionante , de rara beleza, envolvendo uma época áurea e conturbada da História e da vida francesas.
    Que gênios, esses artistas que ergueram, pintaram , esculpiram, narraram através do seu pincel e do seu escopo, as figuras e as cenas, e decoraram, esse magnífico Palácio, maravilhoso testemunho de tantas histórias de vida. Um esplendor de Arte e de História. Impressionante!… Soberbo!… encantador!…
    Imperdível a visita.
    Encantada e surpresa pela nível de conservação de tamanhos tesouros.
    Parabéns aos curadores, ao governo francês e sobretudo ao senhor, meu amigo viajante, por nos possibilitar essa bela visita, a partir as vossas postagens.
    Félicitations pour le beau post, pour la belle écriture et belles images.
    Félicitations.
    Allons-y.

  2. Destaques para o estilo arquitetônico , a ambientação, o jogo de luzes, a decoração de época de cada salão, e claro da belissima e geométrica jardinagem.
    Apesar dos equívocos e prejuízos causados com sua linha de pensamento,- na minha visão-, ponto para Descartes, na inspiração da geometria dos jardins. Belissimos.
    Belo Palácio; por dentro e por fora.

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