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França Vale do Loire

Chartres (França) e a sua magnífica catedral medieval gótica

Chartres, França. Estamos a 90 Km de Paris, na cidade histórica de uma das mais antigas e emblemáticas catedrais góticas que há. É também das melhor preservadas, com vitrais originais que remontam ao século XII. Resistiu até às Guerras Mundiais — com histórias curiosas por detrás.

Quem procura aquele típico ambiente misterioso do medievo que imaginamos — em que misticismo religioso e sombras misturam-se às belezas góticas de um outro tempo — não se desapontará aqui. 

A Chartres de hoje é uma cidade moderna (ela infelizmente não resistiu muito aos bombardeios no século XX, ao contrário da catedral), e quando se adentra a igreja se passa a um outro ambiente, um outro tempo. 

Chartres é também uma viagem curta, que pode ser feita como um bate-e-volta desde Paris e até mesmo combinada com o Palácio de Versalhes, se você se planejar. Ambos ficam na mesma direção, e Versalhes meio que é quase metade do caminho entre Paris e Chartres. Eu mostrei aquela primeira parte do caminho no post anterior, e agora é hora de completá-lo. 

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Chartres tem o seu legado de áreas pitorescas ainda.
A Catedral de Chartres
A portentosa Catedral de Chartres, construída entre 1194 e 1220, e Patrimônio Mundial da Humanidade tombado pela UNESCO.

Chartres: um pouco sobre a cidade histórica

Chartres fica na região popularmente conhecida como o Vale do Loire. Trata-se da área às margens do rio Loire [lê-se “luar”] considerada o berço da França por todo o seu papel-chave na História deste país desde os albores da Idade Média. São muitos os castelos, catedrais góticas e paragens campestres que atraem milhões de visitantes todos os anos.

A cidade em si pré-data até a chegada dos romanos. Viviam neste lugar os carnutos, um dos povos da antiga Gália. Civitas Carnutum em latim virou Chartres em francês.

Este foi o berço da França porque aqui ficavam as terras de posse do rei, enquanto que país afora havia múltiplos condes e duques que mandavam mais do que o monarca na Idade Média. Então os reis aqui de fato governavam, perambulando de castelo em castelo, os quais começaram a ficar cada vez maiores e mais requintados a partir do século XV — culminando com palácios como Versalhes ou Chantilly no século XVII. 

Os Vikings em Chartres

Chartres foi atacada, pilhada e destruída pelos vikings em 858, e depois mais uma vez em 911 por Rollo, o líder viking — retratado em seriados — que viria a se tornar Duque da Normandia, como vos contei em Rouen.

Dali a alguns séculos, se contaria a história de que o bispo de Chartres espantou os vikings brandindo o véu de Nossa Senhora — tido como relíquia supostamente guardada aqui na catedral até hoje —, e que a Virgem intercedeu pelos franceses. Segundo a crença, seria precisamente o véu que Maria usava quando da Anunciação pelo arcanjo Gabriel.

Seja como for, se tal véu chegou aqui mesmo ou não como presente do imperador em Constantinopla a Carlos Magno, cristãos de fé passaram a peregrinar a Chartres em grande número, o que junto com um terreno fértil — e próximo da Coroa — fez prosperar a cidade.

Breve, já no século XII, ela levantaria aqui uma imensa catedral.

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O sol raiando sobre o crucifixo e os vitrais medievais (originais!) da Catedral de Chartres.
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O interior amplo da vasta Catedral de Chartres e a sua nave gótica. À altura de 1220, ela já estava praticamente pronta.

Os detalhes da Catedral de Chartres

Há um guia inglês chamado Malcolm Miller que praticamente habita a Catedral de Chartres e gosta de dizer que não se pode vê-la toda num só dia. Ele é especialista (autor de livros e guias sobre a catedral) aqui desde 1958, e portanto já um senhor bem idoso (se é que ainda não terá sido chamado pelo Pai quando você estiver me lendo).

São, de fato, inúmeros os detalhes. Mais de 150 vitrais preservados dos séculos XII ou XIII — o maior número dentre todas as catedrais da França. Tudo nas cores medievais tinha razão de ser, simbolismo, e são muitas também as estátuas dentro e fora. 

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Passagens bíblicas em imagens no interior da Catedral de Chartres.
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Dos muitos vitrais dos séculos XII ou XIII retratando cenas. Está vendo aquele bem azul ali com a Virgem Maria? É o mais famoso de toda a igreja, e antecede a catedral.
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Estes vitrais datam dos meados do século XII e foram posteriormente agregados à igreja. O azul na Idade Média simbolizava a sabedoria divina — talvez por ser a cor do céu — como se vê também nas pinturas de Giotto. Descobriu-se à época como usar cobalto para gerar tons de azul no vidro, o que rendeu estas belezas da época que alguns apelidam de a “Revolução Azul”.
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Hora de pisar neste chão de séculos.

Voltas por Chartres

Uma laje de concreto armado cobre a plataforma na estação despretensiosa de Chartres. A cidade, claramente, já gozou de tempos mais ricos.

Você ali desembarca sem fazer muita ideia do que esta cidade significou — das peregrinações medievais que levantaram a catedral, das riquezas de outrora, ou da presença próxima dos reis. A catedral, entretanto, logo surge em vista. Você sai numa praça calçada como tantas hoje França afora, onde jovens se sentam e alguns circulam de patinete ou em bicicleta.

Havia bem pouca gente. Na igreja, eu veria alguns grupos de idosos com guias e outros viajantes. No mais, pouco parecia uma cidade turística — parecia mais uma cidade normal em dia de feriado. Eu, por vezes, seria a única pessoa descendo certas ruas.

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A plataforma de concreto na estação ferroviária de Chartres. Chega-se aqui em 1h desde Paris num trem regional cuja passagem você compra no ato, numa das máquinas à estação ou pelo site ou pelo aplicativo SNCF Connect.
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A moderna Gare de Chartres, produto do século XIX. (Gare é estação ferroviária em francês.)
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Um destes letreiros típicos da Era do Instagram que se tornaram comuns mundo afora. E olhe lá adiante a catedral, à qual se chega com uma leve caminhada.

O centro de Chartres tem ares estudantis, tanto pelos que o habitam às tardes e às noites quanto, sobretudo, pela “requalificação” (um termo também usado em francês) completada aqui recentemente. Divide opiniões.   

De todo modo, não nos demoremos: sigamos logo à catedral, o que há de principal a ver aqui. Eu caminhei por ruas quietas até lá.

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Encarando a Catedral de Chartres de frente.
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Ei-la.
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Os detalhes das arcadas — e as portas parecendo saídas da Idade Média.
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Os detalhes com a figura de Jesus e os apóstolos embaixo.

Vista da lateral ela consegue ser ainda mais bela.  

Vista lateral da Catedral de Chartres.
O lado da Catedral de Chartres.
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Saudações.
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A arcada…
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… em detalhes.

Vamos entrar?

Há tours guiados aqui costumeiramente 2x ao dia, às 12:00 e às 14:45 — mas verifique no site oficial para ter certeza, pois eles variam conforme a época do ano.

Se você quer tours em inglês (e não em francês), e quem sabe até com o próprio Malcolm Miller (se você vier enquanto ele ainda é vivo), precisa escrever-lhe ou telefonar-lhe através deste contato aqui. Se não me engano, custa €12 por pessoa. Já a entrada por conta própria é gratuita. É possível alugar um audioguia também, se quiser.

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Você adentra a Catedral de Chartres e até se surpreende com a claridade, embora haja partes também escuras neste interior.
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Caminha um pouco e vê no chão o labirinto, produto do século XIII feito nas próprias pedras do chão da catedral, simbolizando o caminho que os fiéis precisam navegar — às vezes por vias não retilíneas — para chegar a Deus.

A ideia não é justificar transgressões em nome do divino, mas demonstrar que o caminho individual de cada um às vezes tem percalços, e que com persistência você chega lá. 

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O altar com vitrais ao fundo.
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A linda rosácea do outro lado.
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Poxa, Igreja, 18 euros por uma intenção de missa?
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A catedral, por dentro, é até ligeiramente mais simples que aquelas de Rouen, Amiens ou Reims, talvez, mas os vitrais aqui talvez sejam os mais impressionantes de todos.
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Mas nenhuma destas catedrais góticas francesas é realmente menos que estonteante.
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Os soberbos vitrais do século XIII.

Chartres para além da catedral

Chartres não é uma cidade onde se passar muito tempo. Pode muito bem ser combinada com Versalhes no mesmo dia, se você tiver gás. O essencial aqui mesmo é a catedral, mas há algumas outras paragens por onde perambular se você quiser.

Eu, por exemplo, desci a ver o que restou da cidade antiga, às margens do modesto rio Eure. À diferença do que ocorre noutras partes, essa área mais histórica não é exatamente o centro atual da cidade — fica a algumas quadras dali, por vias que sobem e descem, e casas que não formam realmente “quadras”.

Desci até a Rua do Massacre.

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Os caminhos tranquilos — deveras quietos, na verdade — do antigo centro de Chartres. Pessoas seguem morando aqui.
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Sobes e desces em vias típicas da época.
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O modesto rio Eure, um afluente do rio Sena.
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As casinhas pitorescas.
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Não parecia haver viv’alma, mas havia beleza.
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A Rua do Massacre, “sítio de um antigo abatedouro”. (Depois dizem que só o Brasil é que aparece com estas.)

Se você estiver a se perguntar onde andavam as pessoas, elas estavam quase todas no centro não-histórico — ou menos histórico — na parte moderna da cidade. É onde também estão os bares e restaurantes, caso você esteja a procurá-los.

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A figura de Jean Moulin numa das ruas de Chartres, ele que foi um agitador da resistência francesa aos nazistas e acabou morto pelos alemães em 1943. Era desta região.
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Monumento a Jean Moulin, tido como um mártir pela liberdade na França.
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As ruas do centro da cidade, onde a juventude anda.
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O centro de Chartres. Nada de muito histórico.

Uma historieta final para concluir. 

A Catedral de Chartres quase foi explodida pelos norte-americanos durante a Segunda Guerra Mundial. Havia uma crença de que ela estava sendo usada como abrigo para franco-atiradores nazistas nesta França ocupada, e a ordem havia sido dada para a artilharia abrir fogo.

Entretanto, o coronel Welborn Griffith do exército americano se recusou a fazer aquilo. Ao invés, pegou um motorista e veio pessoalmente à catedral, subindo até a torre e constatando que não havia ninguém ali. Comunicou então que cancelassem a ordem, evitando que esta obra-prima medieval virasse sacrifício desnecessário na guerra.

Poucas horas depois, ele foi morto numa cidade vizinha, a 16 de agosto de 1944.

A catedral segue de pé. 

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Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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