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Itália Puglia

Monopoli, charme medieval à beira-mar no sul da Itália

A gente quase nunca imagina o medievo à beira-mar — ao menos não muito na Itália. 

Monopoli, cujo nome significa “única cidade”, foi o que sobrou de uma destruição dos bárbaros ostrogodos após a queda de Roma. É uma cidade antiquíssima, de antes mesmo de os romanos dominarem o sul da Itália, num promontório à beira-mar que já é habitado desde 500 a.C. 

Esse castelo que você vê na foto de abertura é o Castelo de Carlos V, mais um dos muitos que esse imperador espanhol ordenou construírem aqui nos idos de 1500. Ele se deu sobre fortificações ainda mais antiga, feitas no tempo medieval para defender esta costa sul-italiana das constantes incursões árabes.

Hoje, Monopoli — que já está longe de ser a única cidade — é uma cidadezinha de 50 mil habitantes, com uma parte moderna e um núcleo medieval bem à beira-mar aqui na costa da Puglia. Há quem venha para tomar banho de mar (e você vai ver vários deles), eu vim para conhecer e sentir a atmosfera deste lugar. Vamos conhecê-lo.

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Portão do Antigo Porto, do século XV.
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As estreitinhas ruas aqui do centro histórico de Monopoli, hoje turístico. Com italianos a gesticular.
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O aspecto geral da cidade outrora fortificada, com uma breve praia e casas brancas por influência grega. A Grécia, afinal, está logo ali do outro lado do mar.

Chegando a Monopoli

Monopoli fica a uma curta viagem de trem desde Bari, capital aqui da Puglia. Menos de 1h em trens regionais frequentes o levam entre uma e outra — com partidas frequentes e sem necessidade de reserva antecipada (detalhes sobre trens na Itália aqui.)

Eu, entretanto, vim no sentido contrário, desde Lecce mais a sul, retornando gradualmente até Bari. Conhecer a Puglia é preciso, então me detive aqui. De Lecce, é coisa de 1h de trem até aqui.

Era uma tarde fresca e calorosa em Monopoli, entretanto tranquila pois não há hordas de turistas estrangeiros aqui, apenas um ou outro. A maioria dos que visitam esta região me pareceram ser italianos de outras bandas vindo conhecer a Puglia.

Mapa da Puglia
Mapa da Região da Puglia na Itália. Veja Monopoli ali no litoral no centro. Bari é a capital regional.
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Duas italianas a conversar diante da estação ferroviária de Monopoli.

Dali você ainda caminha 1 Km até propriamente o que é o centro antigo, passando por quadras pacatas de Monopoli. Segui naquela tarde com a sensação de estar numa versão algo mais quieta das tardes de domingo no Brasil. As praças, claro, estão melhor conservadas aqui na Itália.

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Sol e flores nesta tarde em Monopoli, Puglia, Itália.
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A Praça Santo Antônio (Piazza Sant’Antonio).
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Mais adiante, cruzamos a Praça Vittorio Emanuele II.

A catedral dá as boas-vindas

A Catedral de Monopoli — formalmente a Basílica Concattedrale di Maria Santissima della Madia — é que dá as boas-vindas, ela que fica já à borda do centro histórico com as ruas da cidade moderna. Em alguns pontos dessa margem há portas de entrada, já noutras, não. 

“Concattedrale” é porque Monopoli e a cidade vizinha de Conversano fundiram as duas dioceses em 1986, fazendo as suas duas igrejas principais ser “concatedrais”. (Eu nunca antes havia ouvido falar nisso.)

Ao visitante, mais importante é a beleza rococó de barroco tardio dessa igreja com seus mármores e cores. Ela foi erigida — e derrubada para reconstrução — diversas vezes ao longo do último milênio, a mais recente obra (a atual) sendo finalizada em 1772.

A concatedral fica de frente a uma praceta pitoresca no que são de outro modo ruelas bem apertadas no centro de Monopoli, onde não passaria sequer uma carruagem. Aqui, entretanto, há um espaço amplo com arte nas rochas e oliveiras a decorar — a cara do sul da Itália.

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A barroca Catedral de Maria Santissima della Madia, concluída neste formato em 1772.
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Note a estreiteza dos caminhos aqui de Monopoli e o vaso com a oliveira ali.
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A fachada diante da catedral nesta praceta.
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Com o sol da tarde ali.

Se você está a se perguntar o que é “Madia“, o nome vem do português e do espanhol. Ou melhor, do árabe. Almadia — que consta no nosso dicionário — designa uma forma de jangada nas línguas ibéricas.

Reza a lenda que, ainda no século XII, quando liderava uma reforma anterior da catedral, o bispo Romualdo solicitou a intervenção da Virgem Maria para encontrar madeira que lhe permitisse finalizar a obra. 

Dizem que um morador da cidade sonhou com Nossa Senhora lhe dizendo que uma almadia havia encalhado aqui, e levantou-se de noite para ir avisar ao bispo. Dom Romualdo mandou-lhe embora, que fosse para casa dormir.

Entretanto, três vezes o sonho se repetiu, até que o bispo teria vindo ver com uma procissão e ali visto uma imagem sobre a almadia — ela que ficaria conhecida por Maria Santíssima della Madia em italiano.  

BARDELLINO ridimenssionato
A Chegada de Maria Santissima della Madia, obra do pintor Pietro Bardellino (1728-1806). A ocasião religiosa é celebrada todos os anos em 14 de agosto como festa da cidade em Monopoli.

Vamos adentrar o que é uma igreja belíssima, plena de mármores coloridos.

Interior da Catedral de Monopoli, Puglia, Itália
O interior da Catedral de Monopoli, a Basílica Concattedrale di Maria Santissima della Madia.
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A riqueza de detalhes dos altares de mármore desta catedral terminada em 1772.
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Tudo isso são cores distintas de mármores recortados e postos num arranjo.
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O teto sob a cúpula.
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O teto num barroco tardio praticamente rococó, de cores leves em vez de soturnas.
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O órgão ao fundo.
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Um dos altares, com tons de rosa e a Santa Ceia.

Toda essa riqueza foi, em parte, efeito do vigor artístico deflagrado no sul da Europa pelo movimento da Contrarreforma. Com o protestantismo espalhando-se nas Europas Central e do Norte a partir dos idos de 1520, a Igreja Católica reage com a constituição de ordens missionárias (notadamente, os jesuítas) e certa revisão de algumas ações.

Coincidindo com a Era dos Descobrimentos, a pujança comercial portuguesa, e pilhagem dos recursos das Américas, estes países católicos conseguiram investir bastante na arte e nestas obras.

Mas houve coisas pitorescas também, como uma insistência redobrada na doutrina do purgatório. A crença num limbo onde as almas permanecem após a morte é algo vetusto, pré-cristão, mas que provou ser um ponto de discórdia quando no século XI a Igreja Católica construiu toda uma teoria em cima da noção de purgatório e de como as pessoas em vida podiam orar assim como realizar indulgências materiais para essas almas com destino ainda indefinido. 

Por que estou falando disso? Porque os protestantes foram rápidos em negar a existência de tal coisa, e a Igreja reagiu construindo várias igrejas dedicadas precisamente ao purgatório aqui pelo sul da Itália. Há figuras de esqueletos e, dizem, múmias de finadas eminências da Igreja aí no interior.

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Por estes meandros se chega à Chiesa di Santa Maria del Suffragio, dita Igreja do Purgatório (Chiesa del Purgatorio).
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Logo atrás da catedral, Monopoli adentro, a Igreja do Purgatório, uma de várias erigidas pelo sul da Itália como parte da Contrarreforma (1550-1650).
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Você talvez não tenha notado os esqueletos no centro da porta, nem as caveiras na moldura. Há um certo foco nas vicissitudes humanas.
Igreja do Purgatorio 02
Esta foto é do jornal regional La Gazzetta del Mezzogiorno, com as múmias dos eclesiásticos. Quando eu vim, ela estava fechada e não pude ver os defuntos pessoalmente. Eu, hein.
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Voltemos à Monopoli do mundo dos vivos.

Meandros brancos e cremes em Monopoli — e o mar

Se as cidadezinhas costeiras das regiões da Campânia, onde fica Nápoli (costa amalfitana, Sorrento…), e da Ligúria (Cinque Terre & cia), têm por tradição aquele casario colorido, neste lado de cá da costa da Puglia a tradição é mais grega: coisas nas rocha ou pintadas de branco. Talvez seja simplesmente porque a Grécia está bem perto, e historicamente ela influencia esta parte da Itália há milênios.

Adentrando pelos meandros dos bequinhos de Monopoli (cidade de nome grego), temos portanto as coisas em tom de rocha creme ou pintadas de branco — com um quê italiano aqui e ali, é claro.

Você tem um lado mais residencial, quieto, deste centro histórico e outro mais comercial, turístico. Você saberá qual é qual, e dá facilmente para percorrer ambos. Eu comecei pelo residencial, ainda bastante autêntico.

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Os caminhos de Monopoli. A roupa estendida na sacada lhe mostra que pessoas continuam a viver aqui.
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Olha a singeleza destas moradas.
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Vias muito tranquilas, meandros onde eu parecia andar sozinho.
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Arcadas antigas nesta cidade medieval costeira italiana.
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Plantas às entradas.
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Sigamos em frente…
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Até que chegamos à beira-mar.

Verdade seja dita, a “praia” de Monopoli me lembrou muito mais uma costa medieval onde navios de madeira atracam do que uma praia no sentido instagrâmico de hoje em dia — aquela coisa bonita, com sol, palmeiras e grandes extensões de areia diante de um mar belo. 

Vide o mare quant’è bello, e ele inspira mesmo sentimento, mas não me foi exatamente o de entrar ali naquela apertada faixa de areia entre as águas e a antiga muralha da cidade. 

Entretanto, viam-se vários aqui em Monopoli a boiar em colchões infláveis sobre a ela ou passear com cachorro ali na costa. 

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Colchões infláveis, e alguns homens a brincar nas areias de Monopoli — a antiga cidade fortificada por detrás.
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Os italianos meio que encaram qualquer pedreira como “praia”.
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As fortificações do Castelo de Carlos V com o mar por detrás.

Esse castelo data do início do século XVI, quando os turcos otomanos ameaçavam invadir esta costa da Itália. Ele é relativamente pequeno, e se vê ele basicamente por fora. Fica numa das pontas deste centro histórico, logo ali ao mar.

Você daí facilmente migra — sem perceber — da área mais residencial para a área mais comercial e turística do centro de Monopoli. Começa a ver cadeiras e mesas ali, algumas vendas chamativas, e ocasionalmente pessoas não-italianas a passar. 

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Os bequinhos de Monopoli vão ganhando contornos mais turísticos.
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Fica jeitoso.
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Olio e Vino.
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O porto antigo.
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As pracinhas…
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… e as vias mais comerciais deste centro de Monopoli.

Aí você encontra daquelas coisas pitorescas típicas italianas…

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Carro antigo. Um quê daquela Itália dolce vita do pós-guerra.
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O lado religioso porém satírico. “Diabo e água benta”, recheio do panzerotto do dia. (Um panzerotto é como um pastel, ou um calzone pequeno.)
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E o lado bucólico deste Mediterrâneo aqui em Monopoli, com oliveiras e casario branco ali. Um quê de Grécia.

E assim a vida segue, e seguiria eu. Antes de retornar a Bari, eu teria ainda mais uma parada: Polignano a Mare. Vejo vocês lá — é onde cairá a nossa noite.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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