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Itália Puglia

Conhecendo Bari, a capital da Puglia — com as relíquias do Papai Noel

(Este será um post longo.)

Não é todo dia que se vem parar na cidade onde estão as relíquias — os restos mortais — do Papai Noel. Digo, do histórico São Nicolau, bispo bondoso do século III que teria inspirado o bom velhinho.

Mapa Puglia
A Puglia, uma das regiões mais interessantes da Itália.

Estamos em Bari [BÁ-ri], a capital da Puglia, região que domina todo o salto da bota italiana (ver mapa).

É uma outra Itália que não é aquela da pujança de outrora de Veneza, nem da majestade eterna de Roma, nem do glamour artístico de Florença.

Bari representa bem a Itália campestre — aquela Itália da cantina italiana, da nonna fazendo massa, das toalhas de mesa em vermelho e branco. Da imagem católica pendurada na parede, do homem impaciente que fala alto, e daquela generosidade algo turrona.

Em suma, Bari me evoca uma Itália “povo” que tanto gostei de encontrar aqui viva, uma Itália tradicional que tão bem se preserva aqui neste sul.

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Senhoras sentadas, conversando e fazendo massa, nas ruas do centro histórico de Bari.

Quem és tu, Bari?

Permitam-me falar um pouco sobre a cidade, para não ficar aquela coisa caída de pára-quedas. 

Bari não é uma cidade pequena, nem um vilarejo. O mais interessante aqui me foi precisamente isso: encontrar uma cidade moderna de médio porte (623 mil hab.), com ruas que por vezes me lembraram o centro de São Paulo ou Belo Horizonte, mas com um miolo histórico autêntico — habitado! — que o transporta rapidamente a outra era.

Bari, cidade que já foi grega, cidade que já foi árabe, que já foi porto de tráfico de escravos e cidade de São Nicolau (embora não exatamente).

A cidade tem um dos melhores exemplos que eu conheço de centro histórico turisticamente interessante e não-gentrificado. Quer dizer, é autêntico, com os próprios moradores dali, e não repleto de lojas de outrem. O centro de Bari segue sendo, inclusive, bastante residencial.

Uma curiosidade é que eles aqui me pareceram mais resmungões que a média italiana nacional. É engraçado. Bari parece muito habitada por aquela figura clássica da pessoa italiana capatosta (literalmente: cabeça dura), gíria daqui mesmo para denotar alguém teimoso e obstinado.

Mas eu já já chego lá. Deixem-me falar primeiro de quem é Bari, cidade que já foi grega, cidade que já foi árabe, que já foi porto de tráfico de escravos e cidade de São Nicolau (embora não exatamente).

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Diante do castelo normando-suevo, também conhecido por Castelo Hohenstaufen, do século XII. Sim, Bari também já foi franco-alemã.

A Bari antiga e medieval

Bari era Barium nos tempos da república romana, que a conquistou de nativos aqui do sul da Itália no século III a.C.. Já havia então muitas influências gregas.

Com a queda de Roma, os bárbaros ostrogodos a tomaram, depois os lombardos, os bizantinos, e nas alturas de 847 vieram os árabes constituir o Emirado de Bari aqui. Garanto que nunca tinham lhe informado que partes da Itália já foram emirados muçulmanos.

O medievo foi uma época de que pouco se ouve falar hoje no contexto italiano — como se nada houvesse ocorrido nos quase 1000 anos entre a queda de Roma e o Renascimento —, mas que foi fundamental ao sul da Itália. 

Tanto a genética morena dos italianos do sul quanto sua genética cultural — com alimentos asiáticos então exóticos (limões, beringelas, pistaches) sendo introduzidos aqui pelos árabes — devem muito ao período medieval como um todo e suas trocas.

Emperor Louis II before Bari
Litografia de 1850 mostrando o que teria sido o ataque de forças cristãs em 871 sobre o Emirado de Bari.

A Igreja, é claro, não gostou nada de ver um emirado muçulmano assim tão perto de Roma. Convocou cavaleiros cristãos do que são hoje o norte da Itália, a França e a Alemanha para reconquistar aquela região, num prelúdio do que mais tarde seriam as Cruzadas (a partir de 1096).

Naquela altura já do século XI, dois movimentos foram muito importantes neste contexto. Primeiro, a vinda de cavaleiros normandos (do atual norte da França), mercenários chamados por nobres italianos e pela Igreja para combater os árabes em troca de terras e títulos de nobreza nas terras conquistadas. Estes retomariam todo o sul da Itália dos muçulmanos, especialmente a Sicília, como lhes detalhei em Palermo

O Grande Cisma — a separação entre as Igrejas do Ocidente (Roma, rito latino) e do Oriente (Constantinopla, rito grego), que se excomungaram mutuamente — já havia ocorrido em 1056. Esta região da Puglia, que após os árabes estava dominada pelos gregos bizantinos de Constantinopla, foi então conquistada por aqueles mesmos normandos em 1071.

O segundo grande movimento daquele século XI foi a chegada de turcos à atual Turquia, que então era território grego bizantino. Já islamizados no seu longo caminho desde a Ásia, os turcos em 1071 venceram a crucial Batalha da Manzikert, na qual derrotaram os bizantinos e finalmente adentraram para vir a tomar conta da Anatólia (o grosso do território da atual Turquia).

É aí que entra São Nicolau na história de Bari. Eu, francamente, nem sabia que o encontraria aqui.

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São Nicolau de Bari, como ele é conhecido, fazendo a versão original do “paz e amor” cristão.

São Nicolau e Bari

Jaroslav Čermák 1831 1878 Sv. Mikuláš
São Nicolau, num quadro do século XIX pelo pintor tcheco Jaroslav Čermák.

São Nicolau (270-343 d.C.) nunca pôs os pés em Bari — ao menos não enquanto foi vivo.

Ele nasceu na região da Lícia, no que é hoje o sul da Turquia. À época, era a chamada Ásia Menor, de população e cidades predominantemente gregas. Ele viveu e foi bispo ali mesmo na região, na cidade de Myra, e a sua vida foi algo distinta daquelas da maioria dos primeiros santos cristãos.

Ao contrário de tantos outros, ele não foi martirizado: os seus mais famosos momentos são em vida, não da morte.

Pouco se sabe sobre a veracidade de qualquer destas histórias, mas os “causos” que lhe são atribuídos são muitos. O mais famoso é de quando ele teria dado secretamente — atirando-as pela janela no meio da noite — três bolsas de moedas ao pai pobre de três jovens, para pagar seus dotes de casamento e elas escaparem de ir parar na prostituição.

Essa é basicamente a lenda formadora da tradição de presentes secretos no meio da noite no Natal — mas há muitas outras não-relacionadas, como ter salvo três homens de uma execução injusta, etc. Dizem ter havido uma adaptação em massa de feitos creditados ao filósofo Apolônio de Tiana (3-97 d.C.), da mesma região, que os cristãos tinham por hábito adaptar e creditar aos santos.

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Pintura de 1425 por Gentile da Fabriano, “O dote das três virgens”, contando o feito mais famoso de São Nicolau — que você vê ali subindo na janela. O original encontra-se na Pinacoteca Vaticana, em Roma.

A história mais estranha — e por isso das mais populares no medievo — sobre São Nicolau é de um açougueiro que fazia presunto de crianças e vendia secretamente na cidade. São Nicolau teria descoberto e, com o sinal da cruz, trazido as crianças de volta à vida aquelas crianças transformadas em embutido de carne.

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Vitral do século XVI com São Nicolau e as crianças revividas após terem sido transformadas em embutidos de carne no barril. Estas imagens, vistas sem a história de fundo, acabariam por consagrar São Nicolau como padroeiro das crianças na visão do povo — daí tal ênfase a elas no Natal.

(E você aí achando que hoje é que o mundo e a imaginação das pessoas estão estranhos… )

Não se sabe o que São Nicolau realmente fez, mas a sua fama se espalhou, e naquelas alturas do ano 1000 já era comum que cristãos peregrinassem até Myra para visitar as suas relíquias.

Só que, após Manzikert em 1071, haveria turcos no meio do caminho. 

Sob domínio turco, os cristãos perdem acesso à igreja lá em Myra com os restos mortais de São Nicolau. É então que marujos aqui da Puglia decidem ir lá fazer um Resgate do Soldado Ryan post mortem e trazem os restos mortais de São Nicolau para… Bari.

Já em 1087, seria fundada aqui a Basílica de São Nicolau (agora) de Bari, o que foi também uma estratégia para atrair peregrinos e dinamizar a economia da cidade. Essa basílica se encontra bem de pé aqui para você visitar.

Lá no oriente próximo, seria apenas uma questão de tempo até a questão do acesso dos cristãos europeus aos sítios de peregrinação — crucialmente em Jerusalém — se tornar um dos motivadores das famosas Cruzadas contra turcos e árabes a partir de 1096.

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A grande Basílica de São Nicolau em Bari, construída a partir de 1087 e finalmente consagrada em 1197. Ela é toda em estilo romanesco, de antes do gótico.
Arcos romanos no interior da Basílica de São Nicolau em Bari
O interior românico da Basílica de São Nicolau, imensa e relativamente rarefeita em Bari. Poucos turistas por aqui.
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O altar-mor, com suas colunas e arcos romanos.
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O teto.
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A cripta, onde ficam os restos mortais do famoso São Nicolau.
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O seu túmulo, reinstalado aqui após a conquista do lugar de origem (Myra na Anatólia) pelos turcos.

Só para completar este prelúdio histórico, Bari — como Veneza e outras cidades mercantes do Adriático — prosperariam também como portos de comércio de escravos.

Às vezes se vê certo provincialismo culpar os portugueses pela suposta invenção escravagismo comercial, mas isso foi prática corrente no Mediterrâneo medieval. Os escravos, porém eram eslavos — origem etimológica da palavra “escravo” — apanhados na atuais Croácia, Ucrânia e Rússia.

Não é nenhuma bondade que os faz receder nesse tráfico, mas o avanço dos turcos que em 1453 conquistam Constantinopla e, basicamente, aniquilam o Império Bizantino, tomando para si o acesso ao Mar Negro. Os europeus mediterrâneos dali olhariam alhures para escravos de outro lugar, que traficariam em números bem maiores…

Enquanto isso, aqui em Bari, tivemos o castelo erigido pelo rei da Sicília Rogério II em 1132, e que seria ampliado sob Frederico II, o apelidado de stupor mundi, para que relembra o post em Palermo. Aqui ele teria se encontrado e conversado com São Francisco de Assis, dizem.

O castelo segue inteiro, na forma que lhe deram no século XVI quando a Europa teve medo que os turcos chegassem até aqui. (Falei-lhes disso melhor em Lecce.)

Hoje, é um lugar onde passear e tomar sorvete. 

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O Castelo de Bari, dito também o Castelo Normando-Suevo ou o Castelo Hohenstaufen (a família de Frederico II, rei da Sicília e sacro-imperador, que governava também estas terras). Dizem que ele aqui teria se encontrado com São Francisco de Assis em 1221.
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As pessoas curtindo o fim da tarde diante do que era o fosso do castelo medieval. É possível entrar para ver exibições de arte nas suas áreas internas, mas a sua imponência é mesmo por fora.
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A Antica Gelateria Gentile, bem diante do castelo, está bem recomendada. Eu com meu sorvete.

A Bari do povo e minhas andanças

Venhamos ao tempo presente. Você já sabe as raízes de Bari quais são; agora é hora de ver o que ela se tornou.

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#WeAreInPuglia [Nós estamos na Puglia]
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Bem-vindos ao Aeroporto Internacional Karol Wojtyla em Bari. (A quem não reconhece, era o nome do Papa João Paulo II. Resolveram homenageá-lo.)
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Tudo muito bem automatizado e funcional na estação ferroviária conjugada ao aeroporto e que o leva rapidinho até a estação ferroviária de Bari Centrale, no centro da cidade.
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Vamos até Bari. São 5 euros pelo trem que passa a cada meia hora até Bari Centrale. Você compra o bilhete aqui na máquina no aeroporto — não precisa reservar nada pela internet.
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Este é o aspecto do centro de Bari, com prédios modernos do século XX que muito me lembraram as cidades brasileiras.

Recém-chegado que estava da Sicília, com seu misto de lindeza histórico-cultural mas certa precariedade infraestrutural, eu me surpreendi de ver a coisa toda bastante avançada neste lado de cá do sul da Itália. A Puglia se mostrou bem mais estruturada.

Bari é radicalmente distinta de Palermo, a capital siciliana. Faz menos calor, é mais limpa, e é bem mais moderna no entorno do seu centro histórico antigo-medieval.

Bari fica no litoral, mas como que de costas para o mar. Você não o vê muito, separado da cidade que ele está por castelos e outras áreas de antigas muralhas (exceto no porto). Vale lembrar que, por séculos, do mar vinham ameaças, e a vida no meio da cidade precisava se dar ao abrigo delas.

Pense numa metade de cebola encostada no mar e protegida dele. Há o seu núcleo duro, a Bari Vecchia; em torno dela algumas breves quadras com prédios do tempo da Renascença, e por fim toda a ampla área moderna, com ruas cruzadas cheias de prédios e praças arborizadas amplas.

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O centro de Bari é muito assim, com áreas que me lembraram bastante o Brasil.
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A exuberância fica por conta destas palmeiras mediterrâneas.

Quando desembarquei naquela tarde na Piazza Aldo Moro — a principal de Bari, onde fica o terminal ferroviário Bari Centrale —, foi muito esse Bari que eu encontrei, só que com o movimento de ônibus e gentes de fim de tarde. Lembrava algo ligeiramente mais cordato do que se vê nas cidades do Sul-Sudeste do Brasil. 

Fui logo ter com Pier, o dono do apartamento onde eu me hospedaria por uns dias no coração desta capital pugliesa.

Pier era um fulano de seus quase 40 anos, daqueles um tanto monocromáticos que estão sempre com o mesmo humor e a exata mesma cara. Tinha cabelos escuros curtos, sorria aquele sorriso quieto de corretor de imóveis, e sabia falar da Puglia. Se você lhe fizesse perguntas fora do script ele se atrapalhava um pouco.

Recomendou-me bons restaurantes onde a gente local vai. Quando lhe mencionei o Mastro Ciccio, um lugar bem recomendado na web e que parece servir um sanduíche de polvo popular entre os turistas, sua resposta me foi que “para a gente, aquilo ali é industrial” — com o sorriso quieto de quem julgava o lugar indigno mas não queria perder a educação.

Acabei indo jantar no Peppo, um lugar bem despretensioso, e foi de lá que me aventurei adentro na Bari Vecchia mais adiante, primeiro à noite antes de vê-la ao dia no dia seguinte.

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Bari Velha é um misto de arquiteturas, como também de áreas bem quietas ou movimentadas de jovens.
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Corso Cavour. Precisei andar por esta longa — e bela — avenida para chegar até Bari Velha à noite.

Bari Velha tem restaurantes aqui e ali, algumas praças bem movimentadas, mas no geral a natureza residencial desse centro histórico se revela: as casas se fecham, os moradores se recolhem após uma certa hora, e os becos ficam quietos.

Às vezes, nota-se a porta semi-encostada com pessoas dentro a assistir televisão. 

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Bari Velha é um misto de áreas quietas aqui e movimentadas ali. Nada tem a ver com os centros históricos tomados por turistas em certas outras cidades italianas.
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Morador saindo para reclamar com aquele povo conversando.

Esse momento foi pitoresco. Aquele italiano gordinho ali saiu de casa — estas portas geralmente abertas até certa hora, e o pano cerrando a entrada para que as pessoas da rua não espiem dentro — e deu um revertério à italiana por causa do barulho.

Os conversadores pareciam ser aqui da própria vizinhança. Defenderam-se inutilmente num breve bate-boca de vizinhos, mas depois reduziram um pouco a voz, ao que o tio voltou esbravejando para dentro de casa após reclamar. 

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Muitas casas aqui ficam assim, com certo entra e sai de moradores e conhecidos.
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Há um ar muito residencial e autêntico no centro velho de Bari. Note também as imagens religiosas em plena rua.

Noutro destes corredores de vilarejo, ao que eu caminhava sozinho feito um fantasma na noite, vi um médio cachorro preto que parecia saber muito bem aonde ia. Subiu a breve escada, empurrou a porta e entrou em casa.

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A Basílica de São Nicolau, aqui no centro antigo de Bari, iluminada à noite.
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Em Bari Vecchia, à noite a animação se concentra em certas vias e praças de restaurantes. Você passa em poucos minutos do muito quieto ao burburinho, como naquelas festas em lugar amplo onde todo mundo se concentra em certos espaços e outros ficam desertos, bons de visitar para a quietude.
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Restaurantes na Bari Vecchia, visitados sobretudo por italianos.

Fazia 22º, e era engraçado ver algumas pessoas de cachecol e roupas de frio tipo em Feira de Santana com essa temperatura.

Na manhã seguinte eu percorreria tudo isso novamente, percebendo já um outro ambiente, quase de feira-livre em certas dessas ruas. Bari Velha é uma delícia.

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O meu café da manhã no apartamento de Pier na Bari moderna no dia seguinte. O que eu tenho de afeto por aquela Itália clássica eu tenho de desgosto por estes cafés da manhã da maioria da Itália urbana. Era isso acompanhado de café.
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Eu prefiro muito mais esta Itália aqui. Bari Velha pela manhã.

Voltas por Bari Velha

Ao que os ônibus e o burburinho do comércio diário faziam as vezes à brasileira no centro da Bari moderna, eu fui primeiro rever os bulevares de palmeiras e praças durante o dia.

Ainda antes da Bari Velha, há lugares bonitos e fotogênicos nesta capital pugliesa, como o Teatro Petruzzelli, da virada do século XIX para o XX, e a longa beira-mar com edifícios também desse tempo, por vezes com elementos em Art Nouveau.

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O Teatro Petruzzelli, o quarto maior da Itália, erigido nos fins do século XIX e inaugurado em 1903.
Lungomare reduzida
A orla da Bari moderna, apelidada de Lungomare, com edifícios daquela virada de século — quando estes mares já não mais apresentavam os riscos de outrora.
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Bari moderna tem suas belezas.
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O Corso Cavour com as suas palmeiras durante o dia.
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Bons dias de Bari, senhoras e senhores.

Daqui ao miolo de Bari Velha com a viagem no tempo que ela oferece são algumas quadras. Vale hospedar-se a uma distância que dê para cobrir a pé. (Não vi muitas opções de hospedagem dentro da Bari Velha. Como eu lhes disse, é um lugar que segue bastante residencial, não-turistificado.)

Pela manhã vale ir à Strada Arco Basso, uma ruela que é a apelidada de Strada delle Orecchiette, pelas senhoras que ficam ali sentadas fazendo massa com as mãos. Os orecchiette (ou “orelhetes”) são pedacinhos de massa neste formato de orelhinha típicos aqui da Puglia. 

As senhoras não se incomodam de ser fotografadas, mas aquelas fotos de divulgação que se veem internet — com as senhoras sorrindo amavelmente — tampouco são muito representativas. Na prática, elas se parecem mais com aquela sua tia que gosta de lhe mandar fazer isso e aquilo.

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A Strada Arco Basso, mais conhecida como Strada delle Orecchiette, pelas senhoras que ficam arrumando massa no centro histórico de Bari.
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Os orecchiette são assim, estas massinhas em diversas cores (naturais) e em formato de orelha. São típicas aqui da Região da Puglia.
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Senhoras ali proseando enquanto turistas e moradores passam.

Mangia!” [“Coma!”], exclamou uma a um turista britânico inocente que ia passando e perguntou se podia experimentar. Aquele tom de vó que quer nutrir os netos um pouco além da conta.

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Você pode comprar saquinhos de orecchiette para fazer em case, e acha destas banquinhas também com tomate seco e outras guloseimas nas adjacências daquela rua.

Você acha aqui tomate seco caseiro por 6 euros o Kg, embora alguns vendam por 7. (Não é qualquer um que lhe diz até o preço do tomate seco na cidade.)

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Massas típicas e tomates secos à venda por toda Bari Vecchia.
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Estes na embalagem aqui de frente são cartelatte, uns doces caseiros típicos daqui, de massa um tanto dura com calda de mosto de uva. Saboroso!
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Ah, esta autêntica Bari Velha!

Se você não quiser levar orecchiette para fazer em casa, coma deles já cozidos aqui. Foi o que eu fiz. No centro histórico, há algumas vendinhas com cara de mercearia que também servem lanches e pratos simples de massa. Provei panzerotti (uns pasteis aqui meio vazios de recheios, mas nada mau) e um prato de orecchiette no molho de tomate. É macarrão, mas bem feito e com molho caseiro.

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Um pratinho humilde de orecchiette ao molho. Nada pretensioso, mas saboroso. Nesta manhã na Bari Velha.
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Olha o tio com o melão lá atrás. Há um agradável e autêntico ambiente de feira aqui em partes do centro histórico de Bari.
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Há souvenirs também.
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Como os italianos são caracteristicamente despachados, põem ênfase em produtos feitos à mão aqui.
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O aspecto geral deste centro histórico.

Eu falei que a Basílica de São Nicolau não é a catedral de Bari, então fui eu para lá neste dia. Estas duas igrejas são as principais atrações neste centro histórico, afora ele próprio como um todo.

A Basílica Catedral Metropolitana de São Sabino é também uma igreja romanesca de antes do gótico, do século XII e consagrada no século XIII, em 1292. Ela foi aqui erigida pelos normandos, que no bojo das Cruzadas e das novas brigas entre cristianismo ortodoxo e católico destruíram uma catedral bizantina (ortodoxa) mais antiga que havia aqui. Erigiram esta basílica sobre ela.

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Quando cheguei, estava havendo um casamento na Basílica Catedral Metropolitana de São Sabino, na Bari Velha.
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Como eu vos disse em Lecce, Locorotondo e outros lugares: os italianos — ou ao menos os puglieses — adoram casar-se no verão e na hora do almoço.
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Só que, desta vez, eu entrei no casamento. Eis a catedral basílica de Bari, consagrada em 1292.
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Os típicos arcos românicos — e o nubentes ali ao altar.
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A cripta sob a catedral.

Eu ainda retornaria a este centro histórico de Bari Vecchia à noite algumas vezes, tanto neste dia quanto em outros. Fiz viagens a vários cantos da Puglia nestes dias aqui em Bari — a Alberobello, Locorotondo, Martina Franca, Lecce, Monopoli e Polignano a Mare, como vim mostrando. Ainda não terminei.

Voltaria a estas vias, a ver as senhoras de quase 90 anos ou mais sentadas à porta e vendo a criançada brincar. Ao longe, um bate-boca entre vizinhos. Outros falando alto aqui e ali.

Reitero que uma das coisas mais legais deste centro histórico de Bari é que você vê as praças ocupadas por italianos em vez de massas de turistas estrangeiros, o que torna o ambiente mais autêntico.

Como estão menos habituados a ouvir inglês e meu italiano apenas quebra o galho, eu acho que eu acabava falando em esperanto com eles.

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Bari Velha à noite.
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Os recantos.
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Movimento de jovens.

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O Largo Albicocca [abricó], também conhecido como Piazza degli Innamorati [Praça dos Enamorados] é um dos points principais da juventude na Bari Vecchia.
Sentei-me ali na Pizzeria Di Cosimo, que — despretensiosa — está bem recomendada pelos bareses, e era engraçado notar a dinâmica de jantar por aqui.

A partir das 18h, as mesas ganham algumas cabeças louras de turistas vindos do norte da Europa — e habituados a jantar relativamente cedo. Ocasionalmente, um cabeça morena de hábito similar, como eu. Das 20h em diante, começam os italianos e espanhóis a aparecer. Vi isso aqui como em Palermo.

O Largo Albicocca enche rápido. Breve, o largo estaria pleno. Na Pizzeria di Cosimo, eu tomava vinho simples em copo plástico e comia pizza caseira naquele estilo italiano de pouca coisa em cima — basicamente um queijão gostoso com molho de tomate em volta. 

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Na Pizzeria Di Cosimo, no Largo Albicocca. Dos lugares mais populares entre os jovens de Bari na cidade velha. O lugar é despretensioso.
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Nos embalos de Bari Vecchia.

Turistas brasileiros, aqui no sul da Itália, eu quase não via. Parece haver um muro invisível ali nas alturas de Roma e Assis que muitos brasileiros raramente passam. Parece que a Itália é só dali para o norte, em lugares como Toscana e Veneza você mal passa 10 minutos sem ouvir brasileiros. Cá no sul da Itália, é capaz de passar 10 dias sem notícias tupiniquins.

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Para os que gostam de ver as comidas…
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Eu depois ainda passei num lugar e peguei este cheesecake com cobertura de Nutella. (Por que tanto me tentas, Itália?)

Curti um pouco aquele movimento e tomei rumo. O único lado ruim é que os italianos e italianas fumam feito umas caiporas.

Vi Bari Velha ainda iluminada, veria ela novamente de dia, e ainda tinha mais uma viagem a fazer neste sul italiano antes de partir. Eu retorno.

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O Largo Albicocca.
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A Catedral de São Sabino iluminada à noite.
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A torre da catedral iluminada.
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Bari Velha, um charme simples e autêntico italiano.
Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

3 Replies to “Conhecendo Bari, a capital da Puglia — com as relíquias do Papai Noel

  1. Lindinha, a cidade. Uma bela, grande, e ao que parece bem cuidada , capital. Bela região.
    Tem semelhanças com capitais brasileiras sim. Sobretudo as partes mais modernas. As esbeltas palmeiras são um destaque maravilhoso.
    Mas o Centro Histórico é impar. Belissimo!… De uma riqueza arquitetônica, histórica e cultural invejáveis e únicas, dessa Itália miscigenada, de tantas histórias e batalhas e com tamanhas influências culturais de diferentes povos. Uma preciosidade!…
    Que beleza apreciar seus templos, monumentos, casario de época com os seus tons gostosos, seus balcões floridos, ruelinhas com a cara da Itália, calçadas de pedras, paredes, fortificações que desafiam o tempo, arcos, flores em frente às residências, suas manifestações religiosas, hábitos e costumes sui generis.
    É uma gostosura a Itália. Suas diferenças a enriquecem e fascinam os visitantes, que não resistem a esses seus encantos.
    Muito bem descrita, meu jovem amigo viajante. Bela postagem, linda região , interessante e curioso levantamento Histórico. Nada sabia disso hahaha. Muito bom saber. E instigou sua amiga aqui a conhecer tão bela região.
    Amo a Itália e nada conheço do sul , já que as tradições familiares são do norte da península.
    Obrigada pela postagem e informações. Amei.
    Valeu.

  2. Interessante a homenagem a Aldo Moro, importante e influente homem público do final da década de 1960 até o final da década de 1970, quando foi sequestrado e morto por terroristas de esquerda. Ele, se não me engano era social democrata. Teve grande repercussão. Lembro que foi um horror na época. Lembro também que foram presos, os sequestradores.

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