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Groenlândia

Como visitar a Groenlândia: Custos, dicas e alertas

Groenlândia é um lugar como nenhum outro. Ilha remota, gélida, com paisagens deste mundo que parecem de outro mundo, e dotada de um curioso povo nativo. Ainda que politicamente vinculado à Dinamarca, é um país autônomo com leis próprias, eleições, e que internamente se governa.

Não é um destino que comumente esteja nas listas dos brasileiros (ou da grande maioria dos não-dinamarqueses mundo afora), mas que tem seus atrativos. Se você chegou aqui, é porque já lhe ocorreu poder visitá-lo.

A Groenlândia não é uma viagem barata, há épocas melhores que outras para visitar, e requer certo planejamento.

Abaixo, eu faço um balanço da minha experiência aqui, e em seguida compartilho várias dicas e considerações a quem planeja vir.

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Na Geleira Russell, próximo a Kangerlussuaq, Groenlândia.
  • O que mais gostou. Das paisagens surreais, desertas, vazias, nos arredores de Kangerlussuaq. É quando você se dá conta de que está num canto remoto do planeta — uma sensação que carrega uma emoção consigo.
  • Visita obrigatória. O fiorde de gelo (Patrimônio Natural protegido pela UNESCO) em Ilulissat, que você visita num passeio de barco. Não dá para vir à Groenlândia e não ver.
  • O que não gostou. Da imprevisibilidade dos voos domésticos, com atrasos ou cancelamentos constantes. E dos aeroportos com bem pouca infraestrutura (em Ilulissat, por exemplo, há zero de comida no aeroporto). O voo atrasa X horas e você fica ali à míngua, então tenha sempre lanches consigo.
  • Queria ter visto mas não viu.  Nuuk, a capital. Muitos dizem que ela não tem valor turístico, mas eu queria ter visto mais do “dia-dia normal” groenlandês. Era uma curiosidade conhecer a capital, mas voos domésticos e hospedagem são caros aqui. A menos que tenha muito dinheiro, vale se concentrar no principal (Kangerlussuaq e Ilulissat).
  • Comida(s) a experimentar. Não é um lugar muito notável pela gastronomia. Há algumas coisas exóticas, tipo carne de rena ou de baleia, mas que não necessariamente o encantarão. A alimentação do dia-dia aqui é bastante ocidentalizada (numa mistura de Dinamarca com as influências costumeiras dos Estados Unidos).
  • Momento mais memorável da visita. Estar ali circundado por colinas quietas, vendo um rio quase extraterrestre correr, pisando no musgo, e me sentindo quase sozinho naquela vastidão nos confins do planeta — numa das viagens bate-e-volta de Kangerlussuaq, à manta de gelo e à Geleira Russell
  • Alguma decepção. Não ter encontrado mais da cultura groenlandesa de forma mais acessível. Muito dela só que vem a experimentar são os que moram aqui por meses ou anos. Muitos dos comes & bebes mais bizarros dos groenlandeses, tipo café com banha de baleia, não estão à venda (as pessoas fazem em casa). O Kaffemik, um banquete de dia inteiro, é também cantado em verso e prosa pelas agências, mas na prática você (se tiver um pequeno grupo) no máximo visita uma versão comercial; para participar mesmo, só integrando-se com os groenlandeses por um tempo.
  • Maior surpresa. Pode ter sido uma surpresa ingênua, mas eu confesso ter me surpreendido ao pouco de ver muito do turismo em Ilulissat controlado pelos dinamarqueses. Fica aquela coisa colonial de dinamarqueses servindo a dinamarqueses em plena Groenlândia. 
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Nas paisagens solitárias da Groenlândia. Se descobrissem uma lua de Júpiter ou Saturno com formas básicas de vida, eu (provavelmente erroneamente) imaginaria algo assim.

Clima & Tempo: Quando vir

A alta estação na Groenlândia vai de junho a agosto, verão no hemisfério norte. Abril, maio e setembro são a chamada shoulder season — os ombros aos lados da cabeça, aqueles meses que não são ideais, mas também servem. Há até quem os prefira.

O que você precisa levar em conta não é só a temperatura, mas também a duração dos dias. Nestas altas latitudes, o sol nunca se põe no verão, e no inverno fica escuro quase o tempo inteiro.

A Groenlândia é grande (comparável a Mato Grosso e Pará juntos), então depende um pouco de onde nela você está. Em Ilulissat, mesmo no verão a máxima de temperatura dificilmente excede 10ºC. Já em Kangerlussuaq, você tem dias com 20 e poucos graus no verão.  

Com o calor, nascem os muitos mosquitos (perdoem complicar, mas não posso esconder isso). Então a escolha de quando vir depende um pouco de o que o incomoda mais, frio ou mosquitos.

Maio e a primeira metade de junho podem ser uma boa pedida se você quer bastante luz do dia sem mosquitos (e não se importar de estar mais frio que em julho ou agosto). Agosto é o ápice da temperatura, embora ela nunca suba muito.

Novembro a fevereiro é o miolo da escuridão e do frio, e você nem tem muitos passeios saindo. Quem vem para ver paisagens geladas costuma optar por março ou abril. 

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Médias de temperatura máxima e mínima ao longo do ano em Ilulissat, onde falei ser parada obrigatória.

Afora o clima, você pode levar em conta o dia 21 de junho como Dia Nacional da Groenlândia aqui, quando há eventos culturais, etc. Eu não cheguei a presenciá-lo, mas pode ser boa pedida.

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Groenlandeses em trajes típicos, que eles vestem em ocasiões especiais, como seu Dia Nacional. Você lê mais sobre tradições groenlandesas nesta postagem.

Passaporte e Visto

Vistos e passaporte
Precisa de visto para visitar a Groenlândia? Não.

Brasileiros e portugueses não necessitam de nenhum visto para visitar a Groenlândia.

Só há voos para a Groenlândia a partir de dentro da Zona Schengen de fronteiras abertas da Europa. Ou você vem de Reykjavik (Islândia) ou de Copenhague (Dinamarca) — não há outra opção (mas daqui a pouco eu trato melhor da logística).

Isso significa que você primeiro precisará estar na Europa. Saindo de lá, é como se você estivesse indo para um território ultramarino europeu (ainda que a Groenlândia, como a Islândia, não seja parte da União Europeia). Não há controle de passaporte nem alfândega.

Qualquer pessoa com direito a estar na Zona Schengen da Europa pode assim visitar a Groenlândia.

No lado groenlandês, tudo o que você tem é um avisinho para que não-europeus se identifiquem e mostrem seu documento, mas não há um controle de imigração com guichês, etc. Você vem e volta como se tivesse feito uma viagem doméstica dentro da Europa, sem qualquer carimbo no passaporte.

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No voo que tomei de Copenhague para Kangerlussuaq, Groenlândia. Parecia que eu estava saindo da Terra.

Voos & logística

A menos que você seja um expedicionário famoso trabalhando para a National Geographic, só é possível chegar à Groenlândia de avião.

Os voos, como eu lhes disse, só saem de Copenhague (Air Greenland) ou de Reykjavik (IcelandAir). Os voos saindo de Copenhague pela Air Greenland são diários, e são a opção que eu recomendo. Não é raro que os voos com a Islândia sejam cancelados, daí outro só dali a uns dias. 

A Air Greenland (http://airgreenland.com/) tem um monopólio sobre essa rota, como de todos os voos domésticos na ilha. Não é barato, mas volta e meia há ofertas. Pesquise com vários meses de antecedência. (Mais abaixo eu trato melhor dos custos.)

Minha recomendação é que você organize sua chegada a Copenhague de modo independente. Não misture com a vinda à Groenlândia na mesma compra de passagem aérea, ou os preços ficam astronômicos. Em vez disso, programe-se para passar uns dias na Dinamarca antes e depois, e aí no meio você insere uma fugidinha à Groenlândia.

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A Air Greenland detem o monopólio dos voos domésticos dentro da Groenlândia. Ela opera destes aviões joaninha aqui dentro, mas os voos para a Groenlândia são numa aeronave grande com turbinas e sem deixar nada a desejar.

A Air Greenland não é ruim, faça-se saber. Há serviço de bordo incluso e até bagagem despachada já no preço das passagens — quase um luxo hoje em dia. Exceto pelos constantes atrasos em razão do mau tempo corriqueiro no caso dos voos domésticos, eu não tenho queixa dela.

Ser amigo dela é fundamental, pois ela é (quase) a única forma de se deslocar no interior da Groenlândia. Não há transporte terrestre entre as cidades. 

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O Ferry Marítimo groenlandês

A única outra opção, caso você goze de tempo e queira ser mais “raiz”, é a chamada Arctic Umiaq Line, uma linha de ferry marítimo que vai margeando a costa ocidental groenlandesa e parando em várias cidades. Só que é apenas um barco que vai e volta, de cabo a rabo, e que leva uma semana para completar a volta. 

Chamam esse ferry de Sarfaq Ittuk, e você pode consultar informações detalhadas sobre ele aqui. O custo da passagem varia de acordo com o nível de conforto que você deseja a bordo. Chega a ser mais caro que os voos, mas é certamente uma experiência distinta. Uma ida de Ilulissat a Nuuk, saindo domingo à tardinha e chegando na terça-feira de manhã, custa cerca de 350 euros numa espécie de cama de dormitório. Parece confortável, mas eles avisam que pode ser uma acomodação sem janelas nem luz natural.

Neste site oficial você vê os horários de partida e chegada a cada época do ano. Só não se esqueça de observar se naquele dia o ferry está subindo ou descendo.

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A costa da Groenlândia e o porto de Ilulissat, no verão.

Dinheiro & Câmbio

A Groenlândia tem sua economia integrada à da Dinamarca e utiliza a coroa dinamarquesa (Danish crowns – DKK) como moeda. Tal qual a Dinamarca, entretanto, quase ninguém — só os mais idosos — usam dinheiro em espécie.

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A Groenlândia utiliza a coroa dinamarquesa (DKK) como moeda. Um euro equivale aproximadamente a 7,5 coroas. É uma multiplicação meio chata de fazer, mas c’est la vie.

Você aqui paga tudo o que quiser (acomodações, passeios, restaurantes, compra no supermercados…) com cartão de crédito sem sobretaxa. 

Como o mesmo se aplica à Dinamarca, eu recomendo que você nem se dê ao trabalho de adquirir coroas dinamarquesas. Há anos que eu — morando na Suécia — vou com frequência à vizinha Dinamarca, e nem me lembro da última vez que peguei lá em moeda ou em dinheiro de papel.

Dinheiro em moedas na
Quanto custa viajar pela Groenlândia?

Custos & Acomodações

A Groenlândia é um destino caro. Os voos da Europa para cá são caros, e as acomodações também tendem a ser caras. Cada noite adicional aqui é um flash na sua conta bancária.

Dito isso, vamos aos números.

Um voo de ida e volta pela Air Greenland entre Copenhague e Kangerlussuaq (que é o hub internacional da Groenlândia) sai facilmente na casa de 1.000 euros. Vale a pena você explorar o calendário com o Google Voos, pois às vezes há “pechinchas” por 600-700 euros ida e volta em certas datas. Tente comprar com pelo menos alguns meses de antecedência.

Eu recomendo que você visite tanto Kangerlussuaq quanto Ilulissat, então você pode brincar com opções multi-stop direto no site da Air Greenland.

O que eu fiz foi comprar uma ida Copenhague ⇒ Kangerlussuaq e a volta por Ilulissat (Ilulissat ⇒ Kangerlussuaq ⇒ Copenhague), pois assim você também amarra os dois voos da volta — se houver qualquer atraso com sua conexão, a empresa de responsabiliza.

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A opção multi-stop no site da Air Greenland é uma forma de gastar menos e amarrar os seus voos de volta, por segurança. Sai mais barato que comprar cada trecho separadamente.

Só tome cuidado para não se empolgar demais com alguma tarifa mais baixa e acabar permanecendo tempo demais no país — cada noite de acomodação aqui sai uma bagatela.

Nuuk, a pouco interessante capital (do ponto de vista turístico), tem opções de acomodação para todos os bolsos, mas Ilulissat é um lugar caro. Prepare-se para gastar um mínimo de 200 euros por noite aqui (em hotéis 3 estrelas relativamente básicos). Não há albergues nem dormitórios em Ilulissat. Seus hotéis mais requintados, alguns com 4 estrelas, chegam a cobrar 350-400 euros por noite.

E eles se esgotam com semanas ou até meses de antecedência, sobretudo durante a alta estação (junho – agosto). Prepare-se com as reservas antecipadamente e evite passar mais noites que o necessário aqui

Kangerlussuaq tem alternativas mais em conta, mas mesmo assim: o lugar algo chinfrim onde fiquei albergado com banheiros compartilhados me custou 50 euros por noite. Chama-se Old Camp Hostel, e é uma opção boa o suficiente para quem quer economizar. Se não conseguir reservá-la pelo Booking, reserve direto no site da Albatros Arctic Circle (são da mesma empresa).

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Passeio de barco na costa de Ilulissat. Há vários, mas há alguns principais que eu abordo a seguir.

Afora os aviões e as acomodações, você precisará calibrar seu orçamento para os passeios que porventura fizer aqui. Não vale vir à Groenlândia e não ir ver as coisas que há para ver.

Os dois passeios-chave que há para fazer a partir de Kangerlussuaq são o IceCap Point 660 e a Geleira Russell (eu mostrei os dois aqui). Cada um sai por coisa de 650 DKK ou cerca de 90 euros por pessoa. Esses são os baratos.

Em Ilulissat, o passeio (essencial) para ir visitar de barco o fiorde de gelo sai nessa mesma faixa de preço. Já o passeio de dia inteiro à Geleira Eqi (que eu mostrei em detalhes aqui) sai pelo obsceno preço de 2.000-2.500 DKK ou 300-330 euros por pessoa (!). Depois eu falo o que é que eu acho essencial ou não.

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No passeio de barco pelo fiorde de gelo de Ilulissat. Este é de lei.

Quanto fica tudo no final das contas? Dizendo de forma redonda, você precisa preparar uns 1.000 euros para gastar com avião e outros 1.000 para gastar com um misto de acomodação e passeios aqui. Essa é uma base. Daí, o céu é o limite caso você queira agregar voos de helicóptero por cima da geleira ou coisas do tipo.

É caro? É, e não resta dúvida de que com esse mesmo dinheiro você poderia fazer muito mais em outras partes do mundo como o Sudeste Asiático ou o Leste Europeu, mas cada lugar é único, e a Groenlândia você só encontra na Groenlândia.

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Mesa na Groenlândia. Vamos falar agora de comida?

Comes & Bebes

Come-se (e bebe-se) muito à maneira ocidental aqui na Groenlândia. Espere café, pão, manteiga, queijo dinamarquês, frios de carne, Polenguinho, etc. Sanduíches à americana e cafeterias à europeia abundam.

Quem notou a falta dos custos com alimentação na parte acima, é porque eles influem pouquíssimo e variam conforme o gosto. Se você for do tipo que compra pão com iogurte do supermercado para não gastar em restaurante, suas refeições vão sair por 5 euros cada. Já se você quiser comer fora, vai depender de onde será esse “fora”.

Há restaurantes asiáticos (providenciais) tanto em Nuuk quanto em Ilulissat, onde se almoça ou janta bem por 10 euros. Já se você quiser algo mais fino, prepare-se para refeições de 50-100 euros.

As comidas são muito à base de proteína animal, tanto marinha (peixes, baleia, foca) quanto terrestre (rena e o chamado boi almiscarado, comum aqui). Não comi nem pretendo comer nem baleia nem foca nem rena, mas fica aí a quem quiser.

Peixe seco na Groenlandia
Eles aqui não têm muito tempero, então os pratos costumam ser simples. Este peixe seco eu provei, e é mais divertido que gostoso. Você meio que precisa esperar ele molhar na boca para poder deglutir. (Eu avisei que gastronomia não seria a razão para se visitar a Groenlândia.)

Sobre os “bebes”, você verá a internet falar sobre café groenlandês (Greenlandic coffee), e há dois deles. Um é o autêntico, de raiz, que você tampouco encontrará à venda: café preto com banha de baleia dentro. Eu procurei por curiosidade, mas não encontrei vendendo. Disseram-me que é coisa que eles tomam em casa, especialmente os mais velhos.

Já o que você encontra à venda é uma fabricação comercial, um café com Kahlua (um licor produzido no México) e creme de leite por cima. Esse você encontra nas cafeterias Groenlândia afora, mas também não é nada especial. É quase idêntico ao Irish coffee, com a mera diferença de que o dito café irlandês leva uísque.

A principal tradição groenlandesa em matéria de comes e bebes é o chamado Kaffemík, um costume familiar de ter um dia de portas abertas, com parentes e amigos entrando e saindo, com mesa farta com muitos bolos, café, e comida salgada. Como turista, você no muito faz uma visita comercial, mas há agências que oferecem. Você lê mais sobre essa e outras tradições groenlandesas neste post.

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O que não pode faltar na bagagem?

O que trazer numa viagem à Groenlândia?

Eu não vou entrar aqui em pormenores de coisas muito discricionárias ou objetos comuns a toda viagem. Só quero alertar sobre quatro coisas:

1) A Groenlândia faz frio o ano inteiro. Mesmo no verão, vale a pena você vir bem agasalhado. Roupa de inverno. Os 7ºC de Ilulissat caem rapidinho para sensação térmica de 0ºC quando você está em alto mar e com o vento a soprar.

2) Se quiser trazer repelente contra mosquitos no verão, traga. Aqui eles vendem, mas será mais fácil e barato se você trouxe de casa. Os mosquitos daqui não picam muito, mas são numerosos e incomodam um pouco, sim. Já as telas que alguns usam com chapéu na cabeça você pode achar aqui com mais facilidade aqui, se achar que quer uma. (Leia meu post em Kangerlussuaq para ver do que estou falando.)

3) Fora das cidades (ou até mesmo dentro delas) o chão é todo de terra, arenoso, então venha com calçados de trilha, de preferência com certa impermeabilidade se vier nas épocas em que há neve.

4) Internet não é em todo lugar que tem, e os voos podem deixar você esperando horas sem acesso a lanchonetes nem nada. Traga um bom livro e lanches para ter à mão. Água já é menos necessário, pois a da torneira aqui é potável. 


WifiConectividade e Wi-Fi

A Groenlândia não é desprovida de comunicações modernas, mas ela tampouco é lugar onde você estará online toda hora.

sinal de celular em todas as cidades, mas assim que você se afasta delas, é zero, como se você estivesse na lua.

Caso você aconteça de morar na Europa e ter celular com chip europeu, saiba que aqui se paga deslocamento. (A quem não sabe, uma das coisas boas da União Europeia é não pagar deslocamento dentro a Europa. Mas, nesse sentido, a Groenlândia não faz parte.

Wi-fi existe nas acomodações, mas não é sempre que funciona. Varia um pouco. Em Kangerlussuaq eu não tive problemas, mas já em Ilulissat o wi-fi do hotel ficou dias sem funcionar. Esteja preparado. Alguns restaurantes e agências têm wi-fi, mas os aeroportos, não.


Idiomas & Comunicação

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O idioma groenlandês é lindo.

Os groenlandeses têm seu próprio idioma, aparentado daquele dos Inuit do norte do Canadá. Usa-se o alfabeto latino, mas há sons curiosos e algo estranhos, como se a pessoa estivesse engolindo a língua no meio da palavra. 

Eles quase todos falam também dinamarquês, e todos nas principais cidades ou localidades turísticas também são fluentes em inglês. Quase tudo aqui que for de interesse ao visitante estará escrito no idioma de Shakespeare. 

Só não espere conversar demais. Os groenlandeses são mansos, cordatos, mas de poucas palavras. Ao menos com estranhos. Entre si, eles devem conversar um tanto mais. Você pergunta “Vocês gostam de tal coisa?“, e a pessoa responde “Sim, gostamos muito“, sem pegar a deixa implícita de que o que eu queria é que me falasse mais a respeito. Esses códigos sociais não funcionam nesta cultura aqui.

Você verá muitos turistas europeus ou norte-americanos de meia idade, sobretudo dinamarqueses. Há também vários dinamarqueses jovens fazendo temporada de trabalho de verão por cá. Boa parte das agências de viagens são operadas por dinamarqueses. Você verá que eles são, inclusive, mais soltos que os groenlandeses — e por aí você imagine.

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Diante da Geleira Russell, Groenlândia.

Aonde ir, e quantos dias em cada lugar

Vamos ao que interessa. Eu acho que 5 noites são um mínimo ideal para você permanecer aqui. Recomendaria duas noites em Kangerlussuaq e três noites em Ilulissat. Esse é um básico para você ver o principal. 

Kangerlussuaq (2 noites) é onde você provavelmente aterrissará. Os voos vindos de Copenhague chegam aqui ainda de manhã, já que há uma diferença de 4h fuso horário. (Curiosamente, a Groenlândia está no mesmo fuso de Fernando de Noronha, 1h a mais que Brasília.

Isso quer dizer que você pode agendar um passeio já para o dia em que chega. Os dois passeios a serem feitos ali são à manta de gelo que cobre 80% da Groenlândia (IceCap, Point 660) e à Geleira Russell. Eu fiz ambos, e achei que ambos valem a pena. Mas fazê-los no mesmo dia fica complicado, então você pode agendar um para o dia em que chegar e o outro para o dia seguinte. Após a segunda noite, voa de manhã para Ilulissat.

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Caminhando sobre a manta de gelo (ice cap) que cobre 80% da Groenlândia. Chama-se Point 660 pela localização geográfica. É um passeio essencial a ser feito aqui, e razão-chave para se deter em Kangerlussuaq por algumas noites.
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Visitando de bem perto a Geleira Russell. Na quietude, em geral num grupo bem pequeno, você fica ali quase que só você e a natureza.

O voo de Kangerlussuaq a Ilulissat você deve reservar de antemão no site da Air Greenland. Note que não é todo dia que tem, então organize sua viagem de acordo também com essa disponibilidade.

Ilulissat (3 noites) é o lugar mais turístico da Groenlândia — mas não espere nada badalado, pois a Groenlândia ainda é um lugar em grande medida pré-turístico. A hashtag que eles usam no turismo daqui, #GreenlandPioneer, indica mesmo o lado “pioneiro” de quem vem cá. 

Se as paisagens do meio da Groenlândia já lembravam a Terra de 1 bilhão de anos atrás, nesta parte norte aqui de Ilulissat parece que você volta ainda mais no tempo geológico, a uns 2 bilhões de anos atrás, quando nem havia ainda vida terrestre, só gelo e rochas fora da água.

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Vista para Ilulissat, com suas casinhas de influência escandinava.

Com três noites aqui você terá dois dias inteiros: um para fazer o passeio de barco à Geleira Eqi (Eqi Glacier tour), que toma o dia todo, e outro para o Icefjord Cruise e caminhadas no entorno de Ilulissat (sobretudo as trilhas azul e amarela, com a chamada World Heritage Trail). Eu mostrei tudo isso nesta postagem.

A Geleira Eqi tem sua beleza, mas é um passeio caro e que impressiona menos que a Geleira Russell (ou algumas da Patagônia, como o Perito Moreno na Argentina), então tenha plena liberdade de tratá-lo como algo bastante opcional.

Se você quiser algo mais relâmpago, pode ficar só 2 noites em Ilulissat, mas aí são trilhas mais o fundamental passeio de barco ao fiorde de gelo tudo num mesmo dia. Seria preciso reservar o passeio antecipadamente pela internet para estar seguro, e corre o risco de ficar muita coisa junto, por isso minha sugestão de 3 noites aqui.

Eu usei as agências Albatros Arctic Circle e a Disko Line Explorer, e eu recomendo a primeira para os passeios em Kangerlussuaq. Ambas são boas, mas em Ilulissat há outras que você pode visitar pessoalmente, embora os preços não variem tanto. 

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No fiorde gelado de Ilulissat, num dos extremos do mundo.

Se você ficou com alguma dúvida, quer algum toque, ou tem alguma pergunta que eu não respondi, é só pôr abaixo nos comentários.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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