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Amazonas Brasil

A viagem de barco na rede no rio Amazonas entre Manaus e Santarém

Eu sou um baiano que nunca foi muito amigo de rede, mas que aqui na Amazônia fez amizade com ela.

A viagem de barco na rede é quase um ritual de passagem para os muitos mochileiros estrangeiros que vêm ao Brasil. À gente local (grande maioria dos passageiros), é nada mais que a forma de transporte entre um lugar e outro, numa região onde hidrovia faz bem mais sentido que rodovia. 

Os turistas brasileiros agora é que estamos gradualmente buscando mais essas experiências dentro do nosso próprio país. Desta vez, vi mais pessoas do Sudeste e do Nordeste que gringos. 

Esta viagem é recomendadíssima, foi dos pontos mais altos desta minha vinda à Amazônia, e há níveis de conforto para diversos gostos — até para quem preferir quarto, cama e banheiro privado em vez de rede.

Neste post eu destrincho a vivência desta viagem, falo dos custos, dou a logística, algumas sugestões, e relato os detalhes da minha experiência. Pegue sua bagagem e vamos ao rio, começando pelo rio Negro em Manaus

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O amplo rio Negro. São quilômetros de distância de uma margem a outra.
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A embarcação que vamos tomar é aquela lá na ponta direita, a grande. Via de regra, quanto maior a embarcação, maiores os confortos e a estabilidade.

Algumas informações gerais

Eu achei por bem dar primeiro algumas informações gerais sobre esta viagem antes de relatar a minha experiência. Vamos a um prático jogo de perguntas & respostas. Afinal, são informações que eu apurei e obtive antes de viajar.

Quanto tempo dura a viagem? 30h no sentido Manaus (AM) ⇒ Santarém (PA), que é o sentido do rio. No sentido reverso, contra a corrente, dura 42h.

Que horas sai o barco? Há opções, mas a mais habitual é o barco que sai praticamente todo dia às 11h da manhã de um dia e chega Santarém ao anoitecer do outro, umas 19h. (Isso é no papel. Aqui não é a Suíça, mas depois eu trato mais do que ocorreu na prática.)

Quanto custa a passagem? Depende da categoria em que você viajar. Há três: viajar na rede (R$ 200 + a rede, que você precisa trazer e, portanto, comprar dos ambulantes se não já tiver uma), camarote (R$ 600 para 2 pessoas, um quarto pequeno com cama e ar condicionado), ou suíte (R$ 700-800 para 2 pessoas, igual ao camarote, só que com banheiro privativo). Estes são preços de 2022 que certamente subirão com o tempo. Até onde eu entendi, idoso e criança pagam meia passagem na rede — verifique.

Tem comida a bordo? Como é? Sim, há um refeitório a bordo que abre nos horários específicos das três refeições e vende alimentação (PF de café da manhã R$ 10, almoço e janta R$ 20). Há também um bar aberto ao longo do dia vendendo cerveja, café e lanches. Isso afora os vendedores ambulantes sobem no barco vendendo de tudo quando ele para por alguns lugares no caminho. Há um bebedouro de água filtrada a bordo, então você só traz água engarrafada se quiser.

E os banheiros? São melhores do que eu imaginei. Há mais de uma dúzia de banheiros coletivos, masculinos e femininos. Óbvio que não é hotel de luxo, e vale a pena trazer seu papel por segurança, mas na minha viagem não faltou. Se quiser tomar banho, tem duchas dentro dos banheiros também. 

Mais alguma informação? Venha de chinelos se for ficar em rede, para facilitar o subir e descer. Não tem mosquitos, pois estamos no meio do rio. Tampouco tem wi-fi, mas pega sinal de celular, e tem tomadas (embora haja certa competição por elas). Se você for friorento, traga uma jaqueta leve, pois venta à noite e a temperatura cai. Sim, em plena Amazônia.

Ah! E a bagagem? A bagagem vem junto com você — não há bagageiro. Fica no chão, do lado ou debaixo da sua rede. Fazem um alarde imenso de “Cuidado com as suas coisas!“, e brasileiro já tem trauma de roubo, mas eu aqui não vi nada do outro mundo. Basta não largar seus objetos de valor sem supervisão. 

Agora vamos que vamos. O mais nós descobriremos pelo caminho. Soltarei algumas dicas ao longo da viagem. 

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Assim se viaja.

Começando pelo começo — e com um perrengue que você pode evitar

Como compra a passagem, a propósito? Pergunta que talvez tenha faltado na seção anterior. Pergunta importantíssima, pois é a principal fonte de perrengue ou enrolação aqui. Foi a única dor de cabeça que eu teria na viagem toda, e algo que você pode evitar com relativa facilidade, sabendo o que fazer.

Há um mercado cambista altamente informal nessa venda de passagens de barco em Manaus. Ao fundo do Mercado Municipal Adolpho Lisboa. você verá um sem-número de pequenitas agências de viagem de junto da balsa amarela, com funcionários abordando transeuntes acerca de aonde vão e aonde irão.

Como todo cambista e quase todo agente, eles tiram uma comissão. Todos têm WhatsApp, aceitam Pix, e a coisa mais comum do mundo é que alguém na sua acomodação diga “Tem um rapaz que vende, peraí que eu vou lhe passar o contato dele“.

Comigo, foi uma moça, que me reservou a passagem, só que não. Chego ao barco na hora da viagem e, à recepção, onde você se apresenta para obter uma pulseirinha dessas de festa, me dizem que não há meu nome ali. Daí pega a ligar para a moça, que me conta que a pessoa com que ela falou fez uma confusão etc. etc. 

Como resolver isso? Compre direto no porto de Manaus, sem intermediários. Simples assim. Eles não vendem online, mas tampouco é preciso comprar a passagem com mais que de véspera ou com uns dias de antecedência. Dirija-se cá assim que chegar a Manaus, e pronto. Se for na rede, pode até ser no mesmo dia. As pessoas na sua acomodação saberão orientá-lo acerca das melhores embarcações (as maiores) e os horários, aí você vem e compra direto aqui no porto.

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O Porto de Manaus tem este espaço meio rodoviária com os guichês ali, fazendo a venda oficial de passagens. Sugiro evitar intermediários, até para não pagar mais do que precisa.
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Após pagar a taxa de embarque de R$ 10 (só em dinheiro), você atravessa a passarela e adentra o barco assim a pé, caminhando por entre os veículos. É uma certa muvuquinha, pero no mucho. À entrada do barco verificam sua passagem e lhe dão uma pulseirinha colorida de passageiro.

Caso você esteja a se perguntar como eu me resolvi ali na hora, eu preciso confessar que viajar de rede não havia sido minha primeira opção. Menos por mim e mais pela outra pessoa que estava viajando comigo — e eu também sou pouco amigo de rede, como falei, então…

Mas, como diria minha avó, “Deus não gosta de nada mal feito“, afora o já clássico “há males que vem pra bem”. É porque era para viajar na rede, o que se revelou uma experiência inesquecível.

A vendedora ao telefone me dizia que eu deixasse para viajar amanhã na suíte, e que ela garantia que estaria tudo bem, que “foi porque fizeram uma confusão” (vulgo overbooking). Eu escolhi requerer a diferença do dinheiro de volta (com sucesso, mas não garanto isso para todos os cambistas) e viajar de rede naquele dia

Já havia um ambulante vendedor de redes me abelhando ali, o que foi bom. Espero, queria me vender a rede por R$ 100. Aí você precisa barganhar até a morte, e eu consegui duas redes por R$ 100. Se quiser, você leva pra casa, ou faz o que quiser com ela depois — a rede é sua.

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A pessoa feliz que vai viajar no meio do povo.

Num Titanic popular amazônico

Rede instalada, num dos muitos ganchos disponíveis nesta embarcação para mais de mil pessoas e curiosamente sem cadeiras.

O vendedor ambulante ainda quis dar uma de esperto comigo e tentar cobrar R$ 10 à parte pela cordinha de amarrar a rede ao gancho. Recusei, ele protestou, rolou aquela ameaça de “eu vou comprar na mão de outro”, e ele aquiesceu.

Eu, chegado ali às 10h da manhã, tive a impressão de que já sobravam poucos ganchos disponíveis — quase todo mundo parecia já estar ali, embora a saída estivesse marcada só para as 11h. Se quiser escolher lugar, chegue cedo. Os postes onde talvez amarrar a bagagem já estavam tomados, e acabei por deixar minhas mochilas debaixo da rede mesmo.

Eu estava no terceiro andar deste verdadeiro Titanic popular amazônico, um mamute sobre as águas. A embarcação tinha bem uns cinco andares: 

    • Um “térreo” para carros e caminhões;
    • Um primeiro andar com o restaurante;
    • Um segundo andar com redes e (estranhamente) janelas de correr com um vidro meio fumê, que ajudavam a bloquear a ventania à noite mas deixavam o ar meio viciado;
    • E o terceiro andar, novamente com redes, mas com as laterais livres ventilando, onde eu me instalei.
    • Acima, havia ainda um breve quarto andar com o bar, onde as pessoas jogavam baralho e dominó bebendo cerveja ao som que tocava;
    • No topo, um terraço descoberto.   

Este era pelo menos a disposição do Ana Beatriz V, barco em que viajei. Pode variar, e há menores, mas todo mundo em Manaus me recomendou que as maiores são melhores. 

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O terraço com a vista para o rio lá de cima.
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Nas laterais ficam os camarotes e suítes. Não tirei foto dos interiores porque não quis paparazziar a privacidade de ninguém, mas confesso que o que vi não me inspirasse muito. Umas câmaras escuras de 6m², sem qualquer luz natural, com duas camas em estilo beliche (sendo a de baixo mais ampla, tipo casal) e um ar condicionado, além de um banheiro breve.

As pessoas no geral optam pela suíte por medo dos banheiros coletivos, mas eu preciso dizer que eles me surpreenderam positivamente. Não há luxo, mas são perfeitamente funcionais — e, inclusive, limpos durante a viagem. Achei que fosse os encontrar hediondos logo após as primeiras horas, mas esse não foi o caso. 

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Pias em abundância para lavar as mãos.
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Vários banheiros, divididos entre masculinos e femininos.
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Perdoem a foto, mas é para a documentação. (Ninguém gosta de ver, mas na hora H todo mundo quer saber como são os banheiros.)

Os ambulantes circulavam vendendo de tudo, de picolé a xaropes, a correntes de “ouro”, a fone de ouvido, a cocada e salgados desses de rua.

Estando nós no fim da manhã, boa parte vendia quentinhas de almoço por R$ 20, geralmente de frango ou carne com acompanhamentos. Logo passaria outra a vender balas de mangarataia a R$ 2,00. “Você deve conhecer como gengibre”, disse-me a bondosa vendedora morena com feições indígenas.

E aí, esse barco não sai não?

Não se preocupe que o barco não sairá no horário. O nosso estava marcado para zarpar às 11h da manhã, mas não saiu antes das 13:10. Sempre há algo que faz atrasar, geralmente o carregamento de carros e caminhões lá embaixo. 

Eu não tive outra opção a não ser me espraiar na rede e depois almoçar antes de ele finalmente dar a partida. Paciência é tudo. Esta é uma viagem de experiência, afinal.

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Almoçar foi preciso ainda antes de o barco sair. Garanta a sua quentinha com os ambulantes.
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A farinha que acompanha é tão grossa que parece um saquinho de incenso. Delicia pura.
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Cocadinha maravilhosa de sobremesa. Comprei logo umas cinco para comer ao longo da viagem.
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E vendedores passando vendendo de tudo. Isso aqui no Amazonas se chama dindin.

Do meu lado, nem bem o barco havia dado a partida e as pessoas também já estava a abrir os seus lanches que trouxeram. É engraçada a urgência que temos de começar a comer quando estamos viajando. 

Não demorou tampouco à mulher pesada de feições indígenas do meu lado ligar a caixa de som que trouxe a tocar um tecnobrega, que pelo menos não estava muito alto. Com o esmero de quem abriria uma caixinha de joias ou de música daquelas antigas, a madame amazônica sintonizou sua preta e vermelha caixa de som a trazer animação à família.

Do meu outro lado iam dois rapazes alourados e hippies, gringos desses com a barba de viagem por fazer e um com uma bandana na cabeça.

Quis o destino que eu tivesse esta experiência aqui nas redes no meio do povão, e eu lhe agradeço por isso.

Opa, o barco está finalmente começando a se mexer.

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À minha direita.
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A muvuca das bagagens. Os postes são logo cobiçados por quem quer amarrá-las. Já as minhas ficaram debaixo da minha rede mesmo, e não tive problema nenhum.
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Instalado na diagonal, e pronto para ver o rio passar.

Passando pelo Encontro das Águas: A formação do rio Amazonas

Sabe o encontro das águas dos rios Negro e Solimões, que juntos formam o Amazonas uns 20 Km rio abaixo depois de Manaus? É um dos principais passeios a partir da capital amazonense, e um que você não precisa fazer se vier nesta viagem, pois o encontro das águas fica no caminho para Santarém.

Mal havia passado coisa de 1h de viagem, e algumas pessoas da região com quem estávamos conversando já alertavam que o encontro das águas estava próximo.

De fato, é impressionante a diferença entre as escuras águas límpidas do rio Negro e a água barrenta do rio Solimões. Somente a partir deste encontro é que temos o rio Amazonas propriamente dito, o qual terminará de descer o Amazonas, cruzar o Pará, e desembocar lá na divisa entre este e o Amapá.

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Algumas embarcações no horizonte nas águas reluzentes — porém escuras — do rio Negro.
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O encontro das águas, onde os rios Negro e Solimões se combinam.
Encontro das águas barrentas do rio Solimões com as escuras do rio Negro, na viagem de barco entre Manaus e Santarém
Parecem água e óleo se combinando; mas elas se misturam, embora seja possível ver ainda a distinção de uma para outra por quilômetros.
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Daqui em diante, todos se tornam rio Amazonas.
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A tarde caindo conforme o tempo passava.

A Noite no Barco

Às 17:15, anunciaram no sistema de som que o jantar estava disponível. Os dois gringos, que a esta altura já haviam puxado conversa comigo, iniciando com um “Habla ingles?” carregado de sotaque, ficavam perdidos com esses anúncios em português e sistema de som precário, coitados.

Mas é isso mesmo. Quando a gente viaja, também costuma precisar dominar o inglês ou outro idioma. Aqui, eram um australiano (Adam) e um suíço (Kevin), no fim das contas. Depois seria engraçado as crianças da embarcação ficarem me olhando e virem dar Hello! em inglês como se eu também fosse estrangeiro. (Um tomou um susto quando eu respondi em português.)

As refeições são servidas por apenas um curto espaço de tempo; neste caso, até as 18h. Você verá as pessoas formando fila no andar do restaurante para comprar umas fichinhas que você então troca por marmitas prontas. Traga dinheiro em espécie

Também às 18h, começou a ventania. Viam-se os raios no horizonte. Redes deixadas sozinhas esvoaçavam feito velas de barco. A viagem que até agora havia sido de calmaria e sem sacolejo nenhum, agora prometia algo mais de adrenalina. Os funcionários começaram a baixar as lonas nas laterais para a provável chuva não nos molhar a tudo e a todos dentro do barco.

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As luzes se acendem com o cair do dia. Notem esses rolos acima da cabeça do cidadão, que são lonas para fechar a lateral em caso de chuva. Elas logo seriam abaixadas.
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O pôr do sol no rio Amazonas.
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Algumas pessoas põem suas roupas de frio. O vento à noitinha pode incomodar os mais sensíveis.

Você ficaria surpreso com a ventania relativamente fria à noite, mesmo na Amazônia.

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Olhem a situação do vento.
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E a escuridão toma conta da floresta e seu imenso rio. É noite.

Uma curiosidade é que o povo da região troca de roupa para a noite. Pelo menos vi vários o fazerem. 

Como cheguei a dizer, há chuveiros nos banheiros (tipo quase em cima da privada, sem box) para quem quiser tomar uma ducha, e ao fim do dia você vê os amazônidas indo ali com a toalha, como também escovando os dentes, etc. A herança cultural indígena, afinal, sempre foi uma de higiene. Nós turistas é que ficávamos sujos, em clima de aventura.

Às 20:30, aportamos em Itacoatiara, ainda no estado do Amazonas. Quem é de fora não faz ideia da imensidão que este estado é, sozinho equivalente a toda a Região Sudeste e a Região Sul juntas. Só chegaríamos ao Pará bem depois do amanhecer.

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Boa noite.

Eu não precisei de coberta, mas agradeci que as redes vizinhas bloqueassem o vento. Houve quem trouxesse, gente aqui da região já habituado a fazer esta viagem.

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A principal proibição no barco. Quem fizer questão de dormir grudadinho, só no camarote.
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Para não dizer que não falei das bagagens, elas ficam ali, numa boa.

Há a recomendação geral para você ficar de olho nos pertences, e não faltarão pessoas lhe lembrando disso na viagem. Entretanto, tampouco me pareceu algo do outro mundo. Simplesmente não largue seu celular exposto quando for ao banheiro, etc., mas também não é essa roubalheira a bordo que se pode talvez imaginar.

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Cerca de 22h, apagam-se as luzes. Essas azuis, entretanto, ficariam a noite inteira (e atrapalham um pouco se estiverem na sua cara).
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Que tal acordar com um amanhecer destes no rio Amazonas?

Acordando para mais um Dia

Quem é acostumado a dormir em rede dorme bem. No meu caso, a qualidade do sono foi pouco melhor que dormir em ônibus, embora mais confortável. Meu vizinho amazonense acordou dizendo que “capotou”.

Já às 5:30 da manhã nós paramos em Parintins, ainda estado do Amazonas. Ali desceriam grande parte dos passageiros, gente local. O barco seguiria agora com mais espaço entre uma rede e outra. 

Às 6:00h, anunciaram que o café da manhã estava disponível no refeitório. Hora de lavar o rosto, pegar R$ 10 em dinheiro no bolso, e ir lá ver o que havia de bom. Como nos outros casos, a refeição só é servida durante cerca de 45-60min, então não bobeie, para não perder a hora.

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O clarão do amanhecer.
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A vista do barco com aquele fulgor lá fora.
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A manhã no rio Amazonas.
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Vamos comer?
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Você pode se sentar no refeitório ou levar as coisas consigo, se tiver mãos.
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O café da manhã. Pão com ovo, fruta, mingau, e café com leite já adoçado. Dá para pedir café preto sem açúcar se você preferir — mas avise.
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Já que Hemingway escreveu sobre o Homem Velho e o Mar, poderia-se aqui na Amazônia falar da Mulher Jovem e o Rio.

No segundo dia você já está habituado à rede, e mais à vontade. Sentei, deitei, levantei, li, comprei almoço quando chegou a hora, e ouvi de longe a música que tocava lá em cima no bar. Tocou de tudo, desde a música-tema de Mortal Kombat ao jingle de Eymael.

Às 11h da manhã já no horário do Pará, que é o mesmo de Brasília (enquanto que o Amazonas fica 1h depois), detivemos-nos em Juruti. A esta altura já não parávamos muito, e já não entravam mais tantos ambulantes — eles que são, para mim, um dos ânimos da viagem. Chegando um, eu sempre ia ver o que era que estava à venda.

Eu fico impressionado com a generosidade das pessoas simples. Um dos gringos estava sem trocado para picolé, e o vendedor — um simpático tio escuro, com ar de boa prosa — deu de graça. “Tome, que é pra vocês conhecerem“.

A única crítica que eu tenho foi às várias pessoas que jogavam lixo no rio. Quando eu me pus ao fundo, olhando o rio que deixávamos para trás, a cada minuto eu via algo cair lá de cima — um copo descartável, uma embalagem, etc. Isso muito embora houvesse bastantes lixeiras a bordo. Entra a parte educacional, que precisa ser melhorada. 

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Há água potável gratuita a bordo. Se não quiser ficar usando copos plásticos o tempo todo, traga a sua própria caneca ou uma garrafinha.
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Nosso barco descendo o rio Amazonas.
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De boa.

Chegando a Santarém (PA)

O sol se poria novamente antes de finalmente aportarmos em Santarém. O tempo ora passava ligeiro, ora passava devagar. Alguns de nós nos perguntávamos se ele teria tirado o atraso de mais de duas horas de partida ou não. Num dado momento da tarde, anunciaram que atracaríamos às 19h. Creio que o barco tirou algo do atraso no caminho. 

Embora eu a esta altura já estivesse amigo da rede, eu gostava da perspectiva de chegar ainda hoje e saber que ao fim de tudo eu tomaria um bom banho, trocaria de roupa e dormiria numa cama.

Aí foi engraçado quando, na cama, o corpo sentiu uma certa falta do balançar da rede. Eu conheço pessoas que dormiriam a vida inteira em rede e no barco. É em grande medida uma questão de hábito. Como experiência, a primeira noite tinha contudo uma magia que a segunda provavelmente já não teria. Vamos atracar.

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Na viagem de barco pelo rio Amazonas rumo a Santarém.
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A paisagem ribeirinha.
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O sol alto sobre o rio, temperando o calor úmido porém fresco que fazia.
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Os que ainda permanecíamos.

As redes ao final de tudo ficam para você, então se não for levar para casa, compre uma mais simples. A minha eu acabei doando a uma jovem mãe aqui da região com ar carente.

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O sol já novamente querendo se pôr.
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Santarém à vista.
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O fulgor do poente sobre a floresta e as águas.

Santarém é onde o caudaloso rio Tapajós encontra o Amazonas, mais uma encruzilhada fluvial importante. Há dois portos nesta que é a segunda maior cidade do Pará, um deles bastante novo e bem organizado — onde atracaríamos. Ambos ficam a coisa de 2-3 Km do centro histórico.

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O porto de Santarém nos esperando.
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As cores do entardecer.
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Há uma breve muvuquinha na hora de sair do barco, mas nada demais.
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Adeus, Ana Beatriz. Valeu.

Agora era hora de marchar de novo em terra firme — e de começar a conhecer o Pará. As lembranças da viagem seguiriam para sempre na retina e no coração.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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