Bijagos 1 01c
Guiné-Bissau

Visitando as belas Ilhas Bijagós na Guiné-Bissau

(Este será um post longo.)

As Ilhas Bijagós ou Arquipélago dos Bijagós é o lugar mais especial que eu encontrei na Guiné-Bissau — um desses lugares retirados, tanto do mundo moderno quanto dos habituais circuitos turísticos, e que faz você achar que está num cenário de filme, tipo aquelas ilhas remotas onde vivem os vilões de James Bond.

Há muitos olhares sobre as Bijagós, conjunto vasto de 88 ilhas a 50 Km de Bissau no Oceano Atlântico. Você vê aquela larga costa africana, e nunca imaginou ilhas belas ali? Quase ninguém hoje em dia imagina — daí ser pouco frequentado. Mas 20 dessas ilhas são habitadas. Seu nome deriva precisamente do seu povo, os bijagós, gentes que vieram morar aqui ao longo dos séculos.

Sobre eles há o olhar histórico-antropológico, pois até hoje mantêm tradições religiosas próprias e hábitos culturais curiosos. Por exemplo, algumas das ilhas têm organização social matrilinear. Espere até eu lhe contar como é que as mulheres escolhem os maridos. Há também o olhar econômico e até sanitário, pois estamos num dos cantos mais pobres do planeta, e seu barco quase sempre vai levando gente da Organização Mundial da Saúde.

E há por fim o olhar naturalista, deste refúgio onde há até hipopótamos de água salgada (que eu, francamente, nem sabia que existiam). Como bem registrou Plínio, o velho, ainda na Roma Antiga: ex Africa semper aliquid novi. Da África sempre há algo novo. Dois mil anos depois, nós seguimos descobrindo.

Bijagos 1 01b
Praia nas Ilhas Bijagós, Guiné-Bissau.
Ilhas Bijagos no Mapa da Guine Bissau
Aqui estamos, num dos lugares mais belos da África Ocidental.

Chegando às Ilhas Bijagós: Ferry ou facada

Eu conheço viajantes estrangeiros — desses que rodam o mundo — que, mesmo tendo vindo à Guiné-Bissau, falharam em vir conhecer as Bijagós. (Lamento profundamente pois, com sinceridade, Bissau em si não é uma cidade que justifique uma visita turística ao país. Navegar às Bijagós é preciso.)

A razão para o desencontro é muito simples: ou você se programa para tomar o único ferry semanal às sextas-feiras que leva de Bissau às Bijagós, ou você dependerá de barcos particulares ou voos fretados que custam um rim ou os olhos da cara. Pense aí em centenas de euros por pessoa.

Já o ferry semanal custa meros 25 euros, um preço aceitável para uma jornada de mais de 4h no mar. Sai mais barato que alguns ônibus brasileiros. Os horários exatos você verifica na página oficial da ConsulMar, a empresa que faz o trajeto. Procure por Bissau-Bubaque, que é a ilha principal dos Bijagós, onde o ferry atraca.

A ConsulMar tem um escritório em Bissau que lhes mostrei no post anterior, e o melhor é comprar as passagens lá pessoalmente de véspera — e você compra logo também volta. Não me consta que vendam passagem online, e não confie que aceitem cartões de crédito: o mais seguro é vir com dinheiro em francos CFA, a moeda comum usada na Guiné-Bissau e outros 13 países da África Ocidental.  

Bijagos 1 03
O escritório da ConsulMar em Bissau. Você encontra o endereço no Google Mapas. (Por dentro ele é mais arrumadinho do que parece.)

Há 1ª, 2ª e 3ª classes no ferry, que é uma embarcação de médio porte (um barco grego reutilizado), mas na prática todos os estrangeiros não-residentes na Guiné-Bissau estão limitados à primeira classe com o preço fixo de 16.500 francos CFA — o equivalente aos 25 euros que mencionei, mas pagos em francos. Isso é por trecho, 16 mil de ida e outros 16 mil de retorno. 

Como são as classes? Cada uma representa um ambiente.

A 1ª classe dá acesso a um ambiente fechado com ar condicionado e televisão no centro do navio, onde fica também sua breve lanchonete. A 2ª classe é uma área com assentos ao ar livre, porém restrita. Na prática, você verá que muitos — todos os estrangeiros — ficam entre esse ambiente externo e o interno com ar condicionado (que não cabe todo mundo de uma vez, mas onde as pessoas entram pra escapar um pouco do calor ou para comprar uma bebida).

Já a 3ª classe é “na confusão“, como disse Nico, meu anfitrião em Bissau. Ele, que morou um tempo no Rio de Janeiro e foi casado lá, tinha aquele mesmo jeito faceiro dos cariocas de, de repente, mudar o tom de voz quando fazem um alerta sério no meio das brincadeiras. A “confusão” é o andar de baixo do navio, no meio das caixas e demais carregamentos — de fato um lugar pouco invejável, e ao qual você como estrangeiro não tem acesso.

Bijagos 1 04
A “confusão”.
Bijagos 1 05
As embarcações que vão de Bissau às Bijagós são assim. Aquele segundo andar ali no fundo é a segunda classe, com assentos ao ar livre numa área restrita. Eu já lhes mostrarei de perto.
Bijagos 1 06
Hora de embarcar.

Minha experiência indo de Bissau a Bubaque

Militar!“, disse-me um desses gaiatos de beira de porto, achando engraçado o meu marchar com as mochilas — e talvez a minha camisa verde — rumo ao navio. Fazia um sol daqueles do Nordeste no verão, umidade mesmo de beira-mar, ao que eu chegava ali ao desolado porto de Bissau por volta das 12:30. Eu vim a pé desde a casa de Fidel, que me albergou na cidade e sobre quem lhes falei no post anterior.

Chegar cedo ao ferry permite que você escolha onde irá sentar, já que não há assentos marcados. O nosso ferry estava previsto sair às 13h, então meia hora antes já há um burburinho de pessoas se aproximando com malas, os velhos táxis azul-besouro de Bissau a depositar alguns estrangeiros ali.

Há duas rampas de acesso, à parte de baixo (da confusão) e à de cima, onde ficam a 2ª e a 1ª classes. Se você tiver cara de não-africano, ninguém o deterá no acesso à parte alta do barco. De toda maneira, depois passarão funcionários checando as passagens, eu passarinho. Sentei no fundo do barco ali ao segundo andar, crendo-me bem-instalado ao ar livre, e depois tive que me mudar porque a fumaça do motor vinha toda ali. Fica a dica de evitar esse fundão.  

Pontualmente às 13h, os marujos suspenderam as escadas de acesso ao navio e nós zarpamos. Este ferry às Bijagós em plena Guiné-Bissau se revelou mais pontual que o navio que vai de Manaus a Santarém no Brasil, veja você.

O meu entorno tinha um misto de passageiros africanos (com ares de classe média que mora em Portugal e voltou de férias) e europeus com aqueles ares de europeus quando viajam. Portugueses, espanhóis e ingleses a conversar, outros quietos a ler. Alguns traziam garrafões d’água de 6l parecendo que iam passar muitos dias em alto-mar. 

Bijagos 1 08
A segunda classe com seus assentos ao ar livre. No teto, há coletes salva-vidas em abundância. Pode ser doce morrer no mar, segundo Caymmi, nas ondas verdes do mar, mas hoje não, obrigado. Chegando cedo ao barco, você escolhe seu lugar.
Bijagos 1 02
Os mares da Guiné-Bissau são mesmo verdes como os do Nordeste.
Bijagos 1 07
O lugar depois fica assim, cheio. Como não há lugares marcados, a maioria fica pra lá e pra cá. Suas bagagens podem ir com você, mas caso sejam malas grandes, você pode entregá-las para irem separadas lá embaixo.
Bijagos 1 09
Há quem prefira ter suas malinhas consigo. Esta é a primeira classe com ar condicionado e uma televisão passando filmes de Sessão da Tarde dublados em bom português brasileiro. Há também um pequeno bar-lanchonete vendendo algumas bebidas e sanduíches.

Eu ficava entre lá e cá, como quase todo mundo. Ventava direitinho, mas só se você estivesse bem posicionado, e ainda assim era preciso lidar com a fumaça dos fumantes. Quando o calor ou os cigarros começaram a me incomodar, migrei à primeira classe no interior, com um ar condicionado que não estava nível frigorífico, e onde se podia tomar algo.

Este barzinho do barco até que quebra o galho, com bebidas frias (cerveja, suco, refrigerante) e sanduíche. O sanduíche é tipo único — não há o luxo de escolher o que vem dentro. Pedi dois, e vi que se tratava aqui de pão tipo baguete com carne moída e maionese (!), esquentado no microondas. Seria um quiproquó bem menos poético que o de Caymmi em alto-mar, mas como quem pula numa água funda, você se entrega a Jesus e vai. (Quem precisa de bungee jump para viver perigosamente?).

Sabe que o sanduíche até estava gostoso? Era uma viagem plácida. Viajávamos a 13 Km/h, depois pegamos a 16 Km/h, aquele som pesado do motor de embarcação. A internet contém histórias de horror sobre sacolejos ao mar, mas só se for na época de chuvas (maio a outubro). Eu aqui nem sequer mareei. 

Com a barriga cheia, até cochilei ali sentado antes de chegarmos às 17:30, portanto 4h30 depois de deixarmos Bissau. Ainda raiava o sol do entardecer quando chegamos a Bubaque, nas Bijagós.

(Como deve haver curiosos, deixo o aviso aos navegantes que há banheiros, mas bem melados e sem papel nem descarga — exceto por um balde. Eu diria que é só para n.1 masculino ou emergências.

Bijagos 1 10
As Ilhas Bijagós, quando nos aproximamos naquele fim de tarde.

Bubaque, o choque da realidade social

Aqui a gente conta tudo, então não posso fingir que só vi beleza idílica sem falar na realidade humana do lugar. As Bijagós são lindas, mas não ache que está viajando a algum arquipélago desabitado.

Se você for ler o que a BBC publica sobre estas ilhas, acharia até que vai para o inferno. O barco definitivamente não é o drama todo que o repórter relata — levando-me a crer que, provavelmente ele ou ela nunca veio cá, e escreveu só com base no disse-me-disse. Falam de doenças diversas, e fazem isto parecer um pandemônio ao leitor. Que las hay, las hay, elas existem, e você provavelmente verá gente da Organização Mundial de Saúde no barco, mas vista a olho nu, a pobreza francamente mais choca que assusta.

Bubaque, a ilha principal e cidadezinha onde o ferry atraca, foi onde eu mais encontrei — em toda a minha vida — daquela pobreza africana nível noticiário. Gente preta sem acabar de vista, porcos pela rua na mesma lama em que as pessoas, um garoto trazendo uma cabra amarrada numa corda, galinhas vivas aglomeradas à espera de alguém no chão, carrinhos de mão puxados por motos lá e cá, e homens abastecendo ou desabastecendo coisas do ferry no porto.

Bijagos 1 12
O bafafá do porto nas Bijagós.
Bijagos 1 14
Bubaque, primeiras impressões.

Há quem se hospede aqui mesmo nesta ilha, pois há um número até razoável de acomodações de baixo ou médio custo. Porém, não há propriamente praia aqui — quem se hospeda em Bubaque precisa alugar uma bicicleta e cruzar 14 Km até a Praia de Bruce lá do outro lado da ilha se quiser praia digna. Neste lugar do ferry, todo o litoral é pedregoso e pleno de lixo. Só a visão da água já faz o seu estômago dar voltas. 

Bijagos 1 16
Hora de desembarcar.
Bijagos 1 13
O acúmulo hediondo de lixo na beira-mar.
Bijagos 1 11
Chegando às Bijagós. Você desembarca numa plataforma alta, com vista para as demais ilhas.

Eu tinha uma reserva num hotel resort chamado Ponta Anchaca, na ilha vizinha chamada Rubane, e alguém deles deveria estar aqui a me aguardar. Na prática, entretanto, não foi bem assim. 

Essa coisa da pessoa o esperando se mostrou uma pedra falsa recorrente aqui na África, onde a logística não é o forte. Eu desci do navio e fiquei ali esperando no meio do povão, entre aqueles que aguardavam alguém e dos que desembarcavam, até que tive que perguntar se alguém tinha visto o pessoal da Ponta Anchaca.

Isso foi uma experiência curiosa, pois não é como no Brasil, onde qualquer um acharia essa pergunta normal e lhe diria algo — se viu, se não viu, onde estavam, etc. Aqui em Bubaque, as pessoas me olhavam com espanto, sem entender o que eu perguntava, ou balançando a cabeça como se eu tivesse perguntado qual é a distância do sol até a lua. 

Um doido, daqueles que sorriem e dizem coisas, me disse algo que não compreendi — acho que em crioulo. Perguntei a um adolescente se ele falava português. Boiando, respondeu-me num português rudimentar que “não, só crioulo“. Achei franco. Eu comecei a me perguntar se teria que abandonar minha reserva ainda não paga no resort e encontrar um lugar por aqui mesmo.

Bijagos 1 20
Bubaque, Ilhas Bijagós, Guiné-Bissau.

Saltou-me aos olhos, inclusive, como as pessoas aqui são pretas — tornando inevitável concluir que a grande maioria dos “pretos” no Brasil, filhos desses ancestrais guineenses com portugueses, são na verdade mestiços, do mesmo modo que grande parte dos “brancos”. Os rótulos, se a pessoa pende para lá ou para cá, são mesmo fruto do contexto social. Objetivamente, no Brasil somos quase todos mestiços.

Na retinta multidão que seguia no seu burburinho como se eu não estivesse ali, manifestou-se finalmente um rapaz de seus 20 e poucos anos com um chapeuzinho creme que parecia aquelas asinhas na cabeça do deus Hermes, o Mercúrio dos romanos. Chamava-se Tchutchu — ou ao menos assim se apresentou. Se na documentação se chama José Mendes, eu não sei. Sei que falava português.

Tchutchu saiu perguntando a um e a outro funcionário em crioulo pelos funcionários da Ponta Anchaca, dizendo-me que o acompanhasse. Até que, num dado momento, ele parou e apontou: “É aquele lá“, me mostrando uma lancha com seus oito passageiros que acabava de dar a partida. Que maravilha, estavam indo sem mim. Tchutchu gritou algo, e eu não sei bem o que o lancheiro lá longe respondeu, mas não deu a volta. Inabalado e feito um heroi de filme de aventura, Tchutchu me disse que o seguisse, pois havia outro.

Ensaiamos ir por cá, depois dizerem que era por lá, e vi os freezers enferrujados da antiga fábrica de gelo abandonada que havia aqui e que fechou, hoje um entulho. Flagrei ainda, numa parede logo atrás do grande outdoor com o dizer “Bem-vindo a Bubaque”, o inconfundível símbolo da Igreja Universal do Reino de Deus, que não perde oportunidades.

Bijagos 1 19
Bem-vindos a Bubaque.
Bijagos 1 18
O ambiente.
Bijagos 1 15
Gentes pretas lá e cá em grande número.
Bijagos 1 17
Porcos e galinhas circulavam livres em meio às pessoas.

No circular com Tchutchu, entramos até de volta no ferry em que eu vim, onde acabei por fazer praticamente um tour completo onde ficava a “confusão”. Até que demos com os sujeitos de camisa azul-escuro da Ponta Anchaca circulando ali como se nada estivesse acontecendo. Nenhuma lista de passageiros à espera, nada. Claramente, falta-lhes aquele tino da atenção ao cliente, o que não é exclusivo da África, mas que já vi no Sri Lanka, em Samoa, e típico praticamente de qualquer lugar não-habituado aos costumes modernos e relações de mercado entre cliente e prestador de serviço.

Surgiu enfim o lancheiro que me levaria. Eu afinal não dormiria em Bubaque. Despedindo-me de Tchutchu, segui o homem pelas pedras da costa, e foi preciso tirar os sapatos porque haveria água até os joelhos para embarcar (tomai nota). A aventura foi tamanha que minhas calças de algodão — que já estavam podres de sujas — lascaram de vez. Eita.

Vamos adiante, agora em lancha ao pôr-do-sol rumo à ilha de Rubane, onde outra realidade me esperava.

Bijagos 1 21
Vamos que vamos, na lancha entre as ilhas de Bubaque e Rubane nas Bijagós, Guiné-Bissau.

Ilha de Rubane, paraíso tropical africano

Você desembarca em Rubane, e não demora àquele pequeno exército de funcionários de azul da Ponta Anchaca a lhe dar as boas-vindas. Como ocorre em tantos outros lugares pobres voltados ao turismo de luxo, você deixa para trás a realidade pública e passa a uma ilha de luxo privado, onde serviçais sorridentes e flores sobre a cama me aguardavam.

Rubane, sim, é um lugar tranquilo, de paz, onde você realmente se sente num daqueles refúgios secretos à beira-mar dos filmes de 007. Este cá parece atrair sobretudo portugueses e franceses de meia idade atrás de pesca esportiva ou de algo mais. Eu era, de longe, o visitante mais jovem — acho que o único menor de 50.

A dona era uma sexagenária francesa de plástica feita e certo ar de atriz aposentada, sempre chique, mas espevitada, dando regulada nos funcionários, lá e cá com o seu salto alto — até na praia — a tudo gerir. Ao contrário do que você talvez pense, não são apenas negros servindo brancos. Havia muitos clientes africanos também. De onde, não sei, mas falavam português. Talvez guineenses residentes em Portugal e retornando para um passeio.

Fiz o check-in na cabana que fazia as vezes de recepção e me dirigi à minha cabana própria de frente para o mar. Oh vida.

Bijagos 1 24
Aquele drink cortesia de boas-vindas, uma caipirinha que já me deixou embalado.
Bijagos 1 26
O espaço do restaurante era assim, por sobre o mar. Amanhã vocês o verão com a luz do dia. (Como não há restaurantes outros aqui, tudo na estadia é pensão completa — com todas as refeições incluídas.)
Bijagos 1 23
Minha humilde cabana de frente ao mar neste fim de semana.
Bijagos 1 22
Cama de flores — contraste imenso com o que eu havia visto em Bubaque.
Bijagos 1 25
A praia aqui em Rubane pela manhã. O mar aqui parece o do Nordeste do Brasil.

Você se sente quase Robinson Crusoé na ilha perdida, o mar em volta, os pés na areia, o sol a gradualmente aquecer o dia. As temperaturas eram até ligeiramente mais amenas que as do Nordeste do Brasil, e as noites seriam tão frescas quanto.

O que há para se fazer aqui? O que você bem entender. Eu já lhes digo que não verá muito da afamada cultura local das Bijagós, que os guias de viagem costumam enfatizar, com sua organização matriarcal onde as mulheres escolhem os maridos dando-lhes de comer. Sim, fazem uma refeição (geralmente peixe), e se o homem comer, pronto, sinal de que aceitou a proposta de casamento, e está selada a união.

Você pode ir ver os hipopótamos de água salgada que vivem nos mangues da Ilha de Orango, mas é bastante caro. Segundo aprecei, se paga 15.000 francos de tarifa ecológica, mais 10.000 por um guia local, 10.000 pela entrada do barco na ilha, e cerca de 250.000 pelo transporte em si — um barco que pode ser compartilhado por até 5 pessoas. O trajeto toma 2h de viagem por trecho desde Rubane, pelo total de 285.000 francos (cerca de €435) que você pode dividir no seu grupo. Como eu estava sozinho, deixei para uma outra ocasião, por mais curiosidade que eu tivesse de ver esses tais hipopótamos (que, a saber, não são uma espécie diferente, mas populações adaptadas a esse outro ambiente).

Eu optaria por fazer um passeio de bicicleta guiado ao interior da ilha, onde há algumas comunidades, mas não sem antes dar umas boas voltas por aqui a pé e tanto a beleza paradisíaca deste lugar quanto algumas coisas inusitadas.

Bijagos 1 27
O restaurante era formoso assim, com a água do mar em volta quando a maré enchia.
Bijagos 1 29
Vida dura.
Bijagos 1 28
Como estávamos aqui numa ex-colônia portuguesa, vebíamos todos água das Caldas de Penacova — mui afortunado nome. Tirei a foto porque não acreditariam se eu dissesse.

Falando em Portugal, havia um quarteto de coroas portugueses de seus 50-60 anos aqui neste fim de semana, cada qual com a sua negra de uns 30 — todas com idade de serem suas filhas, coquetes, em evidente turismo sexual. Eu chegaria até a presenciar mão-boba em lugar censurado quando cruzei com um dos casais na praia pela manhã — você vem à África e a coisa é bem na sua cara, mais que no Brasil. 

Percorri toda a extensão da praia pela manhã, até me deparar com uma trupe de meninos pretos no fim dela. Uns tinham o corpo todo coberto de areia, brincando de fantasma, enquanto outro portava uma máquina fotográfica plástica de brinquedo, que ele “usava” animadamente. Quando viu a minha verdadeira, ficou louco pedindo que eu lhes tirasse fotos.

Bijagos 1 33
Você caminha pela praia ali na maior tranquilidade. O mar lembra o do Nordeste. Afinal, é o mesmo, só que do outro lado.
Bijagos 1 31
Manhã em Rubane, nas Bijagós.
Bijagos 1 32
A meninada que eu encontrei. Em sua maioria estavam nus, alguns cobertos de areia. Puseram-se a pular e a dançar quando eu posicionei a câmera.
Bijagos 1 01
Vida de barão por um fim de semana nas Ilhas Bijagós, Guiné-Bissau.

Aqui você fica naquela vida de rico no dolce far niente — o doce fazer nada — intercalado apenas pelas refeições. 

Hoje eu comeria siri catado servido na casca, e à noite lagosta. Pra não fugir dos padrões aristocratas, você enfia aí uma atividadezinha básica para não se sentir por demais no ócio. Os antigos saíam à caça, ou a cavalgar, e eu hoje andaria de bicicleta no fim da tarde com Baba, um cidadão senegalês que trabalhava para a atriz francesa dona da Ponta Anchaca.

Baba tinha aquele jeito enérgico e extra-animado de professor de educação física. Não dominava muito bem o português, então tratava comigo em francês. Acompanhando-nos no ciclismo foi outro, um guineense, que atendia somente por Amigo — não importando que língua falassem com ele. Amigo vinha trajado com um chapéu de Robin Hood e camisa da mesma cor, ambos verde marca-texto.

Amigo era do tipo que tem uma vida interna rica. Falava baixo, e à primeira vista parecia tímido, embora não tivesse hesitado em pegar um corpo-a-corpo com alguém conhecido dele lá no vilarejo, naquelas brincadeiras de menino de ver quem derruba o outro primeiro. Riam, aquele riso campestre dos Hobbits.

Bijagos 1 34
Siri catado com queijo no almoço de entrada.
Bijagos 1 35
Uma voltinha de bicicleta com a maré baixa ao entardecer pelo interior da ilha.
Bijagos 1 36
Amigo ali no seu verde traje em meio às pessoas do vilarejo.

Pedalar na areia da praia e depois no manguezal não é exatamente uma tarefa simples, mas com muita luta nós chegamos. Por vezes, pedalávamos por valas cavadas como caminhos entre o matagal, e eu me perguntava em que programa tinha me metido.

Num dado momento, foi preciso escantear as bicicletas e seguir a pé. Avistamos algumas choupanas dessas de palha aí da foto, vazias, e Baba informou que é porque as pessoas deveriam estar em outro lugar. Prosseguimos até encontrá-los num matagal naquele fim de tarde, gente nativa aqui de Rubane.

A pobreza das pessoas saltava aos olhos, uma pobreza rústica quase neolítica. Afora os farrapos ou roupas sujas que vestiam, não havia sinal algum de modernidade ali. Não há água encanada, não há saneamento, nem há teto nem paredes em lugar nenhum — só as palhoças. 

Bijagos 1 40
As moradas por onde passamos, no momento vazias porque as pessoas haviam ido colher arroz.
Bijagos 1 37
Baba com um maço de arroz, que eles aqui plantam e colhem para comer junto com pescados na sua subsistência.
Bijagos 1 38
O povo daqui, quando os encontramos.
Bijagos 1 39
Com um rapaz que vestia uma camisa do Brasil. Alguns falavam português melhor que outros. Via de regra, comunicavam-se em crioulo.

As pessoas ali tinham um certo ar tímido mais que encabulado, como de quem funcionava num outro comprimento de onda. Fiquei na minha até que retornamos, com o sol já quase se pondo.

Quando eu cheguei do passeio de bicicleta, me deparei um pequeno bode cor de caramelo na varanda da minha cabana. Se no Brasil há os cachorros dessa cor, aqui quem viram as latas são os caprinos, que passeavam tais quais animais de estimação pela propriedade, a explorar o espaço e as coisas de interesse entre uma cabana e outra. Era fofo vê-los circulando e pensar esses animais enquanto seres vivos, não exclusivamente como carne esperando o abate — ainda que aqui eles provavelmente venham a ter esse destino.

Vi a hora de eu abrir a porta e ele entrar, e o proverbial “bode na sala” virar uma coisa literal. Imaginei ele comendo meus livros e até meu celular. Mas não entrou, nem eu abri a porta com ele ali. Foi embora quando eu me aproximei. Melhor assim.

Tomei um banho e depois fui jantar, ao que encontrei os portugueses ainda animadamente na piscina com belas canções a tocar, como A Música do Gago de Ruben Aguiar. Eu cheguei a achar que fosse algum brega brasileiro, um Reginaldo Rossi da vida, mas depois descobri que a música era portuguesa mesmo. ♬ “Você nunca go, nunca go, nunca gostou de mim. Você me me jo, me me jo, me jogou fora.” ♬ Achei curioso como aquilo, até pra nós com todas as músicas baixaria que há no Brasil, soava meio escatológico demais. Enfim, me concentrei na bela lagosta.

Bijagos 1 48
O sol a se pôr com a maré baixa.
Bijagos 1 45
O bode na minha varanda.
Bijagos 1 41
Os caprinos pequeninos circulavam livres pela propriedade, indo onde lhes desse na telha — até o mar.
Bijagos 1 44
Fofura passando na sua tela.
Bijagos 1 43
O meu jantar nesta noite de sábado na Ponta Anchaca, Ilha de Rubane, nas Bijagós, Guiné-Bissau.
Bijagos 1 42
Isso que você viu ali não é vinho, mas suco de bissap, típico no vizinho Senegal como aqui na Guiné-Bissau, feito de um tipo de hibisco. Tem um ligeiro azedinho quebrado pelo açúcar já posto. Parece um suco de beterraba, só que sem aquele gosto particular da beterraba.

Eu não vou negar que há um certo embaraço em estar comendo lagosta enquanto as pessoas aqui pertinho vivem em tamanha pobreza. Por outro lado, dou-me conta de que este lugar é praticamente a única entrada de dinheiro e fonte de renda das pessoas na ilha — quase todos têm um familiar prestando serviços aqui e, não fosse pelo barco do hotel, nem sequer teriam como deixar esta ilha para ir a Bubaque comprar algo. As coisas são complexas.

Bijagos 1 50
As pessoas dos vilarejos de Rubane andam por aqui, seja para lavar roupas ou o que for.
Bijagos 1 49
As senhoras com bacias na cabeça, coloridas feito personagens nas areias de Rubane.
Bijagos 1 46
O pôr do sol por sobre o mar de Rubane, nas Ilhas Bijagós.
Bijagos 1 47
Esplendor surreal.

A partida

Domingo de manhã, chegada era a hora de partir. Eu já estava até apegado à minha cabana. 

Tomei meu café da manhã e não bobeei, pois desta vez se a lancha partisse sem mim haveria consequências nefastas. Eu tinha o ferry de retorno a tomar em Bubaque e, na manhã seguinte, um voo de saída aqui da Guiné-Bissau. Despedi-me de Solange, a dona que chamei de atriz francesa aposentada, e que agradecia meus elogios ao lugar com seus “merci, c’est gentil, monsieur“, e logo estava de volta à baderna de Bubaque.

No ferry de retorno a Bissau, estavam passando Sr. e Sra. Smith dublado na versão brasileira no interior da 1ª classe. Também havia um rádio ligado tocando batidas africanas e umas 12 pessoas conversando alto, tentando se fazer ouvidas, como num boteco. Tomavam do vinho português Cantores de Pias servido em caixas de leite.

O cardápio agora era outro, e o sanduíche revelou ser de miúdos ao molho — sabe-se lá de que bicho. Eu acho que desde o milênio passado minha boca não sentia o gosto de fígado, antes de eu em 2001 virar vegetariano, mas aqui não tinha jeito: era isso ou ficar restrito aos biscoitos de Nutella que eu tinha comigo. Não estava disposto. (A maturidade vai nos desapegando de certos rótulos e nos tornando mais flexíveis às vezes.)

A volta foi até mais rápida, a 17 Km/h, talvez porque houvesse menos carga a bordo. Após 4h de viagem já nos aproximávamos de novo da desembocadura do rio Geba em Bissau, onde eu reencontraria meu anfitrião Nico. Desembarquei, ignorei um táxi ou outro, e fui a pé Bissau adentro no que era uma tarde quieta de domingo.

Bijagos 1 51
Bubaque, nas Ilhas Bijagós.
Bijagos 1 52
Bissau, naquele domingo à tarde.
Bijagos 1 53
De volta à minha rua uma vez mais.

Epílogo: Até mais, Guiné-Bissau

Naquela tarde após a chegada, eu nada mais fiz que sair a comer um sanduíche num dos poucos lugares que havia abertos. O dono do lugar parecia ser um árabe. Eu olhava ao redor e percebia como o pouco comércio de Bissau parece estar nas mãos de estrangeiros, tamanha a exclusão das pessoas da vida econômica do seu próprio país. Na outra calçada, duas mulheres pretas acompanhavam duas pequenas crianças brancas, a quem ensinavam a andar de bicicleta. As crianças não deviam ter mais que 6 anos, a imagem a me recordar certos Brasis.

No dia seguinte, eu sairia cedo para o Aeroporto Osvaldo Vieira em Bissau. Fui comprar uns sanduíches recomendados por Nico numa bodega vizinha do hospital (mui frequentada por famílias de pacientes), e munidos deles chamei à rua um dos táxis azuis da cidade. Obviamente não há ligue-táxi nem aplicativos de nenhuma sorte.

Faça o check-in online, pois — creia — eles podem ter problemas para fazê-lo ao vivo. Foi o que me salvou para este meu voo da Air Senegal. A internet na Guiné-Bissau costuma ser limitada, mas funciona, e pode bastar para isso. Via de regra, há wi-fi nível 3G. Mensagens de texto vão; mensagens de áudio e fotos vão com certo trabalho; mas navegação na internet será lenta. (Streaming de video nem pensar.)

Bijagos 1 54
O Aeroporto Internacional Osvaldo Vieira (OXB) em Bissau.
Bijagos 1 55
O interior do aeroporto. Bem-vindos.

Não havia uma única tela funcionando no aeroporto. Havia um rumor de que meu voo para Dakar estava atrasado, das 12:45 sairia agora às 16h, mas ninguém sabia dizer mais que isso. Eu, que havia chegado lá às 10h, consegui de um segurança uma cadeira plástica, e me pus a ler. Deixei minha sacola de sanduíches no chão e depois tive que acudi-la, pois as formigas atacaram.

Só muitas horas depois apareceu alguém abrindo o check-in. Até que não havia tanta gente assim, mas mesmo para os poucos que estávamos ali, a infraestrutura era parca. Gente passava mal feito em posto de saúde no Brasil — uma senhora africana bem com aquele ar de “estou passando mal”. 

Passamos pela segurança, pela emigração, e lá do outro lado o aeroporto se mostrou até mais arrumadinho — só que 16h já havia dado, e não havia telas nem sistema de som nem notícia nenhuma se o nosso voo afinal sairia ou não. O silêncio no aeroporto era inquietante — todos esperando com impaciência que o avião da Air Senegal finalmente aterrissasse. Olhávamos para o céu no horizonte como a única fonte de notícias. Até o pessoal da segurança parecia entediado, olhando o celular. (Surpreendentemente, havia wi-fi.)

Na lojinha que ali havia, comprei uma geleia de manga que se revelaria bastante boa, e vi lembrancinhas sobre o país — mimos que eu não havia encontrado em nenhum outro lugar daqui, nem em Bissau nem nas Bijagós.

Bijagos 1 56
Lembrancinhas da Guiné-Bissau na lojinha da área de embarque do aeroporto.

Enfim, o avião da Air Senegal pousou para júbilo geral. Era a aeronave que nos levaria até Dakar. A preocupação agora era que, de lá, quase todos nós tínhamos conexões a tomar — eu aí incluso. 

Meu rumo hoje não era retornar à capital senegalesa, mas lá tomar um outro voo até Praia, a capital de Cabo Verde. Eu iria de uma ex-colônia portuguesa a outra, se a Air Senegal assim me permitisse.

Já tratei sobre a experiência de voar na Air Senegal noutro post, e reitero aqui que, embora a companhia valha a pena, fazer conexão internacional em Dakar foi algo que eu não apreciei. Passa-se por nada menos que três balcões e mais a segurança. Você na pressa, e ainda rola aquela coisa de “o rapaz do balcão já vem atendê-lo, daqui a pouquinho ele chega aí” — aquele mesmo “daqui a pouquinho” brasileiro. Adicionem aí aquelas firulas que os africanos têm de não querer o cartão de embarque na tela do celular, aí você tem que voltar naquele outro balcão pra a pessoa imprimir, e assim caminha a humanidade.

Aí foi inusitado com minha geleia de manga. Eu não imaginava ter que passar de novo pela segurança aqui no aeroporto de conexão (às vezes é o caso, às vezes não, eu havia resolvido arriscar). Eis então que a policial me fala: “O senhor pode consumi-la aqui, se quiser. O problema é o vidro [do frasco].” (E eu achando todo este tempo que o problema eram os líquidos…).

Bijagos 1 57
Vejam o charme da minha geleia de manga no seu novo recipiente, já que o problema era o vidro.

Corri feito um desesperado rumo ao meu portão após todos esses trâmites. Deixei para trás, resignado, o chapa inglês que trabalhava com serviços privados de segurança e que veio me contando dos seus périplos e desventuras África adentro. Ele tinha um voo para o Mali — a zona da encrenca onde estão os golpes militares e guerras — que já não alcançaria mais, e eu não queria para mim o mesmo fim.

Ali por perto, vi homens muçulmanos barbudos e todos de branco, parecendo gente do Antigo Testamento, acompanhados de mulheres completamente cobertas de negro que os seguiam feito espectros sem face.

Desci ao andar inferior do Aeroporto de Dakar, onde os paineis indicavam que seria o meu embarque, e ali encontrei um casal de holandeses — com aquela cara típica dos jovens casais europeus fazendo turismo — que me disse que o voo para Praia estava atrasado, mas sim, sairia dali. A melhor notícia do dia. Dei sorte, caso contrário teria que pernoitar aqui no Senegal. Restava ver apenas se minha bagagem também chegaria comigo ainda esta noite em Praia, Cabo Verde. Vejo vocês lá.

Bijagos 1 58
No Aeroporto de Dakar, rumo a Praia, Cabo Verde.
Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *