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Dinamarca

Conhecendo Odense (Dinamarca), a cidade natal do escritor Hans Christian Andersen

Hans Christian Andersen (1805-1875) é o dinamarquês autor de muitas obras hoje conhecidas por quase todos no Ocidente: O Patinho Feio, A Pequena Sereia (daí a famosa estátua da sereia em Copenhague), O Soldadinho de Chumbo e tantas outras. 

A Disney e outros estúdios até hoje tratam de adaptar suas obras. Tantas restam por ainda ser adaptadas. Por exemplo, uma bem conhecida na Europa é A Princesa e a Ervilha (1835), onde um príncipe está por casar, mas não sabe como identificar quem das suas muitas pretendentes é mesmo da realeza. Numa noite de chuva, sua mãe a rainha acaba dando abrigo a uma moça, e lhe oferece uma cama com múltiplos colchões — mas há uma ervilha lá debaixo do último. Pela manhã, a moça se queixa de que algo a incomodou, e assim o príncipe conclui que só mesmo uma princesa de verdade se queixaria por uma ervilinha debaixo de tantos colchões. Tenho amigos europeus que usam isso quando a criança começa a fazer manha demais: “Virou a princesa da ervilha?“.

Mas como é a cidade onde Hans Christian Andersen nasceu no século XIX, hoje a terceira maior cidade da Dinamarca? Quase que só se fala em Copenhague quando se trata de turismo aqui, mas há mais o que ver neste país. Odense — que os dinamarqueses pronunciam quase comendo o D, como se fosse Ôensse — pode não ser exatamente uma metrópole, mas ela tem o seu charme.

A saber, seu nome vem de Odins Ve, que significa Santuário de Odin, o principal deus na antiga mitologia nórdica. Ela data de quando os dinamarqueses ainda nem eram cristãos. 

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A figura em Odense de São Canuto, padroeiro da Dinamarca. Trata-se de um rei medieval dinamarquês (r. 1080-1086) que acabou sendo martirizado aqui e foi canonizado. Depois eu conto a história.
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A Dinamarca de hoje é lugar tranquilo, de bicicletas e calçadões.
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…mas a minha chegada foi de trem, passando aqui rapidamente pela estação central de Copenhague, plena de bandeiras dinamarquesas intercaladas com as ucranianas, algo que se tornou comum pela Europa após 2022.

Odense, uma visão geral

Era um começo de tarde de setembro quando eu cheguei. A essa época, enquanto a maior parte da Europa ainda está mergulhada no fim do verão, o outono já começa a mostrar a cara na Dinamarca.

Os dias ainda têm sol, mas já há um vento frio à espreita. Os mais sensíveis vestem casacos enquanto os mais atrevidos e amantes do sol — como eu — persistem no mito de que o verão continua. Na astronomia, ele continua mesmo até 22 de setembro, mas na prática aqui nos países nórdicos a banda toca um pouco diferente.

Às vezes, já no fim de agosto as folhas — atrevidas — já começaram a cair, e as pessoas retornadas das férias de verão (fim de junho a meados de agosto) vão retomando aos poucos a rotina de trabalho.

Todavia, ainda havia um quê de pouco movimento aqui em Odense. Uns raros turistas britânicos acompanhavam-me na rara pousada a ser encontrada, onde o magro e simpático senhor dinamarquês dono do lugar ficou chocado que um brasileiro viesse — oriundo de tão longe — a Odense. Ele achou mais plausível quando eu lhe disse que morava em Estocolmo na vizinha Suécia, não tão longe assim. Era sexta-feira, e eu havia tirado um final de semana prolongado para finalmente conhecer melhor este interior da Dinamarca.

Odense me pareceu um bom lugar por onde começar. A cidade em si não é badalada, tampouco de aspecto medieval, mas ela tem algumas ruelas fofas, igrejas medievais impressionantes e um museu sobre o seu filho mais famoso. As referências a Hans Christian Andersen estão por toda parte.

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Olhem a fofura desta lojinha, parecendo mesmo que saiu de algum dos contos infantis.
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A Catedral de São Canuto, erigida em estilo gótico de tijolos entre 1300 e 1499. Este famoso rei dinamarquês canonizado foi morto aqui em Odense, em 1086.
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O charmoso Teatro de Odense, dando a pinta que a cidade tem hoje.
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A Prefeitura de Odense, neste formoso prédio de fins do século XIX.
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A minha humilde residência nestes dias. Também com cara de saída de alguma história infantil?

Hans Christian Andersen e seus museus na cidade

As ruas de Odense tinham seu movimento, mas não muito. Nota-se que o turismo aqui é de baixa intensidade.

Hans Christian Andersen by Thora Hallager 1869
Fotografia de Hans Christian Andersen (1805-1875) em 1869.

O que mais atrai os poucos visitantes são mesmo os museus dedicados a Hans Christian Andersen: a sua casa de infância, dedicada a mostrar um pouco de como era a vida naquele tempo, e a casa onde ele depois viveu, hoje vinculada a um museu moderno, interativo e dedicado sobretudo ao público infantil.

Acaba sendo um pouco confuso quando você procura pelos lugares no Google, mas aqui a gente mostra tudo direitinho.

A casa onde ele passou a infância é um lugar bem simples e pequeno. Tem entrada gratuita para “crianças menores de 18 anos”. Se você precisar se informar, chamam-na de Hans Christian Andersen’s childhood home em inglês ou Barndomshjem no original dinamarquês.

Eis o site oficial deste primeiro museu, caso você queira verificar horários etc. 

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A casa de infância de Hans Christian Andersen, hoje um pequenino museu dedicado a mostrar sua vida humilde no século XIX.
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Os interiores eram humildes naquele tempo.
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Um dos padrinhos de Hans Christian Andersen era sapateiro, e sua mãe era uma lavadeira analfabeta. O pai havia feito apenas a escola primária. Hans teria uma vida de classe trabalhadora que, se não era pobre, tampouco tinha a ver com o glamour da nobreza com que costumamos ver o século XIX europeu.

Hans só viveria até os 14 anos em Odense, a maior parte do tempo numa outra casa, hoje vinculada ao museu principal em seu nome: o museu Casa de Hans Christian Andersen. (Eu sei, começa a parecer quase uma hagiografia, com tanta coisa diversa a seu respeito, Odense transformada quase em lugar de peregrinação.)

Verdade seja dita, eu não pirei em nenhum destes museus, pois este último parece mais um “centro de aprendizado” moderno para crianças sobre as suas histórias. Não tem exatamente cara de museu no sentido clássico da coisa. Como os turistas aqui não são tantos assim, se nota que o público alvo são mesmo famílias dinamarquesas com seus filhos. É preciso usar o áudio, que vem em inglês ou alemão também.

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A casa onde viveu Hans Christian Andersen em Odense até os 14 anos, antes de se mudar a Copenhague para estudar e trabalhar.
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Fizeram um museu grande e moderno sobre suas obras nestes arredores, voltado especialmente ao público infanto-juvenil. Aqui o site oficial a quem desejar informações sempre atuais sobre preços e horários.
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Crianças ouvindo as histórias no interior do museu.
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A figura do mestre-escritor numa indumentária quase de mago, das obras que hoje permeiam o imaginário ocidental.

Uma curiosidade é que Hans Christian Andersen chegou a ser até enredo de escola de samba no Carnaval brasileiro. Isso foi obra da Imperatriz Leopoldinense em 2005, para celebrar os 200 anos do nascimento do autor.

O que tem a ver com o Brasil? Inspirou Monteiro Lobato e tantos outros, com a ideia de difundir contos também da realidade brasileira, além de ter influenciado diretamente a infância de tantos — ainda que o grosso dos brasileiros não reconheçam seu nome.

Ele chegou também a escrever e publicar relatos de viagem pela Europa do século XIX, ainda que estes sejam bem menos conhecidos que as suas obras de fantasia.

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Com o escritor em Odense, Dinamarca.
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O que mais me chamou a atenção, na real, foram algumas ruelinhas charmosas do centro histórico.
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O jeitoso ar das coloridas casas com as bicicletas.
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As ruas são quietas, e quase tudo se mantem residencial. Não espere muita badalação.
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Eu circulava a gosto, tomando aquele ventinho friozinho que começa a bater quando o sol se esconde.

O “causo” de São Canuto em Odense

O que mais há para ver na cidade? Em verdade, apesar das referências onipresentes — e estátuas várias, dele próprio ou de seus personagens — a Hans Christian Andersen em Odense, em termos de monumentos, o que mais me chamou atenção na cidade foram suas igrejas, que remontam a uma Odense mais antiga, medieval.

Para isso, nós precisamos voltar ao século XI, com uma história — agora da História com H maiúsculo — que, se não infantil, nos lembrará dos filmes de aventura medieval ou fantasia à là O Senhor dos Anéis.

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A série mais recente de Vikings: Valhala, lançada em 2022, trata desse período mais tardio dos escandinavos, precisamente do século XI, quando tensões surgiram entre o cristianismo e as crenças antigas.

Naqueles idos, o Reino da Dinamarca já era oficialmente cristão, mas o cristianismo ainda nada mais era que uma película imposta pelos reis e alguns nobres na população. (Afinal, era-lhes conveniente fazer parte do mesmo “clube” de monarquias europeias com quem realizar comércio e alianças, em vez de sofrer com cruzadas e guerras santas.)

A conversão oficial, a saber, se deu em 958 quando ascende ao trono dinamarquês Harald Bluetooth — o “dente azul” e, sim, a origem da alcunha da conexão bluetooth entre aparelhos móveis, daí seu símbolo ser uma runa (nunca percebeu?). Isso porque ele juntou povos na Escandinávia, trazendo as gentes da atual Noruega sob seu comando. 

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A figura do rei Canuto IV, que governou entre 1080 e 1086. Sua morte aqui em Odense foi tão dramática que ele viria a ser canonizado.

A população, todavia, ainda preservava muito das antigas religiões nórdicas e daquele espírito tribal de liberdade do tempo das navegações vikings (séculos VIII a X).

Só que o mui católico rei Canuto IV (1043-1086), futuro São Canuto, era um homem à frente do seu tempo. Queria uma sociedade como se veria depois pela Europa: monarquias centralizadas, coletas de impostos para cobrir os gastos, guerras e afazeres dos reis, etc. 

Quando ele chegou ao poder em 1080, a Inglaterra havia há pouco (em 1066) expulsado os dinamarqueses de suas terras com a invasão do normando Guilherme, o Conquistador. Falei-lhes mais dele na visita a Rouen, Normandia, na França.

Canuto IV, entretanto, queria retomar a Inglaterra. Os normandos também eram estrangeiros, afinal. Ele começou então uma campanha de rígida coleta do dízimo usando os coletores de impostos da própria coroa, e instando os nobres e contribuírem recursos para uma invasão.

Quando esses não contribuíram, Canuto IV — talvez à maneira dos reis absolutistas do século XVI em diante — começou a confiscar posses das gentes daqui e dali em revanche, sobretudo das regiões do reino que não enviaram homens para lutar. Não prestou.

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Na porta principal da Igreja de São Albano em Odense, veem-se as cenas do rei com seu povo. A cena dele cortando a árvore eu não sei se tem a ver com o combate à religião pagã ou à construção dos navios para a invasão frustrada à Inglaterra.

Victor Hugo dizia que nada é mais forte que uma ideia cujo tempo chegou. E talvez nada seja tão perigoso quanto defender uma ideia cujo tempo não chegou ainda.

Cheios do que viam como abusos do rei, as pessoas do reino rebelaram-se contra Canuto IV e seus familiares. Perseguiram-no até que o rei, seu irmão Benedito e alguns outros guerreiros leais acabaram refugiados aqui em Odense em 1086. Tentando instigar as pessoas a abrir mão desse levante contra a coroa, mas sem sucesso.

Aldeãos munidos de lanças e peões com espadas cercaram o rei no que era a Abadia de São Albano aqui em Odense, uma igreja de madeira agora sitiada pela turba. O rei achou que ali não se atreveriam a agredi-lo, mas isso se mostrou um engano. As pessoas não eram tão cristãs assim, e já estavam azedas pelo tal dízimo forçado. 

Isso é pela vaca que me roubaram!”, “Este é pelos meus cavalos que levaram embora!“, gritava o povo nas investidas, segundo os relatos. Tentaram atear fogo na igreja com o rei dentro, mas a chuva apagava as chamas — o que os cronistas católicos depois tomaram por auxílio divino. 

Quando a plebe conseguiu adentrar a igreja, a batalha final se deu na própria nave central. O rei Canuto IV acabou morto a lanças e pedradas em pleno altar-mor — segundo alguns cronistas, no que me parece um certo toque de zelo, sem oferecer resistência.

A chuva caía e o sangue real corria pelo chão da igreja naquele 10 de julho de 1086 aqui em Odense, no priorado de São Albano. Foi um prato cheio para o que depois viria a ser tratado como o martírio de um santo. Historiadores mais tarde veriam um monarca centralizador que favoreceu a Igreja, chegando a usar os coletores de impostos do reino para cobrar o dízimo.

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A neogótica Igreja de Santo Albano, construída de 1867 a 1908 — portanto muito depois de quando a antiga igreja de madeira já não existia mais.
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O interior da Igreja de São Albano, neogótica. São Albano, a quem ficou curioso, foi no século III um dos primeiros mártires da Britânia romana.

O finado rei Canuto IV foi enterrado pelos monges beneditinos ali no interior da própria antiga abadia de São Albano, que já não existe mais. Erigiria-se então uma catedral em seu nome ainda no século XI, mas que seria incendiada numa guerra posterior, até que de 1300 a 1499 fizeram esta atual catedral de tijolos. Nesta Catedral de São Canuto aqui em Odense estão seus restos mortais.

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A enorme Catedral de São Canuto em Odense, consagrada em 1499. É feita de tijolinhos, como tantas aqui nestes entornos do Mar do Norte, onde não havia muitas pedras com que construir.
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O belo interior da Catedral de São Canuto em Odense. De estilo gótico, ela era inicialmente católica, até que mais tarde a coroa dinamarquesa se converteu ao protestantismo luterano.
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A igreja segue sendo hoje luterana, da autônoma Igreja da Dinamarca. Notem o belo órgão lá ao fundo.
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O lindo órgão da Catedral de São Canuto em Odense em detalhes.
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Os detalhes em filigranas de ouro no altar principal. (Aqui são passagens da vida de Jesus, não de Canuto.)
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A quem estiver curioso, nesta cripta sob a catedral estão os restos mortais do finado Canuto IV, dito São Canuto.

Não acho que os dinamarqueses hoje deem muita atenção a essas coisas — talvez um tinha tenham-no feito. Quem sabe os mais religiosos, mas estes aqui são uma minoria. 

Eu daria ainda minhas breves voltas pela cidade, entre os parques, os bares e os restaurantes asiáticos aqui e ali. Preparava-me para, no dia seguinte, fazer um bate e volta até Aarhus, a segunda maior cidade do país, a ver o que ela tinha. Revejo vocês lá.

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Setembro num entardecer, num dos parques urbanos em Odense.

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Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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