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Auvergne-Ródano-Alpes França

Pelas ruas de Lyon, a terceira maior cidade da França

Lyon [Li-ôn] é das cidades mais subestimadas da Europa. Para cada brasileiro que vai a Paris, acho que só 1 em 50 ou 1 em 100 vem aqui conhecer esta outra cidade da França — ver mais do que o país dos gauleses tem a mostrar.

Cortada de forma cênica não por um rio, mas dois, o Ródano (Rhône) e o Sona (Saône), este um afluente do anterior, Lyon é uma metrópole com ares pitorescos e históricos de cidade menor. Foi exatamente na confluência desses rios que os romanos a fundaram em 43 a.C. como Lugdunum, sem qualquer previsão do que ela viria a se tornar.

Segundo alguns pensadores franceses como Fernand Braudel, Lyon é a oponente principal de Paris, com quem sempre competiu ao longo da História francesa. Não é fácil competir com Paris, mas mesmo assim é Lyon a considerada “capital mundial da gastronomia”. Daqui vêm alguns dos mais famosos vinhos franceses (Beaujolais, Côtes du Rhône…), não de lá.

Em Lyon, não em Paris, se estabeleceram os primeiros bancos franceses na Idade Média, quando essas instituições entraram em voga na Europa para além do seu nascedouro nas cidades-estado italianas. E aqui fica o arcebispado primaz da França, não lá na capital.

Do pão ao vinho, do dinheiro ao espiritual, Lyon têm uma proeminência nem sempre reconhecida no estrangeiro. (Paris tem, sem dúvidas, o melhor marketing). É hora portanto de conhecermos esta outra cidade francesa — sua terceira maior em população (após Paris e Marselha), porém a segunda maior economicamente. 

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Lyon tem um ambiente algo diferente de Paris, mais leve, mais lento e mais arejado. Quem reclama do comportamento dos franceses deveria experimentar este interior do país. Tem ainda o cheiro da França, mas uma França mais calma e simpática.

Situando Lyon

Eu já vim a Lyon duas vezes — com um enorme espaço de mais de uma década entre elas. Da primeira vez, num abril de primavera, eu mal cheguei a Lyon, desci com minha amiga Gaëlle do apartamento do seu primo Benoît [Benuá], e sorri me dando conta daqueles típicos prédios de seis andares dominando as ruas.

Quem já veio à França vai reconhecer do que eu estou falando. Prédios de tom bege, todos um ao lado do outro ao longo da rua, numa altura semelhante.

Um homem chamado Georges-Eugène Haussmann, prefeito em Paris entre 1853-1870 sob Napoleão III, é dos grandes responsáveis pela cara que a França tem hoje. Na capital, ele via suas vias medievais como antros de sujeira e doenças. É por causa dele que não se vê centro medieval em Paris. Mandou demolir tudo, pois o imperador queria ar, luz e espaços abertos.

Quando vou a Paris, eu — como turista não-europeu que acha o medievo exótico — não deixo de sentir a falta dos ambientes medievais de época de outras cidades europeias. Mas aí observo o que, em 1845, alguém disse sobre Paris:  

“Paris é uma imensa oficina de putrefação, onde miséria, pestilência e doença trabalham em conjunto, onde o ar e a luz do sol raramente penetram. Paris é um lugar terrível onde as plantas murcham e perecem, e onde, de sete crianças pequenas, quatro morrem num ano.” – Victor Considerant (1845), citado em Le Paris d’Haussmann.

Formou-se então a cara típica da França da Belle-Époque, do final do século XIX e início do século XX. O estilo das edificações, sobretudo em Paris, foi apelidado de estilo haussmanniano (style haussmannien) em referência ao prefeito. 

Dessa moda de Paris, Lyon não divergiu. Adotou estilo semelhante, como fizeram outras cidades — aqui como no restante da Europa, pois “quando a França espirra, o restante da Europa fica gripada“, como disse o germânico Duque de Metternich (1773-1859).

Eu sabia, porém, que aqui eu estava na França.

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Avenue de l’Opéra, soleil, matinée d’hiver (1898), quadro do pintor Camille Pissarro mostrando o renovado centro de Paris na Belle-Époque. O original se encontra no Museu de Belas-Artes de Reims.
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A rua onde eu estava hospedado em Lyon, com prédios de teor e altura semelhantes, embora menos requintados que os parisienses. Por outro lado, Lyon já adquire tons róseos e pêssego, como a indicar estamos próximos da Itália.
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As ruas de Lyon dominadas por edifícios no estilo haussmaniano, dos fins do século XIX e começo do XX.
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Porque a França pode ter seus pecados no currículo, mas é também amor.

Embora esse estilo predomine como em outras partes da França, Lyon entretanto tem seu centro histórico de ruelas medievais ainda preservado.

Por ele eu andei tanto na primeira vinda cá na primavera quando na segunda, mais de 10 anos depois, no outono. Como estas últimas fotos aí acima não me deixam mentir, a cidade fica um charme também nessa época.

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Os rios e o centro

Um dia não começa adequadamente na França sem uma ida à padaria. É preciso munir-se de um café, acompanhado de um pain-aux-raisins (às vezes chamado caracol na Ibéria) ou croissant. Ou ainda um pain au chocolat (sem tradução, como “internet”). Até eu que sou mais adepto dos cafés da manhã salgados, aqui na França, viro a casaca e faço como os franceses. Minha lealdade é à experiência cultural.

Em ambas as vezes que vim, não me demorei a rumar para o centro da cidade, que é onde tudo acontece.

Lyon está estruturada em três partes, por assim dizer. Se você chegar de trem, como é provável que chegue, ou mesmo se chegar de avião e depois tomar um transporte do aeroporto à cidade, a sua jornada começará na Estação Lyon Part-Dieu — formalmente Lyon de la Part-Dieu, literalmente “da parte de Deus”, no sentido de propriedade de Deus. (Não é que os edificadores tenham sido tão pios, mas que a estação se situa no que foi uma terra negociada com um convento na Idade Média.)

A segunda parte é a Quase-Ilha (Presqu’île no original francês), que é o trecho que está entre os dois rios, uma delgada península que parece mesmo uma ilha fluvial, onde ficam a prefeitura, o Museu de Belas-Artes da cidade, entre tantos outros lugares que precisam ser vistos. Por fim, tem-se Vieux-Lyon, Lyon antiga, a terceira parte após cruzar o Ródano e o Sona.

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Foto aérea de Lyon mostrando sua parte antiga (à esq.), a Quase-Ilha, e a parte mais ampla e moderna da cidade à direita dos dois rios. (Wikimedia: David Monniaux).

Visitando a Quase-Ilha

Se a Velha Lyon é definitivamente a parte mais turística da cidade, a Quase-Ilha é talvez a zona mais bela, onde não faltam lyoneses jovens e adultos passeando. Aqui ficam a Place des Terreaux  (onde fica a prefeitura do século XVII), o lindo Museu de Belas-Artes de Lyon, e a centenária Igreja de São Nicétio (Saint-Nizier), que integra uma lista de edificações hoje tombadas pela UNESCO como Patrimônio Mundial da Humanidade na cidade.

Umas voltas por estas bandas é indispensável, então preparei-me pós-café e pós-croissant a cruzar o vasto Ródano desde a acomodação estilo AirBnB próximo da estação onde eu estava na segunda visita, e vim para cá.

No caminho — para não mentir dizendo que na parte moderna não há nada a ver —, detivemos-nos na belíssima Igreja da Imaculada Conceição, concebida em 1856 e completada em 1893. Daí, sim, nos dirigimos à Ponte Wilson para atravessar o Ródano. Ela faz referência, não à bola de vôlei amiga de Tom Hanks no filme Náufrago, mas ao então presidente dos Estados Unidos Woodrow Wilson quando da inauguração da atual ponte em 1918. 

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Bom dia pra vocês aí também, com um cafezinho preto acompanhando o croissant recheado com chocolate. Padaria na França é vida.
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Bonde elétrico circulando por Lyon em meio aos prédios haussmanianos, ainda na parte moderna. Eu gosto como a Europa consegue combinar o contemporâneo à preservação histórica.
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A neobizantina Igreja da Imaculada Conceição em Lyon.
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O estilo neobizantino é dos meus favoritos. Entrou em voga no século XIX na França. Você o encontra também na Basílica de São Martinho em Tours.
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O altar-mor, com iluminuras de estilo medieval bizantino e arcos arredondados.

Eis que eu então tinha o rio Ródano diante de mim — um dos mais largos e importantes da França, ele que nasce nos Alpes e deságua no Mediterrâneo.

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O caudaloso Ródano em Lyon.
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Área verde com ciclovia na margem oriental do rio, as folhas de outono a se iluminarem com o sol.
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A Ponte Wilson sobre o rio Ródano e a Quase-Ilha de Lyon lá do outro lado, com o sol no horizonte.

Place des Terreaux: Prefeitura e a escultura irmã da Estátua da Liberdade

Atravessamos a ponte, e lá na Quase-Ilha encontramos alguns dos lugares mais belos de Lyon. O seu centro espiritual, por assim dizer, é a Place des Terreaux — um nome que não se traduz muito bem, mas que significa algo como Praça dos Fossos. Onde no medievo ficou um fosso e a muralha, hoje ficam a Prefeitura de Lyon e seu Museu de Belas-Artes.

Eu caminhei tranquilo por aquelas ruas plenas de franceses, quase nenhum turista óbvio em vista. Tanto no outono de outubro quanto na primavera de abril, batia um ventinho frio que acompanhava o sol. No meu retorno aqui no outono, as folhas marrons e caídas dançavam em todas as praças onde havia árvores. Exceção feita a esta Place des Terreaux, toda pavimentada, onde a água dos chafarizes de chão ainda ligados se acumulava fazendo dali um espelho.

Num dos lados da praça, a imponente Fonte Bartholdi, feita em 1889 pelo arquiteto francês Frédéric Auguste Bartholdi (1834-1904), o mesmo que fez a Estátua da Liberdade em Nova York. Essa é ligeiramente mais velha, de 1886, e a quem não sabe foi feita na França e um presente desta aos Estados Unidos (também para provocar a rival Inglaterra).

Esta aqui de Lyon mostra a mesma figura feminina da Liberdade — a deusa romana Libertas, depois personificada na Revolução Francesa como a figura feminina da República, a qual os franceses apelidaram de Marianne, um nome do povo que junta Maria e Anne (mãe e avó de Jesus, Ana em português), a sugerir um espírito popular ao movimento. É a mesma figura das notas de real no Brasil. Aqui na Place des Terreaux, temos-na a conduzir quatro cavalos, que são representações dos principais rios da França — o Ródano um deles.

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A foto que vocês viram na capa da postagem com a Place des Terreaux e a água dos chafarizes.
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Os detalhes da Prefeitura de Lyon, uma clássica edificação do século XVII, com a bandeira francesa lá hasteada.
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A Fonte Bartholdi, inaugurada aqui em 1889. Obra de Frédéric Auguste Bartholdi, o mesmo que fez a Estátua da Liberdade, um presente da França aos Estados Unidos em 1886.
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Aqui, temos a figura feminina da República a guiar cavalos que representam os quatro principais rios da França: o Ródano, o Sena, o Loire e o Dordonha (este último na região da Occitânia).

Como se não bastasse, logo do outro lado da praça fica o inevitável Museu de Belas-Artes de Lyon — outra visita mui recomendada. Tem um custo de entrada modesto, de apenas €8, e abre todos os dias exceto às terças (ver o site oficial). 

Eu ponho abaixo algumas obras que me chamaram a atenção. Não faltam nomes conhecidos.

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Os arredores do Museu de Belas-Artes de Lyon neste outono.
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Os hebreus levados em cativeiro (1864), obra de Alfred Bellet du Poisat mostrando a ocasião em 586 a.C. quando o rei babilônio Nabucodonosor conquista Jerusalém (em chamas lá atrás) e leva os hebreus cativos de lá.
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A primavera (1882), do impressionista Claude Monet. (Se você gosta dele, não deixe de ver a postagem em Giverny, onde ele viveu.)
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Nave nave Mahana (Dias deliciosos) (1896), obra de Paul Gauguin, famoso por ir viver no Taiti e retratar os polinésios na arte europeia.
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A Virgem e a Criança (sem data), pelo pintor renascentista Bartomoleo Montagna (1455-1523).
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El Expolio (1579), pelo mestre El Greco. Esta é uma versão do seu quadro mostrando o momento em que Jesus é despojado das vestes no início da Paixão. O pintor o retrata sereno na multidão. (Há uma versão maior deste quadro na sacristia da Catedral de Toledo, Espanha.)

Por fim, apresento-lhes o que achei uma série muito singela do artista lyonês Louis Janmot, feita entre 1835 e 1855. Chama-se O Poema da Alma, e mostra diversas etapas da vida. Um anjo traz a alma do céu, a criança recém-nascida recebe o carinho materno ainda sob a companhia do seu anjo da guarda, a criança cresce, e chega à idade adulta. Depois continua. Ainda que saibamos que, infelizmente, tantos penem nestas etapas e — sobretudo na infância — tenham vidas bem aquém do que deveriam, não deixa de ser singelo observar.

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O nascer. Um anjo traz a criança.
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O carinho materno na primeira infância, e o anjo ainda ali por perto.
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A criança vai se desenvolvendo, e descobre os outros.
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A idade adulta e suas experiências.

A série continua com vários quadros até a inevitável morte, completando a arte que é viver. 

Falando em arte — e em alma —, não se deve deixar esta Quase-Ilha e partir à Velha Lyon do outro lado do rio sem antes conferir a Igreja de São Nicétio (Église de Saint-Nizier), iniciada no século XIV em estilo gótico. São Nicétio, a quem tampouco havia ouvido falar dele, foi um bispo de Lyon do século VI enterrado aqui.

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Igreja de São Nicétio (Église de Saint-Nizier) em Lyon. Iniciada no século XIV em estilo gótico, o corpo principal foi completado no século XVI, mas certas estruturas internas só viram o fim no século XIX.
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O interior gótico da Igreja de São Nicétio em Lyon.
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Um lindo vitral com o que me parecem ser cenas da vida de São Nicétio no século VI, ele que foi o 28º bispo de Lyon.
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Hora de nós atravessarmos a segunda ponte, sobre o rio Sona, rumo à Velha Lyon e sua Colina de la Fourvière.

Vieux-Lyon e a Colina de la Fourvière

Estamos agora prestes a chegar ao ponto alto de Lyon — literal e figurativamente. As breves ruelas da Velha Lyon (Vieux-Lyon) são sua zona mais turística, que culmina com a Colina de la Fourvière, onde estão a catedral e as melhores vistas da cidade. Sobe-se lá num funicular. 

Não dá para traduzir muito bem a Colina de la Fourvière (sem descaracterizar demais o nome), porque esse nome já é ele próprio uma corruptela do latim Forum Vetus (fórum velho). Séculos se encarregaram de transformar o termo latino no provençal Forviére, e daí no francês Fourvière

Trata-se de onde os romanos estabeleceram sua Lugdunum em 43 a.C., logo após as campanhas de Júlio César para a conquista da Gália (58-50 a.C.). A saber, dois imperadores romanos posteriores — Claudius e Caracalla — nasceram aqui.

Lugdunum veio do gaulês Lugdun, que no idioma celta se referia à colina do deus Lug, da lei e da ordem. Os romanos latinizaram o nome, que todavia na Idade Média meio que voltou às origens. Lugdunum passou a Lugdon, Luon, e então Lyon, que desceu a serra e criou habitações também cá embaixo.

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O rio Sona (Saône) é um afluente do Ródano e bem mais estreito. Neste outono, eu via o sol encoberto por nuvens e, lá mais adiante, por cima das árvores em cor, a Catedral de Notre-Dame de la Fourvière ao meu aguardo.

O vento era imperdoável neste dia. Ao que terminei de tirar esta foto, olhei mais adiante ponte à frente e vi uma senhora quase sendo levada. Agarrou-se depressa às grades antes que eu cá alguns bons metros atrás tivesse qualquer reação.

Era daquelas lufadas que dão e passam, mas que fazem as folhas dançarem no ar e a atmosfera toda ganhar um certo jeito lúgubre de outono. Não o lúgubre triste, mas o lúgubre circunspecto.  

Adentramos as ruelas de prédios altos em cor de pêssego e rosa, como são os da Itália (como que a mostrar onde estão as raízes culturais de Lyon), e ali havia pouco movimento. Entramos numa loja de produtos feitos de lavanda, e nos arredores se viam coisas voltadas claramente ao público turista. Não éramos muitos, todavia. A vendedora pôde até se dar ao luxo de ficar de papo comigo e me perguntar como era a vida na Suécia, onde vivo.

Vocês são latinos como nós“, concluiu ela com empatia quando lhe disse que tudo lá é muito bom, mas muito morto. Eu gosto quando os latinos europeus adotam também a designação (como não fazê-lo?), e não fica só aquela associação rasa obra dos Estados Unidos de “latino” como sinônimo apenas de reggaeton e morenas com bunda. Nada contra as morenas com bunda (muito pelo contrário), e talvez nem contra o reggaeton, mas é que ser latino incorpora bem mais que isso. 

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As ruelas do centro histórico medieval de Lyon, a Vieux-Lyon com suas ruas estreitas.
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Os tons pasteis e róseos predominam na paisagem.
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Parece até que a gente está na Itália.

O sol fraco de outono adentrava por aquelas ruas, e num momento meio La Bohème eu achei o lugar meio triste. Não tenho pretensões de ser Charles Aznavour, mas se ele nessa canção voltou a Monmartre um tempo depois e achou o lugar desanimado, eu também aqui me recordava de uma Vieux-Lyon com mais vida. Talvez seja a distinção entre a vida da primavera e o quieto do outono. Oxalá seja apenas isso.

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Estas são fotos de quando vim a Vieux-Lyon na primavera, há mais de 10 anos atrás. Não faltavam músicos na rua.
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Talvez os músicos de rua tenham sido das principais vítimas da crescente digitalização das coisas. Hoje em dia, muitos na Europa não andam mais com moedas, e ninguém mais compra CD.
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Aos curiosos, eu magérrimo na Vieux-Lyon de mais de uma década atrás.
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De volta para o futuro, nós estávamos agora nas mesmas ruas, só que muito mais sóbrias.

Demos umas voltinhas nestas ruas, tomei um quentão de vinho (pois o tempo já permitia), e fomos à Catedral de Lyon, que fica numa praça aberta. Ela data de 1180, então tem o meu respeito histórico, mas preciso dizer que não é exatamente onde mora a beleza da cidade — a Basílica de Notre-Dame de la Fourvière mais adiante rouba toda a cena.

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A Catedral de São João Batista nesta parte antiga de Lyon, iniciada em 1180 e concluída em 1476. no estilo gótico.
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O interior da catedral com suas arcadas.

Premente era subir à Colina de la Fourvière, o que da primeira vez eu fiz a pé e agora, no funicular. (Não é que eu não consiga mais — nem estou tão velho assim —, mas minha amiga Gaëlle na primeira vinda era daquelas pessoas taradas por fazer caminhada, bicicleta, etc. Enfim, ariana da gema.)

O funicular foi aberto no ano de 1900, então ele tem até um ar meio retrô e constitui uma atração à parte.

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O carrinho de funicular que sobe os trilhos desde 1900 até a Colina de la Fourvière, no alto de Vieux-Lyon.
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Lá fica a imponente Basílica de Notre-Dame de la Fourvière, completada em 1884.
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Ela combina tanto elementos neobizantinos quanto romanescos.
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Se por fora ela é um esplendor, por dentro ela tampouco decepciona.
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As iluminuras e vitrais de inspiração medieval na Basílica de Notre-Dame de la Fourvière em Lyon.
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O teto em tons de ouro e verde-piscina.
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Os arcos ogivais que entram nesta eclética e enfeitada basílica.

Cá do alto você também tem as melhores vistas da cidade. Foi algo que não mudou muito uma década depois. 

Se quiser, você pode fazer uma caminhada breve e ver as ruínas do Teatro Gallo-Romano (ou seja, gaulês-romano) de dois mil anos atrás, usado ainda hoje para eventos.

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A vista para Lyon cá do alto da Colina de la Fourvière.
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O Teatro Gallo-Romano, da Antiguidade.

Na primavera, eu daqui segui com Gaëlle para Le Puy en Velay, uma cidadezinha nas montanhas (onde acontece de começar o Caminho de Santiago — pelo menos um dos vários começos que há), onde ela morava. Mas aquele lugar eu mostro depois. Após uns dias, eu acabaria retornando a Lyon para tomar o avião, dia em que eu acabei enganado pelas ciganas.

Eu era jovem e pouco rodado ainda. Não conhecia o truque — velho feito o rascunho da Bíblia — das ciganas francesas de pedir doação num suposto abaixo-assinado para crianças deficientes (outro dia vi umas em Paris aplicando este mesmo truque em turistas incautos). Assinei, carregado como eu estava de bagagens no pátio externo da estação de trens, fazendo hora para o ônibus até o aeroporto. Achei que ficaria nisso, quando as duas adolescentes então solicitam minha contribuição. Não fui roubado, dei €5 porque quis, mas quando eu me dei conta de que aquilo era uma tramoia, já era tarde.

Eu havia dito que contribuiria com apenas €3 e queria o troco (meus amigos na escola diziam antigamente que eu era pão duro, e havia seu quê de verdade nisso). A cigana queria ir embora sem me dar os €2 de retorno, então retive a prancheta, e se criou um celeuma ali no lugar, uma cigana a chamar a outra. Após vários minutos de impasse, eu já a plena ciência da ladinagem, uma me devolveu €2 e foram embora. Uma amiga depois me diria que a história de ter sido surrupiado por ciganas na França vale o investimento de €3. Tinha razão. #JeNeRegretteRien (não me arrependo de nada, como dizia Piaf — com f).

No outono, de volta ao presente, eu agora seguiria Sabóia adentro. Era hora de trocar Lyon por recantos outros que eu agora conheceria pela primeira vez — e que me mostrariam a mais bela versão do outono que jamais vi na França, em todos estes tempos. Reencontro vocês lá.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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