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Auvergne-Ródano-Alpes França

Chambery e a região de Saboia na França: A antiga morada do Santo Sudário de Turim

Sejam bem-vindos à parte alpina da França, que tem um caráter próprio, e mais especificamente à histórica região de Saboia, que já foi independente.

Estamos na sua capital, Chambery (ou Chambéry em bom francês, lendo-se Xã-bê-RRI), a antiga morada medieval dos Duques de Saboia, que por um tempo abrigou o Santo Sudário antes de este ser levado pelos duques a Turim, na atual Itália, mas que naquele tempo pertencia ao ducado.

Estamos num lugar relevante e tanto aqui. Ainda que Chambery não seja uma cidade turística por excelência, ela tem seu lugar na História. 

Por fim, se aqui parece que a gente está na Itália, é porque de fato esta região só passou a fazer parte da França muito tardiamente, em 1860. Até a Argélia e o Senegal se tornaram domínios franceses antes de Paris conseguir pôr as mãos aqui em Saboia.

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Chambery tem a cara das cidades italianas, com suas janelas venezianas de madeira e os prédios em tons pasteis.
Mapa de Saboia sec XVI
A histórica região de Saboia, que foi um condado (1003-1416) e depois um ducado (1416-1860). Em 1860, quando ocorre a Unificação Italiana, a França segura parte deste território. Daí Chambery e Turim, antes juntas, hoje estarem em países diferentes. Ainda assim, a semelhança cultural é clara, pois a atual região de Piemonte na Itália pertencia aos saboianos.
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Bem-vindos à região de Saboia (Savoie em francês, Savoia em italiano. Em português se aceitam os dois termos, Saboia ou Savoia, mas Saboia é mais comum — à maneira como também a chamam os espanhóis, Saboya).

Saboia na História: De Sapaudia ao ducado, à realeza

Vamos a um breve pano de fundo para se entender melhor esta região de fronteira entre França e Itália. 

Saboia aparece pela primeira vez na História escrita como Sapaudia, um território que os romanos tomaram dos gauleses em 121 a.C. Os romanos categorizavam este território em Gália cisalpina e Gália transalpina — uma antes e a outra do outro lado dos Alpes, do ponto de vista de Roma.

Nós pensamos nos gauleses quase sempre com a Gália transalpina (o atual território da França) conquistada mais tarde por Júlio César, em 58-50 a.C. Porém, esse povo celta também povoou o atual norte da Itália — a Gália cisalpina — antes de Roma se expandir.

Ou seja, é uma região que há muito tempo mistura suas heranças celtas gaulesas e romanas. Você não tenha dúvida de que, muito mais tarde, o Reino da França usou isso para tentar abocanhar o norte italiano. Pode ter falhado em tomar Milão, mas conseguiu assegurar Saboia. 

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A chamada Gália cisalpina (isto é, para cá dos Alpes — “cá” do ponto de vista de Roma) nos idos de 100 a.C.

Aqui em Chambery, nós estamos no começo do que era a Gália transalpina para os romanos, com as grandes montanhas dos Alpes ainda em vista detrás de nós.

O Império Romano — já ele uma mistura de instituições e povos — depois colapsaria dando lugar aos povos bárbaros, dentre os quais se destacariam os francos.

Seu rei Carlos Magno (747-814) constituiria então, ao lado do papa, o chamado Sacro-Império Romano Germânico, em cuja grande colcha de retalhos estava a Casa de Saboia.

Saboia não demoraria a se destacar como uma das mais prósperas da Europa. Basta dizer que os futuros reis da Itália unificada todos provieram dessa família.

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Ruas de Chambery no outono, com os Alpes à vista no horizonte.

Emerge o Condado de Saboia — que adquire o Santo Sudário

O Santo Sudário — o pano de linho marcado com a imagem de um homem crucificado, que se alega ser nenhum outro se não Jesus Cristo — não era ainda “de Turim” quando se começou a falar dele na Europa. Ele aparece pela primeira vez (que se tenha nota) em Lirey, um vilarejo no nordeste da França, em 1354. Ele é exposto na igreja local, chamado de fraude por uns (como o bispo de Troyes), mas visto por outros como sendo a autêntica mortalha da Paixão de Cristo.

Coat of arms of the Duchy of Savoy XV XVI century
O brasão de Saboia. A semelhança com a bandeira suíça não é mera coincidência.

Nessa época, desde 1003 nós já tínhamos nesta região aqui o Condado de Saboia, uma das inúmeras entidades feudais que respondiam — em última instância, mas na prática quase nunca — ao sacro-imperador. 

O condado gradualmente se expandiria conquistando os vizinhos até se estender desde Genebra na margem do Lago Leman até Nice na costa do Mar Mediterrâneo. À altura de 1416, o sacro-imperador então eleva este condado à categoria de ducado.

(Eu, durante grande parte da vida, achei que o conde era superior ao duque, mas é o contrário. Duque vem do latim dux, que significa dois, portanto o “segundo” após o rei ou imperador — seu representante nos rincões de um reino.) 

Os novos duques de Saboia adquirem o Santo Sudário para si em 1453, e o guardam numa capela aqui em Chambery, então sua capital.

Santo Sudario com o negativo
O Santo Sudário, o original (à esq.) e o negativo da imagem. Ele apareceu em Lirey, no nordeste da França, em 1354 — diz-se que trazido de Constantinopla pelos cruzados. Em 1453, é adquirido pela família dos Duques de Saboia, que à época tinham sua capital aqui em Chambery. No século XVI, estes transferem sua capital — e o Sudário — para Turim, no que atualmente é a Itália, mas que na época era parte deste mesmo ducado.

A ascensão de Saboia e a ameaça francesa

Os séculos XIV e XV foram de grande prosperidade para Saboia, que expandiu seu território até chegar ao Mar Mediterrâneo. O vizinho Reino da França, nesse tempo, estava embrenhado na Guerra dos Cem Anos (1337-1453) contra os borgonhos e os ingleses.

Passada a guerra, entretanto, o Reino da França organizou-se melhor. Teve os seus primeiros reis renascentistas nos castelos do Vale do Loire, e pelos idos de 1500 já estava a querer se expandir — à custa de vizinhos como este Ducado de Saboia aqui nos Alpes. 

Após ataques e escaramuças com os franceses, os duques de Saboia acharam melhor transferir a capital de Chambery para Turim em 1562. Em 1578, transfeririam para lá também o Santo Sudário, onde ele desde então permanece.

Francois Ier Louvre
François I (r. 1515-1547), eminente rei renascentista francês que viveu no Château de Blois, no Vale do Loire, era filho de Louise de Saboia e sobrinho do duque. Após seu reinado, a relação entre Paris e Chambery começou a azedar.

Apesar da pressão francesa, os saboianos entrariam na primeira liga dos jogos de poder entre as monarquias europeias no século XVIII.

Na Guerra da Sucessão Espanhola (1701-1715), acabaram filando a coroa do então Reino da Sicília, que havia sido parte do império espanhol. De condes a duques, e agora de duques a reis, os saboianos ascendiam aos primeiros escalões das potências europeias.

Só que essa agora era briga de cachorro grande, e sob pressão dos Habsburgo da Áustria, os saboianos acabaram tendo que lhes ceder a Sicília em troco da Sardenha — uma ilha mais perto de casa para os saboianos, mas bem menos rica e menos conectada às rotas de comércio do Mediterrâneo.

Vitor Emanuel rei da Italia
Vittorio Emanuele II (1820-1878), também dito Victor Emanuel em português, com seu frondoso bigode. Ele foi o primeiro rei da Itália unificada a partir de 1860 — um monarca da Casa de Saboia.

Eles não deveriam ter se preocupado muito, pois breve seriam reis de toda uma nação maior do que a própria Áustria. 

Quando ocorrem os movimentos de Unificação Italiana com Giuseppe Garibaldi e tantos outros, é esta Casa de Saboia e seu Reino da Sardenha (cuja capital, na verdade, não ficava na ilha da Sardenha, mas em Turim) quem de modo preponderante ascende a este novo trono italiano.

Se esse primeiro rei italiano foi já Victor Emanuel II, isso foi porque os saboianos já haviam tido um Victor Emanuel I antes da unificação. 

Como não há vitória sem sacrifício, eles todavia tiveram que abrir mão deste pedaço de terra que era cobiçado pela França, onde fica Chambery. 

O Reino da Itália viria a se dissolver com a formação de uma república após a Segunda Guerra Mundial, e lá a Região de Piemonte — dantes um domínio saboiano — foi quem herdou seus louros.

Já aqui do lado francês, os saboianos seguem muito cientes da sua identidade, ainda que não haja nenhum movimento independentista de relevo no momento. Você verá, de qualquer maneira, as bandeiras de Saboia hasteadas ao lado da francesa. 

Como a França não é boba nem nada, e teme que lhe possa ocorrer algo semelhante aos catalães lá tentando até hoje se separar da Espanha, ela sequer reconhece Saboia como uma região administrativa, preferindo misturá-la a outras numa entidade a-cultural chamada Auvergne-Ródano-Alpes. Boba Paris nunca foi.

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A Prefeitura de Chambery, uma edificação do século XIX. Veem-se ali as bandeiras da União Europeia, da França e de Saboia.

Cuidado para não confundir a bandeira saboiana com a da Suíça — elas são deveras parecidas, quase idênticas. Ambas têm uma cruz branca num fundo vermelho, mas a suíça é quadrada, e nela a cruz branca não alcança as bordas da bandeira, ao contrário da saboiana.

Essa moda europeia de ter cruzes nas bandeiras (ex. Inglaterra, Suíça e todos os países nórdicos) advém lá atrás do tempo das cruzadas, quando os senhores feudais expunham a cruz de Cristo nas suas flâmulas e brasões. Nesta região dos Alpes, predominou o vermelho e branco, encontrado também entre os austríacos, como na bandeira da cidade de Viena.

Um “causo”, inclusive, é que naquela altura de 1860, quando da Unificação Italiana, havia gente em Saboia que queria se unir à Suíça — formalmente chamada de Confederação Helvética e, como o nome “confederação” já sugere, um amalgamado relativamente frouxo, em que cada região (cantão) guarda bastante autonomia. Certos saboianos queriam isso, mas os franceses não lhes deram essa opção. Tampouco deram a opção de aderir à Unificação Italiana.

Num plebiscito que chegou a ser realizado, Paris lhes deu apenas as opções de “juntar-se à França” ou “não”. A esmagadora maioria — mais de 90% dos eleitores — supostamente votou sim, da mesma forma como nas reeleições eternas de ditadores mundo afora. Dizem as más línguas que os franceses fraudaram descaradamente o processo, o que no século XIX não era prática rara.

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Chambery e Saboia hoje guardam muito do que foram antes da França. Aqui, a sua fonte mais famosa, a Fonte dos Elefantes (1838) em homenagem ao General Conde de Boigne (1751-1830), saboiano nascido nesta cidade e que fez carreira na Índia prestando serviço aos marajás, levando-lhes as técnicas militares da Europa moderna.

Voltas em Chambery

Chambery tem os ares de uma cidade de médio porte. São apenas 60 mil habitantes, mas talvez seja o quilate histórico que lhe dê uma estatura um pouco maior.

Eu cheguei aqui de trem, num sábado pela manhã, aquele ar — como tanto percebo em muito da Europa — de que a gente toda ainda rolava na cama. Habituado aos trópicos, onde o dia geralmente já começa movimentado desde as 7h ou antes, eu até hoje não me habituei por completo a estas lentas manhãs europeias, onde parece que as pessoas só saem às ruas e grande parte das coisas só abrem depois das 10h ou 11h.

Sobrava atenção para eu contemplar as folhas das árvores querendo cair neste outono e o casario cor de pêssego característico da Itália.

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Alameda em Chambery num sábado de manhã no outono.
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A Fonte dos Elefantes de 1838, com as ruas de Chambery ainda rarefeitas.
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O casario cor de pêssego nas vazias ruas de Chambery nesta manhã.

Ainda que não seja eminentemente turística, Chambery tem um centrinho histórico bonito, com casas do tempo em que era mais italiana que francesa. Não faltam calçadões com muitas daquelas casas em tons pasteis e janelas venezianas de madeira.

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Os preparativos de natal já haviam começado.
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Chambery tem uns espaços bem agradáveis em meio ao seu casario típico, de origem italiana.
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Fonte na Rua Saint-Real, o principal calçadão da cidade.
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Em Chambery, França, no outono.

Logo adiante neste mesmo calçadão fica a Catedral de São Francisco de Sales, o qual era saboiano — e tem até cidade no Brasil que leva o seu nome, em Minas Gerais.

São Francisco de Sales (1567-1622) foi um bispo de Genebra, quando esta fazia parte deste Ducado de Saboia. Ele integrou a ordem dos jesuítas e participou de todo aquele movimento da Contrarreforma de reestruturação da Igreja Católica nos séculos XVI e XVII.

A saber, os Sales eram uma família nobre deste ducado, então avisem aos amigos que porventura tenham esse sobrenome para requererem já a cidadania saboiana.

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A Catedral de São Francisco de Sales em Chambery, Saboia, atualmente França.
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O interior desta catedral, construída entre os séculos XV e XIV, é todo no estilo chamado gótico flamboyant — a sua última variante, já bastante enfeitada nos albores do Renascimento.
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O altar principal com os detalhes desse estilo.

Todavia, não era aqui que ficava o Santo Sudário. Este era guardado na capela do Castelo dos Duques de Saboia, uma edificação medieval nos arredores deste centro — a um pulo da catedral. Abre todas as tardes (exceto segunda) para visitação, mas neste dia em que visitei ele estava fechado por razões excepcionais. Vejam-no por fora, de qualquer maneira.

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O Castelo dos Duques de Saboia em Chambery, erigido no século XIII.

Aqueles dois cidadãos que você na estátua de bronze esverdeada pelo tempo ali na frente do castelo são Joseph e Xavier de Maistre, dois notórios irmãos saboianos que viveram na segunda metade do século XVIII. Pasme, eles foram contra-iluministas e críticos da Revolução Francesa. Defendiam a monarquia e a hierarquia nos moldes do Antigo Regime, e foram influentes para o pensamento Conservador dos séculos seguintes na Europa.

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Os meandros de entrada pelo castelo. A visita ao interior ficou para uma futura visita a Chambery, já que ele estava fechado neste dia.

Outro ponto de interesse que estava fechado — este por longos oito anos para reforma — e acaba de reabrir é o o Museu Saboiano (Musée Savoisien), contendo objetos e detalhes desta História de Saboia que vos contei um pouco aqui. Parecia haver um complô — quiçá dos irmãos Maistre — para eu ter de voltar a Chambery.

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Rua do século XIV no centro da cidade.
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O simpático calçadão.

Como estávamos a fim de comida asiática hoje, achamos um restaurante tailandês agradável — e quieto — onde almoçar. 

Daí, foi dar mais umas voltinhas por esse centro de cores singelas e se preparar para tomar o trem de volta a Annecy, onde estávamos ficando. Essa, sim, provavelmente é a cidade mais bonita desta região — e uma das mais belas de toda a França. Uma joia escondida aqui em Saboia.

Apresentados vocês a este histórico da região e à sua antiga capital Chambery, Annecy nos espera.

Mairon Giovani
Cidadão do mundo e viajante independente. Gosta de cultura, risadas, e comida bem feita. Não acha que viajar sozinho seja tão assustador quanto costumam imaginar, e se joga com frequência em novos ambientes. Crê que um país deixa de ser um mero lugar no mapa a partir do momento em que você o conhece e vive experiências com as pessoas de lá.

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