Cada qual tem a sua imagem preferida da França. Muitos amam Paris, e todos se encantam por aqueles campos de lavanda provençais, mas qual é realmente a cidade mais pitoresca de todas neste país? Annecy, eu descobri para deleite próprio, é uma séria candidata.
Na tradicional região de Saboia na fronteira da França com a Suíça e a Itália, Annecy tem um jeito quase alpino. Ela ganha lindas folhas coloridas no outono, flores exuberantes na primavera, e é dona de uma elegância como poucas. Apelidada de Veneza dos Alpes pelos seus canais, ela provavelmente é a cidade francesa que mais lembra a Sereníssima.
Eu escolhi passar meu aniversário nesta cidade em outubro. Eu que festejava primaveras no hemisfério sul, estava agora a completar outonos cá no hemisfério norte. Que época afortunada para se visitar Annecy!
Bem-vindos. Vamos primeiro conhecer melhor a cidade, e eu já lhes mostro as belezas de outono que vi.


Apresentando Annecy
Quem já viajou bastante sabe que chega um momento em que você já viu tanta coisa, que acha que já não se impressionará mais tanto assim com nada, que o mais impactante já ficou para trás na sua carreira de viagem — um tanto como disse Saramago acerca da carreira de escritor. Para minha sorte, porém, eu às vezes me encontro com joias escondidas como Annecy, um lugar que mereceria muito maior reputação e fama do que tem internacionalmente.
Annecy fica na região francesa de Saboia, que eu comecei a lhes apresentar no post anterior em Chambery. Aqui viviam os Duques de Saboia, uma das mais prósperas e poderosas famílias da Europa. Foram uma dinastia medieval que controlou todas estas terras desde o medievo, e mais tarde tornaram-se nada menos que a família real da Itália unificada (1860). A França, entretanto, segurou este pedaço para si.
Os duques de Saboia tinham posse do Santo Sudário desde o século XV. Guardaram-no aqui vizinho em Chambery, e depois transferiram-no para sua nova capital Turim, que era também parte dos seus domínios e mais distante dos franceses que os acossavam. Os detalhes sobre Saboia e o sudário vocês podem ler lá.
Annecy, enquanto isso, ficou aqui plena na sua beleza. Manteve-se, de certa forma, como “a” cidade de fronteira entre estes domínios católicos, ligados ao papa, e a vizinha Suíça, que experimentava uma conversão ao protestantismo calvinista. Genebra, vocês talvez não se deem conta, fica a meros 39Km daqui.



Annecy, um passeio
Era uma gloriosa tarde de sol de outono quando eu cheguei a Annecy. Jovens farfalhavam à saída dessa estação de vidro em meio a alguns transeuntes.
Ainda que houvesse calçadas, ruas de asfalto bem modernas, e “vida de cidade” diante de nós, era como se as montanhas ali próximas nos acolhessem na sua tranquilidade imperturbável. Annecy tem um pano de fundo de paz.
Eu havia temido apenas que, por ser outono, viesse a encontrá-la nublada e chuvosa. Esse é sempre um cara ou coroa para quem viaja nestes meses de outubro e novembro na Europa. Por sorte, a chuva não deu as caras, e eu acabei coroado com um tempo excelente. O sol raiava sobre os prédios em tons pasteis ou cor de pêssego, combinando com a coloração das folhas.
Caminhei devagar até chegar ao hotel no centro registrando aquele lugar cenográfico ao redor. O hotel ficava à beira de um córrego raso que parecia quase um espelho d’água, não fosse ele móvel rente às pedras do chão, fazendo aquele ruído agradável de água corrente. Aquele tranquilo som de fundo me confirmava que Annecy não é uma cidade para visitar, é uma cidade para estar.
Há, de qualquer maneira, alguns lugares especiais de interesse a se conferir aqui.




Uma vez neste centro, é preciso embrenhar-se pelas ruas e canais que entrecortam Annecy.
Ela é considerada uma das cidades mais floridas de toda a França — e pelo visto as flores aqui perseveram mesmo por boa parte do ano, não apenas durante os meses de primavera. Pareceu-me que, exceção feita aos meses de inverno (quando Annecy pode adquirir aspecto alpino nevado, se você tiver sorte com a neve), você a encontra neste estilo “natureza viva” desde março até final de outubro.
Cada ponte parece mais charmosinha que a anterior. O casario conservado é de uma elegância simples e autêntica, intocado pelas guerras que conflagraram e destruíram tanto do patrimônio europeu tradicional no século XX.
Você tampouco demora a encontrar o chamado Palácio da Ilha (Le Palais de I’Île), a fortificação medieval em pleno rio que é seguramente o lugar mais fotografado da cidade, e que vocês viram na foto de capa.




Este, entretanto, ainda nem é o miolo medieval de Annecy.
Essas edificações coloridas, com janelas venezianas de madeira, são algo do Renascimento, da Idade Moderna, e do século XIX. As ruas medievais hoje seguem esse estilo, mas são um pouco mais apertadinhas, no centro do centro da cidade. Lá, Annecy ganha certo ar de cidade dantes fortificada de montanha, como aquelas da Úmbria, no interior da Itália.


Na Alta Idade Média, a saber, Annecy era controlada pelos duques de Genebra, desde pelo menos o século X. A partir de 1401, com a expansão da Casa de Saboia, é que a cidade vem a ser anexada aos domínios destes.




Eu circulei e não demorei a identificar onde teria meu lava-égua jantar de aniversário. Aqui se come bem, se você apreciar esta dieta europeia de montanha rica em produtos animais. Eu não como esses embutidos de carne, mas não dispenso os magníficos fondues de queijo daqui.
Os fondues de queijo são uma invenção suíça, mas a Suíça fica aqui tão perto que é mais fácil identificar a gastronomia saboiana com ela do que com o restante da França. Nem lhe ocorra procurar ratatouille por aqui.
A saber, os fondues saboianos são ligeiramente distintos dos suíços. Ao olhar pode parecer a mesma coisa, mas ao paladar, não. Se na Suíça o fondue clássico é o metade-metade (moitié-moitié), com os queijos suíços gruyère e vacherin, o fondue saboiano (la fondue savoyarde) inclui três queijos derretidos juntos: o beaufort, o gruyère saboiano e o emmental saboiano. O resultado é pecaminoso.

Caso alguém queira a recomendação de lugar, eu fui no Le Freti, que está bem cotado sem exigir de você um rim (só mesmo o fígado para processar tanta gordura, então poupe-o bem antes de vir para cá).

Annecy é mais notável pelo seu ambiente externo que por qualquer ambiente interno, e o encanto mora na cidade como um todo. Esta não é uma daquelas cidades onde fazer liga-pontos, organizando o roteiro num itinerário do ponto A ao ponto B, e dali ao C, como em Roma ou em Paris. Não. Annecy quase não tem desses marcos — há uma massa de beleza onde impera este ambiente de montanha, e onde se passear devagar, bebendo daquela atmosfera.
Todavia, eu não posso deixar de fazer menção ao medieval Castelo de Annecy (Château d’Annecy). Ele foi erigido originalmente no século XII, ainda no tempo dos condes de Genebra. Com o tempo, foi sendo ampliado até chegar à sua forma atual, do século XVI. É relativamente modesto se o compararmos aos grandes castelos da Europa, mas não deixa de ser um marco na cidade.
O Château d’Annecy hoje é um museu, praticamente vazio por dentro, mas por fora ele ajuda a embelezar a paisagem urbana. No outono, então, suas paredes estavam coberta de trepadeiras em cor. Era um aperitivo da beleza que me aguardava nos Jardins da Europa, a um pulo do centro da cidade.



Os Jardins da Europa no outono
Os Jardins da Europa são uma área de Annecy que, historicamente, ficava fora dos muros da cidade. Hoje, estão devidamente integrados, e você chega lá numa brevíssima caminhada de 10 minutos.
Eles são um pequeno parque urbano, no estilo de jardim inglês, que quer dizer que fica com ares de bosque em vez dos desenhos geométricos — frutos do racionalismo e daquela tara pela mão do homem — característicos dos jardins da corte francesa em Versalhes, por exemplo. Aqui, venceu o romantismo com seu apelo ao natural e ao bucólico.
Estes jardins devem ser lindos em qualquer época do ano, mas no outono, estavam especialmente gloriosos. Você tem ali diante de si o Lago de Annecy e, mais adiante, as montanhas dos Alpes. No caminho, a chamada Ilhota dos Cisnes — que, embora não tivesse cisnes em vista, tinha lindas plantas já avermelhadas pela estação.
Por detrás, bosque encantado e uma alameda coberta de folhas. Ao lado, a dita Ponte dos Amores.






Dá vontade de passar a tarde ali sentado diante do Lago de Annecy, com um livro ou simplesmente admirando a paisagem.
Afora esta frente com muitos bancos, parque adentro você tem um bosque mais quieto e o chamado Canal du Vassé — com suas árvores hoje amarronzadas — e a Ponte dos Amores. Oficialmente, esta tem o ácrido nome Passarela do Jardim Público, a referência aos amores é coisa popular. As boas línguas dizem que é pela magia do lugar, e que um beijo dado ali sela um amor eterno. Já as más línguas dizem que a passarela simplesmente era o ponto de encontro típico das prostitutas e garotas de programa nos velhos tempos.


O outono fazia sua folia à là volonté em Annecy, desimpedido.
Ao anoitecer, a cidade ganhava outros tons, em que os lampiões já acesos se misturavam ao reflexo do resto de sol na água dos canais e, sob esse sol crepuscular, as folhas vermelhas pareciam ainda mais rubras.




Annecy não gosta de deixar ninguém ir embora, eu preciso dizer.
Quando anoitece, as cores se diminuem, mas a cidade é bem iluminada e permanece animada. Como nem tudo são flores, ainda mesmo perto do meu hotel, num lado mais quieto, os moradores de rua começavam a se acumular. Se eu deixasse a minha janela do segundo andar aberta, ouvia todo o seu conversê.
Eu já digo que vale a pena passar mais de uma noite aqui (umas duas no mínimo, embora três talvez satisfaçam melhor o apetite). Portanto, noutra destas outras noites que não a do fondue, o meu point se tornou a Pizza Bufa, também recomendadíssima. Come-se bem em Annecy.


Enchanté, Saboia. Encantado, Annecy.
Eu daqui tomaria um FlixBus curto, de menos de 1h, até o aeroporto de Genebra, para de lá rumar a outras bandas.
Estejam apresentados a uma das mais pitorescas cidades da França.








Ameiiii!!! Que lindo! Obrigada por me apresentar essa cidadezinha pitoresca que já quero conhecer ! Encantada por tudo! 😍👏🏻👏🏻